Notas iniciais
Recomendo ler ouvindo isso: http://www.youtube.com/watch?v=8sKQkN7oml4 Trailer da fanfic: https://www.youtube.com/watch?v=w99KwMIrvlA

A garota passou a andar mais devagar. Ela começou a pensar em todas as suas escolhas, se perguntando se era isso mesmo que queria. Ela poderia aguentar por mais tempo? Ela não se importava.

Você, que está lendo, precisa entender: quando uma pessoa está sozinha, sem amigos, sem familiares, sem alguém em que confiar, e que já sofreu tanto, qualquer opção parece plausível. Você já se sentiu sozinho, como se ninguém te entendesse? Tão triste, tão magoado, que estar vivo ou morto parece não ter diferença? Porque você já morreu por dentro. A garota de capa preta sentia isso.

Ela chegou a um ponto que não importasse o que acontecia, ela não se alterava. Não faria diferença se ela vivesse mais um dia ou não. Ela não conseguia ver as pequenas coisas do mundo que faziam a diferença. Como ver o sol nascendo. Ela ficava se perguntando que beleza tinha nisso. Claro que é justificável o pensamento dela, já que nosso mundo, no futuro, não tem coisas bonitas. A maior parte das árvores era sintética, não se tinha muitas coisas naturais. Até as borboletas e os beija-flores que voavam eram falsos. Você pode até achar que seja um lugar deprimente, e é mesmo. Mas a população não se importava com isso. Eles não podiam sentir nada além do que eles, que controlavam, mandava sentir. Mas nossa garota sentia, ela tinha sentimentos. Porque eles não conseguiam controlá-la. Ela sentia dor, uma dor no peito tão profunda que era como se alguém estivesse martelando algo afiado em seu peito.

A garota diminuiu o passo. Uma garota, usando um guarda-chuva vermelho e uma capa preta, numa rua vazia, fria e escura, andando devagar. Qualquer um que olhasse pela janela se assustaria com essa visão. Mas ninguém olhava. E eles não poderiam se assustar. Porque eles, os que controlavam, mandaram todos ficarem dentro de suas casas naquela noite. E por serem amarelos, eles iriam obedecer. E não sentiriam nada.

Eu mencionei que a noite era quando as coisas funcionavam? Isso era uma excesão quando eles mandavam. Se eles diziam: você não vai trabalhar, então você não ia. Se as pessoas questionavam isso? Claro que não. Elas eram amarelas. E os amarelos somente obedeciam. Imagine as pessoas do seu tempo que vivem assistindo televisão, que não perdem por nada um capítulo da novela ou de algum reality show. E quando não está com os olhos grudados na televisão, acreditando em tudo que eles passam, estão conversando sobre isso. Eles são os alienados. Os amarelos do futuro. Com suas mentes escravizadas e fracas. Eles são lamentáveis. Eles faziam trabalhos que os que controlavam mandava eles fazer. Eles estudavam sobre como fazer esses trabalhos. E se um dos amarelos agisse de forma suspeita, os que controlavam davam um jeito, porque eles não queria que os amarelos pensassem por conta própria. A propósito, os que controlavam eram chamados de brancos.

Naquele momento, andando devagarinho, a garota começou a pensar na mãe. Ela mal se lembrava da aparência dela, mas sabia que ela tinha sido muito linda. A nossa garota tinha passado muito tempo com medo de se esquecer de sua família, de como eles eram, do que gostavam. Antes ela estava tão focada em se lembrar disso, de todos eles, que quase enlouqueceu. Então resolveu não pensar mais nisso, porque aquilo machucava. Era doloroso se lembrar de algo que já teve e não tem mais.

Conforme os anos foram passando, ela se esqueceu de muitas coisas. Mas se lembrava de que tinha amado sua mãe. Não o suficiente para tê-la salvado, pensou, mas amava. Nossa garotinha não dormia muito, mas quando dormia, tinha muitos pesadelos. E um deles era sobre sua mãe. O sono começava em branco, e aos poucos ia aparecendo coisas. Paredes, móveis, sua antiga casa, tudo aos poucos. Então sua mãe aparecia, olhando pra ela com ódio. Ela apontava o dedo indicador pra garota, e as palavras não ditam flutuavam no ar. " A culpa é toda sua. Você me matou." A garota de capa preta tentava falar com sua mãe, ela tentava gritar, queria dizer que não era sua culpa, que nunca quis que nada daquilo tinha acontecido. Queria dizer pra mãe ir embora, sair dali imediatamente, que era perigoso. Mas as palavras não saíram.

Ela não podia se mexer no sonho, mas por dentro entrava em desespero. E então ele aparecia, olhando pra ela com aqueles olhos de demônio. O magistrado. Quando ele aparecia, olhava pra ela diabolicamente e em seguida tudo ficava escuro. Ela aguardava em silêncio, imóvel, e mesmo já sabendo do que iria acontecer a seguir, estava em choque. Pow. O som de um tiro quebrava o silêncio perturbador. A garota queria correr, queria gritar. Ela tentava e não conseguia. Por que ela não podia fazer algo, pensava. Sua mãe... Onde estava a mamãe? O que fizeram pra ela? O que foi que eu fiz?

E do nada uma chuva de sangue começavam a pingar sobre a garota, que ainda não conseguia se mexer nem enxergar. Quando ela recuperava a visão, estava no meio do que parecia ser uma floresta, se afogando num rio de sangue. O sangue da sua mãe. Ela queria gritar, chorar, soltar pra fora tudo o que sua garganta prendia, mas não conseguia. E a voz do magistrado aparecia, grave, forte, assustadora.

–É isso que acontece quando você não obedece a mim. Eu não posso te tocar, diabinha. Mas existem infinitas maneiras de te fazer sofrer. Repense bem sobre suas decisões, pois cada escolha pode afetar a todos.

Ele matara sua mãe. Na sua frente, a sangue frio. Ela sempre se lembraria dos olhos dele. Escuros, frios, e da chama que parecia se acender no fundo deles. E então ela acordava, suada e gritando, e começava a chorar. Se ela simplesmente pudesse ser como os amarelos... Não sentir, não chorar, não sentir essa dor imensa que sentia. Não sentir nada. Mas não conseguia ser como eles.

Caminhando sozinha, no escuro, se sentindo sem rumo. Ela tentava pensar na última vez em que tinha sorrido. Não conseguia se lembrar. Mas ela se lembrava de que pequenas coisas poderiam trazer os mais grandes sorrisos. Mas, naquele lugar, não havia nada que fizesse alguém sorrir. Você já viu o pôr do sol? Já caminhou com os pés descalços na areia? Sentiu uma brisa suave enquanto observava a imensidão do mar? Se a resposta for não, eu sugiro que faça isso. Porque, se as coisas acontecerem como aconteceu, isso não existirá mais.

A terra era seca, o ar era criado artificialmente, e não havia nada de especial nisso. Você tem um animalzinho de estimação? Nossa garota não tinha, e ela queria ter tido um. Um bichinho poderia ser uma companhia agradável. Mas não existe animais no futuro. Os que você raramente via eram robôs, máquinas com aparência de animais. Ela não queria ter como amigo uma máquina. O mundo da onde eu vim, o futuro, é vazio e sem forma. Você reclama do barulho que uma criança pode fazer? Eu queria ver você ter que enfrentar o silêncio que ela faz no meu tempo. É como se nem fosse um ser vivo. Em relação a números de seres humanos vivos, imagine somente 20% da população viva.

E você se pergunta, mas por que eles não fazem nada a respeito disso? Como você sabe, eles são controlados pelos brancos. Como o mundo chegou a isso? Eu te digo, foi aos poucos. Houve muitas guerras. Mas os amarelos não lutaram. Eles se renderam, e se permitiram ser escravizados, entre as formas de acorrentar a mente estava a televisão. Ele, o magistrado, disse que os amarelos iriam poder permanecer vivos, mas matou mais da metade deles.

E se tudo fosse diferente? E se as pessoas ao invés de se afastarem da garota tivessem ficado por perto? E se tivessem escutado ela? Mudaria algo? E se ela não tivesse encontrado a capa? A menina andava pelas ruas, mas agora, ao invés de um olhar vazio e desinteressado, como a alguns minutos antes, passou a olhar as coisas, as casas, os destroços. Se a depressão tivesse uma forma seria daquele lugar.

A garota estremeceu, e não foi de frio. Ela poderia ter ajudado? Ela poderia ter tornado o mundo melhor?

Quando as coisas podiam ser chamadas de normal, no seu tempo, caro leitor, ela contou a família sobre o que poderia acontecer. Ela contou aos poucos amigos que tinha, e contou pra pessoas que nem conhecia. Mas não deram ouvidos a uma garotinha. Por que alguém iria querer ouvir uma garota de 14 anos que não sabia fazer outra coisa além de procurar coisas que não existiam?

Os poucos amigos que tinha se afastaram dela. O pai sentia pena, e a mãe se perguntava onde tinha errado na criação da filha. Ela era taxada de anti -social, mas ela não se afastou das pessoas. Pelo contrário, as pessoas se afastavam dela. E chegou um momento em que ela parou de tentar, e desistiu delas.

Notas finais
Ps: a história não acabou ainda okay