A Garota da Lua

18 O mundo — trajetos inesperados, buscando seu lugar.


— Enlil! – Testei seu verdadeiro nome, e ele abriu os olhos com muita dificuldade — Você está bem?

— Sim, só muito cansado e tonto, foi difícil sair de lá, havia muita magia protegendo a casa. – Fechou, novamente, os olhos, parecia dormir, achei que seria melhor alguém ficar acordado para vigiar.

Estava preocupada, principalmente, com Nix, além de não saber onde estávamos, mas depois de duas noites sem dormir, acabei cochilando. Acordei com os primeiros raios de sol batendo no meu rosto e com alguns mosquitinhos voando sobre o meu nariz, que espantei com a mão, olhei para o lado e Gabriel ainda dormia pesado, devia ter gasto muita energia na fuga. Sentei-me, olhando em volta, tentando reconhecer o lugar, só havia árvores e plantas, mas um vulto me chamou a atenção, entrei em alerta, uma espada apareceu na minha mão.

“Vou ter que aprender a controlar isso”, pensei. Tentei visualizar melhor o vulto, desfocado pela luz do sol, notei que era uma figura humana, que se aproximava de nós, com bastante prudência, quando estava bem perto pude distinguir uma mulher jovem de longos cabelos negros ondulados, vestindo uma túnica branca, pensei que fosse alguma moradora local, ainda perdida no tempo dos hippies.

— Olá! – Eu a cumprimentei e ela apenas me olhou curiosa, devia parecer bem estranho um homem e uma mulher dormindo juntos em um bosque, além disso a mulher ainda tinha uma espada na mão.

— Olá — ela disse, depois de um tempo, estranhei que ela falava minha língua.

— Você sabe onde estamos?

— No bosque – ela respondeu o óbvio.

— Você sabe como sair daqui? – indaguei e ela assentiu com a cabeça, depois estendeu a mão para mim.

— Vem que eu mostro a você – ela ofereceu, parecendo tão inocente e dócil, pensei que não pudesse fazer nenhum mal a mim ou a ninguém, então estendi minha mão na direção dela, confiante, mas antes que nossas mãos se tocam-se, senti um puxão para trás, olhei espantada ao ver Gabriel segurando meu braço com uma das mãos e, na outra, a sua espada.

— Fique longe dela, Ninfa! – ele gritou, alarmado, e a mulher pulou alto e para trás, como um gato acuado, percebi que aquela não era uma pessoa comum.

— Vá embora! Não faremos nenhum mal a você – Gabriel avisou e a mulher apontou o dedo acusador para ele.

— Você é um deles! Você é um dos traiçoeiros do povo do Oriente! – Cuspiu no chão, em sinal de desprezo, e saiu correndo entrando entre as árvores.

— O que foi aquilo? – perguntei, ainda assustada, parecendo acordar de um sonho.

— Ela é uma de nós, que enlouqueceu com o passar dos séculos, vive pelos bosques, encantando e matando os incautos. Esses seres têm muita raiva, não sabem administrar isso – explicou.

— Existe outros assim como ela? – questionei admirada, nunca havia imaginado, que viver por tanto tempo pudesse causar loucura.

— Sim, existem, os mortais os chamam de demônios ou fantasmas ou coisas parecidas. Porém, os piores são os que vivem na cidade, querem ver mortes e destruição, provocam acidentes, atentados, estão cheios de raiva e ódio pelos mortais, os culpam pelas nossas perdas.

— Acho que eu conheci um deles, na estação do metrô, quando Jane apareceu como uma velhinha falando que evitei um acidente – relembrei quando toda aquela história havia começado.

— Agora, precisamos sair daqui, porque não é seguro – Ele declarou, com preocupação.

— Você sabe onde estamos?

— Em alguma parte da floresta junto ao lago, não conseguimos ir muito longe.

— Mas, como vamos sair daqui? Devem estar nos procurando por toda a região. – Estava aflita.

— Tenho uma ideia – ele revelou e o interroguei com os olhos. — Essa é uma região onde há muitas casas de veraneio de pessoas muito ricas, precisamos achar uma delas e torcer para encontrar um carro, que possamos usar.

— Você quer invadir uma casa e roubar um carro?

— Sim – respondeu, dando de ombros, como se fosse a resposta mais natural.

— Mas isso é um crime?

— Isso é muito pouco perto do que tive que fazer para sobreviver, todos esses séculos – revelou, de maneira casual, então calei minha boca.

Nós andamos pela floresta, com cuidado, tanto por causa do pessoal de Salvatore como da imortal louca, que andava por lá. Finalmente, saímos da mata, chegando um uma pequena estrada sem movimento, caminhamos por ela, eu desejando uma carona, pois estava com fome e sede, por fim, me sentei sobre uma pedra.

— Preciso descansar um pouco! – pedi desesperada, muitas vezes, ainda me sentia como uma mera mortal.

— Não podemos, temos que continuar – Gabriel ponderou, me puxando pela mão, e mesma exausta, levantei e continuei a andar.

Pela altura do sol, já passava do meio-dia, quando avistamos um muro de pedra coberto por hera e com um portão de ferro trabalhado, que através das suas barras, podíamos ver a parte de trás de uma mansão e a porta de uma garage.

— Será que tem alguém em casa? – perguntei, olhando através do portão, procurando sinais de vida.

— Não parece, mas vamos verificar.

— Mas, deve haver alarmes!

— Com certeza, mas isso nunca foi um problema para mim – ele falou confiante. – Eu vou entrar e desarmá-lo.

— Se você entrar, vai disparar os alarmes.

— Não, necessariamente – respondeu e, lentamente, se desintegrou no ar, senti uma leve brisa, que brincou com meus cabelos e desapareceu, eu fiquei lá surpresa, pois foi a primeira vez que presenciei aquele truque tão de perto.

Já estava parada na frente do portão por algum tempo, que me pareceu uma eternidade, quando ouvi um click, eu empurrei o portão e ele não ofereceu resistência, entrei no quintal com cautela, cheguei até a porta e torci a maçaneta e ela se abriu, caminhei vagarosamente para o interior da casa, que parecia vazia.

— Gabriel, onde você está? – chamei, em voz baixa.

— Aqui – Ouvi ao meu lado, dei um grito e ele começou a rir.

— Pare com isso, ainda não me acostumei com essa coisa – falei, ofegante colocando a mão no peito a procura do meu pingente de turquesa.

— Você está com fome?

— Sim, com muita.

— Eles têm uma boa despensa aqui, vamos comer algo e depois procurar roupas e um cofre, porque precisaremos de algum dinheiro – Gabriel planejava cada passo e eu me sentia uma ladra. – Vou até a garage para ver se eles têm algum carro por lá.

Eu fui para despensa, que estava recheada com muitas coisas boas, provavelmente, abastecida recentemente, esperando a chegada dos donos da casa. Peguei patês francês, torradas, azeitonas gregas, coração de alcachofras e macarrones e biscoitos suíços.

“Esses caras vivem bem”, pensei, enquanto fazia a limpa, coloquei tudo na mesa da cozinha e ainda algumas garrafas de água de uma marca bastante cara. Ouvia Gabriel vasculhar a casa, até o momento que ele retornou, com um monte de notas de euro na mão.

— Olhe só o que eu achei! – declarou feliz, me mostrando o dinheiro.

— Vamos precisar de tudo isso?

— Tem muito mais de onde eu tirei isso, eles devem esconder uma parte do dinheiro deles aqui – ele me explicou, mas ainda não justificava o que estávamos fazendo.

— Não se preocupe, Diana, eles não sentirão tanta falta assim do dinheiro. Além disso, parecerá um roubo, eles poderão acionar o seguro.

— Pode ser – respondi, sem me sentir melhor.

— Bela mesa! – Gabriel sentou animado, comemos, eu estava faminta e ele, também, parecia ter muita fome.

— Não podemos demorar muito, precisamos partir logo, para quando anoitecer, estarmos longe dos olhos noturnos de Nix — argumentou, me deixando preocupada, se acaso eles nos capturassem, o que faria conosco, seria mandada de novo para o Esquecimento? E Gabriel? Provavelmente, seria mantido como prisioneiro como moeda de barganha.

— Achei um quarto cheio de roupas lá em cima, alguma pode nos servir – E foi isso que fizemos depois de comer, vasculhei por todo closet, procurando algo que me servisse. No entanto, era difícil pois a dona da casa devia ser muito magra e baixinha, mas, finalmente, encontrei uma roupa que deveria ser bem larga para ela, e que me vestiu bem, apesar de não ser o meu estilo, acho que Gabriel teve o mesmo problema, também arranjei um chapéu para esconder meus cabelos.

— Desarrume um pouco a casa! Assim parecerá mais com um assalto. E vamos fazer uma pequena mala para parecermos um casal em viagem – Assim, escolhi algumas roupas, que achei que caberiam nele e em mim e enfie tudo em uma mala de marca chique e famosa. Também, peguei uns óculos escuros para cada um, para completar nosso papel de turista, era duro admitir, mas estava começando a gostar daquilo.

— E como vamos sair daqui? Essa surpresa em guardei para o fim – disse, com um sorriso travesso e me guiou até a garage, onde havia dois carros cobertos cada um com uma capa, ele tirou a primeira capa e uma reluzente Ferrari vermelha surgiu.

— Eu gostaria de usar este carro – falou cheio de pesar, então me lembrei da mesma situação com Samuel, quando chegamos a Milão. Os homens! E ele continuou, mas, infelizmente teremos que usar esse para não chamar a atenção – Puxou a outra capa e lá estava um magnífico modelo esportivo de uma famosa marca alemã.

— Puxa! Que pena! – rebati irônica, e não perdemos tempo, entramos no carro, Gabriel verificou que ele estava abastecido o suficiente para sairmos dali a porta da garage e o portão da entrada se abriram para nossa passagem e começamos nossa jornada. — Para onde estamos indo?

— Agora para Roma, depois para Turquia.

— Turquia? Por que Turquia?

— Porque Istambul é a única cidade do mundo onde o Ocidente e o Oriente se tocam, além do mais minha mãe está morando lá agora, ela poderá nos ajudar. – Eu não estava gostando nada daquela ideia de ir ao encontro da mãe de Gabriel, conhecendo o passado de nossas famílias, parecia que estava saindo do fogo e entrando na fogueira. Imaginei se estaria caindo em uma armadilha, como meu pai fizera com ele.

— Eu não posso ir para a Turquia!

— Não se preocupe, lá você estará segura.

— Só tem um pequeno detalhe, meu passaporte ficou na casa de Salvatore, quando fugimos.

Ele olhou para mim e deu aquele maravilhoso sorriso, cheio de confiança.

— A gente dá um jeito nisso! – Não duvidei que ele daria.

Ele ligou o rádio do carro, ouvimos uma infinidade de músicas italianas, viajávamos pelas estradas secundárias, passando por lindas paisagens, evitando as grandes rodovias, pois além de não termos documentos, estávamos em um carro roubado, apesar que demoraria mais tempo.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Você e Samuel adoram carros velozes e Salvatore está cada vez mais poderoso por causa da tecnologia. Então, por que vocês ainda lutam com espadas e flechas?

— Acho, porque usamos estes tipos de armas por milênios, as armas de fogo só apareceram há poucos séculos e, também, são mais difíceis de serem controladas. – Era uma boa resposta, estava pronta para outra pergunta quando ele diminuiu a velocidade, ele corria muito, olhei para frente, havia um carro com policiais nos mandando parar, e foi isso que Gabriel fez, parou no acostamento.

— Por favor, desçam do carro! – O policial, que chegou na nossa janela, ordenou, e não sabia como entendi o que ele falou. Olhei para Gabriel, sem saber o que fazer, pois com certeza seriamos presos, ou poderíamos atacar e matar os policiais, mas não achei aquela a melhor das opções, ele assentiu com a cabeça para obedecermos, saímos do carro ele nos pediu os documentos, que, logicamente, nós não tínhamos.