A Garota de Sovengard
2 Stein, a cidade do norte
O silêncio consumia a floresta, eu escutava a respiração do cervo. Empunhei meu arco e encaixei a flecha. Mirei na cabeça. Na hora de soltar, escuto uma trovoada inesperada. Meu coração dispara. E olho para cima. Um vento forte domina a floresta e passa logo depois em um rasante. Tropecei e sai correndo.
– Memphis! – gritei enquanto corria para a estrada. O cavalo surgiu desesperado no meio da floresta. Encaixei o pé no estribo e corremos o mais rápido possível.
Cheguei afobada na cidade.
– Megara!? O que houve? Um urso? – perguntou Josh assustado com a minha chegada. Não consegui dizer nada. Minha respiração estava descontrolada.
– Eu não sei, acho que foi uma trovoada. – Respondi.
–Megs com medo de uma chuvinha básica? – Victor comentou enquanto entalhava um brinquedo. O fitei. – Ei, tá tudo bem. – desculpou-se.
Victor tinha um ar misterioso. Escondido por baixo de sua cabeleira castanha tinham olhos de gato, azuis, um corpo magro e musculoso, devido ao trabalho. Um típico nortenho. Sorria solitário encostado na cerca.
– Relaxa Megs, ele estava só brincando. – falou Josh, envergonhado.
Joshua era o líder dos meninos da cidade, dispunha de um cabelo castanho claro, olhos cor de mel, e era mais corpulento que os outros, mais forte e mais alto. Era meu melhor amigo, afinal, foi ele que me trouxe para a cidade quando adoeci.
– Esqueceu da caça? – Yodel, apareceu com seus cachos loiros, era tímido e galante, as meninas o babavam.
– Ela fugiu. – respondi decepcionada.
Com o passar dos anos me tornei uma exímia atiradora no arco e flecha. Muito treinamento e necessidade ativaram meus instintos. Perdi-me em pensamentos e rumei para casa, seguindo a estreita trilha que se formava entre as colinas.
Há poucos meses completei catorze anos, idade o suficiente para casar. Felizmente, eu não havia sangrado, o que impedia meus pais adotivos de arranjarem um casamento para mim. Eu morava numa fazenda a leste de Stein, no lado esquerdo do rio Breedstorm, criávamos ovelhas e possuíamos uma modesta plantação de uvas para produção de vinho. Eu costumava ficar na lida das ovelhas, pastoreando-as e vigiando. Saía para caçar com frequência, geralmente acompanhada dos meninos.
– Meg! – gritou Mistrida ao me ver chegando.
– Olá Misti. – Respondi sorridente.
A pequena garotinha de olhos azuis e cabelos cacheados de cor castanha corriam na minha direção. Tinha dez anos e já sabia muito do mundo. Era minha irmãzinha adotiva, meu amuleto da sorte. Morávamos juntas a cinco anos. Quando eu tinha nove nossos pais, Elisa e Duncan, me acolheram depois que adoeci enquanto acompanhava Joshua numa caçada próxima a Stein.
– Uma semana ruim? – perguntou Misti, curiosa devido a falta de carga em Memphis.
– Acontece... Acho que está vindo chuva. – comentei.
– Impossível, papai viu as estrelas ontem Meg, céu limpo. – gabava-se da inteligência do pai.
Agricultores conhecem os sinais da terra e dos céus como ninguém, era realmente difícil errarem o clima.
– Posso levar o Memphis? – completou.
– Ele precisa de umas cenouras, estou achando ele magro. – Bati na barriga do meu monstro com crinas.
– Eu estou achando ele gordo, como sempre. – Retrucou. O cavalo empurrou-a com seu enorme focinho. – Memphis. – Bronqueou.
A noite se aproximava, cada vez mais cedo, devido a proximidade do inverno. Nos recolhemos e partilhamos um jantar saboroso de sopa com pedaços de porco.
– Está uma delícia mãe. – comentei, lambendo os beiços.
– Se superou. – concluiu meu pai. – Semana difícil filha?
– Os cervos partiram para o sul. Há pouco o que caçar. – falei entre colheradas.
– Eu gosto de carne de esquilo. – Sussurrou Mistrida.
– Entendi o recado. – Ri.
– Falta pouco para concluirmos a colheita, precisaremos do Memphis para carregar tudo até a cidade...
– Claro mãe, eu ajudo amanhã pela manhã.
O sol nem havia tocado os campos ainda e já estávamos carregando a carroça com quilos da uva vermelha. A produção não foi das melhores esse ano, o clima estava muito quente. Os campos douraram e as ovelhas estavam magras. Foi um ano quase ruim para os produtores, não fosse a pesca abundante, que também nos abastecia. Partimos logo que a estrada se tornou visível. A água do rio beirava a estrada improvisada.
– Os homens tem comentado Megara, as coisas estão tensas na capital. – falou meu pai, cabisbaixo. – O rei e o vikings se estranharam novamente, foi um casamento mau sucedido pelo que disseram.
– Não entendo por que casamentos causam tantos acontecimentos.
– São simples Megs, ou causam paz ou causam conflitos. – ele respondeu.
Eu temia com quem me casaria. Definitivamente não nasci para viver numa casa, nem para plantar. Abdiquei dos vestidos e dos adornos que enfeitam uma menina, usava calças e botas de couro, camisas simples com coletes de caça. Por viver em cima de um cavalo, aquelas vestes eram mais adequadas e confortáveis do que qualquer outra. Meu cabelo vivia preso, em tranças ou coques trançados por Mistrida, raramente enfeitados. Eu me misturava muito bem entre os meninos e as festas da cidade com certeza não foram feitas para mim. Meninos caçando meninas numa dança de acasalamento e atração. A bebedeira os tornava cegos.
Chegamos próximo ao meio dia no centro de produção de vinhos, o sol estava a pino. Desencaixei a carroça e deixei meu pai com os outros homens. Levei Memphis até a cocheira para dá-lo de beber.
– Megs, está pronta? – Joshua apareceu montado num galante cavalo castanho sangue.
– Não sabia que ia caçar hoje. – ri.
– Lamento informar que isto não é um convite, é uma ordem. – disse com voz grossa, forçada.
– Você não manda em mim bobão. – olhei desafiadora.
– Vou te deixar para trás então. – virou seu cavalo e partiu de encontro a Josh e Victor, que aguardavam na entrada da cidade. Corri até a carroça para buscar o arco e galopei ao encontro deles.
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