A Garota do Cabelo Lavanda
5 Capítulo 5
Notas iniciais
O QUE SUAS MENSAGENS DIZEM
Ichijouji Ken estava terrivelmente entediado. A aula de matemática transcorria naquele ritmo chato e mole, que não consegue prender a atenção dos alunos. Era a última aula antes do almoço e o adolescente podia ver colegas cochilando sobre os livros, cochichando sobre algum programa de TV do dia anterior, lendo uma revista. Absolutamente fazendo tudo, menos prestando atenção à aula.
Era proibido manter celulares ligados durante as aulas, mas Ken sempre o mantinha no silencioso, enfiado dentro do estojo. Espiou o aparelho, consultando as horas. Seu dispositivo marcava exatamente o mesmo horário que o grande relógio de ponteiro que ficava sobre a lousa, mas por algum motivo, ele sempre sentia que os minutos passavam mais rápidos no seu aparelho do que no relógio da escola.
O professor de matemática, embora dominasse o assunto, não tinha didática alguma para passar o conhecimento. Ele passava o tempo todo falando no mesmo tom de voz mole e desinteressado, de costas para a sala, rabiscando contas e gráficos no quadro negro. Ken tentava acompanhar, mas o assunto era realmente maçante, com certeza ele aprenderia mais se apenas lesse o livro. Estava se deixando dominar pelo sono e quase aderindo a um cochilo quando o visor do seu celular se iluminou.
Um envelope de carta rodopiou na tela e parou esperando ser aberto. O garoto dos cabelos negros não pretendia ler a mensagem recebida, mas estava tão entediado que achou que não faria mal perder alguns segundos com a tal mensagem. Espiou dos lados para ver se ninguém estava prestando atenção nele e tocou na tela, dentro do estojo. O envelope deu outro rodopio e se abriu.
“Estou morrendo de tédio. Miyako.”
O garoto sorriu ao ver a mensagem da amiga. Geralmente, Miyako lhe mandava dezenas de mensagens na semana, seja para reclamar das aulas ou para promover algum encontro entre digiescolhidos e seus parceiros digitais, seja porque ela gostava muito de mandar mensagens. Ken já não se lembrava mais de quantas mensagens da menina entupiam sua caixa de entrada, mas com certeza, eram muitas. Desde que se tornaram aliados, a garota constantemente lhe mandava mensagens, e para sua surpresa, se deu conta de nunca apagara nenhuma delas, embora não respondesse nem a metade.
Ia voltar sua atenção à aula, quando o visor do celular se iluminou novamente, anunciando uma nova mensagem. “Quem se importa com literatura?” Acompanhada de uma carinha chateada e assinada. Sorriu novamente e pensou em ignorar a mensagem, mas a carinha chateada estava lá o encarando e pedindo por atenção.
Ken raramente respondia as mensagens que Inoue lhe mandava, principalmente no período das aulas. Mas ele também estava entediado e achou que não faria nenhum mal responder à amiga. Encarou os colegas para se certificar que ninguém estava prestando atenção no que fazia, enfiou a mão dentro do estojo e começou a digitar. Em poucos segundo mandou um “Em breve sairemos para o almoço” como resposta e esperou que aquilo desse um pouco de animo a moça de óculos.
“Almoço o/” Veio a resposta alguns segundos depois, acompanhada de mais uma mensagens. “Mas eu só trouxe alguns biscoitos. E não tenho dinheiro para comprar nada de gostoso na cantina :(” A segunda mensagem veio com vários caracteres errados e Ken demorou um pouco para entendê-la. Provavelmente ela tinha escrito rápido para não ser pega pelo professor.
Miyako estava sempre com fome. Era o tipo de garota que comia horrores e nunca engordava. Quantas vezes Ken não assistira ela se digladiar com Daisuke por causa do último rolinho primavera. Além disso, ele entendia a tristeza da garota, enquanto quase todos traziam obentos preparados pelas mães para o almoço, geralmente Miyako trazia algum doce ou refeição industrializada roubada da conveniência dos pais. Sua mãe sempre estava muito ocupada ajudando o pai na loja e a própria garota não possuía habilidades tão admiráveis na cozinha.
“Quer trocar?” Enviou. Era comum que os adolescentes trocassem suas refeições entre si, então ele acreditou que não haveria problema sugerir isso e proporcionar a amiga uma refeição mais saudável.
“Mas você ficará com fome” a resposta veio alguns segundos depois. Ken não estava realmente surpreso com aquela reação, mesmo que ela realmente desejasse seu lanche, seria educada de mais para pedir. “Está tudo bem. Vamos trocar :)” Mandou de volta, tentando convence-la.
A resposta demorou e quando veio não era bem o adolescente esperava. “Quem é você e o que fez com o Ken-kun? Respondendo minhas mensagens e até mandando smile.” Apesar disso, ele não pode deixar de sorrir. Era verdade que raramente respondia as mensagens da menina e muito menos que utilizava desses artifícios para deixar os textos engraçadinhos. Mas as coisas andavam diferentes em sua mente e principalmente em seu coração, e não lhe custava nada tentar ser mais sociável com a menina que gostava.
“Te espero no intervalo.” Mandou, tentando desviar o assunto da mensagem anterior, afinal não saberia como explicar o motivo da sua recente mudança. Mas uma confirmação de Miyako nunca veio. Ken passou o resto da aula olhando ansiosamente para o celular, mas a tela não avisou nenhuma nova mensagem. Será que ela tinha ficado chateada por ele desviar do assunto? O jeito seria esperar até o horário do almoço e conversar com ela apropriadamente.
O sinal tocou, ele guardou suas coisas, pegou seu obento e partiu para o almoço embaixo da árvore no pátio como fazia todos os dias. Procurou a menina com os olhos em meio aos outros alunos que circulavam por ali, mas não a encontrou, até avistou a amiga com quem Inoue almoçava frequentemente, mas esta estava com outras garotas e não se sentiu seguro o suficiente para ir até lá e perguntar onde estava a moça dos cabelos de lavanda.
Quando o intervalo já se aproximava do final, ouviu o estômago reclamar e acabou comendo seu almoço, enquanto mentalmente pedia desculpas à amiga. Teve que comer rápido e suportar os olhares incompreensíveis que Daisuke e Takeru trocavam.
O sinal tocou, eles voltaram para a sala e assistiram as aulas da tarde que pareciam transcorrer ainda mais devagar agora que os alunos eram abatidos por aquele sono pós-almoço. Finalmente, o sinal que marcava o final das aulas tocou, Ichijouji arrumou suas coisas e foi até a sala onde Daisuke, Takeru e Hikari estudavam. Chegou lá apenas para ver Daisuke com a maior carranca enquanto arrumava seus pertences, pois os digiescolhidos da esperança e luz seriam parceiros na organização da sala, o que o deixava morto de ciúmes.
“Ichijouji-kun?” Inoue estava parada ao lado dele, diante da porta do 1-A. A mochila pendurada nas costas e um papel enrolado em forma de canudo nas mãos.
“Miyako-san! Aconteceu alguma coisa? Você não respondeu mais as mensagens ou apareceu durante o almoço...” Questionou o adolescente, receoso da resposta.
“Na verdade aconteceu.” Então estendeu a ele o papel que carregava nas mãos, desenrolando o canudo. Era uma advertência por ter sido pega pelo professor usando o celular durante a aula. “Acabei indo para na diretoria e fique presa lá o intervalo todo, mas pelo menos foi só uma advertência.” Então era por isso que a garota não respondera a mensagem nem aparecera no almoço. Era certa maldade de seu coração por não se preocupar com a advertência, mas não pôde negar que estava aliviado pelo motivo não ser ela estar chateada com ele de alguma forma. “E quanto ao meu almoço?”
“Almoço?” Perguntou sem entender.
“O que iriamos trocar.” Informou enquanto tirava o pacote de biscoitos de dentro da mochila e entregava ao adolescente.
Ichijouji não sabia exatamente como reagir, então ela ficara sem comer nada até agora? Mas no final ele tinha comido o conteúdo do seu obento, e mesmo que não tivesse feito, provavelmente àquela hora a comida já não estaria tão gostosa.
“Eh... Bem... É que...” O garoto começou a gaguejar, sem saber exatamente o que responder.
“Tudo bem.” Ela sorriu. “Você pode me preparar um obento especial para amanhã.” E deu uma piscadela marota.
“Mas não são as namoradas que preparam as refeições dos garotos?” Motomiya interrompeu, aparecendo na porta. Ken sentiu o rosto corar e quando finalmente abriu a boca para responder, Inoue o interrompeu.
“Que eu sabia a conversa não é com você.”
“Se bem que se o Ken comesse sua comida, capaz de ser internado por intoxicação alimentar.” Provocou o ruivo.
“Como é?” A voz da menina saiu alta e indignada. E não demorou muito até que os dois se envolvessem em mais uma das discussões sem sentido que se estendia por horas e atraia a atenção dos outros alunos.
Enquanto assistia a discussão entre os dois, Ken pensava em como pediria a sua mãe que preparasse uma marmita extra para o dia seguinte. Mas, com certeza, ele traria uma refeição deliciosa para a amiga.
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