A Garota do Cabelo Lavanda
33 Capítulo 33
Notas iniciais
LA NOCHE – parte 5
“Isso não vai adiantar nada.” A voz feminina se dissipou pela noite. Os olhos haviam recobrado o brilho castanho.
Inoue Miyako pôde perceber uma onda de alivio invadir seus amigos e Digimon quando ela começou a falar. Aparentemente havia alguma apreensão em torno do seu despertar e ela só poderia julgar que era devido a Torre Negra cravada no peito.
Olhou para o próprio peito e viu um orifício em processo de cicatrização. O sangue seco se misturava ao sangue de Kariya que tingia suas roupas, mas não havia dor, apenas um pequeno incômodo.
Daisuke e Iori estavam ajoelhados na grama ao seu lado. Takeru em pé ao lado de HolyAngemon. Nos braços compridos e magros, Minomon ressonava baixo. Para sua surpresa, Yagami e Ishida também estavam ali. O ex-líder segurava Chibimon e o irmão mais velho de Takaishi imobilizava Ken. Então fora aquela cabeleira loira que vira passar sobre si.
Kaiser permanecia com os joelhos afundados no chão. O cabelo puxado para trás por Yamato. O sorriso rasgado e os olhos alucinados. Mesmo diante da proximidade do ataque do anjo, parecia não ter medo algum.
“Atacá-lo não vai funcionar.” Se voltou encarando HolyAngemon que ainda se mantinha em posição para preparar o golpe.
“Não vamos atacá-lo.” Explicou o ruivo. “Vamos usar o Holy Disinfection para purificar as trevas.”
“Por isso que estou dizendo que isso não vai adiantar.” Puxou uma mecha do cabelo para trás da orelha. “Não há nada para ser purificado.”
=8=
Ichijouji Ken, ou melhor, sua versão perfeita de Ichijouji Ken permanecia encarando-a. O cabelo cascateando pelos ombros, o olhar indiferente, o sorriso indulgente, a aura de inteligência e distanciamento. Ela amara aquilo por muito tempo.
“O que acontece agora?”
“Sobre?”
“Saber sobre o Kaiser.” Não aquilo não estava correto. “Sobre o Ken, o verdadeiro Ken.”
“Você pode ficar aqui e viver comigo.”
“Aqui?” E encarou a imensidão branca.
“Não aqui. No Digital World.” Miyako abriu a boca para se manifestar, mas parou.
Por mais absurdo que parecesse, fazia sentido. Mesmo que no mundo real houvesse todos os tipos de influencias ruins que pudessem arrastar as pessoas paras as trevas, no Digital World, os Dark Spore faziam isso de maneira mais eficiente e praticamente imperceptível. Acontecera com Ken, que no Digital World poderia ser o dono de tudo e ter a atenção que era negligenciada pelos pais. Acontecera com Kariya, que ali poderia encontrar um parceiro para sanar sua angustia e acontecera com Oikawa, que mesmo nunca estando lá, arquitetou uma maneira de tornar o portal acessível. E aconteceria com ela, se aceitasse. Uma vida ao lado do Ken que idealizara. Feito de dados, sonhos e mentiras, mas certamente mais feliz e menos doloroso do que a relação que mantinha como o verdadeiro Ichijouji Ken.
“E quanto ao Ken?”
“Não posso fazer nada sobre ele.” Deu de ombros como se não se importasse com sua faceta real.
“Mas eu posso.” Respondeu decidida.
“O que vai fazer? Tentar tirar as trevas dele?” Havia um tom zombeteiro na voz.
“Não há trevas nele. Não como antes.” E não podia negar que tudo o que ele havia feito como Digimon Kaiser tinha sido grande parte por influência dos Dark Spore, mas não completamente. A culpa, ou ao menos uma parte dela, sempre seria do próprio garoto.
“Então vai aceitá-lo sendo a pessoa horrível que ele é?”
“Ele não é uma pessoa horrível.” Respirou lentamente, ele era apenas humano, como ela. “Ele é apenas bom demais.”
“Como uma pessoa boa pode fazer as coisas que ele se dispõe a fazer?” As sobrancelhas arquearam e apesar do cinismo era visível a curiosidade nos olhos sempre indiferentes. Exatamente como Miyako sempre imaginara que Ichijouji seria antes de conhecê-lo.
“No final, é você quem não entende.” Sorriu vitoriosa.
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Levantou incerta, os pés pareciam não se apoiar na grama úmida do meio da noite, mas ainda assim, içou o corpo. As pernas se arrastaram lentamente e parou diante de Ken, se abaixando até ficar na altura do garoto ajoelhado na grama.
“Vocês precisam de um acordo.” Falou por fim e viu-se refletida nos olhos sombrios.
“O que acha que sabe?” A voz saiu como um gemido quase incompreensível.
“Eu não preciso saber.” Deu de ombros. “Você precisa. Vocês dois.” Percebeu o olhar interrogativo de Yamato sobre si, mas ignorou. Sabia que aos amigos suas palavras não faziam sentido algum.
“Miyako, do que você...” Daisuke começou, mas a menina prosseguiu ignorando-o completamente.
“A bondade dele é o que mantem você aqui.” O sorriso sumiu do rosto e os olhos assumiram uma aparência turva.
“Não diga besteiras.” Retrucou.
“Quanto maior sua bondade, maior suscetível à maldade ele estará.”
O grupo a encarava sem realmente entender, como a garota podia ter sido atingido por um fragmento e se tornando tão inteligente.
“O que eu deveria fazer?” Questionou à menina diante de si. Não é como se ele mesmo não pudesse achar tal resposta, mas queria ouvir a dela.
“Aceitar.”
“O que eu deveria aceitar?” O sorriso largo desenhado no rosto.
“Quem você é.” Respirou fundo. “Quem você realmente é.”
“Oh, claro, vamos deixar o garoto instável ser a mente pensante.”
“Uma parte do garoto sensível e instável, uma parte da sua mente diabólica. Isso é o que você é.” Pôde ouvir algumas interjeições dos garotos atrás de si, mas decidiu ignorá-los, não podia perder o foco.
“E por que eu deveria aceitar essa bobagem?” As sobrancelhas se curavam.
“Porque vocês vão acabar matando alguém por causa dessa guerra interna. Vão acabar se matando.” As palavras deslizaram pela noite e ficaram ecoando na clareira da floresta, até serem lentamente arrastadas pelo vento. Inoue não estava confiante como gostaria, mas resgatar o namorado era parte de suas funções.
Kaiser permaneceu com o olhar preso nela, mas seu corpo estava mais relaxado e instintivamente Yamato diminuiu a força do aperto.
“Morrer. Talvez seja o melhor para todo mundo.” E Miyako percebeu que apesar do sorriso sombrio e do olhar alucinado, aquelas palavras, aquela abnegação não pertencia ao Kaiser.
=8=
Quando aceitou a proposta do Kaiser e abraçou os Dark Spore, as coisas funcionaram de forma muito diferente. Sentia-as dentro de si, germinando lentamente, se aproveitando da morte do irmão que nunca superaria, do relacionamento com Miyako que não progredia, da sombra do gênio que sempre pairaria sobre ele.
Mas sentia-se lúcido, sabia que estava, mesmo que tal lucidez o mandasse ser prático. Se fosse como à primeira vez, não se importaria com o destino de Kariya. Não o acomodaria no que julgou ser o local mais seguro e o embalaria em seu próprio casaco para protegê-lo do frio.
“Eu disse que ele estaria livre, só estou cumprindo com nosso acordo.” Podia ouvir Kaiser recitar diante da boa ação.
Mas Kaiser não era do tipo que fazia acordos. Ele nunca permitira nenhum pequeno lapso de bondade antes, por que o faria agora?
Mas as coisas eram diferentes, anos haviam se passado e Ken havia amadurecido. Talvez suas trevas tivessem feito o mesmo. Por mais que nunca disse isso para ninguém, nem mesmo Wormmon, por vezes se sentia solitário e sabia que a única companhia capaz de saciar tal necessidade seria Kaiser. Se perguntava agora que ele aparecera para buscá-lo se as trevas também se sentiam solitárias.
Sabia muito bem, por mais que não quisesse admitir, que Kaiser e ele eram uma existência única. As trevas, aquelas produzidas por seus próprios Dark Spore tinham se dissipado há muito tempo, mas Kaiser era diferente e provavelmente sempre estivera lá, antes mesmo do próprio Ken saber a diferença entre o bem e o mal.
Os pés acompanharam a margem do riacho, evitando as regiões lamacentas, os olhos seguindo a corrente. Até que metros abaixo encontrou o Digivice de Kariya preso em uma pedra. Não sabia bem porque tinha ido atrás do dispositivo. Para Ken, seria uma maneira de mantê-lo longe de outros Digimon e talvez até outras pessoas. Para Kaiser, bem, provavelmente havia uma mórbida curiosidade velada, mas sempre havia algo mais. Algo que sempre conseguia esconder de si mesmo e suspeitava que poucas pessoas no mundo conseguissem tal proeza.
E quando abriu o aparelho já avariado e encontrou um pedaço de Torre Negro, soube o que ele andava procurando e Kaiser também. Se para Ken aquilo explicava de muitas maneiras como Kariya detinha tanto poder em um Digivice que nem seu era, também explicava porque Kaiser o queria.
“Isso realmente tem alguma utilidade para você?” Questionou à sua contraparte.
“Sempre tem.”
“O que pretende? Construir um novo império e se fazer imperador novamente?”
“Eu receei que isso fosse necessário. Mas no final, você estava certo. A ameaça não era realmente uma ameaça.”
“Seu nome vai permanecer estampado nos autos sombrios do Digital World por muito tempo.” Era apenas por isso que tinha voltado? Para manter seu egoísmo infantil e manter um posto que ninguém realmente gostava de lembrar?
“Meu nome não, nosso nome.” Kaiser corrigiu.
“Nosso?” Ken se perguntou.
“Sim, você pode dizer que é minha alcunha que as pessoas dizem com horror. Mas no final, todas as coisas são sempre sobre você.” E havia um sorriso diferente. Era medonho de ser ver, mas não dava frio na espinha.
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O grupo permanecia na clareira da floresta, encarando o diálogo incompreensível entre Miyako e Kaiser. Ninguém sabia o que havia acontecido com ela ao ser esfaqueada por um pedaço de Torre Negra, mas fosse o que fosse, parecia ter lhe dado a solução.
“O que vamos fazer com ele afinal?” Yamato perguntou, estava cansado de ficar aprisionando o menino.
“O que vamos fazer com você?” Miyako repetiu, mas dirigindo-se diretamente ao Kaiser.
“Podíamos terminar a roleta russa, eu estava achando tão divertido.” Zombou.
“O que ganharia pondo sua vida em risco?”
“Mostraria a verdade.” O sorriso enviesado assumiu o rosto em tom divertido.
Miyako encarou os olhos que a analisavam. Ao mesmo tempo sombrios e brilhantes, o sorriso torto no rosto, quase vitorioso. Então se lembrou das suas próprias palavras para as trevas brancas. Com um movimento rápido ergueu o braço e desenhou a palma da mão no rosto de Kaiser.
“Miyako.” Pôde ouvir Iori se sobressaltar.
“Você não vai conseguir convencer-se disso.” E se levantou furiosa, então tudo era simplesmente por aquilo?
“Não?” A sobrancelha arqueou novamente. “Como acha que vai ser amanhã?” Percebeu que a menina entendeu, mas não os outros e desviou o olhar para o resto do grupo que ainda o encarava com a mesma expressão de temor e desprezo.
“Você...”
“Vocês não o entendem. Se formos só nós será mais fácil acertar o compasso e não haverá sentimento de culpa.” Por nós Ken queria dizer o Kaiser e ele.
“Isso o deixará sozinho.” Exclamou preocupada. “Você não precisa fazer isso. Nós vamos entender você. Tudo o que você passou, quem você realmente é, talvez leve tempo, mas nós somos seus amigos e vamos te apoiar.”
“Miyako está certa. Somos seus amigos e vamos te ajudar.” Daisuke não fazia ideia do que estava acontecendo. Entendera partes dos diálogos, mas havia peças faltando, muitas peças. Mas só de ouvir dizer que Kaiser pretendia isolar Ken isso o apavorava.
“Amanhã as coisas serão diferentes. E não me importa como vocês vão sentir, apenas como ele vai. E ele não vai se sentir feliz por tudo o que aconteceu hoje.” Os dentes estavam a mostra em um sorriso diabólico. “Eu disse: vocês não entendem!”
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