A Garota da Lua
31 Sagitário – a sabedoria selvagem
Precisava falar com Salvatore para ter acesso a Tales, ele era a minha única esperança de saber onde o portal se abriria, o tempo era nosso inimigo.
— Temos que chegar ao hotel onde Salvatore está hospedado!
— Faça o que você fez para chegar aqui – Gabriel disse como se fosse simples.
— Mas, eu não sei como fiz isso!
— Pense em Salvatore, você sabe onde ele está hospedado. — Fiz o que me disse, mas nada aconteceu.
— Não consigo!
— Vamos, Diana! Concentre-se! – Ele me incentivou e eu fiz isso, precisa me concentrar, tinha que salvar meu filho, me esforcei e, de repente, toda a sala começou a girar rapidamente a minha volta e quando parou, eu estava na frente do quarto de Salvatore no hotel.
Os guardas na porta se assustaram ao me ver surgir. Esperei que Gabriel também aparecesse, mas isso não aconteceu, talvez fosse melhor assim, pois sua presença poderia causar desconfiança.
— Preciso falar com meu pai! – anunciei, nesse momento me dei conta, que ainda estava sem o meu cordão, que havia deixado com Gabriel, mas antes que falassem algo, a porta se abriu e Nix apareceu.
— Lamento, Diana. Seu pai não poderá falar com você, agora. – E deu um sorrisinho maldoso.
— Nix, não estou com paciência para você, hoje! Preciso falar com meu pai, imediatamente! – gritei, ela deu um passo para trás para proteger a porta.
— Infelizmente, não será possível – ela repetiu com cinismo, fiquei com tanta raiva, que meu arco apareceu na minha mão já pronta para disparar, ela e os guardas se assustaram com minha ferocidade.
— Eu não estou brincando, Nix! – falei, pausadamente, mas sem esconder a minha ira.
— O que está acontecendo aqui? – A porta se abriu atrás dela e Salvatore apareceu. – Diana, o que você está fazendo?
– Preciso falar com você, Salvatore, já! – respondi, relaxando meus braços, o arco desapareceu e ele me convidou para entrar na sala da suíte.
— Sente-se, Diana.
— Não quero me sentar. Preciso falar com Tales. Onde ele está?
— Mas, por que essa necessidade tão urgente de falar com Tales? – perguntou, intrigado, não teria solução precisaria lhe contar a verdade, foi o que eu fiz e depois de terminar minha história, ele me olhava ainda assombrado.
— Um filho! Uma criança! Você sabe há quanto tempo isso não acontece entre nós? Ele é o primeiro em séculos. Descendente dos dois reinos, imagina quanto poder essa criança terá? – Ele parecia maravilhado com as possibilidades, o jeito dele me assustou.
— No entanto, agora ele está com Eres, que pretende levá-lo para seu reino, por isso preciso da sua ajuda. Preciso saber onde o portal se abrirá. – Tentei trazê-lo a realidade.
— Sim, claro! Não podemos admitir isso! Vamos falar com Tales – ele concordou, percebendo a situação e, talvez, suas possíveis implicações no futuro.
Quando Tales apareceu, expliquei-lhe tudo o que ocorreu a ele e pedi sua ajuda.
— Diana, isso não acontece dessa maneira, não basta eu querer! – Tales tentava me esclarecer, mas eu não queria ouvir.
— Você tem que tentar, preciso saber onde está meu filho! – Exijo em desespero, ele me olha como se fosse uma louca, depois olha para Salvatore, que sacode a cabeça afirmativamente.
— Temos que ir a um lugar reservado e você tem que fazer uma oferenda. – Tales explicou.
— O que você quiser – consenti, pensando que teria que sacrificar algum animal, mas eu faria qualquer coisa que ele pedisse, naquele momento.
— Venha, siga-me! — E eu o segui até um dos quartos, mas antes Salvatore me chamou, me entregando uma caixa.
— A oferenda! Ele adora chocolate, e esse é melhor chocolate do mundo – ele falou baixinho para mim, pensei que, realmente, os conceitos mudaram muito nesse tempo atual.
No quarto, Tales colocou um manto, abaixou as luzes e subiu na cama, depois abaixou a cabeça e fechou os olhos, começando a cantar uma canção, cujo o idioma não reconheci, ele adquiriu uma luz avermelhada e quando seus olhos se abriram novamente tinha um estranho tom azul luminescente.
— Quem procura o oráculo? – A voz que saía da sua boca não era mesma, parecia que vinha das profundezas de uma gruta.
— Eu, Diana – respondi em tom formal.
— O que deseja, Diana?
— Preciso saber onde o portal para o mundo inferior se abrirá no próximo solstício?
— E o que traz para o oráculo? – ele perguntou, e dei um passo para frente e depositei a caixa de chocolate aos seus pés.
— Há várias possibilidades, o mundo atual tem muitos moradores, em qualquer lugar pode acontecer alguma tragédia, que leve muitas almas.
— Mas, deve haver um mais provável? Mais próxima?
— Sim, há algum tempo atrás, você evitou uma grande tragédia, um ser perturbado não gostou nada disso, ela tentará de novo e, dessa vez, conseguirá.
Lembrei da estação do metrô, perto da minha casa e da imortal que me odiava, por eu impedir o acidente, que ela planejou.
— E quando será?
— Em duas horas – o oráculo respondeu, mas antes de perguntar se eu conseguiria salvar meu bebê, a luz vermelha que o envolvia desapareceu e Tales fechou os olhos caindo na cama. Primeiro, pensei que ele havia desmaiado, mas depois eu vi que estava só dormindo.
Quando, sai do quarto, Salvatore me esperava.
— Ele está dormindo – informei-o.
— Ele dormirá por algumas horas. É sempre assim.
— Preciso ir até a estação do metrô perto da minha casa, o oráculo acha que será lá o acidente que abrirá o portal. Tenho que falar com Gabriel.
— Diana, você entende que não poderá fazer nada para evitar o acidente, pois caso faça algo poderá perder a oportunidade de chegar a Eres e pegar o seu filho.
— Sim, eu entendi. – Senti um aperto no peito, pois muita gente teria que morrer para eu ter meu filho de volta.
Uma operação de guerra foi montada, mas, não poderíamos chamar a atenção já que Eres poderia fugir para outro lugar. Salvatore sugeriu que Jane também participasse, já que seu dom em controlar o tempo poderia ser útil.
— Não seria bom que Gabriel estivesse lá, Eres poderia perceber sua presença – Salvatore sentenciou, sabia que ele estava certo, mas, mesmo assim, queria que ele estivesse por perto.
Quase perto da hora que o acidente aconteceria, nos posicionamos na estação, Eres teria que estar lá um pouco antes de ele ocorrer, para poder passar pelo portal, pelo menos, era o que esperávamos. Para passar despercebida, me disfarcei como um rapaz com calças e camisetas largas, tênis e um boné para esconder meus cabelos, sentada em um banco podia ver Jane transmutada como uma velhinha, Caio se vestia como um atleta e Nix parecia uma mulher comum lendo uma revista de fofocas, os outros membros da nossa equipe, que pareciam pessoas mortais comuns, estavam espalhados por todos os lugares.
Eu olhava em volta, vendo toda aquela gente, usuários comuns, que não sabiam que seu destino estava selado, gostaria de poder salvá-los. Quando avistei a mesma mulher que já vira no metrô antes, o mesmo ser cheio de ódio contra os humanos. Neste momento, ouvi um choro de um bebê, por instinto, eu sabia que era meu filho. Meu coração se apertou queria correr para ele, mas não podia, pois, assim estragaria todo o plano. Procurei com o olhar de onde vinha o som, uma mulher segurava um bebê, reconheci Eres vestida com roupas comuns, embalando a criança que chorava estridentemente, ela parecia ter perdido a paciência, minha vontade era voar até lá e arrancá-lo dela, mas precisava que ter muita paciência. Seria como um jogo de xadrez e os movimentos teriam que ser precisos. Talvez os mortais não pudessem sentir o ar ficar mais denso a sua volta, mas, com certeza, em podia, foi quando uma cena já conhecida começou a se repetir, ouvi os gritos:
— Sofia! Sofia! Pare agora! – Uma mulher gritava para uma criança, que corria para o final da estação.
O que os mortais não podiam ver, mas eu agora conseguia, observar que a menininha era atraída pelo ser perturbado, que segurava um brinquedo e a chamava com as mãos.
Quando a luz do trem começou a iluminar a entrada do túnel, eu sabia que tudo estava acontecendo como antes, mas eu não poderia impedir dessa vez. A criança estava, perigosamente, perto do final da plataforma, a mãe desesperada, gritava, a luz no túnel ficava mais forte e o barulho mais alto e, somente, para os nossos olhos, um estranho foco de luz avermelhado apareceu no meio da plataforma, próximo a Eres, e começou a aumentar gradativamente, imaginei que aquele seria o portal.
Contudo, no momento que toda a situação parecia ter um desfecho dramático, Jane ergueu a mão e o tempo parou, tudo ficou congelado entre frações de um segundo, exceto por nós, os imortais. O portal parou de se expandir, Eres ficou ali parada por algum tempo, sem entender o que estava acontecendo, até me ver na sua frente
— Eres, me dê o meu filho! – exigi, por um segundo, ela titubeou, mas depois um sorriso sarcástico surgiu no seu rosto, e um punhal apareceu na sua mão, que ela encostou na garganta do bebê.
— Acho que não, Dama da Lua. Ele é meu agora, vivo ou morto. – Não podia me arriscar e ela continuou: – Você acha que estou despreparada? Acha que sou tola? Olhe em sua volta – Ao meu redor, alguns mortais mudavam de forma, tornando-se sombras eram do séquito espectral de Eres disfarçados, mas, Caio e seu pessoal e a própria Nix começaram a lutar com eles, era uma batalha perigosa realizadas entre os mortais paralisados, alguns poderiam se ferir, às vezes, uma espada escapava e machucava alguém, mas, por enquanto, ninguém gravemente.
— Peguem a Senhora do Tempo! – Eres ordenou e alguns dos seres avançaram sobre Jane, que parecia exausta, então, troquei minha espada por meu arco e com uma precisão, que eu mesmo não pude acreditar, acertei o primeiro espectro que desintegrou no ar. Mas, o segundo conseguiu segurar a mão de Jane e, por um instante, o tempo voltou ao normal, algumas pessoas devem ter visto os soldados de Caio batalhando contra espectros sem forma, como em um sonho, porém, Nix chegou rapidamente por trás e golpeou o ser, que desapareceu, e com a mão, novamente, livre Jane a ergueu e o tempo parou mais uma vez. Todavia, nesse breve momento, o portal aumentou mais um pouco de tamanho, o suficiente para ela passar apertada por ele.
— Ataquem a Dama da Lua! – Eres gritou e todos os seres espectrais voltaram-se, voando, para minha direção, não tinha noção como eram numerosos.
Eu atirava flechas, tentando atingir o maior número possível deles, prestando atenção em Eres, que andava depressa em direção do portal, fiquei desesperada, troquei meu arco pela espada, Caio e seus os soldados se juntaram a mim. Eres estava cada vez mais próxima do portal, quando uma ventania assolou a estação e Gabriel apareceu na frente dela, impedindo a sua passagem.
— Entregue-me a criança e você poderá ir, Eres! — Gabriel exigiu, estendendo o braço livre, na outra mão estava sua espada incandescente.
— Não, você tem que pagar por que fez a mim! Por ter me abandonado, depois de tê-lo salvo! Você não poderá ser feliz com outra mulher e seu filho! Enquanto ela ficou sozinha!
— Mas, eu não podia viver mais naquele lugar, você não quis partir comigo! Foi sua escolha! Você escolheu o poder e eu preferi a liberdade! — Gabriel argumentou.
— Fui eu que salvei você da prisão e da solidão! Você deve isso a mim e vai ter que pagar! – ela gritou para Gabriel, lutando contra o vento, os outros combatentes conseguiram controlar os espectros que me atacavam, por isso livre, me aproximei de Eres, sorrateiramente, enquanto os dois discutiam, o barulho da ventania me ajudava, apesar de ter que lutar contra sua força, mas consegui chegar bem perto, Gabriel percebeu minha aproximação e continuava a falar para distraí-la.
— Eu sou grato, por isso, mas, já passou muito tempo, as nossas vidas mudaram e, principalmente, eu mudei e aprendi muito. Antes, no começo dos tempos, éramos jovens e selvagens, comentemos muito erros, mas agora estamos diferentes, precisamos seguir em frente.
— Não! Eu não quero seguir em frente! – ela berrou, mas eu em um movimento rápido arranquei meu bebê dos braços dela.
— Não! — Ela gritou para mim, vindo na minha direção com uma faca, mas, como se coordenado, Gabriel a puxou e a empurrou para dentro do portal, Jane abaixou a mão e Nix segurou a criança antes que ela chegasse ao fim da estação, e o portal desapareceu, alguns espectros conseguiram ainda alcançá-lo, seguindo a sua senhora, antes de ele fechar completamente, os que não conseguiram voaram para dentro do túnel, fiquei imaginando o que eles fariam agora.
A mulher que causou todo o problema, também, desapareceu. Tudo começou a se movimentar a nossa volta, os passageiros não perceberam algumas pessoas exaustas e suadas, paradas no meio da plataforma. Nix segurava a criança com cara de nojo, até a mãe se aproximar e levá-la. Olhei para Alexandre e tive a sensação que ele sorriu para mim.
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