Notas iniciais
Olá pessoinhas, como estão? Acho que já faz 15 dias, não tenho certeza. Enfim, não tenho muito a falar, vamos para o capítulo. Tema: piquenique Boa leitura!

DOIS

Aquele deveria ser um dia perfeito, ou algo muito próximo disso. Na bolsa havia as guloseimas mais deliciosas da loja dos pais e tinha até pedido para a mãe ajudá-la na preparação dos obentos. O sol estava alto e brilhante no céu e uma brisa leve e quente balançava as copas das árvores.

Vestiu a roupa que julgou lhe assentar melhor, arrumou o cabelo copiando o look que vira Tachikawa Mimi usar dezenas de vezes, calçou as sandálias e pendurou a bolsa no ombro. Seria o dia perfeito, Hawkmon ficou com suas irmãs, as ruas do centro estavam praticamente vazias e a parte leste do Parque Odaiba, com seu gramado baixo e fresco, seria perfeito para um piquenique de domingo. Ela tinha trazido até mesmo uma icônica toalha xadrez.

As árvores começavam a ganhar seus primeiros botões e o cheiro primaveril invadia o ambiente, em algumas semanas, as Sakuras desabrochariam, forrando todo o caminho com alegres flores rosadas. Ela chegou ao parque cedo, mas não muito, diferente do que dizia na internet, não achava apropriado se atrasar para um evento tão importante.

Se sentia estranha, sem certeza do que realmente sentia. Medo, ansiedade, excitação, receio, um misto de coisas que julgava que muitas garotas na mesma situação sentiriam, embora por circunstâncias diferentes. Uma rajada de vento quente balançou seus cabelos mais do que gostaria, mas ela não se importou. Do outro lado do parque, via um ponto familiar se aproximando. Jaqueta jeans, mãos nos bolsos, o cabelo preso de um jeito diferente. Não pôde deixar de sorrir.

Era para ser um dia perfeito. Era.

=8=

“Você está bem?” A voz de Ichijouji Ken chamou sua atenção. Percebeu que ele fitava seus pés dentro das sandálias de tirinhas finas.

Miyako mexeu os pés delicadamente, tentando tirar o excesso de água e sorriu de volta. Queria ser sincera e dizer que não estava nada bem, mas comparado ao adolescente, ela não tinha do que reclamar.

A dupla estava sentada numa escadaria de um prédio comercial, embaixo de uma cobertura. Por sorte era domingo e não haveria problema se abrigarem ali. Chovia tanto que o barulho da água sobre a cobertura era ensurdecedor e era impossível divisar o outro lado da rua. Mesmo sendo três horas da tarde, os postes de iluminação já tinham se acendido e não havia alma alguma se aventurando na rua, fora alguns poucos carros que passavam.

A garota não saberia dizer como o tempo havia mudado bruscamente, de um belo dia ensolarado para uma chuva torrencial. Era como se alguém estivesse lavando o céu com baldes, pela força e quantidade de água que desabava.

Seus pés estavam molhados, o cabelo arruinado e os óculos embaçados. Só não estava mais encharcada porque estava enrolada na jaqueta de Ken e isso a mantivera protegida. Mas não podia dizer o mesmo do garoto. Ele estava tão molhado, que o cabelo pingava como se tivesse acabado de sair do banho. A roupa estava colada no corpo e os lábios azulados, provavelmente por causa do vento gelado.

Eles nem tiveram tempo de fazer o tal piquenique, estavam decidindo qual melhor lugar seria quando o tempo virou e a chuva desaguou sem aviso algum. Ken tirou a jaqueta e ofereceu a menina, depois puxou-a pela mão até encontrar um abrigo. Miyako queria voltar para casa, que não era tão longe, mas com a intensidade da chuva seria impossível.

“Quem iria imaginar que o tempo ficaria horrível?” Ela falou tentando desviar da pergunta feita.

“Pois é.” Ele respondeu depois de um longo silêncio. E o silêncio retornou, assim que sua frase foi engolida pela chuva.

Aquele era o primeiro encontro deles, oficialmente. Antes, ele vivia na loja de conveniência e ela aparecia em seu apartamento, às vezes, mas nunca tinham marcado um encontro de verdade. De irem para algum lugar e vestirem roupas especiais.

Eles pareciam ter se acertado, dentro de um silêncio estranho que ora era confortador e ora incômodo. Depois daquele dia diante do armário de sapatos, não tinham se falado muito, Ken estava ocupado com as provas de recuperação enquanto Miyako estava praticamente de férias, atulhada de coisas para fazer na loja dos pais.

Se falavam pelo telefone, às vezes, mas o papo parecia não caminhar muito mais do que o básico “como foi seu dia”, por isso, quando Ken tomou coragem e a convidou para um encontro, ela não teve como (e nem quis) recusar.

E o sonhado e planejado encontro tinha sido levado embora pela força da água.

Entre silêncios acolhedores e incômodos, Inoue sabia que aquele era um silêncio incômodo e também sabia que mesmo que houvesse um sol brilhante no céu, o encontro também seria preenchido de silêncio, que só não seria mais constrangedor porque eles fingiram estar comendo para disfarçar.

Já o garoto gênio não sabia muito bem o que esperar quando sugerira o tal encontro, nem sabia por que o tinha feito, afinal.

Queria dizer que as coisas andavam ótimas depois que se reconciliaram, mas isso seria uma grande mentira. Diferente do que acontecera com Wormmon, Daisuke e até mesmo Takeru, o garoto sabia que sua situação com Inoue não tinha se resolvido por completo.

As devidas desculpas nunca tinham sido realmente pedidas, assim como nada daquela noite havia sido explicado. Sabia que deveria contar sua versão dos fatos, como pacientemente fizera na reunião ao final da quarentena e com o parceiro, mas suspeitava que Miyako já soubesse seu discurso, melhor que ele mesmo.

“Sobre aquele dia...” Ken começou de repente. “Eu sei que deveria te pedir desculpas, mas não acho que isso seja realmente válido agora.” Cruzou os braços sobre os joelhos.

“Por que diz isso?”

“As coisas que eu fiz, principalmente a você, eu sabia o que estava fazendo. Seria hipocrisia dizer que lamento...”

De certa forma, Miyako entendia o ponto, mas não negava que ouvir o gênio se desculpar lhe traria certo conforto. Mesmo que tivesse feito tudo de caso pensado e não tivesse nada a culpar a não ser a si próprio dizer que lamentava mostrava arrependimento, e ele não parecia realmente arrependido do terror que havia instaurado.

“Bem, eu não me importo que você seja hipócrita.” Deu de ombros, com um sorriso estampado no rosto. “Eu sei que você não é bom com essas coisas...” E viu Ken curvar as sobrancelhas. “De se desculpar. Mesmo quando você realmente lamenta, você não consegue externar isso muito bem.”

E era verdade, mesmo depois do Kaiser ou da discussão que tiveram por causa do seu encontro com Izumi, Ichijouji nunca tinha dito que sentia muito. Era visível que se arrependia, mas parecia ser um grande desafio externar aquilo sem parecer pedante.

O garoto sorriu instintivamente ao perceber como Miyako o conhecia tão bem. E mesmo molhado e com o cabelo arruinado, a cena pareceu muito bonita a ela.

“Eu nunca te agradeci.” A menina começou, ao perceber como o adolescente ao seu lado parecia mais relaxado. “Por ter salvado o Kariya.” Ela não sabia realmente o que havia acontecido lá, mas de alguma forma sentia que o namorado tinha sido o responsável.

Viu Ken morder os lábios, então puxar o cabelo e torcer, tirando o excesso de água.

“As coisas simplesmente aconteceram...” Respondeu simplesmente. “Não é como se eu realmente o tivesse salvado.”

“Bem, ele está vivo e vai ficar bom, em breve.” Arriscou, porque realmente não dava para saber o que aconteceria com o garoto no futuro. Ele ainda estava em coma no hospital e não tinha tido melhora alguma, lhe dissera Takeru, que o visitava frequentemente.

“Eu quase o matei. Tomei a decisão que parecia mais correta, mas ela não serviu de nada no final.”

“Você decidiu ou...” A frase que começou com força foi morrendo porque ela não tinha coragem de externar aquilo.

“Nós somos uma única existência, você sabe. Se a decisão foi do Kaiser, como você insinua, também foi minha.” E os olhos assumiram o tom sombrio, desmanchando o sorriso que se instalara ali minutos antes. “E todas as coisas que te fiz lá, foram minhas decisões também.”

Miyako sentiu um arrepio percorrer a espinha e encarou o semblante sério diante de si. No passado, quando o assunto era Kaiser, Ken ficava sério e melancólico, mas agora não havia traços de melancolia, apenas seriedade e certeza.

Naquela noite, muita coisa tinha acontecido e ter Ken cravando um pedaço de Torre Negra no seu peito não tinha sido exatamente uma experiência agradável, mas havia outra coisa que a incomodava também. Sentia-se diferente, como se algo tivesse sido gravado nela e receava que de alguma maneira, acabasse ficando parecida com o adolescente.

Miyako não sabia realmente como as trevas funcionavam, mas sabia que elas se manifestavam de formas muito diferentes de uma pessoa para outra. Ken, melhor do que ninguém sabia como uma Torre Negra agia sobre os Digimon e provavelmente deveria saber como isso agiria sobre ela, e Inoue queria muito perguntar sobre isso, mas ela estava com medo.

Medo do que ele iria responder, mas principalmente de arruinar o pouco de normalidade que tinha galgado. Se só falar de Kariya havia arrancado o sorriso de seu rosto, imagina destrinchar sobre o fato dele ter enfiado um pedaço de Torre Negra em seu peito.

Queria saber mais, saber a verdade, saber se no final, ela ficaria como ele, tendo seu próprio alter-ego maligno. Mas ela saberia esperar até o clima estivesse propício para este tipo de conversa.

“Obrigado.” Ele agradeceu de repente, removendo-a de seus anseios.

“Pelo quê?” Era genuína sua pergunta.

“Por não me tratar como um monstro.”

“Você não é um monstro.” E realmente acreditava naquilo.

“Nós sabemos que eu sou.” Deu de ombros, derrotado, como se não importasse o que fosse dito, aquilo era um fato que não poderia ser alterado.

“Você sabe que não.” Foi incisiva. “Além disso, não sou só eu. Você está bem com os garotos, não?”

“Sinto que Takeru ainda tem um pé atrás comigo. E o Daisuke-kun, às vezes, acho que ele realmente é ingênuo demais para entender a gravidade das coisas.” Disse conformado.

“Ingênuo ou idiota?”

“Foi você quem disse isso.” E sorriu. “Além disso, não vai ser fácil com os outros...”

Apesar de tudo, parecia a menina que Ichijouji não estava realmente incomodado com essa situação. Era como se a maneira como os outros o veriam não importasse realmente. Wormmon o tinha aceitado, assim como Daisuke e ela, isso era mais do que suficiente.

A chuva havia diminuído para uma garota fina e alguns guarda-chuvas já começavam a circular pela rua. Ken se levantou e se esticou como se tivesse ficado muito tempo sentado.

“Acho melhor irmos.”

“Mas ainda está chovendo.” A garota observou.

“Acho que não dá para ficar mais molhado do que já estamos.”

A adolescente se levantou também, incomodada com a água dentro da sandália e o cabelo arruinado.

“Eu sinto muito pelo nosso encontro.” Disse sem jeito. A toalha xadrez e as guloseimas esperavam inertes dentro da bolsa pendurada à tira colo. “Eu prometo que vamos ter um encontro, de verdade, e eu vou acompanhar a previsão do tempo com um mês de antecedência.” Concluiu resoluta, ainda não acreditava que seu primeiro encontro tinha acabado de maneira tão patética.

“Por mim, foi ok. Eu tive um tempo a sós com você e era só disso que eu precisava.” Falou enfiando as mãos nos bolsos.

Inoue esperou que ele fosse gaguejar ao dizer algo tão direto e embaraçoso e ficar corado até as orelhas, mas ele permanecia firme, com um sorriso enviesado estampado na face. Ela, por outro lado, tinha que fazer um esforço enorme para não corar até ficar da cor dos cabelos.

“Ah, melhor irmos, não? Antes que a chuva aperte de novo.” Desconversou desviando o olhar para o dia lá fora. Gostara muito de ouvir tais palavras e queria muito poder dizer algo equivalente, mas não sabia o que dizer nem como reagir realmente e por isso desviou o assunto.

“Miyako.” E esperou até que ela o encarasse novamente. “Se houver algo te incomodando, você vai me dizer, certo?” E o sorriso não estava mais lá. Era um semblante doce e preocupado que Inoue achou que nunca mais veria.

“Não tem nada me incomodando.” Mentiu.

“Mesmo? Senti que você queria me dizer algo...” Percebeu que ele a sondava com os olhos, quase como se tentasse ler seus pensamentos.

“Mesmo. Se houvesse eu diria, você sabe como eu sou.” E deu um sorriso forçado, como se para confirmar suas palavras.

Ken desceu dois degraus e parou ao lado da garota, próximo o suficiente para que pudesse se ver refletida nos olhos escuros.

“Se tiver algo te incomodando, mesmo que seja eu, você vai me contar, promete?” E podia jurar que aqueles olhos sombrios lhe diziam que sabia que ela estava mentindo e que andava escondendo coisas dele.

Miyako queria contar, mas não queria estragar o momento, não quando finalmente as coisas estavam entrando no eixo com o namorado. Não depois de ouvir que tudo o que ele precisava era um momento com ela, mesmo embaixo de chuva.

“Sim, eu prometo.”

Ken envolveu a mão da jovem na sua, entrelaçando os dedos e com um sorriso caloroso a incentivou a terminar de descer os degraus. Em poucos segundos, eles saíram da cobertura e foram lavados pela chuva fina.

Um dia, Miyako teria coragem de perguntar se aquela sensação incomoda que tinha era uma sequela da Torre Negra e se ela seria engolida pelas trevas. Um dia, ela teria coragem de dizer que não gostara nada de ser agredida pelo namorado durante seu surto no Digital World e que gostaria de realmente entender como ele se sentia e lidava com as trevas. Um dia, mas esse dia não era aquele.

Notas finais
N/T: Sou péssima para dar nomes e tenho a leviana impressão de que já usei esse nome. Será? E ai, viram D3? O que acharam? Beijokinhas e até!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.