A Garota do Cabelo Lavanda
34 Capítulo 34
Notas iniciais
QUARENTENA
Os olhos esquadrinharam o teto do quarto. Branco e sem graça. Uma brisa fria entrava pela janela parcialmente aberta e se tivesse coragem, iria até a sacada e pularia. Uma queda livre de sete andares. Era fraco, mas não tão fraco.
O quarto continha suas coisas básicas, roupas, cadernos, livros. Mas o celular tinha sido confiscado junto ao computador. Tudo devidamente guardado na casa de Miyako. Seu Digivice deveria estar jogado dentro da gaveta de meias de Takeru enquanto Minomon tirava férias forçadas ao lado de Chibimon na casa de Daisuke.
Queria poder conversar com o parceiro, ver os amigos, estar com namorada. Ir à escola, pegar o metrô e se divertir com os companheiros nos encontros de sexta-feira. Mas o mais longe que iria seria até a sala de estar, onde poderia, ao lado da mãe, ver programas desinteressantes na televisão. E assim, do quarto para sala e depois para o banho e o quarto novamente se resumiam seus dias. Estava em quarentena.
Não durariam quarenta dias, mas Taichi batizara assim e todos acataram. Pensou em contestar que se não eram quarenta dias, chamar de quarentena seria inapropriado, mas seu filme já estava bastante queimado e isso soaria como desaforo.
Os pais estavam a par da situação. Inoue fizera questão de esclarecer o sumiço temporário do filho. Era verdade que havia deixado de comentar algumas partes, como a parte que Kaiser decidira matar todos eles. Mas sobre a volta do lado negro da criança não teve como desviar. Viu os olhos da senhora Ichijouji se encherem de água, mas não derramar lágrima alguma. Ela seria forte para ajudar o filho em um momento tão delicado.
E para sua surpresa, a mãe estava mesmo sendo forte. Nunca lhe perguntara o que aconteceu, mas o fazia conversar sobre vários assuntos e se distrair.
Ainda se lembrava de Yagami dizendo que esse tempo de isolamento serviria para colocar suas ideias em ordem e acertar seu coração. O problema é que não havia o que acertar. Ele já tinha consciência de quem era e das coisas que fizera, mas não fazia ideia de como externar ao restante do grupo.
Não saberia dizer quando ou se estava totalmente consciente quando decidira abraçar Kaiser. Não eram as perturbadoras trevas, como gostava de se enganar. Era parte dele, o que tornava seu lado branco manchado e cinzento. Mas ninguém era inteiramente bom, e ele também não o seria. Prova disso é que tinha muito menos pesares ao ter que eliminar um Digimon. Não que gostasse, longe disso, mas sentia muito menos remorso que o resto de seus companheiros.
O problema era como dizer que seu lado psicótico e problemático era permanente. E não importava o esforço que fizesse, nunca se livraria dele. Poderia ter talvez algum controle, mas Kaiser sempre estaria sussurrando em seus ouvidos.
E sussurrou quando o mandou matar os amigos e obrigar Wormmon provar seu valor. Sua sandice poderia não prejudicar ninguém fisicamente, mas afastaria os companheiros, o que só provaria uma única coisa: que eles nunca o haviam entendido.
Era um garoto complicado, de camadas e complexos. E sabia que nem mesmo ele se compreendia por completo, mas também sabia o quanto era ruim ver qualquer deslize seu ser atribuído às trevas. E seria assim sempre se não entendessem que ele não era perfeito. E ninguém parecia entender.
“O seu plano é tão simples no fim das contas.” Sorriu enviesado para o teto branco pensando em como Kaiser contornara suas aflições para mostrar-lhe que ninguém o entendia.
“Está me dando muito crédito ultimamente.” Sua contraparte sombria sorriu.
“Se eu estiver sozinho, será mais fácil me manipular. Tomar o controle e ser a voz principal.”
“Acha que eu agiria dessa forma?” A voz saiu afetada, como se estivesse muito indignado com a acusação.
“Certamente que sim. Eu não fiz algo parecido me escorando na bondade de forma tão cega na tentativa de te eliminar?” E tinha realmente feito. Desde que se livrara dos seus esporos, tinha se agarrado ao máximo no significado de seu brasão na tentativa de se convencer que suas escolhas tinham sido uma terrível manipulação e não seu próprio erro. “Nós somos o mesmo, indo em direções contrarias, mas pensamos igual.” Constatou e Kaiser sorriu.
Ken sabia que haveria consequências para suas escolhas naquela noite. Salvara Kariya, mas nunca dissera a ninguém como o fizera. Além disso, de nada adiantara seu esforço depois de tudo o que acontecera ao garoto. Para finalizar, tinha ferido os Digimon dos amigos e tentando matar Takeru e Daisuke, sem falar no pedaço de Torre Negra cravado no peito da namorada.
“O que exatamente pretendia provar com tudo aquilo?”
“Não faça tamanha pergunta estúpida.” Kaiser enrolou com um floreio. “Além disso, não precisamos provar nada. Salvamos a vida do garoto.”
“Deveríamos ter ficado lá e protegido o do Apemon.”
“E estaríamos todos mortos.” E Kaiser tinha razão. Sem Wormmon lá seu Digivice não passava de um peso de papel.
“De qualquer forma, vai ser difícil explicar a eles.” Deu um muxoxo.
“Não perca seu tempo explicando coisas para quem não entende.”
“Não posso simplesmente dizer que fiz todo aquele caos só porque achei divertido.”
“E não foi?” Havia um tom divertido no rosto de Kaiser.
“Talvez, um pouco.” Ken admitiu. E não podia negar que tinha sido lindo ver JewelBeemon dar trabalho para um grupo de Digimon.
=8=
“Há uma garota aqui querendo te ver.” A senhora Ichijouji abriu a porta. O garoto estava cochilando e quase caiu da cama. Esfregou os olhos e encarou a mãe.
“Miyako?”
“Não, é outra garota, disse que é sua amiga.” A mãe inclinou a cabeça. Se não era Miyako só podia ser Hikari, mas o que ela fazia ali, será que queria dar algum recado do irmão? Por isso se surpreendeu quando encontrou Hanamizuki Karin sentada no sofá da sala.
A garota estava com uma roupa comum e o cabelo preso em um rabo de cavalo, havia bem menos maquiagem do que estava acostumada a usar e o ar enjoado também parecia não estar mais presente.
“Ichijouji-san?” Se levantou e cumprimentou com uma pequena mesura. O rosto corou ao ver o menino em uma roupa tão informal, uma calça de moletom velha, camiseta larga e o cabelo todo desalinhado.
“Hanamizuki, o que está fazendo aqui?” Questionou sem entender. Se a presença de Hikari era estranha, o que dizer da de Karin?
“Ah, Inoue-san me disse que você estava faltando às aulas porque estava se recuperando.”
“É mais ou menos isso.” Mas isso ainda não explicava porque sua colega de sala estava plantada na sala do apartamento.
“Eu perguntei a ela se poderia visitá-lo e ela me disse que estava tudo bem.” Ken curvou as sobrancelhas, será que o fragmento de Torre Negra tinha afetado a namorada, nunca que Inoue concordaria em Hanamizuki vir visitá-lo.
“Ah... Por favor, sente-se.” Disse por fim indicando o sofá. Se sentaram de frente um para o outro. O menino a encarava enquanto Karin parecia mais interessada no carpete da sala. O silêncio não era tão incômodo como imaginou que seria, mas ainda assim, sentiu que deveria dizer algo. “E seu irmão, como está?”
Já fazia mais de uma semana e não tivera notícia alguma de Kariya, não tivera notícia de nada, na verdade.
“Bem.” As mãos enrolaram na alça da bolsa que carregava. “Na verdade, os médicos disseram que ele vai se recuperar. Ele tinha muitos ossos quebrados e talvez fique alguma sequela. Problemas na fala, talvez. Mas ele ainda está em coma.”
Ken mordeu os lábios, não sabia disso. Só podia imaginar que a situação do garoto não era nada boa por ter sido esmurrado com um tacape. Mas coma era algo muito sério.
“Mas eu acredito que ele vá se recuperar rápido.” Emendou esperançosa. “Estou indo vê-lo todo dia e lendo seus livros preferidos.” Havia um sorriso abrangente tentando esconder a tristeza que sentia. “Mas eu vim até aqui para te agradecer.” E habilmente tirou um objeto de dentro da bolsa.
O moreno curvou as sobrancelhas sem entender.
“Você que o salvou, certo? Das coisas estranhas que estavam nele?” Como ela poderia saber, não contara a ninguém. “Inoue-san me disse que o seu casaco estava com ele e que você o protegeu.” Estendeu o objeto que agora Ken podia ver ser uma ovelha de pelúcia. “Por favor, aceite como agradecimento.” E o rosto corou violentamente. “Seria o tipo de presente que Kariya gostaria de dar.”
Ichijouji sentiu-se mal pelo agradecimento. Tinha aceitado trocar sua sanidade pela de Kariya, mas no final, não o protegera corretamente. Poderia ter morrido se os companheiros não tivessem aparecido naquela hora. Eles mereciam muito mais crédito. Mas aceitou o presente. Olhando a carinha estática e feliz da ovelha de pelo preto, lembrava mesmo a cabeleira do menino hospitalizado.
“Se eu o tivesse feito, seu irmão não estaria nessa condição.” Rebateu. Soou grosseiro, mesmo que não intentasse e viu a menina corar. Mas ela não se constrangeu como esperava.
“Se você não o tivesse feito, ele estaria morto.” Os olhos estavam sérios. “Você esteve com ele no Digital World e o ajudou. Quando ele acordar vai ser o Kariya de sempre, e tudo isso graças a você.”
As palavras não ajudaram a melhor sua impressão. Na verdade, não havia garantias que Kariya voltaria a ser o que era, se é que um dia acordaria, mas a menina parecia desesperadamente se agarrar nesse sentimento.
“Na verdade, a culpa é toda minha.” Admitiu. “Se eu não tivesse sido fraca e não tivesse ignorado Tyrannomon as coisas seriam diferentes.”
“Você não tinha como saber.” Justificou e por mais que soubesse das ações da menina e não concordasse com elas, realmente não havia como prever que recusar o Digivice iria acarretar todos aqueles problemas.
“Não, mas inúmeras vezes eu pude arrumar isso.” Respirou fundo. “Quando Tyrannomon me pediu ajuda. Quando Kariya se arriscou no meu lugar. Quando ele começou a ficar obcecado pelo Digital World. Eu poderia ter feito tanta coisa e só deixei os acontecimentos passarem por mim.” A voz era melancólica e grave, como se reprimisse a vontade de chorar.
“Às vezes, essa é a melhor opção.” Se ajeitou no sofá. “Tentar arrumar as coisas pode arruinar tudo.”
“Acha que eu teria arruinado?”
“Não, mas eu arruinei.” Confiança, amizade, carinho, amor. Quantas coisas haviam sido destruídas pelo seu desejo de mudar a situação?
O silêncio voltou a sala, cada qual imerso em pensamentos. Muita coisa havia mudado na vida de Karin em apenas um dia. Contar sobre seu passado a pessoas desconhecidas, descobrir que o grande amor da sua vida era alguém tão atormentado quanto seu irmão e encontrar Kariya no hospital a beira da morte, tudo isso a fizera repensar sua vida. Havia arrependimentos, mas aquela sensação de incapacidade ainda a dominava.
“Mesmo se eu soubesse que o destino final seria esse, talvez não tivesse feito nada.” Disse voltando a encarar o garoto diante de si. “Eu sou muito fraca.” Sorriu torto. “Não importa se eu tinha a força e os meios, eu não faria nada.”
“Essas coisas te assustam?” Puxou uma ponta do cabelo para trás da orelha.
“Eu queria dizer que era medo, mas na verdade é só indiferença. Eu não gosto de ter responsabilidades. Desse tipo pelo menos.” E deu de ombros. “Eu não nasci para ser uma heroína.”
O menino absorveu as palavras. Havia egoísmo ali, descaso e indiferença para se manter acima do mundo que desmoronava em torno de si. Mas ele também não o era quando seus sentimentos de incompreensão e negligencia eram mais importantes que o mundo caótico que criava em torno de si? Ou não era egoísmo tentar tirar os amigos do caminho simplesmente porque não o entendiam?
“Nem eu.” Constatou.
Fale com o autor