A Garota do Cabelo Lavanda
30 Capítulo 30
Notas iniciais
LA NOCHE – Parte 2
Stingmon avançou sobre o trio alado focando principalmente em Angemon, que já estava ferido graças aos ataques de Apemon. O inseto preparou o Spiking Strike, mas foi impedido por XV-Mon que se chocou contra ele, arremessando-o contra as árvores queimadas.
“Ken, o que está fazendo?” Daisuke perguntou ao ver a cena que se desenrolava entre seus parceiros. XV-Mon tentava manter Stingmon preso contra as árvores, mas o esverdeado usava toda a força que tinha para se libertar.
“Eu disse, vocês serão um empecilho.” As sobrancelhas arqueadas.
“Do que está falando? Nós somos amigos.” Protestou.
“Muito amigos, para ele não te contar como se sentia, como estava assustado ou com raiva.” Deu de ombros e o sorriso se alargou. “Amigos contam coisas uns aos outros, não é, Dai-kun?” Ken havia chamado Motomiya assim apenas uma vez, em um estado total de melancolia. Mas olhando-o ali, ele parecia muitas coisas, mas certamente não melancólico.
“Você não é o Ken.” Esbravejou. “O que fez com ele?”
“Apenas o que ele almejou.”
“Ora seu...” E deu um passo a frente, avançando contra o rapaz, mas foi impedido por Inoue, que puxou seu pulso. “Miyako!” Protestou ao ver a intromissão da mulher.
“Eu se fosse você estaria preocupado com outra coisa.” O sorriso rasgou no rosto e Ken apontou para o campo de batalha.
Stingmon tinha se libertado e batalhava arduamente contra XV-Mon. O Digimon azul recebera um profundo corte no braço e se movia com dificuldade tentando repelir os golpes do inseto. Não demorou muito para que fosse atingido por um golpe certeiro e arremessado contra as árvores na orla da clareira.
“XV-Mon!” Inoue sentiu o líder estremecer sob o aperto em seu pulso.
“Um já foi, só faltam dois.” Kaiser comentou vitorioso.
“Por que está fazendo isso com a gente?” E ali estava o medo que vinha rondando-o desde que Ichijouji desaparecera. As trevas o haviam consumido e novamente estavam em lados opostos. Ken, o garoto bondoso que o ajudava nas lições e tinha paciência infinita para ouvir suas lamurias pela Hikari não existia mais.
“Porque é assim que as coisas são.” O sorrio se ampliou.
“Você não é assim Ken.” A voz saiu alta e estridente. “Nós somos amigos e eu sei que tipo de pessoa você é. E você não é assim, não mais.”
“Você sabe? Talvez você saiba.” E era impressão de Miyako ou Kaiser estava titubeando? Os olhos perderam aquele brilho alucinado e foram para o chão, o sorriso sumiu. “Mas você não entende.” E novamente o brilho voltou, intenso e duas vezes mais perigoso. “E por não entender, todos vocês vão morrer aqui.”
“Do que...” Mas o líder não completou o discurso, um grito exagerado chamou sua atenção.
Angemon e Aquilamon lutavam contra Stingmon. O Digimon estava no mesmo nível deles e não deveria ser um páreo tão complicado, mas a dupla estava cansada de sua batalha com Apemon, enquanto o inseto vinha renovado de seu novo contrato com Kaiser.
Takeru corria de um lado pro outro, tentando passar instruções ao seu parceiro e manter a luta em pé de igualdade. Mas era visível que o loiro também estava exausto e desesperado. Não era mais um Digimon descontrolado, era um amigo, um parceiro de confiança que agia dentro da plenitude de suas capacidades.
“Se vocês quiserem viver um pouco mais eu recomendo pararem de perder seu tempo com esses discursos e irem ajudar seus Digimon.” Kaiser se manifestou.
Daisuke desviou os olhos do moreno para o loiro. Takeru não daria conta da batalha sozinho. XV-Mon estava bastante ferido, mas já se colocava em pé, pronto para voltar ao combate. Se o líder não desse apoio ao seu parceiro e ajudasse o loiro a formular um plano, eles seriam abatidos ali.
Motomiya puxou o braço do aperto que Inoue ainda mantinha. “Cuide do Kaiser.” E se voltou para o campo de batalha, acelerado. XV-Mon alçou voo e aproveitou que Stingmon estava ocupado com os outros e lançou um X-Laser.
O golpe atingiu o inseto em cheio, fazendo-o ser atirado contra o chão. A força do impacto foi tanta, que o bicho rolou e caiu dentro do riacho.
Daisuke pôde ver um pedido de desculpa silencioso que seu Digimon murmurava ao atacar o companheiro. Não era apenas um Digimon aliado, mas também seu parceiro na Evolução de DNA.
Stingmon se levantou com dificuldade. As asas cobertas de água, um a grande ferida no ombro. As pernas pareciam fraquejar ao se mover lentamente do leito do riacho para a margem. Os olhos buscaram Ken à distância, mas este ainda sorria com as mãos enfiadas no bolso. Ken raramente o mandava recuar, Kaiser nunca iria.
Balançou as asas translucidas até que elas se secassem. Vi u seus companheiros fazerem formação de batalha em forma de V. XV-Mon assumia a dianteira, como Digimon de sacrifício, enquanto Aquilamon e Angemon permaneceriam na retaguarda, para o ataque definitivo. Não queria machucar seus companheiros, nem virar as costas a eles. Mas eram ordens do Ken, e mesmo que discordasse totalmente delas, as cumpriria.
XV-Mon partiu para o ataque, sem esperar que Stingmon tomasse posição, juntou as mãos ao corpo diminuindo o atrito com o ar e partiu como um míssil. Os dois se chocaram, mas Stingmon não caiu, os pés vacilaram na margem lamacenta, mas conseguiu se manter em pé. As mãos seguravam os ombros do dinossauro azul, tentando mantê-lo afastado, mas com uma chicotada de cauda, XV-Mon atingiu o ombro ferido do inseto, fazendo o ceder, então avançou na jugular, desferindo um Strong Crunch.
“Agora, Angemon.” A voz do loiro se sobrepôs a barulheira do combate.
Angemon se preparou e com seu cajado e aplicou um Holy Rod, atingindo Stingmon no meio do peito. O impacto foi tão forte, que XV-Mon, que ainda se mantinha preso a ele para imobilizá-lo foi atirado junto de volta ao riacho.
Uma nuvem de gotículas de água se levantaram com o impacto, reluzindo na noite. XV-Mon se separou do inimigo, e saiu de dentro do riacho. O corpo molhado, a aparência cansada, mas o semblante estava aliviado. Stingmon trazia uma grande marca no centro do peito, uma das asas parecia torta e ele tinha grande dificuldade em respirar. Sentou no leito que corria lento e encarou os amigos a margem. Estava cansado e machucado, estava pronto para desistir daquele combate que não levaria ninguém a lugar algum.
Inoue encarou Kaiser que mantinha as mãos no bolso, mas não estava mais sorrindo. Os olhos analisavam o parceiro dentro da água.
“Ken.” A menina chamou, achava estranho tratá-lo por esse nome quando estava desse jeito, mas chamá-lo por Kaiser só enalteceria tal posição. “Isso acabou. Stingmon foi derrotado.” As mãos tremiam, mas ela precisava continuar. “Eu não sei o que aconteceu aqui, mas você sabe que se virar contra nós não é a solução. Tudo isso já aconteceu antes e foi você quem pagou o maior preço. Quer arriscar a perder Wormmon novamente?”
Os olhos escuros se moveram na direção dela, sérios e analíticos. O vento frio da noite bagunçou o cabelo de ambos.
“Não acabou.” E o sorriso rasgou as feições de forma assustadora. Ele puxou a mão do bolso, acompanhada do próprio Digivice. “Como eu disse, você não entende.” E ergueu o dispositivo na mão. “Stingmon!”
A voz ecoou pela noite, Motomiya e Takaishi se voltaram para encarar o moreno. Até mesmo os Digimon entenderam que aquele grito era um mau sinal. Stingmon se levantou no meio do rio, os olhos pareciam suplicantes, mas não disse nada. Não havia o que dizer, não para o Kaiser.
O Digimon foi envolto por uma luz forte e brilhante, que se destacava na noite escura que avançava. Em poucos segundos, o inseto ferido deu lugar uma forma insetoide maior. O corpo era reluzente, em verde e dourado, e trazia uma enorme lança na mão.
“Como...?” Inoue encarou o bicho que resplandecia em meio à noite sem acreditar em que seus olhos viam. Nunca vira Stingmon atingir a forma ultimate.
Daisuke ficou encarando o ser que surgia diante deles, meio chocado, meio impressionado. Viu pelo canto dos olhos, Takeru recuar um passo e lançar um olhar apreensivo para Angemon. Não entendia muito bem como as coisas estavam acontecendo, mas aquilo não era nada bom.
“Desde quando pode fazer isso?” Os olhos castanhos se arregalaram por trás dos óculos.
“Desde sempre.” Informou com se fosse óbvio.
Mas aquilo não era óbvio. Stingmon nunca tinha evoluído para outro nível. A garota sabia que Wormmon seguia uma linha evolutiva muito mais parecida com a de Patamon do que com a de Hawkmon. Diferente da pequena ave avermelhada que podia assumir formas diferentes dentro da mesma linha evolutiva graças aos Digi-Eggs, Wormmon evoluía apenas em uma direção, baseado na força do seu brasão. Mas sabia também que essa evolução significava que o Digiescolhido estava em total consonância com seu atributo, e Ken não estava sendo bondoso. Sempre o fora e nunca chegara muito longe, porque agora que seu plano era destruí-los, o inseto tinha galgado mais um nível?
“Parece surpresa.” Analisava as feições que o encarava.
“Você nunca nos disse nada sobre conseguir evoluir Stingmon.”
“Ele estava muito assustado para informar sobre isso.”
“Assustado?”
“Quanto poder você acha que alguém como ele pode ter nas mãos sem enlouquecer?” O sorriso rasgado assumiu um ar divertido.
“Ken saberia lidar com isso.”
“Você acha?”
A boca abriu, mas as palavras não saíram. A verdade é que Miyako não sabia. Ken havia sucumbido às trevas e ao poder uma vez, mas achou que o namorado tinha superado. Mas olhando agora o cabelo bagunçado, as feições megalomaníacas, a batalha despropositada que se engendrava, não tinha mais certeza.
“JewelBeemon, vamos acabar logo com isso.” Vociferou. “Esqueçaa os Digimon, se foque nos alvos humanos.” Ordenou.
O inseto pareceu titubear, mas diante do olhar duro de seu parceiro, avançou na direção de Daisuke e Takeru. Girou a lança nas mãos, arrastando os pés no lodo do rio e chapinhando água. Diante das gotículas de água que se levantavam na noite, XV-Mon se colocou diante da dupla humana, tomando todo o dano da lança. O objeto pontiagudo perfurou a dura couraça azul.
“XV-Mon!” O grito desesperado de Motomiya ecoou pela noite.
Os dois Digimon se mantinham próximos, separados pela distância da haste da lança. JewelBeemon mantinha um semblante triste, quase choroso, enquanto via XV-Mon tentar manter o resto das forças e ser o escudo para a dupla adolescente.
“Eu sinto muito, mas não posso me voltar contra o Ken. Se ele ficar sozinho novamente, as trevas vão...” O inseto se desculpou em um lamento baixo o suficiente para que apenas o dinossauro azul o ouvisse. Sabia que as palavras seriam completamente vazias se não pudesse resgatar Ichijouji, mas no momento era o que poderia fazer.
“O que está fazendo?” A voz da menina saiu em um apelo estridente. Inoue não estava pensando quando avançou sobre o rapaz e com um movimento rápido, estampou seus cinco dedos na face alva.
Podia ouvir sons atrás de si, mas não sabia o que estava realmente acontecendo. Vira JewelBeemon atravessar XV-Mon com a lança, mas depois disso, seu cérebro desligara e agira por impulso. Ser impulsiva estava longe de ser umas das características mais notáveis, mas momentos de tensão exigem medidas desesperadas.
Ken estava parado diante de si, a poucos centímetros, o rosto virado do lado, a face colorida coberta pelo cabelo desgovernado. Estava tão silencioso que nem sua respiração podia ser ouvida. A mão ainda mantinha um o aperto no Digivice. Com um movimento leve, ele voltou o aparelho no bolso. E Miyako entendeu aquilo como um sinal.
“Ken...” Mas a frase nunca foi completada. Com a mesma velocidade que desferira o tapa, recebera outro. Os óculos voaram longe e a face queimou como fogo.
Mas não teve tempo de apreciar essas emoções, em segundos, sentiu o corpo ser empurrado e mergulhou na relva baixa ao lado do riacho. Ken se posicionou sobre seus quadris, segurando seus braços acima da cabeça com apenas uma mão.
Naquela posição podia ver os olhos escuros encararem-na, os dedos finos e longos estampados na bochecha. O cabelo adornando tudo como a moldura de um quadro macabro.
“O que você pensa que está fazendo?” A pergunta foi refeita, desta vez por Ken. A voz saiu furiosa e a palavra você bem salientada.
“Impedindo você de destruir o Ken.” Berrou.
“Destruir?” Os lábios desenharam um sorriso irônico. “Eu estou o salvando.”
“Salvando? Como matar os amigos dele pode ser considerado salvar?”
“Estou eliminando as fraquezas.” A menina arregalou os olhos, mas não conseguiu dizer nada. “Aqueles dois não me servem de nada.” E deslizou os olhos do campo de batalha para a garota abaixo de si. “Mas você...” A mão livre enrolou um dedo numa mecha do cabelo violeta. “Ele gosta tanto, deve ter uma boa utilidade.” O sorriso se alargou, assumindo um ar indecente.
Inoue sentiu um frio correr pela espinha. Era seu Ken, mas ao mesmo tempo era alguém completamente diferente e assustador. O viu se inclinar sobre ela, aproximando os lábios. Seu primeiro instinto foi fechar os olhos o mais apertado que pudesse e tentar arrastar sua mente para o mais longe que pudesse, mas ela não era esse tipo de menina.
Apertou os lábios e com força cuspiu no rosto alvo. Kaiser se alinhou sobre ela e com a mão livre limpou a saliva que escorria pela face. A expressão mudou para algo mais selvagem e insano e o medo que sentira minutos atrás não era nada comparado ao temor que agora a invadia.
“Lutadora, hein?” Fechou a mão livre e deu um soco no meio do rosto de Inoue. Sangue tingiu os dentes, e a cabeça pareceu rodar. Ela não podia apagar e ficar a mercê. “Vamos ver quão forte você é?”
Enfiou a mão no bolso da calça e tirou um Digivice. Era um modelo diferente, estava cheio de lodo e remendado com fita isolante. Parecia já ter sido desmontado e remontado às pressas. De quem era aquele Digivice?
Kaiser bateu o objeto contra o chão, apenas para ver a pouca cola da fita isolante ceder. As partes plásticas rolaram pelo chão e Miyako pôde ver, apesar da falta dos óculos, os circuitos internos do dispositivo expostos. No meio das placas, transistores e microchips havia algo escuro que ela não soube identificar.
O rapaz se focou justamente nesse objeto, girando-o na mão. Agora, mais próximo do rosto, Miyako conseguia identificar a pequena pedra preta, fina e pontiaguda, como um fragmento de espelho quebrado. Era um pedaço de Torre Negra.
“Eu realmente gostaria de saber como um pedaço disso foi parar dentro de um Digivice.” Era um tom sonhador, que não combinava com a feição alucinada. “É uma pena que não vamos poder perguntar para nosso pequeno garoto. Acho que ele não vai falar por um bom tempo.” Zombou. Inoue estremeceu. Então ele sabia sobre Kariya, sabia e não tinha feito nada? “Bom, mas isso explica porque o Digivice funcionava de um jeito muito diferente do resto de nós.” Analisava a pedrinha como se fosse algo muito interessante.
“Você sabia sobre o Hanamizuki e não fez nada? Deixou que Apemon fizesse aquilo com ele?” Os gritos saiam entrecortados.
“Não diga coisas que você não sabe.” O ar sério voltou a aparecer no rosto. “Eu fiz mais por ele do que você jamais se atreveria a arriscar.”
“Ken pode ter feito, mas tenho certeza que você não fez nada!” Se remexeu tentando se libertar. “Você é apenas as trevas tentando se apossar dele.”
“Como eu disse, V-O-C-Ê-N-Ã-O-E-N-T-E-N-D-E.” A voz era alta e pausada. “Mas eu vou fazer você entender.” E girou o fragmento entre os dedos, até deixar a face pontiaguda voltada para baixo.
Aumentou o aperto nos braços da menina e com um golpe curto, enfiou o fragmento de Torre Negra no peito de Inoue, próximo ao coração. Apesar da dor lancinante, o fragmento era pequeno e não havia atingido nenhum órgão vital. Sentiu sangue verter da abertura, mas aquilo não era nada comparado ao sangue seco que impregnava suas roupas.
Mesmo com a dor que sentia, sabia que aquilo não era motivo suficiente para apagá-la. Mas o garoto diante de si parecia cada vez mais embaçado e distante. O sorriso amplo parecia sumir em meio as espumas do mar. E ela só teve tempo de ver um mar de cabelos loiros voarem sobre ela, arrastando Ichijouji consigo.
“Takeru...” Gemeu tentando identificar o amigo. Mas quando inclinou a cabeça para trás, finalmente ajeitando os braços livres. Viu o loiro no campo de batalha, acompanhado de Angemon, Motomiya e outra pessoa que ela não saberia identificar. Era impressão sua ou havia muito mais Digimon ali? Ela já não tinha noção do que estava acontecendo. Havia uma parte sua que estava sendo arrastada para um horizonte muito longe dali.
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