A Garota da Lua
28 Áries - sem medir consequências
Eu estava sozinha no apartamento na cidade, quando sonhei com Gabriel acorrentado, preso em um labirinto escuro, seus olhos não tinham mais aquele brilho que eu conhecia e, sabia, que sua alma estava sem esperança, presa em algum lugar escuro. Tentei encontrá-lo, porém, no momento que chegava mais próximo dele, entrava em um caminho errado que me levava para longe outra vez, nos afastando. Acordei sobressaltada, com meu celular tocando, já era bem tarde e o número desconhecido, mas eu sabia de quem era a voz do outro lado da linha.
— Diana, é Helena.
— Helena, ou quem quer que você seja, o que quer? – perguntei, com uma mescla de curiosidade e irritação.
— Preciso conversar com você – ela sussurrava.
— Nós não temos nada para conversar – respondi, ainda aborrecida pela traição.
— Por favor, Diana, eu sempre fui sua amiga.
— Não, vocês me usaram para libertar o seu Senhor.
— Eu sei que agimos mal, mas é urgente. É sobre Gabriel, ele corre perigo terrível, poderemos perdê-lo para sempre. – Meu coração bateu mais forte, apesar de negar e tentar fugir do que sentia.
— Que tipo de perigo?
— Não posso falar agora – Helena falava baixinho, como se quisesse se esconder. – Encontre-me no arquivo do museu, amanhã às 7, lá estará vazio a esta hora. Até mais, Diana.
Pensei que aquilo pudesse ser uma armadilha, afinal, Helena havia se infiltrado para libertar o Senhor do Oriente, mas o sonho que tivera com Gabriel e, depois, o telefonema, me deixaram aflita.
O arquivo do museu ficava em um prédio anexo, era grande e lotado de documentos antigos e caixas com papéis, por isso seria fácil nos escondermos ali. Quando cheguei, tudo parecia bem calmo, empurrei a porta que não ofereceu resistência, pois, alguém já a havia aberto. Entrei devagar, olhando com atenção, com minha espada em punho.
— Aqui! – Ouvi alguém me chamar, no fundo da sala, avistei Helena agachada atrás de umas caixas, acenando para mim, corri até ela e me joguei ao seu lado.
— Diana, que bom que veio! – Ela parecia aliviada.
— O que você quer de mim, Helena, ou seja, lá qual seja o seu nome? – respondi, ainda magoada.
— Meu nome original é Baba, mas pode me chamar de Helena, é o nome que estou usando nesse tempo. O assunto é realmente sério, Diana. Gabriel está em um terrível perigo.
— Em perigo! Como, já que Gabriel é muito antigo e forte e sabe se cuidar? – retruquei, tentando convencer mim mesma.
— Mas, Eres é tão antiga quanto ele e ela é louca. Está convencendo o nosso pai que Gabriel é um traidor, quer levá-lo para o mundo dela com prisioneiro – declarou, exaltada.
— Calma aí! Que história é essa de pai e outro mundo? – indaguei confusa com todas aquelas informações que desconhecia.
— Bem, Anan é meu pai, sou irmã de Gabriel.
— Então, você é a irmã de quem ele falou. – Relembrei nossa conversa na Toscana.
— Ele falou sobre mim? – Agora, era Helena quem estava surpresa.
— Sim, ele contou como vocês se escondiam depois da guerra.
— Tempos difíceis – comentou, com tristeza e continuou: – Então, foi por isso que queríamos libertar nosso pai. Eres, também, ajudou. Ela era faxineira no museu. – Recordei do dia da inauguração da exposição, foi ela quem entrou na sala onde eu estava com Gabriel.
— Quem era o terceiro? – perguntei e Helena se assustou.
—Você sabe da terceira pessoa? Como?
— Não vem ao caso. – Não queria falar sobre Cassandra.
— A terceira pessoa era eu – Ouvi alguém falar perto de mim e um homem belo e jovem de olhos amendoados e escuros e cabelos negros apareceu ao meu lado. Eu me assustei, pois não esperava mais ninguém ali. – Meu nome original é Nergal, mas pode me chamar de Miguel.
— Ele é nosso sobrinho, filho do meu irmão Enki, e é um bom guerreiro — Helena explicou.
— Para onde Eres quer levar Gabriel? — Voltei ao assunto.
— Para o mundo dela, o mundo inferior, em outra dimensão, onde só ela controla a entrada e saída, se ele for para lá nunca mais voltará, Eres não permitiria.
Eu pensei que aquela história estava ficando complexa demais.
— Como ela convenceu o pai de você que Gabriel é um traidor?
— Por sua causa, Eres contou ao Senhor que você seduziu Gabriel e o levou para lado do Ocidente. Meu pai está muito confuso, depois de todo aquele tempo enfeitiçado e, como eu falei, ela é louca, viver naquele mundo cheia de almas condenadas e com aquele filho macabro, não fez bem a cabeça dela. Só nos unimos a ela, pois surgiu a oportunidade da exposição no seu museu. Eu não sabia quem era você, que Gabriel a havia conhecido no passado. Mas, meu irmão a reconheceu e aí você sabe toda a história.
— E como poderemos salvar Gabriel?
— Não sabemos? – Helena respondeu, desanimada.
— Sua mãe não poderá interceder por ele? – Pensei em Kira, a mãe de Helena e Gabriel.
— Não, ela nunca iria contra o marido, sabe ela é muito tradicional, fiel aos costumes antigos.
— Talvez, eu conheça alguém que possa nos ajudar. O problema será encontrá-la e, depois, convencê-la.
— Quem? – Helena e Miguel perguntaram juntos.
— Lilith! – respondi, talvez ela pudesse nos ajudar, ela era neutra não pertencia a nenhum dos lados. – Entretanto, não sei como falar com ela?
— Miguel poderá tentar encontrá-la, ele viaja bem rápido! – Helena ficou animada.
— Se Lilith gostar de você, ela o ouvirá — completei.
— Vá agora, Miguel! – ela ordenou, o rapaz não pareceu muito satisfeito, mas obedeceu, desaparecendo na nossa frente. — Agora precisamos de um plano B.
O plano B de Helena era simples, achar Gabriel e resgatá-lo, antes que fosse julgado e mandado para outra dimensão, onde permaneceria prisioneiro por toda eternidade.
— Como faremos isso, só nós duas?
— Ele está na casa de Samuel, lá é o nosso quartel-general, podemos pedir que nos ajude, afinal, ele também é amigo de Gabriel.
— Porém, talvez, haja alguém que possa nos ajudar.
— Quem? – Helena perguntou, interessada.
— Seu irmão Enki.
— Enki? Ele não é confiável!
— Por quê?
— Foi ele quem traiu meu pai, por ciúme de Gabriel, entregando ao seu pai, que o aprisionou – ela revelou a história que eu desconhecia.
— Mas, ele parece arrependido agora.
— Mesmo assim, eu não confio nele!
O julgamento seria antes solstício de inverno, pois era quando o portal para o mundo inferior se abriria e Eres poderia voltar com Gabriel, para a sua casa, mas todos sabiam que as cartas estavam marcadas, a condenação era certa, e por mais que estivesse zangada com ele, não poderia permitir que passasse o resto da eternidade com prisioneiro daquela maluca.
O solstício de inverno que seria dali alguns dias, assim, teria tempo para ir ao sítio para rever Alexandre.
— Mamãe vai salvar o papai da bruxa má – expliquei para meu filho, que me encarava, atentamente, com seus olhos profundos e escuros, como os do pai, enquanto o segurava junto a mim, eu pensava que ser especial ele seria, já que trazia a herança de ambos os povos. Esperava poder vê-lo crescer — Seja bonzinho com a vovó – recomendei, ele me respondeu com um grande bocejo.
— Mãe, se eu desaparecer ou se acontecer alguma coisa comigo, procure Jane. Ela protegerá Alexandre – dizendo isso, lhe entreguei o cartão com o telefone dela, minha mãe me olhou com medo.
— Por favor, Diana, não corra perigo. Pense no seu filho! – ela me advertiu, mas eu beijei a cabecinha dele, com ternura, e o entreguei nos braços dela.
— Por favor, cuide dele, mãe! — Eu pedi, antes de ir embora.
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