A Garota do Cabelo Lavanda
6 Capítulo 6
Notas iniciais
CÉU SEM ESTRELAS
Takaishi Takeru estendeu um grande mapa astronômico no chão entre eles, durante o horário de almoço. Apontou para um grupo de estrelas aqui e ali, apenas para concluir que segundo o que tinha visto na internet, Júpiter seria visível no céu na noite seguinte e seria ótimo se eles pudessem se reunir para ver o evento.
Motomiya Daisuke não tinha o menor interesse em astronomia e tudo o que via no papel, era um fundo preto completado por um aglomerado de pontos brancos. Não fazia a menor ideia do que o loiro falava, nem qual daqueles pontinhos seria Júpiter. Seu discurso de que aquilo seria uma tremenda chatice só mudou quando o caçula dos Ishida disse que Hikari provavelmente ficaria maravilhada em ver o planeta. E com isso havia outra coisa que Daisuke não entendia.
“Por que a Miyako está almoçando com a gente?” E fez uma careta de desgosto.
“Eu simplesmente não posso ter vontade de comer com meus amigos?” Retrucou enquanto mordia um onigiri[1].
Além do trio habitual, Inoue Miyako e sua colega de classe dividiam a sombra da árvore com os garotos. Para a colega de Miyako aquilo não poderia ser mais estranho. Enquanto as garotas da sua idade disputavam a atenção dos terceiranistas, elas almoçavam com os pirralhos do primeiro ano.
Era ainda mais estranho porque a amiga devorava um obento[2] oferecido pelo garoto dos cabelos escuros. Passara a vida inteira vendo em mangás e doramas que eram as garotas que preparavam as refeições dos namorados. Mas fora o adolescente que chegou sem jeito e ofereceu o obento para Miyako.
Ken sentia-se ligeiramente constrangido com aquela situação. Ele havia prometido a jovem de óculos um obento depois de toda a confusão com o celular e advertência, mas não tivera coragem de pedir a mãe um segundo obento. No final apenas ofereceu o seu para a jovem e pretendia passar o intervalo sem lanchar, mas Miyako percebeu sua ação e acabou o obrigando a dividir a refeição com ela.
“Parece que vocês estão namorando...” Provocou Daisuke, unicamente para ver Inoue ficar furiosa e Ken corar como uma pimenta.
“Amigos também podem preparar obentos uns para os outros.” Retorquiu a menina, ocupada demais com a refeição.
“Ah é? Então por que você nunca fez um obento para mim?” Questionou o ruivo.
“Daisuke me poupe, como se eu fosse fazer algo para você. Deveria se sentir agradecido por eu trazer uns lanches da loja dos meus pais de vez em quando.” Concluiu enquanto rasgava um pedaço de nori[3] com os dentes.
Ken achou que aquilo viraria mais uma infinita discussão, mas ficou surpreso quando Motomiya deu um muxoxo e voltou sua atenção ao que Takeru dizia. Embora ele tivesse dado uma pequena trégua para absorver algum conhecimento para se gabar para Hikari no dia seguinte, Ken sabia que o amigo não esqueceria aquela história do obento tão cedo.
“Eu acho que será divertido.” Miyako constatou, qualquer coisa que reunisse seus amigos era sempre divertido.
“Então, vou avisar a Hikari-chan e combinar tudo para amanhã.” Completou o loiro satisfeito.
=8=
Estava uma noite agradável apesar do vento gelado que soprava do leste e fustigava os adolescentes na cobertura do prédio onde Miyako, Takeru e Iori moravam. De acordo com os cálculos do loiro, aquele não seria o melhor local para apreciar o espetáculo, mas seria o único onde poderiam ir sem a companhia de um adulto.
Takeru encarava o céu coberto de nuvens com um olhar desanimado, as mãos nervosamente amassando o mapa astronômico enquanto desejava que o vento levasse-as embora. Patamon estava aninhado sobre seus cabelos tentando animá-lo, afinal para o monstrinho alado era só um punhado de pontinhos brilhantes no céu.
Ken estava ao lado do adolescente, embora não fosse fã de astronomia e soubesse que a reunião era só uma desculpa para que eles pudessem se unir em companhia dos Digimon, gostaria de poder ver Júpiter. Seus olhos desviaram do céu encoberto para o semblante triste do amigo e depois para o restante do grupo, que parecia bastante animado experimentando os doces que Miyako trouxera da loja da família. Até Wormmon que sempre vivia tão colado consigo estava ao lado de V-mon e Hawkmon se esbaldando nas guloseimas. Daisuke tinha desistido de conseguir atenção da Yagami e gastava seu tempo comendo doces e interagindo com Iori e Armadillomon. Hikari parecia ter se enturmado bem com Aya, menina com quem Miyako passava os intervalos e que acabou vindo junto com a amiga.
Na visão de Aya, Hikari era muito mais madura do que sua colega de sala, conseguia estabelecer conversas educadas e até mesmo esnobar o garoto ruivo sem ser grosseira e discutir como uma criancinha. Miyako estava sentada ao lado delas, mas não participava da conversa, estava entretida mexendo no tablet. Ken estranhou não vê-la tagarelando como sempre. O semblante estava sério, concentrado, mas um sorriso bobo se desenhava nos lábios. O adolescente tentava imaginar o que ela estava fazendo, será que conversava com alguém através de alguma rede social? Pela expressão só poderia ser com Izumi. Sentiu um incômodo no estômago e desviou a atenção novamente para o céu. Não precisava estragar o momento ao lado dos amigos pensando se existia algo entre a moça dos cabelos violáceos e o veterano geek.
“Acho que realmente não vamos ver nada hoje.” Murmurou Takeru desanimado. Enfiou as mãos nos bolsos e se reuniu com o resto do grupo sentando ao lado de Daisuke. O moreno acompanhou com o olhar o loiro se afastar, Patamon saltar de sua cabeça e escolher um doce entre tantos ali. Deu um suspiro triste, Ken e Takeru não eram amigos íntimos, mas ele gostaria de fazer algo para levantar o ânimo do outro. Mas nada do que dissesse seria bom o bastante, e não tinha nenhum poder especial para poder afastar as pesadas nuvens.
Voltou a encarar o céu, desejando que a força do vento levasse as nuvens para longe, mas o máximo que acontecia era o vento agitar seus cabelos de forma desgovernada. Deixou sua mente vagar pela escuridão do céu, mas percebeu que seus olhos acabavam desviando para o mesmo ponto. Miyako ainda estava concentrada no tablet, agora com uma expressão totalmente indecifrável, a língua ligeiramente para fora. Vez ou outra desviava os olhos para o céu, em seguida para Takeru e por último para os Digimon, então sorria discretamente e voltava àquela expressão enigmática.
De onde estava Ken só podia imaginar o que Miyako estava fazendo. Uma parte sua queria parar ao lado dela, e espiar o conteúdo do tablet como quem não quer nada, mas outro lado seu morria de medo de pegar alguma conversa entre a menina e o veterano. Não importava se fosse um papo romântico, cheio de coraçõezinhos, algo indecente que ele coraria só de imaginar ou algo normal, como conversarem sobre um novo sistema computacional, isso o desagradaria do mesmo jeito.
O adolescente só percebeu que a encarava com tanto afinco quando ela se virou para ele e sorriu. Ele sentiu o rosto se aquecer e desviou o olhar para o céu. Rezava para que ninguém tivesse percebido ou seria motivo de chacotas de Daisuke por um longo tempo, que só não era pior do que o longo interrogatório que Wormmon faria, cheio de desconfiança e ciúme. Sim, o pequeno inseto dava uma nova proporção a palavra ciúme.
Ainda encarava o céu, quando a jovem se colocou ao seu lado, ainda com o tablet nas mãos.
“Aparentemente não é só o Takeru que queria ver o céu.” Falou melodiosamente, espiando-o através dos óculos. Ken a encarou sem entender. Ela então desviou o olhar para o céu, e ele a seguiu. “Você passou a noite toda fitando as nuvens esperando que elas se desmaterializassem com o olhar.”
O menino sentiu o rosto corar e fechou a cara instintivamente. Ele realmente queria poder ver Júpiter, mas parte de sua distração estava em manter sua mente afastada da menina dos cabelos lavanda e do que tanto mexia no tablet.
“Na verdade eu...” Mas a menina não o deixou terminar, enfiou o tablet no rosto do menino, quase colado ao nariz. Ele precisou afastar o dispositivo com as mãos para enxergar o que se passava na tela. Em um fundo totalmente negro, com alguns pontinhos brancos salpicados, uma grande estrela esverdeada se destacava. Era Jupiter. Não dava para ver o planeta propriamente dito, mas não deixava de ser algo bonito de se admirar.
“Eu estava pesquisando algum site legal que estivesse transmitindo o evento para que pudéssemos ver.” Sorriu. “O da NASA seria o melhor, mas o vídeo é muito pesado e o sinal wi-fi não está legal. Então achei esse outro site. Bonito, não?”
Então era isso o que ela fazia com tanto empenho. Ken não pode deixar de sorrir e sentir-se aliviado. Miyako era o tipo que sempre se preocupava com os amigos e tentava fazer seu melhor. Era óbvio que ela estava tão preocupada com a infelicidade do loiro quanto ele, mas ao invés de se prender a desejos inúteis, Miyako era prática e arranjou uma solução. Não era tão fantástico quanto ver ao vivo, mas ainda assim eles poderiam ver o espetáculo celeste.
“Acha que Takeru vai gostar?” Perguntou receosa.
“Claro que sim.” Respondeu sem perceber que dera seu sorriso mais brilhante.
Miyako corou levemente e sorriu de volta. Com um aceno de cabeça abandonou Ichijouji e foi até Takeru. Cutucou o garoto no ombro e mostrou as imagens no tablet. Imediatamente o rosto carrancudo se abriu em um largo sorriso e os olhos brilharam animadamente. Logo, todos, humanos e Digimon, se apertavam diante da pequena tela para ver o que as nuvens encobriam.
Ken não pôde deixar de notar como Miyako ficava incrivelmente bonita quando ajudava alguém. Seu sorriso se abria de forma espontânea, as bochechas ficavam cheias e os olhos ganhavam um brilho único. Percebeu que a estava encarando muito e desviou os olhos para o sapato. Ele não conseguia tirá-la de seus pensamentos, e ao notar como o coração batia acelerado, se deu conta que não era apenas sua mente que ela dominava. Isso o incomodava ao mesmo tempo em que o deixava totalmente relaxado. Ele não tinha certeza do que sentia pela garota, mas sabia que isso o estava consumindo.
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