A Garota com O Balão Vermelho
1 Capítulo Único
Aquele dia estava claro, até demais, estava branco.
-Doutor, ela acordou! — Uma voz feminina chamava.
Minha cabeça doía por causa da claridade vinda da luz do teto, apaguei de novo.
-Senhorita?
Acordei novamente, me sentia bem melhor e reconheci, estava num quarto de hospital, mas não conseguia falar direito com a enfermeira ao meu lado. Um médico entrou na sala.
-Rachel?
Eu olhei na direção dele.
-Você sabe qual seu nome? Sua idade? E por que está aqui? -Ele perguntou.
Eu pensei um pouco, sabia as respostas, só não sabia quem era ele. O médico responsável por mim?
-Rachel Cake. Vinte e oito anos. Eu... Bati o carro?
-Isso mesmo. -Ele assentiu.
O doutor e a enfermeira anotaram algumas coisas sobre meu estado em uma prancheta, eu estava saudável. Eles me deixaram descansando.
Relaxei e pude observar o quarto um pouco melhor, o relógio na parede marcava meio-dia. Eu estava deitada em uma cama de hospital, os lençóis eram velhos e amarelados, o quarto era branco e quieto, tinha uma televisão velha suspensa no canto, não tinha certeza se ela funcionava. O silêncio era absurdo, tão denso que me deixou assustada caso estivesse com algum problema de audição. As paredes todas pintadas de branco confundiam-se com o chão e com o teto no mesmo tom de neve clara. Caramba, aquilo estava me deixando claustrofóbica. Tinha a impressão que a qualquer momento o chão, paredes e teto virariam um só e engoliriam-me. Minha cabeça ainda doía um pouco, mas eu estava começando a me acostumar. Por quanto tempo fiquei em coma e por que os médicos não me disseram isso? Suspirei e tentei relaxar, bem, eles querem que eu descanse. Arrumei meus travesseiros e olhei para a janela enorme do meu lado. Estava escuro e o céu estrelado. Era uma noite linda.
Eu começava a adormecer, quando levei um susto com o barulho da porta abrindo. Era um sujeito que me parecia familiar, usava um jaleco branco e uma... Coroa de rei? Ele carregava uma bandeja com uma sopa e um copo d'água, apoiou na mesa da minha cama e não disse nada, só ficou parado observando.
Eu continuava um pouco assustada, ele era um enfermeiro? Sorri e agradeci pela comida que, claro, não parecia muito apetitosa, mas eu não poderia recusar.
-É... Você sabe quando vou receber alta... Doutor?
Ele assumiu uma expressão irritada e bateu na bandeja, fazendo um barulho assustador.
-Não me enche o saco! -Berrou. -Já disse pra não ficar me perguntando as coisas, mulher! Eu faço o que eu quiser!
Eu congelei, não sabia o que estava acontecendo.
-Moço, eu...
-Cala a boca! Não quero mais ouvir a sua voz! -Ele derrubou a bandeja no chão, espatifando os pratos e me sujando com a sopa. -Se quer tanto ir embora, vai logo!
Ele saiu irritado, fazendo força pra arrancar a coroa da cabeça, mas estava colada.
Olhei para a porta por alguns segundos, esperando que o homem voltasse. Bem, parece que eu teria de esperar por muito tempo. Sentei na cama e retirei a agulha que deveria conduzir soro até o meu braço, a bolsa de soro estava vazia. Coloquei os pés para fora da cama, pisando no chão. Senti uma dor agúda neles, olhei para baixo tentando me equilibrar pisando em uma porção de pequenos cacos de vidro. — Ai! — Tirava um pé do chão, e o outro doía mais, meus pés estavam começando a sangrar. Sentei na cama novamente. — Os cacos do prato de sopa, é claro. Como é que eu esqueci? — Tentei estancar o sangue com um guardanapo, e depois com o lençol, enquanto isso lembrei que queria visitar minha mãe no hospital. Quando meus pés pareciam ter parado de sangrar, levantei-me, desta vez, calçando pantufas que se dispunham ao lado da cama. "Será que a mãe já melhorou? Vão me deixar visitá-la dessa vez?", fui andando até a porta lentamente, tentando equlibrar a dor na sola dos pés "Tenho que ir, ninguém está aqui pra me impedir mesmo."
Abri a porta e saí do quarto, atrás de mim a porta sumiu. "Merda, queria ver minha mãe, ela não vai estar aqui." encontrava-me agora numa estação de trem, e em sua única plataforma, iria pegar seu único trem. "Por que eu vim para cá? Deveria ter procurado por ela no hospital." meus pensamentos me confundiam, mas era como se, por um momento, eu não tivesse muito controle sob para onde estava indo, e no outro, havia controle total. Andava irritada até o trem parado na plataforma, ele esperava por mim. Observei que era um trem de um único vagão. Dei um passo para dentro do vagão, e então meus pés calçavam um par de tênis All Star rosa pastel que eu costumava usar quando tinha meus onze anos.
Fecharam-se as portas atrás de mim, ouvi a campainha — tim-dim — que servia como sinal de fechamento de portas, em seguida uma funcionária informaria a próxima estação, mas não o fez. Estranhei, e esperei, ninguém disse nada. Lembrei que não havia maquinista, portanto nem funcionários. Éramos eu e meu passeio de vagão único? Observei a minha volta e senti uma sensação de euforia que subia-me dos pés a cabeça, exclamei:
-Mãe?!
E lá estava ela, muito próxima de mim, porém não havia notado sua presença. Exibia um rosto sorridente, saudável e corado, o corpo estava forte e eu podia até observar o brilho em seus longos cabelos castanhos, mas não havia tempo para isso, corri para um abraço apertado. Ela me abraçou e riu. Eu não queria largar mais. "É isso, sim, não vou largar nunca mais desse abraço tão acolhedor." pensava e sorria. E então, me sentia completa. Ainda abraçada eu observei as janelas, a paisagem passava rápida e, de repente, me parecia um passeio normal de trem, nada mais era estranho. E tudo que eu planejava era ficar ali, numa imersão de paz e ternura, onde nenhum mal poderia me alcançar — em abraços de mãe e filha.
Tudo isso até eu sentir que o abraço começara a acabar, o nó começara a desfazer-se. Sabe, o começo do fim de um abraço? Quando você ainda segura a pessoa tão forte, mas ela já afrouxou os braços. "Mãe?". Quando eu me dei por conta, ela tinha soltado totalmente de mim, não existia mais paisagem lá fora, passavam agora nas janelas desenhos infantis e eu vestia roupas antigas minhas, de quando tinha o que? Uns doze anos mais ou menos.
Uma garrafa de cerveja caiu de cima de um banco e quebrou-se no chão, chamando minha atenção. Nem sabia que ela estava ali, levei um susto. Sentei-me em um dos bancos e assisti a um dos desenhos que passavam na janela. Passaram-se alguns minutos e lembrei-me de uma coisa: minha mãe. Ela andava lentamente para o fim do vagão, onde tinha uma porta que, em trens normais, ligaria um vagão ao outro. Levantei-me rapidamente do assento e andei na direção dela.
-Mã... Mamãe? — Gaguejei e acabei por falar como quando era criança.
Ela olhou para trás com um rosto magro de doença e um olhar morto e amarelado. Então continuou a arrastar seu pesar e sua doença para o fim do vagão, como um corpo que não precisava mais de uma alma, ou como se sua alma não merecesse mais aquele corpo doente. Assombrava a si mesma e a mim com seus passos arrastados — o desenho na janela era realmente muito fofo contava a história de uma vaquinha chamada Cony e de sua amiga abelha, juntas elas participavam de muitas aventuras. — ouvi um barulho de quando algo cai no vácuo, seguido por um tranco que me arremessou para o chão. — tim-dim- Abriram-se as portas.
Levantei devagar, recuperando-me da queda. O tranco fora causado pela minha mãe que tinha caído onde poderia ser os trilhos do trem, se houvesse algum trem, é claro. Saí do vagão.
Encontrava-me numa plataforma de trem que flutuava no meio do nada. Desci as escadas que levavam para a chamada "Bergen Valley School", como indicado na placa. Quanto mais eu descia, mais quente ficava, e o fim da escadaria parecia não chegar nunca. No começo, era uma escada reta, mas agora eu descia em forma de caracol, um redemoinho para as profundezas do inferno. O calor fazia meus olhos arderem, eu estava muito tonta e, se me descuidasse, cairia. Parei por um instante e fui atingida em cheio por uma náusea fulminante — vomitei.
Acordei sentada exatamente no mesmo degrau no qual tinha vomitado, e muito provavelmente, passado mal. O calor continuava. Levantei-me e desci mais três degraus, gelando ao pisar no terceiro, a placa que indicava "Bergen Valley School" no começo da escadaria tinha caído bem na minha frente, desviei, e o calor cesou. Ponderei que talvez tivesse finalmente chegado no inferno. Percebi que subia as escadinhas da entrada do meu colégio.
Ao entrar, notei que estava completamente nua. O sinal da manhã tocou e eu ouvi os alunos vindo em direção as salas, o desespero tomou conta de mim, estava bem no meio do corredor, e eles iam me ver, procurei o banheiro, mas não havia mais tempo. Eles passaram reto. Ninguém realmente se preocupou, ou me notou.
Meus passos eram lentos e cuidadosos, eu estava com medo. Andava próxima à parede, tentando proteger meu corpo exposto. Pela janela aberta entrava uma brisa fria que me arrepiava. Seguindo pelo correndor, observei que nas paredes estavam expostos desenhos infantis, eram os trabalhos de alguns alunos, tinham alguns balões soltos e as paredes eram pintadas com cores alegres. Esquivei a cabeça para dentro de uma sala, esperando que fosse minha sala de aula, mas não. Era meu quarto de quando criança. O papel de parede era rosa e branco e combinava com meu lençol, tinha um criado mudo de madeira branca ao lado da cama com um abajur de borboletas em cima, em cima de uma mesinha encontrava-se um diário, e em baixo dela, um baú de bonecas. Entrei no quarto pensando em me esconder nos lençóis da cama, mas ao tocá-los, eles rasgaram e sujaram. Senti minha pressão baixar e minha cabeça doer, apoiei-me na cabeceira da cama, fechando meus olhos enquanto esperava a dor passar. Depois de alguns minutos levantei-me aflita de que a qualquer momento essa dor de cabeça lancinante pudesse voltar. Assustei-me ao perceber que agora o papel de parede estava rasagado, o baú de bonecas tinha sido derrubado e elas encontravam-se destroçados no chão, aparentavam estar tristes, suas roupinhas estavam perdidas, e as páginas do meu diário voavam para fora do quarto que estava tão vazio. Não existia nenhum tipo de vida para preenche-lo, nem mesmo a minha. Em vez de sair de lá, observei durante um tempo o quarto que não deveria participar da infância de ninguém.
Voltei para o corredor, que era agora um corredor comum, não mais infantil. Espiei a próxima sala, e era a sala de informática. Nem pensei em entrar. Notei apenas a quantidade de computadores que tinha ali, uns 20 mais ou menos.
Cheguei no fim do corredor e abri as portas que davam para o refeitório, quanto mais eu me aproximava da cantina, mais o refeitório tomava um aspecto sujo e escuro, apoiei-me no balcão e chamei a mulher que trabalhava ali, pedi um prato e retirei minha senha, no papel dizia: Vê o problema? "2+2=3", examine seus olhos. Agora.
Estranhei. Eu só queria saber o número da minha senha. Me aproximei do balcão novamente, mas não encontrei nenhum funcionário, só uma tigela de sopa, tomei um pouco. Coloquei a cabeça mais para dentro, procurando por algum funcionário, para que pudesse agredecer pela comida, vi a cozinha: tinham pessoas com partes de seus cérebros a mostra. Estavam debruçados em panelas com água fervente. Sopa quente de massa encefálica pulsante. Gritei apavorada, e derrubei a tigela no chão, me sujando inteira de sopa. Comecei a andar apressada para sair dali, escorria sopa pelas minhas mãos, logo notei que se transformava em sangue lentamente. Chacoalhei as mãos como se a sujeira fosse magicamente sumir. Estavam começando a manchar. O caminho de volta para o corredor parecia mais longo, do que a vinda. Passei por um bebedouro que cheirava forte a produto químico, tinha um líquido esverdeado dentro e uma fila de alunos bebendo. Fitando o bebedouro, assustei-me quando trombei com a porta de saída.
Era minha sala de aula, entrei pelo fundo e sentei por ali mesmo. Ninguém pareceu notar, se não o professor, o Sr. Humbert Haze. Reconheci que era ele, mesmo que tivesse uma cabeça de lobo no lugar da própria. Ele me seguiu com um olhar faminto até a carteira, salivou com uma boca assustadora e cheia de dentes, nenhum outro aluno parecia se importar ou ver. Me acomodei na carteira, sujando-a de sangue. Encarei as janelas, eram enormes. Bateu o sinal, mal percebi a aula passar, os alunos começaram a levantar e sair da sala, fui levantar-me também, mas estava presa. Arregalei meus olhos, fui tomada por pavor, eu sabia o que estava por vir. Rapidamente observei as carteiras vazias dos alunos que tinham saído da sala, tinha correntes soltas. Eu estava agonizando tentando desacorrentar-me, mas falhava, de novo, e de novo. Todo mundo tinha sua chave, por que eu não tinha a minha? Ouvi um uivar atrás de mim, sabia que eu era sua lua. Acorrentada eu via o dia e a noite passar, mas mesmo sendo a lua, nunca estava no céu.
Levantei de lá, não sei depois de quanto tempo, mas tremia e sangrava. Pingava suor. Minha barriga doía, vomitei e meu corpo doeu. Cambaleei atordoada para fora da sala, não tinha ninguém em volta. Tropeçando nos meus próprios passos, alcancei a sala de informática, o computador mais próximo exibia um quadro de aviso na tela:
"Eu vou te ajudar."
Afastei-me rapidamente da tela, e novamente previa o que estava por vir: todos os outros computadores mostravam uma fita em replay. Fechei os olhos e saí dali em prantos. Mas rapidamente percebi que o corredor estava em chamas, e no meu corpo dolorido, trêmulo e sujo, eu usava uniforme de formanda agora. Observava as chamas que formavam ondas no ar, não sentia o calor. Sentei em um canto e esperei a morte.
Aquele dia estava escuro, até demais, estava preto.
Acordei gritando e me debatendo contra os enfermeiros que me seguravam. Ouvia o choro das pessoas desesperadas em meio do fogo.
-Por favor, alguém cala essa mulher!
-Estamos tentando acalmá-la, senhor.
-Não estão tentando o suficiente, onde está o enfermeiro com os sedativos?!
-Senhor, não podemos sedá-la novamente, ela ainda não se recuperou totalmente da última dose.
-Eu não tenho nada a ver com isso, nada a ver com os surtos psíquicos dessa louca!
Gritei mais algumas vezes. Então, acalmei-me. Sentei no chão entre os dois enfermeiros que tentavam me deter segundos mais cedo. Observei um policial e um médico fecharem acordos e trocarem papéis e assinaturas. Um aperto de mãos e uma continência, o policial saiu pela porta da frente. O médico andou até os dois enfermeiros ao meu lado que não estavam preocupados com nenhum mal que eu pudesse fazer a eles, nem conseguia mexer meus braços. Alguma coisa na minha boca evitava mordidas. Deitei no chão e ouvi o médico falar.
"A senhorita aqui chama-se Rachel Cake e tem vinte e oito anos. Vem de uma família pouco presente, sabe? Quando era criança, a mãe contraiu uma doença grave e teve de ser internada, o pai tornou-se alcoólatra e não permitia que Rachel visitasse a mãe no hospital. A mãe de Rachel ficou internada durante uns dois anos, dos doze aos quatorze anos da menina, e a falta de afeto e presença da parte dos pais foi determinante." O médico parou e retirou um café da máquina, aproximou-se novamente. "Ela foi vítima de abuso sexual por parte de um professor da escola na qual estudava, uma coisa que o pai alcoólatra não percebeu, claro. O oficial ali me passou essas informações que pertencem a polícia, parece que o cara gravava e prometia postar na internet, caso a menina contasse qualquer coisa pra alguém. Mas quando Rachel tinha dezessete anos, uma aluna descobriu e denunciou o homem para a polícia, e bom, ele está foragido até hoje." O doutor parou de falar novamente pra fazer uma piada com um funcionário que ia embora. "Hm... Então... Onde eu parei? Ah, sim. O cara antes de fugir vazou uma porção de vídeos na internet, que, bem ficaram mais conhecidos do que deveriam. Quem sabe tudo pudesse ter sido resolvido com anos de acompanhamento psiquiátrico, se a mãe de Rachel não tivesse morrido um ano depois de receber alta, e, claro, se Rachel não tivesse posto fogo no colégio durante a formatura. No incidente uma porção de pessoas morreram e a garota acabou presa. Sem acompanhamento médico e na cadeia o estado mental dela só piorou, e bem, parece que ela tem dado cada vez mais trabalho. Afinal de contas, se não, não estaria aqui. Mas meus caros funcionários, vocês são novos no cargo, então gostaria de lembrá-los que: não temos nem tempo, nem espaço para quem não tem salvação. Tentarão lidar com a garota durante pouco tempo, mas nós três sabemos que, em pouco tempo, tratamento de choque dará conta dela." Ele bateu uma papelada na mesa e finalizou:
-Bom trabalho, senhores. — Sorriu para os enfermeiros e virou-se de costas.
-Mas doutor H. Haze, ela vai continuar presa com a camisa de força? E amordaçada? Talvez não precise de tudo isso...
-O que eu disse? Poupar tempo e espaço.
Notas finais
Espero que aqui vocês ainda estejam se recuperando da raiva do final
juro que também dói em mim esse final
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