A Garota da Lua

14 A força – A inteligência vencendo a brutalidade.


Apesar de ser um fim de semana, era o primeiro da inauguração da exposição, por isso tinha certeza que Suzana estaria lá, para verificar se tudo funcionaria direito. Durante todo o caminho, fiquei bolando uma história e desculpas mirabolantes para dar a minha supervisora, no entanto, nenhuma parecia boa o bastante e, quando cheguei ao museu o lugar parecia um formigueiro, as notícias nos jornais e na televisão, transformaram a exposição em um sucesso. A primeira pessoa conhecida que eu vi, no momento que cheguei, foi Helena.

— Que bom que você apareceu, Diana. Ontem, tivemos alguns problemas que conseguimos resolver, mas hoje está bem mais cheio. Você veio ajudar? – Ela parecia ansiosa.

— Lamento, Helena. Mas só vim falar com Suzana, sabe onde ela está?

— Por aí. Hélio também não apareceu hoje, parece que houve problemas de família. – Imaginei que poderia usar a mesma desculpa, pois embora ninguém soubesse, fazíamos parte da mesma família. –Vou ter de achá-la – Disse e sai para procurá-la.

Acabei encontrando Suzana, na sala da estátua do Deus Dourado, não pude evitar em parar na frente dele e admirá-lo, aquela perfeição toda era por ele ser real, o Senhor do Oriente, An, que meu pai biológico, o Senhor do Ocidente, seja lá o nome dele, transformou em uma estátua, durante a guerra entre seus povos, porém, o que mais me afligiu foi sua semelhança com Gabriel e por saber que ele estaria em perigo. Suzana estava lá com um técnico, que tentava resolver um problema com a iluminação.

— Diana, que bom que você veio. Isso aqui está uma loucura. Hélio desapareceu, teve que resolver um problema de família – Suzana parecia aliviada, quando me viu aproximar-me.

— Desculpe, Suzana, mas eu vim lhe dizer que não poderei ficar, pois preciso fazer uma viagem urgente – notifiquei em um só folego.

— Como? – Ela ficou pasma, de olhos arregalados. – Você também vai me abandonar. Hélio não é um funcionário, mas você é, não pode fazer isso! – Agora, ela estava zangada.

Segurei meu pingente de turquesa na tentativa de me acalmar e qual foi minha surpresa, quando percebi que o rosto de Suzana, também, se descontraiu.

— Suzana, serão só alguns dias. Tudo dará certo.

— Claro, Diana. Eu entendo, você precisa viajar só por alguns dias e tudo dará certo. – Meu queixo quase caiu, com a mudança de atitude dela, então lembrei-me o que Hélio havia me dito sobre a pedra turquesa, que ela tinha o poder de acalmar e influenciar as pessoas, como podia ver agora, que nas minhas mãos tornava-se mais poderosa.

— Preciso ir agora – disse, olhando o relógio. – Até breve, Suzana.

— Até breve, Diana, e boa viagem. – Nesse momento, Helena se aproximou de nós.

— Viagem? Quem vai viajar? — Helena perguntou, surpresa.

— Diana – respondeu Suzana, de maneira casual.

— Viajar agora! Como? – Helena também não conseguia entender.

— Problemas de família. Depois eu explico, Helena. Preciso ir agora. Até breve.

— Até breve, Diana. – Helena não falou mais nada, também não dei tempo para isso, pois tinha que voltar para casa, porque em poucas horas estaria voando para encontrar o meu passado. Já estava saindo do museu, ouvi alguém falar nas minhas costas

— Podemos falar com a senhora? – Eram dois dos homens de segurança de Hélio, eu me assustei.

— Agora, não posso estou atrasada para um compromisso – retruquei, engolindo em seco, fingindo estar calma e olhando para o relógio.

— Sinto muito, mas a senhora precisa nos acompanhar – um deles falou, pensei em sair correndo, mas eles eram bem grandes e fortes.

— Está bem. Para onde vamos?

— Vamos ao estacionamento, precisamos levá-la a um lugar – ele comunicou-me, sem demonstrar emoção.

Sem saída, os acompanhei, com passos lentos, tentando ganhar tempo para pensar em algo. A oportunidade surgiu, quando aproveitando o grande número de visitantes, houve um congestionamento de pessoas, quando um grupo de estudantes e outro grupo de turista tentavam passar pela mesma porta em sentidos opostos, as professoras gritavam para os adolescentes não se dispersarem, enquanto o guia do outro grupo organizava seu pessoal. Nessa hora, rapidamente, me meti no meio do grupo de turista e me abaixei, seguido para o corredor a direita, onde ficavam os banheiros, que também estava bem cheio, o que deixou meus perseguidores confusos. Eu queria que eles pensassem que entrei em um dos banheiros, mas me dirigi para uma pequena porta quase invisível aos incautos, que levava para a área de serviço, por onde era retirado o lixo, torcendo que uma das faxineiras estivesse lá, para abri a porta que levava ao lugar das caçambas de lixo.

— Doutora Diana, o que está fazendo aqui? – Ana, uma das faxineiras, perguntou, quase chorei de felicidade ao vê-la ali.

— Ana, preciso sair rápido, está muito cheio lá fora, pensei em sair pelos fundos – expliquei, sem convencer.

— Doutora, eu não posso abrir a porta, agora, é proibido – ela advertiu, desconfiada.

Segurei minha pedra turquesa, já havia dado certo uma vez, talvez, acontecesse de novo.

— Dona Ana, não vai ter problema nenhum, ninguém vai saber. – Ela me olhou, sem comentários, abriu a porta. – Por favor, agora feche a porta e não conte a ninguém que me viu aqui.

— Claro, doutora. – E ela fechou a porta atrás de mim.

Assim, eu estava no terreno atrás do museu, com grandes caçambas de lixo e cercado por um muro alto, me dirigi para o portão de entrada de caminhões, cujo o tráfego era controlado por um guarda.

— Bom dia – disse, passando por ele e segurando minha pedra. – Vou sair por aqui – afirmei e ele não disse nada, apenas abriu o portão, para eu sair na rua de trás do museu e pegar um táxi para casa, com as mãos tremendo pelo susto.

Quando voltei para casa, não demorei muito, tinha medo que os homens de Hélio aparecessem por lá atrás de mim, abracei meus pais e partir, Samuel me esperava em um carro, com sua aparência jovem.

— É melhor assim, para não causar comentários, pois um casal jovem chamaria menos atenção – comentou, assim que me viu. – Aconteceu algo? – perguntou, quando viu meu rosto, então contei a ele o episódio do museu.

— Isso é mal. Será que já sabe que estamos indo para lá?

— Não sei. Talvez. – Não queria pensar naquilo, nesse momento

Durante todo o trajeto para o aeroporto, Samuel olhava pelo o espelho retrovisor, com o semblante preocupado

— O que foi, Samuel? – indaguei, assustada.

— Acho que estamos sendo seguidos – respondeu, olhei para trás não vi nenhum carro.

— Não estou vendo nada.

— Não podemos ver, mas tenho uma estranha sensação, que estamos sendo vigiados. — Fiquei tensa até chegarmos ao aeroporto.

Para meu espanto, nossos lugares eram na primeira classe do avião, sentados nas poltronas confortáveis com taças de champanhe na mão, perguntei, curiosa:

— Não poderíamos ir voando? Ou algo parecido?

— A distância é muito grande, seria um desperdício de energia. E só você é mais rápida que um avião, Gabriel é menos veloz. – Ele gostava de explicar.

— Como assim, eu sou mais rápida que um avião? Quer dizer que posso voar? — Estava encantada com essa notícia.

— Na verdade, você se transporta por entre dimensões espaço-tempo, no passado parecia mágica ou milagre, hoje, sabe-se que é física, embora ainda desconhecida pelos humanos.

— Por que nunca fiz isso antes, nessa vida?

— Porque você não sabia que podia, terá que aprender a acreditar, para fazer isso de novo. – Quando abri a boca para fazer outra pergunta, a comissária de bordo se aproximou, pedindo para levantar as mesas e apertar os cintos, pois iriamos decolar.

Logo depois do jantar, consegui dormir um pouco, não podíamos continuar nossa conversa no silêncio da primeira classe, mas minha cabeça estava cheia de perguntas. Acordei com o comandante anunciando a serviço de bordo e nossa chegada em breve, em Roma, onde faríamos a conexão para Milão.

— Quando chegarmos em Milão alugarei um carro no aeroporto, depois iremos direto para a cidade de Como, seu pai mora em Balaio, uma cidade vizinha – Samuel me dava as coordenadas. – Lá, em Como, ficaremos na casa de uma amiga, será mais discreto. E por falar em discrição, tenho um presente para você – dizendo isso, retirou do bolso do casaco, um pacote. – Isso é para você.

— Um presente para mim! O que é isso?

— Um gorro para você usar assim chegarmos.

— Por quê?

— Para esconder o seu cabelo, ele chama muita atenção – explicou, pensei em protestar, mas considerei achando que, realmente, seria melhor não chamar atenção.

O avião aterrissou em Roma, fiquei agitada.

— Estou louca para fugir e conhecer a cidade, sempre foi um dos meus sonhos – confessei a Samuel.

— Você ficaria espantada se lhe dissesse que você morou aqui, por muito tempo. Mas, é claro, que a cidade mudou bastante desde que você desapareceu – ele me contou.

— Eu morei aqui, mas foi em outra existência, não me lembro de nada.

— Você não reconheceria mais a cidade, sem bigas, escravos, as maiorias das ruas são calçadas, há muitos monumentos novos e os que você conhecia antes, agora, são ruínas.

Como estávamos na 1ª classe, não foi difícil a conexão e quando chegamos em Milão, já começava a entardecer, alugamos um carro no aeroporto e fomos direto para o lago Como, que ficava a cerca de uma hora dali.

— É uma pena que não possa alugar uma Ferrari, pois ficaríamos muito em evidência – Samuel se lamuriou,

— Você gosta muito de carros.

— A vantagem de se viver muito, é poder aproveitar o melhor de cada época, por outro lado, a desvantagem é conviver com o pior de cada época.

— Mas, você gosta de coisas caras.

— Aprendi apreciar e ter o que há de melhor, mas já vivi escondido nos porões, esgotos e cavernas, com medo de ser capturado, pois estava muito fraco.

— Quando foi isso?

— Houve várias épocas assim, mas a pior de todas foi depois da guerra, na idade das trevas, nosso senhor havia desaparecido, todos nós estávamos muito enfraquecidos, nos arrastávamos pela escuridão, nos escondendo nas sombras. Nosso mundo havia sido destruído, para muitos, a única saída foi fugir para o extremo-oriente. No final das contas, foi bom você não ter vivido nessa época – Ele tinha tristeza na voz.

— E como vocês sobreviveram?

— Nos adaptamos, pelo menos uma boa parte de nós conseguiu, alguns só desapareceram. Então, começamos a aprender, nos infiltramos nos governos, nos clérigos, depois, nas indústrias, nunca éramos as figuras de destaques, não queríamos aparecer, mas os que estavam por trás e que, realmente, governavam e aqui estamos nós, veja seu pai.

— Meu pai? – Fiquei perplexa.

— Sim, seu pai. Ele é um dos homens mais importante do mundo, mas poucas pessoas sabem desse detalhe. Ele é acionista majoritário de grandes empresas no mundo todo, como petróleo, armas, tecnologia.

— Não posso acreditar nisso!

— Mas é verdade.

— E qual é o nome dele, nada como Zeus ou Júpiter ou algo parecido?

— Não, seria muito óbvio. O nome dele é um pouco mais sútil. Ele se chama Salvatore Olímpios.

— Realmente, bem sútil — falei de maneira sarcástica.

Quando, chegamos a Como já era quase noite, o lago refletia as luzes da pequena cidade, com casas de cores em tons pasteis, nos dirigimos para uma vila, que é na verdade, era uma casa, de tom avermelhado, cercada por um muro alto e grandes portões de ferro verde, que se abriram, assim que nosso carro parou na sua frente.

— Essa é a casa de Lilith, ela é uma das mais antigas de nós, uma das primeiras antes da separação, por isso ela tem transito livre entre o Ocidente e o Oriente — Samuel anunciou.

Pensei encontrar uma anciã de cabelos brancos e olhar sábio, mas não foi essa figura que nos recebeu assim que paramos o carro. Ela era tão bonita, que incomodava, cabelos negros que caiam perfeitamente em ondas sobre os seus ombros e costas, pele perfeita com um lindo tom dourado e olhos verdes profundos, seu olhar que parecia nos despir, um corpo lindo que se movia em uma suave ondulação, vestia um conjunto simples de calças largas e camisa branca de linho, mais nada, os pés estavam descalços, encarei-a admirada.

— Lilith sempre causa esta primeira impressão, depois você se acostuma – Samuel sussurrou no meu ouvido antes que ela se aproximasse.

— E você já se acostumou?

— Ainda não e eu a conheço há mais de dois mil anos.

— Samuel, é sempre bom te ver! – Lilith disse com sua voz melodiosa, abrindo os braços e envolvendo Samuel, que pela primeira vez eu vi sem palavras.

— E você, deve ser a Dama da Lua. Como você se chama agora? – a mulher me perguntou

— Diana. Obrigada pela hospedagem.

— Diana, pouco original. Mas, é um prazer receber os amigos. Vamos entrar, vocês devem estar com fome.

A seguimos pela grande sala com assoalho de madeira, móveis clássicos e confortáveis, até uma sala de jantar, onde a mesa estava posta com um belo jantar.

— Sentem-se! Querem um pouco de vinho – Mas, mesmo antes de respondermos, ela nos serviu uma bela taça para cada um de nós e nos entregou. – Espero que goste da comida. É tão bom ter convidados! Depois, de tanto tempo, encontrar os nossos! Fico tão feliz que poderia dançar.

O vinho estava ótimo e a comida maravilhosa, no fundo, tocava uma bela música italiana, Lilith levantou-se e começou a dançar, fiquei hipnotizada olhando para ela, até que levei um chute na canela, despertei com a dor, Samuel me olhava com ar de censura.

— Esqueci de avisar, cuidado com ela! – Não precisei de mais explicações.

— Adoro a Itália, adora essa época, é tudo tão divertido e livre. — Sentou-se novamente. — Então vamos ao que interessa, vocês vieram libertar Enlil.

— Não, nós viemos libertar Gabriel.

— Foi o que eu disse, libertar Enlil.

— Ela sabe, nunca usa os nomes atuais. Enlil é o nome antigo de Gabriel, seu verdadeiro nome. Nós costumamos mudar de nome de tempos em tempos, para nos adaptarmos melhor a época em que vivemos, com exceção dela. Ela sempre foi e será Lilith, a lua negra – ele conclui, sorrindo para ela, que retribuiu o sorriso. A menção da lua negra me deu arrepio, ela seria o meu oposto?

— E qual é o seu nome Samuel? – Perguntei curiosa.

— Isinu, o mensageiro – ele respondeu, sorrindo.

— Eu preferi nunca mudar de nome, apesar de ser muito antiga. Carregarei meu nome por toda a eternidade e o que ele traz de bom e de ruim – ela afirmou. – Quando se vive tanto, descobrimos que nada é eterno, os povos que lutaram no passado por glória e poder, hoje são apenas areias no deserto, outros povos surgiram, reis e heróis amados e venerados viraram ossos e pó, paixão e ódio viraram nada, e o que restou foi o meu nome. A eterna Lilith.

— Da maneira que você fala, a vida eterna parece uma maldição – comentei, preocupada, se um dia pensaria assim.

— Muitas vezes é, quando temos a consciência que nada é eterno, devemos aproveitar, aprendemos viver cada momento de forma intensa, pois, no futuro, o fogo se apaga é tudo virá cinza. Você renasceu há pouco tempo, então, minha bela, aproveite, salve seu guerreiro e viva com ele toda a intensidade da sua paixão, até que um de vocês ou os dois se canse dela. – Seu tom era entediado, como alguém que já passara por uma situação parecida várias vezes.

— Chega, Lilith. Você está assustando Diana, com essa conversa.

— Mas é bom ela saber quem somos, e qual será o seu futuro. – De repente, um lindo sorriso surgiu no rosto de Lilith. – Acho que falei demais, vamos dormir, pois amanhã levarei vocês para conhecer a casa do Senhor do Ocidente.