A Garota da Lua

20 A roda da fortuna – o destino incerto


— Você precisa de roupas novas – disse Gabriel, quando arrumava uma pequena bagagem.

— Você não vai querer que eu use as roupas das suas amigas, também – retruquei um tanto irritada, ele olhou para mim, divertido.

— Não precisa ficar com ciúmes delas, elas só me ajudaram a superar a solidão desses milênios, enquanto eu buscava por você. – E me olhou como um cachorrinho perdido, tive que rir. Ele era um manipulador. — Vamos fazer compras, ainda temos tempo. – Eu ainda não conseguia me acostumar com aquele estilo de vida, em um momento estavam lutando, sendo sequestrado ou fugindo, e logo depois conversando, prosaicamente, sobre carros ou comidas ou fazer compras.

Gabriel me levou a algumas das lojas mais descoladas de Roma, comprou o que gostava sem piscar, já estávamos carregados, quando pegamos um táxi para voltar ao apartamento dele, pois teríamos que ir logo para o aeroporto. O rádio estava ligado em uma estação de notícias, e algo chamou atenção de Gabriel.

— Poderia aumentar um pouco o volume? – pediu ao motorista, ele o fez, não muito satisfeito. O rosto de Gabriel ficou tenso, olhei para ele, assustada.

— O que houve?

Ele pediu para esperar um pouco com a mão, e quando o noticiário terminou.

— Acho que começou?

— Começou o quê?

— A bolsa de Nova York caiu, ao que parece há uma crise financeira começando nos Estados Unidos, isso pode levar a uma crise de âmbito mundial.

— Você acha que Salvatore está atrás disso?

— Possivelmente, talvez isso leve a uma crise mundial, foi assim que começou a 2ª grande guerra.

— O que vamos fazer?

— Vamos para Istambul, encontrar minha mãe, reunir com os meus, para nos planejarmos. Teremos que pensar em uma estratégia.

Sinceramente, não estava nada confortável em ir para casa da mãe deles, no meio do seu povo, afinal, eu era a filha do inimigo, mesmo a minha relação com Gabriel sendo forte, pertencíamos a lados opostos.

No apartamento de Gabriel, joguei todas as roupas que comprei em uma pequena mala, depois corremos para o aeroporto, a viagem foi tranquila, durou um pouco mais de duas horas. Fomos uns dos primeiros a deixarem o avião, não despachamos a bagagem para ficar mais rápido nossa saída, como tinha o passaporte da Comunidade Europeia seria mais fácil. Mas, logo que sai pela porta, estranhamente, tropecei em algo, perdi o equilíbrio, tentei me manter de pé, porém não consegui e cai de mal jeito, torcendo meu tornozelo esquerdo, sem entender como aconteceu aquilo, fiquei sentada ali no chão do corredor, bem na área de desembarque, não podendo me levantar e quase chorando de dor. Gabriel se ajoelhando ao meu lado.

— Você está bem? Pode andar?

— Não – Sacudo a cabeça, segurando as lágrimas. – Torci o tornozelo – Comuniquei, apertando forte a parte dolorida, ele me olhou com se não entendesse o que eu disse, enquanto, rapidamente surgiu uma cadeira de roda e um saco de gelo. Os funcionários do aeroporto me ajudaram a sentar e aplicaram o gelo no local da lesão, o que aliviou um pouco a dor, enquanto Gabriel conversava com um deles em uma língua, que presumi ser turco, ele balançava a cabeça em negação, depois se aproximou de mim e falou no meu ouvido:

— Eles querem que você tenha atendimento médico, mas eu recusei, pois quero sair logo daqui. Estou com um mal pressentimento. Está bem para você?

— Sim – digo, porque o frio havia aliviado a dor, apesar de ainda não poder andar.

Gabriel carregava nossas malas e um funcionário do aeroporto empurrou a cadeira de roda até o saguão principal.

— Vou verificar se nosso transporte já chegou. Fique aqui.

— Aonde você acha que eu vou assim? – respondi com ironia, ele me deu um pequeno sorriso pegou nossas malas e saiu, logo depois o funcionário do aeroporto, também, sumiu. Estava muito atenta a movimentação ao meu redor, quando minha cadeira começou a se mexer, primeiro achei que fosse Gabriel de volta, mas quando olhei para trás, vi Nix a empurrando.

— Olá, Diana! Pronta para dar um passeio – ela falou, calmamente, eu não sabia o que fazer, não podia correr, talvez, se gritasse, mas ela continuou. – Não pensei em gritar, não chame atenção, pois não gostaríamos que esse aeroporto sofresse, digamos, um atentado ou algo parecido, muita gente inocente poderia morrer, então, fique quieta.

— Como você descobriu que vínhamos para aqui? – perguntei em voz baixa, para não chamar a atenção, tentando me manter calma.

— O nosso mestre é muito esperto, falou que não adiantaria ficar procurando vocês pela Itália, deduziu que viriam para Istambul, no ninho de Gabriel, por isso ele nos mandou direto para aqui. E só esperamos vocês chegarem e depois separei a do seu par.

— Foi você que me derrubou na saída do avião?

— Sim, foi uma boa ideia, não acha? – respondeu, sorrindo. – Agora temos um jatinho nos esperando para levá-la de volta para sua casa. Você pode não entender, mas estou lhe fazendo um favor, tirando-a das garras do inimigo. – Enquanto falava ela levava a cadeira com facilidade, sem ser parada em nenhum lugar, até chegarmos em hangar onde um jatinho nos esperava. Um dos homens que estava lá dentro, me levantou da cadeira e me levou como se eu fosse uma criança para dentro da aeronave, me acomodando em uma das confortáveis poltronas.

— Não esqueça do cinto de segurança, Diana. Não queremos que você se machuque – Nix brincou com ironia. – Podemos ir agora! – ordenou ao piloto.

— Temos que esperar as ordens da torre – o piloto comunicou, eu torcia para que Gabriel notasse logo o meu desaparecimento.

Pouco tempo depois, o avião começou a taxiar para fora do hangar, mas, no momento, o nariz da nave saiu, começou uma chuva torrencial, raios rasgavam o céu, seguidos por terríveis estrondos e ventos fortes varriam tudo ao seu redor, com um barulho assustador.

— Gabriel! — Nix gritou, irritada. — Vamos, levante voo!

— Não podemos – advertiu o piloto. – A torre suspendeu todos os voos por causa da tempestade.

— Temos que sair daqui!

— Não vamos conseguir, o vento está muito forte!

— Gabriel está muito forte, depois de toda aquela energia que você tem dado a ele – Nix falou entre os dentes, cheia de raiva.

— Como assim?

— Como assim? Você não sabe? Toda vez que vocês transam, você doa um pouco de sua energia para ele, por isso ele quer ficar com você para ter mais poder – explicou com sarcasmo.

— Isso não pode ser verdade! É tudo mentira sua!

— Acredite no que você quiser, Diana! – conclui, sem paciência, depois gritou com o piloto, novamente. – Tire-nos daqui, agora! – Ele não teve coragem de discordar, pois sabia que Nix poderia ser mais perigosa do que a tempestade.

O avião taxiou na pista vazia, o piloto desligou a comunicação com a torre e começou a corrida para levantar voo, a chuva estava muito forte e o vento balançava o avião, mas ele começou a se elevar do solo, quando um raio atingiu uma das asas, dando início a um incêndio. Sem escolha, o piloto desceu a aeronave, notei os trens de pouso tocarem, novamente, o solo, segurando firmemente os braços da poltrona, onde estava sentada.

O interior do avião começou a se encher de fumaça, não dava para ver quase nada, ouvíamos o barulho das sirenes dos carros de bombeiros que se aproximavam, alguém abriu a porta, neste momento, senti meu cinto de segurança ser aberto e me erguer do assento, depois, entrei em um turbilhão, sem entender o que estava acontecendo. Quando dou por mim, outra vez, estou deitada em algum lugar no meio da lama completamente encharcada e suja, o meu lado estava Gabriel em igual estado, ele respirava ofegante, limpando o rosto da água que dificultava sua visão.

— Como você me encontrou? – perguntei, tirando meu cabelo enlameado do rosto.

— Quando voltei para o saguão e vi que você havia sumido, pressenti que tinha o dedo de Salvatore, achei que a levariam o mais rápido possível de volta para Itália, por isso comecei a tempestade para não haver decolagens, e quando vi que aquele avião insistia em subir, descobri onde você estava.

— Muito esperto!

— Obrigado, mas precisamos sair daqui, ainda estamos muito perto do aeroporto, temos que chegar ao lado oriental. Consegue andar?

— Posso tentar? – Fiquei de pé, mas com muita dificuldade para caminhar.

— Venha se apoie em mim. – Foi o que fiz, na verdade, ele me carregou quase sozinho, até uma estrada próxima ao aeroporto. Fiz jus a minha boa sorte, quando um taxi passou e parou para nos socorrer, apesar de estarmos horrivelmente sujos.

Gabriel só relaxou, quando finalmente atravessamos a ponte sobre o estreito de Bósforo para o lado oriental, ao longe pode admirar a mesquita Azul, com seus altos minaretes, o carro se embrenhava pelas ruas estreitas de casas coloridas até pararmos na frente de uma grande casa amarela, com uma grande porta de madeira.

— É aqui! – Gabriel anunciou, senti um frio na barriga e meu estômago embrulhado, depois que ele pagou o motorista, saímos do carro, eu ainda me apoiando nele, saltitando, deu uma leve batida na porta e ela se abriu, entramos em um pátio cercado com parede forradas por azulejos e piso de cerâmica coloridos, parecíamos ter sido arremessados em outra época, havia um cheiro de sândalo no ar, o mesmo cheiro que sentia em Gabriel, tudo estava muito silencioso.

Gabriel me ajudou a sentar um banco de madeira, nesse momento, surgiu uma mulher de cabelos negros presos em um coque, os olhos escuros levemente amendoados bem marcados por kajal preto, vestindo uma túnica longa azul escura com bordados coloridos e muitas joias de ouro, parecia uma rainha, me senti intimidada pela sua figura.

— Mãe! – Gabriel exclamou, andando em direção dela, pegou sua mão e fez uma leve reverência, mas ela o abraçou com força.

— Enlil! Meu filho! É bom ter você em casa de novo!

— Mãe! – ele disse, a puxando delicadamente para minha direção. — Essa é Diana. Diana esta é minha mãe, Kira. – Ele parecia orgulhoso em me apresentar, pensei que deveria estar horrorosa, toda suja de lama, molhada e amassada, mas tentei me levantar para cumprimentá-la, no entanto, senti uma dor aguda, dei um pequeno grito e cai sentada outra vez, completamente sem jeito.

— Muito prazer! – Consegui falar, sufocando minha dor.

— O que há com ela? — perguntou se dirigindo para Gabriel.

— Torceu o tornozelo – Gabriel respondeu, Kira ergueu uma das sobrancelhas bem-feitas, como se não entendesse aquela situação, depois se abaixo na minha frente, segurou meu tornozelo e o ergueu, lutei para não gritar de dor, ela murmurou algumas palavras e soltou suavemente a minha perna.

— Como se sente agora? – ela me perguntou e para meu total espanto, a dor havia desaparecido completamente, com prudência fiquei de pé, não sentia absolutamente mais nada.

— Obrigada!

Kira retribuiu com um leve aceno de cabeça.

— Vocês devem estar cansados e famintos e, com certeza, muito sujos. Vão tomar um banho, que servirei uma ceia em breve.

Então, uma outra mulher com uma túnica negra e um lenço colorido cobrindo a cabeça, surgiu na porta.

— Senhor Enlil, que bom que voltou – a mulher o cumprimentou, comovida, curvando-se quase até o chão diante dele.

— Obrigado, Gizza. É bom está em casa novamente.

— Gizza, por favor, leve Diana para se banhar. Eu cuidarei do meu filho – Kira ordenou, a mulher se curvou levemente para senhora e não olhou para mim.

Eu a segui para o interior da casa, passando pela sala principal, com sofás coberto por almofadas de seda colorida e vários tapetes orientais cobriam o chão e pequenas mesas de madeira trabalhadas completavam a decoração. Gizza me guiou até uma sala de banhos, foi quando eu me lembrei que não tinha nenhuma roupa para trocar, mas para minha surpresa, ela saiu e voltou com a mala que trouxe da Itália. Depois de um longo e relaxante banho, me vesti com uma das roupas, que havíamos comprado, e Gizza me levou até um quarto, onde dormiria, ainda sem olhar na minha direção.

E agora? Pensei, ao me ver sozinha, não sabia o que fazer, quando bateram na porta, Gabriel não esperou a resposta, vestido de maneira oriental com camisa branca de algodão presa na cintura com um cinto trançado colorido e calças largas e sapatilhas, fiquei olhando para ele, imaginando o tempo que levaria para tirar toda aquela roupa.

— Não vamos dormir juntos? — indago, com pesar.

— Lamento, mas minha mãe é muito conservadora – respondeu no mesmo tom. – Vamos, eu vim buscá-la para a ceia. Você terá uma surpresa.

E ele me conduziu para uma sala, onde uma mesa octogonal baixa estava repleta de comida e cercada de almofadas, quando entrei, tive minha surpresa.

— Samuel! Não acredito! Quando foi que você chegou?

Prontamente, ele se levantou e me abraçou.

— Poucas horas antes de vocês. Depois que tive certeza que vocês tinham fugido, peguei um voo com conexão para Istambul – respondeu.

— Vamos! Sentem-se! Comam! – Kira nos convidou e foi o que fizemos, a comida era farta e boa, acompanhada por uma bebida com gosto de iogurte sem álcool e vinho, contamos como fugimos da Itália e depois de Nix, em Istambul.

Gabriel perguntou a Samuel, se ele soube algo a mais sobre a crise na bolsa americana e da sua desconfiança que Salvatore estivesse envolvido.

Nesse momento, Kira começou a conversar comigo

— Foi bom que meu filho a tenha encontrado, Dama da Lua, depois de todo esse tempo procurando por você.

— Fico feliz também por reencontrá-lo. — Mesmo que não me lembrasse dele

— Apesar de esse não ser um encontro feliz. A união de vocês é um tanto tumultuada, com muito percalços e muita dor pelo caminho.

Fiquei sem palavras, engoli em seco, pensando que, talvez, ela esteja nos amaldiçoando, procurei meu pingente de turquesa e o apertei com força, para me acalmar. Depois da farta refeição, foi nos servido chá de hortelã adoçado com mel, o cansaço e o sono começaram a pesar, estávamos acordados a quase 24 horas e os primeiros raios do dia já surgiam.

— Vão descansar um pouco para repor as energias! – Kira ordenou, nos expulsando da sala, achei uma boa proposta.

No meu quarto, encontrei uma fina túnica branca de algodão, provavelmente posta lá para eu dormir, a cama também estava cuidadosamente arrumada, então só me restava trocar de roupa e deitar. Contudo, apesar de estar muito cansada e me sentir confortável, não conseguia dormir, rolando de um lado para outro, sabia que meu problema era a falta de Gabriel, fechei os olhos, tentando descansar, quando senti uma leve brisa inflando a minha coberta e depois percebi um corpo ao meu lado, não precisei abrir os olhos.

— Sua mãe não é conservadora? – perguntei com sarcasmo a Gabriel deitado junto a mim

— Sim, mas não conseguia dormir sem você – Gabriel respondeu, então me aproximei dele e me aconchegando no seu peito, enquanto ele passava os braços ao meu redor.

Não consegui dormir muito, mas o sono foi reparador, notei que precisa cada vez menos descanso para me sentir bem, era mais uma das mudanças que percebia em mim. No entanto, quando acordei, estava sozinha na cama, levantei-me e escolhi uma das belas roupas italianas da minha mala e desci para me encontrar com os outros, todos já estavam na sala de refeições, tomando café, Kira fumava em um narguilé, Gabriel parecia preocupado.

— Diana! – Samuel disse, quando me viu chegar, esse cumprimento me pareceu mais um aviso para os outros.

— Bom dia, Diana. Estava perguntando a Gabriel, se você gostaria de conhecer o mercado. — Kira disse prontamente.

— Claro – respondi, pensando que não estava em uma viagem de turismo.

— Então vamos! – Levantou-se, colocando o lenço que estava no seu pescoço sobre a cabeça – Gizza, venha conosco! Aproveitaremos para fazer compras para casa.

— Você não vem, Gabriel? – quis saber, quando notei que ele não se levantou.

— Não, deixe os homens com seus assuntos, isso é coisa de mulheres – Kira falou, enquanto saía, eu a segui, um tanto relutante.

A antiga construção coberta do Grande Bazar estava lotada de gente de toda espécie, turistas, nativos, vendedores, todos falando, negociando, pechinchando, observava tudo, fascinada.

— O Grande Bazar foi construindo no século XV, é um dos maiores e mais movimentos mercados do mundo. Gostaria de um doce? – Kira me ofereceu um doce folheado com pistache. — Olhe que lindo lenço! Você deveria comprar para você – ela me incentivava, me mostrando uma linda peça de seda colorida.

— Não tenho dinheiro, Kira – argumentei, já que tudo o meu dinheiro havia ficado na casa de Salvatore em Como, sem contar aquele que tiramos da casa que entramos.

— Bobagem! – ela rebateu, abanando as mãos. – Eu compro para você.

Gizza nos seguia calada, carregando uma sacola, guardando as compras, mas nunca olhava diretamente para mim.

No momento, que parei para admirar uma linda luminária de mosaico, uma velha mulher vestida de preto dos pés à cabeça, com os compridos cabelos brancos fugindo no seu lenço gasto, se aproximou e me estendeu a mão, no gesto universal de pedido, falava em uma língua que não entendia.

— Não! Não tenho dinheiro! – falei, sacudindo a cabeça em negativa, mas a velha continuou ao meu lado, falando e balançando a mão esticada com a palma virada para cima.

— Não tenho dinheiro! – Repeti, mas a mão dela agarrou meu antebraço com força, tentei me soltou mas parecia que uma garra de ferro me segurava. –Solte-me! – gritei, mas a velha me encarou, vi os olhos idênticos aos meus no rosto dela, então entendi que era Jane.

— Diana, você tem que partir, voltar para casa! Aqui, você corre perigo! Volte para os seus onde estará segura! – ela me avisou em voz baixa.

— Largue-a, velha maluca! – Kira me ouvi falar, se aproximando de nós, aí ela me soltou, falou algo que não compreendi, mas tenho certeza que xingou Kira e partiu.

—Tudo bem, Diana?

— Não. Quero voltar agora.

— Não se preocupe, está tudo bem.

— Não, quero voltar para junto de Gabriel.

Kira me olhou, sabendo que não iria me convencer a ficar, só restava voltar para casa.

— De volta tão cedo? – Samuel questionou a nos ver entrando na casa.

— Diana se assustou com uma velha mendiga – Kira responde contrariada, tirando o lenço que lhe cobria a cabeça e se sentando, enquanto Gizza leva a bolsa com as compras para a cozinha.

— Onde está Gabriel?

— Estou aqui. – Ele apareceu na sala. – Por que você está tão aflita?

— Quero voltar para casa!

Percebo olhares de dúvida sobre mim.

— Por quê? – Gabriel perguntou, confuso.

— Preciso voltar! – Não tenho uma resposta lógica para aquela pergunta.

E foi, neste momento que algo muito estranho ocorreu, Kira ficou com os olhos vidrados e um olhar perdido e opaco, sem se mexer, como se não enxergasse mais nada.

— O que está acontecendo? – quis saber, assustada ao ver o rosto dela.

— Ela está tendo uma visão – Gabriel me respondeu e todos nós na sala ficamos paralisados, esperando.

Lentamente, Kira parecia retornar, saindo do transe. Então ela nos olhou de um modo estranho, depois se levantou pegando uma bacia de prata e a colocando em cima de uma mesinha no centro da sala.

— Quero que vocês vejam isso? – ela disse, derramando água no interior da bacia de prata, murmurou algumas palavras em uma língua estranha, com as mãos postas sobre o líquido, que se tornou luminescente e como se fosse em uma tela de LCD, um pequeno filme surgiu na nossa frente. Reconheci nele, o museu em que trabalhava, minha colega Helena caminhava com um tablet na mão, em direção a área de exposição, eu sabia que ela iria verificar a temperatura e a umidade da sala do deus dourado, esta tarefa era realizada por um dos membros da nossa equipe pelo menos três vezes por dia. Helena chegou até a porta da sala e cumprimentou, cantarolando, os seguranças de Hélio

— Bom dia, rapazes! – disse em um tom alegre típico dela, eles retribuíram o cumprimento e abriram a porta para ela entrar, indo direto para onde se encontrava o painel com os mostradores, olhou em direção da porta, esperando que se fechasse, depois sua feição ficou séria, colocando o tablet no chão, caminhou até a estátua, ficando bem perto dela, estranhamente os alarmes não soaram, então, ela tirou do bolso da calça, o anel de pedra dourada, que estava na exposição.

— É hora de acordar, Senhor – Helena falou para estátua, colocando o anel em um dos dedos dele, daquele ponto uma luz azul clara e brilhante surgiu, espalhando-se lentamente, até cobrir a figura completamente e o Senhor do Oriente abriu seus olhos negros.

Notas finais
Fim do primeiro livro