Notas iniciais
Não sei como chegou, mas espero que goste do que está por vir. É algo simples, mas complicado. Como você vai entender o que está escrito? Não sei. Apenas espero que consiga captar a mensagem, conhecendo um pouco mais de mim do que um dia sonhou conhecer. Alguém que talvez nunca tenha ouvido falar. Alguém que um dia aprendeu a amar. Alguém que quer te fazer rir, mas também quer te fazer chorar. Espero que aproveite a curta estadia nesse hotel chamado Leitura.

Certas coisas só acontecem em dias tipicamente normais. Quando menos se espera, o inesperado vem a te consome por completo, te deixando ao inimaginável. Nesses dias, o que mais te chatearia, pode te tomar um sorriso, daqueles que não se sabe de onde vem, ou para onde vai. Ele apenas aparece, mas logo vai embora, como uma brisa suave. Muitos de nossos sorrisos são assim. Em um desses dias, conheci uma das pessoas que me tiraram do fundo do poço. Fez-me contemplar um espetáculo através das negras cortinas de meus olhos fechados. Cada pensamento que tinha se movia totalmente a ela, lentamente, como uma criança começa a andar. Aos poucos, nos conhecemos. Aos poucos, nos aproximamos. Aos poucos, a amo.

Conhecemo-nos por causa de um grupo de amigos. Amigos que nos juntaram de maneira rápida e avassaladora, sem chances de escapar. Eu, com meu blusão preto. Ela, com sua jaqueta branca. Yin e Yang. Éramos totalmente estranhos e diferentes ao olhar do outro. De primeiro momento, desacreditei que algo surgiria. Duvidei que ela seria o que é hoje para mim. Desandei em pensar que não seria ninguém. Quando nossos olhares se encontraram pela primeira vez, nada senti. Foi apenas um olhar, apenas uma forma das pessoas de se reconhecerem. Ao dizer seu nome, nada mudou. Cumprimentamo-nos, beijando levemente a face um do outro. Coisa normal a se fazer, mesmo não tendo intimidade nenhuma. Aqueles que nos apresentaram, outrora amigos em comum, partiram em pouco tempo, me deixando a só com ela. E, a partir daí, nada mudou. Sorri discretamente, pensando o quão estúpido eu poderia ser por não conseguir puxar assunto com alguém. E ela, sem nem querer esconder, demonstrava total desinteresse em mim. Foi patético como nos despedimos em menos de 10 minutos após ficarmos sozinhos. Um encontro foi arranjado para pessoas que nem sequer se conheciam, apenas porque ambos acabaram de sair de um relacionamento. Pelo menos, pude pegar seu número, para futuras conversas. Conversas duradouras, e não apenas um “oi”, como ocorreu. Pelo menos, poderia contemplar a bela face da jovem.

Em dois dias, não trocamos uma palavra sequer. Em três, conversamos por menos de 2 minutos, pois nos encontramos ao acaso na rua. No quarto, tomei coragem e liguei, torcendo para ela não atender, pois não pensei no que falar. Sorte que isso aconteceu. No quinto, porém, liguei novamente e conversamos, ainda que timidamente, por apenas 7 minutos. Foi engraçado, pois descobri um lado novo dela que não imaginei que existisse. Um lado bem discreto, que só é perceptível para quem é sonhador. Um lado belo, mas ao mesmo tempo horrível. Um lado que não queria ter que dizer, mas se faz necessário. Um lado que te faz rir e chorar. Um lado verdadeiro, certeiro como uma flecha que acerta seu alvo. Tamanha era sua franqueza. Em 7 minutos, descobri que tínhamos gostos parecidos, mas que não daríamos certo em longo prazo. Éramos como um casal de novela, perfeitos, mas ao mesmo tempo imperfeitos. Até então, nada sentia se não um desejo crescente de conversar, de ouvir sua voz.

Marcamos de nos encontrar novamente depois de duas semanas que nos apresentaram. Esperei durante pouco tempo, pois ela era pontual. Quando a vi, meu coração gelou. Não chega a ser aquilo que sempre esperei. Está muito longe disso. Ela não é aquela dama de vestido negro, de olhos marcantes, que não deixam você parar de contemplar. Não. Mas seu batom, vermelho como sangue, me fez querer beijar sua boca pelo puro prazer. Ver seus lábios formarem uma palavra fez meu coração disparar. Ver seu sorriso me fez perceber o quão poucas pessoas eu conheço, e o quão pouco vou conhecer. A partir desse momento, não me importava com mais nada. Era ela quem eu queria como companheira. Era ela com quem sonharia a noite inteira. O dia se foi, e a sensação de que poucos minutos se passaram ficou. Despedimo-nos e tomamos nossos caminhos, mas meu desejo por ela apenas crescera e coração ainda não se acalmara. Estava disparado, como se tivesse corrido metros e metros. Meus olhos encheram-se de lágrimas ao vê-la tomar o ônibus. Queria tê-la só pra mim naquele momento. Queria poder contemplar seu corpo em cada centímetro, desnudo, apenas eu e ela. Queria poder beijar sua boca. Queria poder tocar em seu corpo, tomá-lo em um abraço. Queria tê-la só pra mim.

Alguns outros encontros vieram, mas não conseguíamos manter um diálogo por mais de 10 minutos. Eu, tímido. Ela, avoada. Enquanto um tentava capturar o momento certo, o outro o deixava escapar. Nossas roupas nunca combinavam. Nossos rostos, sempre se envergonhavam. Mas seu batom continuava da mesma cor, estonteante e hipnotizante. Perdi-me várias vezes nessa cor vibrante, da forma mais pecaminosa que consigo imaginar. Queria beijá-la. Queria tê-la. Mas da mesma forma que queria ter seus lábios contra o meu, queria vê-los à distância, contemplar mais alguns instantes do show que ele formava. Queria ouvir ainda mais as palavras formadas, contemplando cada movimento feito para formar uma letra. É algo lindo de se ver. Inúmeras vezes me vi encarando-os. Era algo diferente e chamativa à sua maneira. Algo lindo, sem fronteiras.

Hoje conversamos normalmente, mas deixo esse sentimento guardado em meu peito. Ela me deixa desnorteado, sem saber o que fazer. Não sei se conseguirei um dia dizer o que sinto realmente. Talvez ela nem sequer me note como eu quero. Mas a cada vez que as cortinas de meus olhos se fecham, uma nova apresentação começa, e a dança de seus movimentos, criada pela minha imaginação, me faz pensar que não preciso de mais nada, se não disso. É encantador de maneira única. De maneira a qual apenas eu consigo contemplar. De uma forma que nenhum outro, seja homem ou mulher, irá um dia imaginar. É o mais belo dos espetáculos imagináveis. O som que sai de seus pés tocando o chão, de sua respiração um tanto quanto acelerada. Tudo isso é algo que apenas eu ouvirei. Seus movimentos, graciosos como uma folha sendo levada ao vento, é algo que apenas eu verei. Isso que faz o momento ser único. É meu e de mais ninguém. Isso porque tudo não passou de um sonho, em uma noite qualquer. Não conheço a pessoa que me fez se apaixonar novamente. Não conheço àquela que me fez chorar quando acordei. Não conheço àquela a quem, de uma hora para outra, amei.

Notas finais
No fim, aquilo que sonho não passa de um sonho. Anseio por isso, desejo de todo meu coração. Mas, por enquanto, tudo não passou de um sonho, uma peça pregada em meu coração, um teatro real que participei como a única pessoa na platéia. Mas sonhos um dia podem se tornar realidade. Me agarro a essa esperança, ainda que pequena. E aqui despeço-me. Espero que tenha aproveitado esse pouco tempo que passamos juntos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!