A Garota da Lua
10 O enforcado – aquele que não tem escolha.
Na quinta-feira, a exposição seria aberta para os patrocinadores, autoridades, a imprensa e alguns convidados muito especiais, antes da inauguração para o público em geral no dia seguinte. A entrada do museu estava linda, com holofotes iluminando a sua fachada e os banners, colocaram um tapete vermelho na porta principal e uma trilha sonora instrumental, com exóticas músicas orientais, soava nos alto-falantes estrategicamente instalados. Eu estava emocionada com toda aquela gente importante prestigiando o nosso trabalho. Suzana, nossa curadora, parecia andar nas nuvens, distribuindo sorrisos e recebendo parabéns, Hélio fazia jus ao seu nome, como um deus-sol, resplandecia, elegantemente vestido com um belo e caro terno de uma marca italiana, irradiava beleza e confiança, a sua volta grupos de admiradoras femininas e alguns masculinos se formaram, buscando sua atenção. Eu e Helena caprichamos no visual, sabendo que deveríamos sair em algumas fotos, queríamos ficar bonitas.
Foi durante uma sessão de foto, que aconteceu um fato estranho. Estávamos nos preparando para uma foto da equipe responsável pela exposição em grupo, junto com o diretor do museu e o prefeito, enquanto um fotografo profissional tentava nos organizar.
— Mocinha! – Ele apontou para mim. – Não fique perto do seu irmão, vocês são muito altos e seus cabelos chamam muito atenção, fique cada um de um lado do grupo.
Quando eu olhei para o lado, era Hélio que estava lá.
— Não somos irmãos!
Troquei de lugar.
— Desculpe, mas vocês se parecem, por isso eu pensei.
Devido ao meu biótipo pouco comum, nunca ninguém foi confundido com um parente meu, isso me criou uma pequena dúvida, se por acaso Hélio e eu poderíamos ter algum tipo de parentesco mesmo distante, pois, por mais que eu negasse e, por mais, que amasse meus pais adotivos, lá no fundo do meu coração, queria conhecer minha real história, saber quem eram seus pais biológicos.
Estava perdida nos meus pensamentos, quando tive a sensação de ver um rosto conhecido na multidão, apenas um relance, mas parecia com Gabriel, imaginei que estava ficando obcecada, vendo aquele homem em todo lugar.
Finalmente, chegou o momento da cerimônia oficial de inauguração, o prefeito e o diretor do museu se posicionaram na frente da porta da sala, onde seria exposta a estátua do deus dourado, em uma cena teatral, a sala onde estávamos ficou na penumbra, uma música orquestral, tipo trilha de filme, ecoava nos alto-falantes, e eles fingiram que abriam a porta da sala e quando ela estava totalmente aberta, uma luz iluminou diretamente a estátua e a trilha sonora mudou ficando mais emocionante, o público presente explodiu em aplausos
— Muito bom! – Helena exclamou ao meu lado. – De quem foi toda essa ideia?
— Foi de Hélio.
— Nossa, o senhor-sol me surpreendeu. Ele foi bem teatral.
Nesse momento, percebo, de novo, o mesmo rosto conhecido na multidão, tenho certeza que não estou ficando maluca, penso licença e vou ao encontro dele.
— Gabriel, o que faz aqui? – pergunto, pois eu nunca esperaria ver ele naquele lugar, principalmente, nesse dia.
— Fui convidado – respondeu, de forma casual. – Estou fazendo cobertura do evento, vou escrever sobre isso. Venha! Quero ver a estátua mais de perto.
Entramos juntos na sala de exposição, agora liberada a visitação, ele parou bem na frente da estátua e ficou olhando fixamente para seu rosto, esse ato me incomodou um pouco, não sei porque.
— Ela é linda! – disse, depois de um tempo em silêncio, foi como se quebrasse um encanto.
— Sim, é muito bonito. O nome dele é An, o senhor supremo do oriente – Gabriel confirmou, com um certo tom de tristeza na voz, imaginei como ele saberia o nome daquela divindade.
— Bonito e muito bem protegido. – Ouvimos alguém falar nas nossas costas, não precisamos nos virar, pois Hélio se postou ao lado de Gabriel, que não falou nada, apenas olhou para ele, cheio de rancor. — Gabriel, gostaria de lembrar a você, que essa estátua é feita de madeira. Nós sabemos que madeira pode queimar e ser completamente destruída, por isso, tomamos muito cuidado com ela, pois seria uma perda lastimável — continuou, irônico.
Achei aquela história muito estranha, se fosse em outro contexto pareceria uma ameaça, por via das dúvidas, sutilmente, mudei de posição ficando entre eles, quando percebi os olhos de Gabriel ficarem negros de ódio.
— Vamos, Gabriel. A sala está muito cheia e eu estou com sede, quero beber algo – falei o puxando pelo braço. – Até mais tarde, Hélio.
Arrastei Gabriel pelo meio dos convidados, afinal aquele era o meu território e eu sabia, exatamente, para onde queria ir, para um lugar mais reservado. Então, entramos para uma sala de exposição, que estava fechada naquela hora, parei e o encarei e, instintivamente, levei a mão a minha pedra turquesa no meu cordão, para me acalmar.
— Eu estou enganada ou aquela conversa de Hélio pareceu uma ameaça?
— Não, você está certa, ele me ameaçou. Ameaçou a queimar a estátua.
— Mas, por que ele faria algo assim? O que aquela estátua tem a ver com a briga de vocês?
— Ele pertence ao meu povo, foi tirada de nós há muitos anos atrás. Hélio sabe como essa estátua é importante para mim e para toda a minha gente.
— Mas, Hélio não seria louco de destruí-la só por causa de uma briga de família, é um tesouro muito precioso, seu valor histórico é inestimável.
— Sim, ele seria. Você não sabe, mas Hélio pode ser bem irracional, quando sentimentos extremos estão envolvidos.
— Ele não parece esse tipo de pessoa. – Estava perplexa com essas informações, mas pressentia sinceridade nos olhos de Gabriel
— Não tenho saída, preciso me afastar para não provocar a ira dele, enquanto penso como poderei manter a estátua salva. Preciso partir. – Gabriel estava resignado, sabia que não poderia vencer Hélio nesse momento.
— Você vai embora?
— Eu não quero ir, mas preciso, não tenho outra saída. Venha comigo, Diana?
— Você enlouqueceu, não posso abandonar tudo e partir com você. – Com essa fala tive uma estranha sensação de “dèjá-vu”, era como se houve passado por essa situação antes. Ele afastou alguns fios de cabelo do meu rosto.
— Não posso deixar você para trás, outra vez. – Antes que eu pudesse perguntar o porquê do “outra vez”, ele beijou. Um beijo quente e sensual, seus lábios eram macios, suas mãos deslizavam pelo meu corpo, ávidas, mergulhei meus dedos nos seus cabelos, enquanto sua boca descia pelo meu pescoço, era como se eu esperasse, por isso por toda minha vida.
— Oh! Desculpe! – Ao ouvir isso, eu o empurrei e ele me soltou. — Pensei que a sala estivesse vazia. – A mulher falou, sem jeito, com um balde e esfregão na mão, parecia uma faxineira, ajeitei minha roupa e passei a mão nos cabelos para tentar arrumá-los, morta de vergonha de ser pega daquela maneira em meu local de trabalho, mesmo não conhecendo aquela funcionária, possivelmente, porque trabalhava no turno da noite. No entanto, ela não se importou com nossa presença, acendeu a luz e começou a passar o esfregão no chão. Ficamos ali parados como dois bobos, sem saber o que falar ou fazer.
— Tenho que ir agora – ele se despediu e saiu da sala, e eu permaneci ali imóvel e sem ação, enquanto a mulher esfregava o chão.
— Boa noite – Enfim, eu disse a ela e sai na direção do evento.
— Pensei que tinha visto Gabriel com você – Helena sussurrou, quando eu me aproximei de um grupo de funcionários do museu.
— Sim, ele estava aqui, mas já foi embora. Preciso de um copo d’água.
Helena me seguiu até a sala, onde estava sendo servido um pequeno coquetel.
— Por que ele já foi embora? E por que você não foi com ele?
— Eu não podia abandonar a inauguração.
— Ninguém iria notar – ela respondeu e eu pensei que tinha razão.
Fiquei o resto da noite ansiosa, com um mal pressentimento, tentei telefonar algumas vezes para Gabriel, mais ele não atendeu, estava inquieta, não conseguia prestar atenção nas conversas dos meus colegas de trabalho, minha cabeça não estava ali. Suzana, ansiosa, aproximando-se do nosso grupo.
— Vocês viram Hélio em algum lugar? Eu queria apresentá-lo alguns dos nossos mecenas, mas não o acho em lugar nenhum.
Isso fez um alarme disparar na minha cabeça.
Não. Foi a respostas de todos, por isso pedi licença e me dirigi até a sala em que a estátua do deus dourado estava exposta, com exceção dos seguranças, o local estava vazio.
— Vocês viram Hélio?
— O senhor saiu, senhora – Um dos homens me respondeu, de maneira excessivamente formal.
Senhora? Que idade eles acham que eu tenho?
Contudo, aquela resposta me deixou mais angustiada, então tentei falar com Gabriel, outra vez. Por alguma razão, sabia que algo estava errado e antes de sair da sala, olhei novamente para estátua, que se assemelhava a Gabriel.
Não tinha o que fazer, como procurar, então peguei uma carona com Helena e fui para casa. Estranhamente, ela também estava um pouco quieta demais, achei que poderia ser somente cansaço.
Demorei muito a dormir, agitada pelos fatos da noite anterior, tínhamos sido dispensados na manhã seguinte, já que a exposição só seria aberta para o grande público à tarde. Desejava ficar mais tempo na cama, no entanto, isso não aconteceu, pois tive um sonho muito perturbador. Sonhei que estava na sala do deus dourado, eu podia enxergar tudo que acontecia lá, não com meus olhos, mas com os olhos de Hélio, vi quando Gabriel lutava com os seguranças que estavam no museu, apesar de sozinho, ele era rápido e forte, movia-se como o vento, parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Seus opositores apesar de, mais numerosos e fortes, se esforçavam para acompanhar seus movimentos. Até que, finalmente, Gabriel ficou encurralado em um canto da sala e, para o meu total espanto, em sua mão, surgiu uma espada em chamas.
— Como eu falei hoje para você, o fogo não é uma boa companhia para uma estátua de madeira, Enlil. Lembre-se o fogo também é o meu elemento, Enlil. Não me desafie, ou hoje esse belo museu será vítima de um horrível incêndio, com a perda lastimável de um tesouro histórico. Então, abaixe sua espada, porque meu pai está ansioso para receber sua visita, mais uma vez, depois de tanto tempo.
— Como soube que estaria aqui, Hélio? — Gabriel perguntou de forma dura.
— Meu pai estava certo, quando preparou essa armadilha, pegamos o nosso pássaro fugitivo e, sem querer, estamos preste a pegar outro. — Era a voz de Hélio que saía da minha boca, calma, mas com um toque de ironia. Mas quem era Enlil?
Então, com uma expressão resignada, Gabriel abaixou a espada, que desapareceu no ar, os seguranças o agarraram pelos braços e todos desapareceram e eu acordei.
Achava que meu subconsciente estava me pregando peças, mesmo assim não consegui mais dormir, fiquei deitada muito tempo no escuro, mas me dei por vencida, acabei acendendo o abajur ao meu lado, na mesa de cabeceira, estava o livro de Samuel Zargo, abandonado há dias, devido ao ritmo intenso do meu trabalho, talvez esta não fosse a melhor leitura para me acalmar, mas era o que eu tinha a mão.
Abri na página marcada, no capítulo cujo o título era “O começo da guerra” contava sobre como o Senhor do Ocidente ficou ambicioso, renegado o trato de não interferência na vida dos humanos e querendo mais poder entre os seus iguais, não respeitando as fronteiras, há muito tempo determinadas. O Senhor do Oriente teria ficado preocupado mandando seu filho para negociar, mas foi feito prisioneiro, na Terra das Luzes, mas a Dama da Lua teria se apaixonado por ele, e ajudado a fugir. O Senhor do Oriente ficou furioso por seu filho ter sido feito prisioneiro e a guerra começou. Era uma guerra onde todos estavam envolvidos, inclusive os seres humanos, que participavam dela sem saber do seu real sentido, eram como peões de um jogo de xadrez.
Quanta bobagem! Pensei, jogando o livro de lado, percebi que já está amanhecendo. E mais uma vez, olhei para o meu telefone para saber se havia algum recado, mas não encontrei nada, queria lembrar onde era a casa de Gabriel, mas não pude. Já que não conseguia mais dormir, resolvi ir até o museu, talvez, fosse melhor falar com Hélio, assim, eu me arrumei e andei até o metrô, estava esperando o trem, na estação estava, excepcionalmente, vazia. Fiquei pensando no que eu iria fazer, como poderia achar Gabriel, considerando que toda essa paranoia fosse fruto da minha imaginação.
— Algum problema, querida? – Ouço alguém do meu lado, já conhecia aquela voz de outras vezes, a mesma velhinha que me perseguia há dias, porém hoje não estou a fim de aturar aqueles papos malucos, viro-me pronta para reclamar, mas ao meu lado está uma mulher bem bonita, por volta dos 40 anos, com os cabelos louros escuros, elegantemente penteados, e vestindo um bonito conjunto de linho branco e apesar de estarmos no subterrâneo, ela usa grandes óculos escuros, parecendo uma socialite, fico sem palavras.
— Ele o capturou – ela disse, me encarando
— Ele quem? Capturou quem?
— Seu irmão, Hélio, capturou Gabriel, e o levou para casa do seu pai – respondeu e eu estava zonza, sem entender nada.
— Espera aí! Como sabe? Que história maluca é essa? E quem é a você? – perguntei desconfiada, ela tirou os óculos e olhou para mim e eu encarei olhos idênticos aos meus.
— Eu sou sua mãe, Diana.
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