A Garota da Lua

26 Virgem - seguindo por caminhos já conhecidos


Estava realmente muito cansada, por isso dormir quase imediatamente que encostei a cabeça no travesseiro, os dias estavam sendo bastante estranhos. Assim que fechei os olhos tive um sonho muito estranho, no qual eu não existia, era somente uma essência que flutuava sem corpo, sobre um lugar bastante bizarro, sabia que não pertencia ao mundo que eu conhecia, era árido, denso e escuro, sentia uma tristeza infinita, não sabia quem era e porque estava ali. No meu caminho, passava por lugares, vendo alguns seres distintos, uns tinham a forma humana e vagavam sem rumo, sem esperança no futuro, outras eram quase transparentes e a maioria era só uma sombra sem corpo ou face, não eram nada, nem ninguém.

Eu queria ir embora, sair dali, mas, fui arrastada para o alto de uma colina, onde um casal conversava, usando roupas e joias muito antigas e luxuosas.

— Temos que ir embora, Ninlil, esse lugar está roubando nossas almas, nossa esperança – O homem falava de modo brando, tentando convencer a mulher, para minha surpresa reconheci Gabriel debaixo da barba e dos cabelos compridos e das roupas estranhas.

— Não podemos voltar, Enlil. Não sabemos que irá acontecer. Tenho medo do mundo lá fora! Aqui somos poderosos, os senhores! – Também, reconheci a mulher apesar do penteado diferente e a maquiagem pesada, aquela era Eres, que chorosa, suplicava. Ambos se chamavam por seus nomes antigos.

— Mas não posso mais continuar aqui! É nossa única chance de escapar, não sabemos quando o portal se abrirá novamente! – ele insistia, tentando convencê-la, sua voz demonstrava ansiedade. Nesse momento, um feixe de luz brilhante apareceu junto a eles, era o portal que se abriu, Gabriel andou na sua direção e estendeu a mão para Ninlil, pela última vez, gritou. – Venha comigo! – Suplicou mais uma vez, estendendo a mão.

— Não posso! Tenho medo do preço que terei que pagar para sair daqui – ela falou, balançando a cabeça negativamente.

— Pense no nosso filho! – o homem suplica, mas a mulher não lhe dá ouvidos, e assim, conformado, ele deu um longo suspiro e entrou pelo portal, sendo engolido pela luz e desapareceram.

Ninlil ficou sozinha ali, perplexa, por um breve instante não acreditou que Enlil tinha ido embora e a deixado para trás, então a realidade a atingiu como um tapa, caindo de joelhos no chão chorando compulsivamente, os soluços sacudiam seu corpo, depois, olhou para o céu escuro e deu um grito cheio de dor, com a mão sobre o seu ventre grávido já proeminente.

Acordei exausta, então, tinha sido assim que tudo se sucedeu, Ninlil queria ficar por medo de um mundo que ela não conhecia mais. Por quanto tempo será que eles ficaram presos lá, naquele mundo tão sem esperança, cheio de tristeza? Pensei, que foi por isso ela se transformara e se tornara a senhora daquele lugar. A senhora dos mortos. Contudo, por mais que Ninlil houvesse sofrido no passado, ela não tinha o direito de me ameaçar, não podia me culpar por suas escolhas e as do seu companheiro, quando eu nem existia. Tomei uma decisão não deixaria ela ou ninguém me intimidar daquele jeito, percebi que o espírito da antiga Diana renascia em mim.

— Hélio, precisamos continuar com os nossos treinos – pedi ao meu irmão, assim que o vi, no dia seguinte no museu, já que todos mantínhamos as aparências.

— O que houve com você, Diana? – Ele perguntou, achando graça.

— Você e Jane têm razão, não posso ficar tão indefesa. Preciso saber me defender sozinha.

— Aconteceu algo, Diana?

— Eu ando recebendo algumas visitas indesejáveis, ultimamente.

— Como quem? – Ele parecia preocupado.

— Eres e Enki — respondi, percebi que meu irmão se contraiu.

— Isso é mau. Podemos mandar o pessoal de Caio ficar de guardar na sua casa.

— Por favor, não. Eu não quero isso. O que você pode fazer é me ajudar a treinar.

Então, treinar com Hélio, na casa dele, passou a fazer parte da minha rotina. Eu era disciplinada e uma boa aluna, pois precisava aprender a me defender.

Depois de um destes treinos, sentamos um do lado do outro, olhando o mar, o sol já se punha e a lua pálida flutuava no céu, naquele momento, eu me senti muito chegada ao meu irmão, assim eu trouxe o assunto à tona:

— Hélio, fale-me sobre o passado.

— O que você quer saber? Tem tantas coisas.

— Quanto nós surgimos?

— O nosso povo, em especial, há cerca de quatro mil anos, depois da divisão. Mas, o povo do Oriente é mais antigo, há cerca de dez mil anos atrás.

— Eu sei disso, mas de onde viemos? Do espaço? – perguntei sorrindo, pensando nas teorias de extraterrestres

— Não sabemos, não somos como os mortais tão preocupados com suas origens, talvez, por terem a vida curta eles têm medo da morte. Porém, nós nunca pensamos sobre isso.

— Onde vivíamos? Em cidades como agora?

— Sim, em uma época, vivíamos nas mais belas cidades, com o maior conforto que cada tempo podia proporcionar, viajávamos pelo mundo conhecido e desconhecido na época.

— Como a América?

— Sim, tivemos algumas cidades pelas Américas do Sul e Central. Ótimos construtores, mas gostavam de fazer sacrifícios humanos. – Aquilo me deu arrepios. – Contudo, durante a guerra, muitas das nossas cidades foram destruídas, para História por terremotos ou vulcões, e outras foram abandonadas e se tornaram uma incógnita para a imaginação dos mortais. Agora, vou deixar você em casa, pois tenho um encontro.

— Você tem encontros todos os dias, Hélio.

— Já falei que gosto de variar, gosto de experiências novas, meninos, meninas, ou que importa é a sensação de conquista, de submissão. Não sou como você, que fica presa há séculos ao mesmo homem.

— Nesse ponto, somos bem diferentes.

— Somos diferentes em muitos pontos. Lembre-se, eu sou o sol e você a Lua. Contudo, tenho uma pequena inveja de você, irmã, por seu amor, pois viver por tanto tempo, pode ser bem tedioso. Aprendemos novas línguas, a tocar muitos instrumentos, lemos e viajamos muito, mas, com o passar dos anos, não há mais novidades, as paixões são efémeras, nada faz nosso coração bater mais forte – Hélio se lamentou, então me lembrei que não via Gabriel, há muito tempo, não podia negar que sentia falta dele.