A Garota Sem Passado
1 Lembranças De Uma Maldição
Você talvez lembre da sensação de ouvir o som reconfortante da voz de sua mãe antes de pegar no sono. Se lembre de ter ouvido um involuntário "eu te amo" de alguém que não esperava. De ter acampado com seus amigos no fim do verão, apenas para relembrar histórias bobas e rir, mas eu não. Isso foi tirado de mim. Não me recordo dos rostos dos meus pais, do som de suas vozes, nem mesmo de como conheci meus amigos. Tudo que me ocorreu foi ter acordado na Clínica Darren Curtis, um hospital psiquiátrico para jovens, depois de despertar de um coma de três semanas e sem nenhuma das minhas lembranças. As únicas sensações das quais fui apta a experimentar foram agulhas atravessando minhas veias, comprimidos amargos descendo pela minha garganta e a de ter alguém como você para te livrar dessa dor; mas mesmo isso foi cruelmente arrancado de mim, como todas as outras coisas boas da vida. Eu parecia estar fadada a isso.
— Você está aqui, Sadie? – Dr. Reiser, o décimo segundo psiquiatra que conheci nos últimos três meses, pergunta.
Nenhuma das vinte e cinco diferentes pílulas ou uma das dezenas de fotos familiares haviam sido capazes de me fazer lembrar algo sobre meu passado além do que me foi dito. Me questionei qual seria o próximo fracasso de mais um doutor.
— Não há absolutamente nada que se lembre antes de acordar no hospital? – Ele interrompe minha filosofia novamente. Nego. Dr. Reiser respira fundo e deixa sua caderneta de lado. – Quem você acredita ser?
Nenhum dos psiquiatras anteriores haviam me perguntado isso, mas era apenas mais um item para minha lista de perguntas sem respostas. Eu não tinha provas ou fatos de absolutamente nada de minha vida anterior. Era como ter despertado no corpo de um desconhecido.
— Sabe no que eu creio, Sadie? Que você seja uma garota que precisa de uma vida nova. – Ele diz com tanta calmaria que eu sequer noto o significado até o momento. – Você sairá dessa clínica amanhã e vai poder começar sua vida. Vai voltar para casa e se sentar na mesa para jantar como uma pessoa normal. Voltará para a escola e vai estudar, conhecer seus amigos novamente e criar novas memórias. Vai ter o que precisa. – Ele toca as costas da minha mão. – Estamos entendidos? – Sorrio com o máximo de genuinidade no rosto, mas por dentro o desespero me consome.
— Obrigado, Dr. Reiser. – digo o mais autenticamente possível.
Esse pesadelo já havia se repetido em minha mente centenas de vezes. Isso poderia soar como a total liberdade para qualquer um naquele lugar, mas para mim era apenas mais um pesadelo que estaria condenada a viver. Quantas mãos eu teria de tocar até que não suportasse mais? Eu teria que lutar contra isso ou encontrar um jeito de evitar sem ser pega.
Soube mais tarde que estava sobre a guarda do meu tio Mitchell, mas apenas por um tempo, já que ele era divorciado e não tinha um emprego fixo. Além do mais, eu tinha Noah.
— Você está aqui, Sadie? – Noah, meu primo pergunta enquanto me guia até meu armário.
Permaneci em silêncio e acenei com a cabeça. Tudo o que eu ouvia até o momento era a incessante balbúrdia dos corredores da escola Kennedy High School. Dr. Reiser deduziu que com a retomada do cotidiano minhas lembranças voltariam com o tempo. Só não sei se conseguiria me esconder de meu males por muito mais tempo em um local como esse. Minhas mãos estavam completamente atadas ao meu corpo.
— Quer que eu ligue para o Dr. Reiser? – Minha mente estalou ao ouvir a palavra. – Sabia que chamaria sua atenção. Esse é seu armário.
Um armário comum, eu diria, a não ser pelas dezenas de cartões coloridos e vibrantes que se revelavam logo no exterior dele. Puxei um deles pela fresta e ao abri-lo li a seguinte frase:
— Uma amiga como eu, você não vai se esquecer tão fácil.
— Que no caso sou eu. – Uma garota diz logo atrás de mim.
Ela sorri carinhosamente, tinha um cabelo curto preso em um coque e usava um macacão um tanto infantil. Atrás dela surge um garoto de ombros estreitos e cabelos cacheados escondidos por um boné.
— Concordamos que você os encontrasse aqui, talvez você sabe... – Noah gesticula duas engrenagens com as mãos.
Encarei os rostos de ambos mas nada me passava pela mente a não ser duas pessoas totalmente desconhecidas sorrindo para mim na esperança de significar algo suficiente para me fazer lembrar. Uma onda de angústia me atingiu, porque nem mesmo dos meus melhores amigos eu podia me lembrar.
— Eu sinto muito, eu não... – Tento não transmitir tanto afogo quanto realmente sinto, mal posso imaginar como eles estavam se sentindo.
— Está tudo bem, a gente faz tudo de novo. Vai ser legal como da primeira vez. – O garoto de boné passa o braço ao redor de meus ombros e noto algo estranho em sua fala, um chiado. – Displasia cleocrâniana. – Ele espera alguma reação minha e quando nota que eu sou incapaz, revira os olhos de um jeito divertido, se afasta e de maneira estranho toca seu dois ombros um no outro.
— Ah cara, você tinha mesmo que fazer isso em público? – Noah diz com a mão na boca fingindo nojo.
O sino sobre minha cabeça toca e repouso minha mão sobre o ouvido.
— Millie, pode levá-la até a secretaria? Queria realmente usar ela como desculpa mas eu preciso fazer uma coisa, te encontro na aula de química. – Noah diz toda a frase em um só fôlego, troca um toque de mãos com ela e sai correndo.
— Até mais, meninas. – O garoto acena e corre para outro lado.
— Até mais, Gaten. – Ela dá um aceno preguiçoso.
— Gaten e Millie. – Acho que minha surpresa fala um pouco alto demais.
— Bobby Brown. – Ela me estende a mão com o mesmo sorriso que parece nunca sair do rosto.
Arregalo os olhos e depois tento disfarçar, ela permanece inerte por um tempo ainda com a mão no ar mas em seguida a joga ao redor dos meus ombros, noto que ela é ligeiramente mais alta que eu.
— Tenho certeza que vai se acostumar melhor que da primeira vez, vai ver. – diz convencida disso.
Millie me acompanha até a secretaria e infelizmente é expulsa para a aula antes mesmo que eu possa me despedir.
— Senhorita Sink. – O diretor puxa a cadeira em frente a sua mesa, me sento de bom grado. – Sou o Diretor Vargh. Então, soube que os últimos três meses tem sido cansativos. – Permaneço calada. – Você não mudou em nada. – Ele aponta para mim e ri, tiro alguns segundos da minha atenção para tentar entender o que ele realmente quis dizer com aquilo, ele simplesmente limpa a garganta e continua o que parecia ser um longo diálogo. – Com ordens da escola deixaremos que se sinta livre para escolher seu tutor como todos, mas ainda terá que se consultar com o Dr. Reiser duas vezes na semana. De acordo? – Confirmo com a cabeça e tiro mais uma risada abafada dele. – Posso acompanha-la até sua sala? – Ele me estende a mão e meu corpo congela.
— Obrigado. – Agarro minha mochila, me levanto e espero que ele me guie.
A escola era demasiadamente grande para uma cidade tão pequena quanto Kennedy. Quando me dei por conta, estava frente a uma enorme sala que me observava de um modo que não conseguiria deduzir ser medo ou pena.
— Prazer, senhorita Sink. Sou Pf. Havens. – O professor sorri amistosamente e toca meu ombro. – Turma, hoje Sadie retoma as aulas conosco, espero que todos a acolham bem e aproveite a aula, Srta. Sink. – O professor estende o braço.
Felizmente encontro um lugar no fundo da sala, e no fim da aula dupla descubro que eu sou praticamente cega e que vergonhosamente necessito o dos óculos que pensei ter encontrado por engano nas minhas coisas esta manhã.
— Sadie. – Gaten me surpreende no corredor. – É hora do lanche, minha favorita. Vamos, eu te acompanho. – Ele tenta segurar minha mão mas para no meio do caminho ao ver que eu as tenho atadas contra o peito, e me encara, incerto do que pensar.
— Me desculpe, hm. Pode esperar eu ir ao banheiro? – Pergunto tentando quebrar o clima e disfarçar meu ato imensuravelmente imoral.
— Claro. – Ele se aproxima com uma expressão estranha. – Você sabe onde... É claro que você não sabe onde fica. Vamos, eu te mostro. – Desta vez ele apenas me chama com um gesto de cabeça e sai andando.
Ao entrar no banheiro molho meu rosto e o encaro no espelho.
(...)
Saio do banheiro fazendo o mesmo caminho de sempre pelos corredores frios da ala psiquiátrica, quando sou parada por um garotinho no meio do percurso.
— Prazer, meu nome é Thomas. – Ele me estende um pequeno vaso de flores.
— Obrigado, Thomas. – digo com um sorriso amistoso no rosto, pretendendo que ele estivesse me dando o vaso. – Onde conseguiu essas... – Encarei as flores por um tempo mas não pude deduzir sua espécie.
— Bouvardias. – Ele sorri orgulhoso. – Você gostou? Eu as plantei.
— Elas são lindas. Eu amei, Thomas. – digo sem poder evitar sorrir com tamanha fofura.
— Qual seu nome? – Ele pergunta.
— Prazer, Thomas. Meu nome é Sadie. – digo estendendo minha mão.
Dias se passaram e meu lazer favorito era estudar flores e deixar que Thomas escrevesse e desenhasse em minhas mãos, ele era a criança mais doce que já havia visto em toda a vida e lamentava por tê-lo conhecido sabendo que ele sofria. Descobri que Thomas tinha um cancro maligno no cérebro que começava a causar sintomas autistas nele.
— Pode fechar seus olhos? Quero fazer uma surpresa. – Thomas pede enquanto nos sentamos sobre algumas almofadas em uma sala de lazer para pacientes.
Eu fecho meus olhos, mas assim que sua mão toca a minha sinto como se houvesse desmaiado. Inexplicavelmente estava de pé no corredor do quarto de Thomas e ao meu lado havia um alvoroço, ouvia um apito constante e a mãe de Thomas gritando em desespero. Olho para a janela que emitia apenas a luz do luar e em seguida, o relógio acima da porta, ele marca 2h39m. Era o quarto dele, o quarto de Thomas. Eu corro até a porta em aflição e me deparo com o pior. O pequeno corpo de Thomas sem vida.
Abro meus olhos, sem fôlego e completamente fraca. Ele ainda estava ali me contemplando tão vivido quanto real, ainda com os olhos brilhantes e o leve sorriso de sempre nas bochechas vermelhas. Suas mãozinhas deslizam sobre as minhas me revelando um desenho. Vejo uma garota e um garoto que deduzo sermos nós em cada palma junto com duas metades de um coração, uma lágrima cai sobre minha bochecha.
— Você está triste? – Ele pergunta com o tom mais doce na voz.
— Não, claro que não. Nunca estive tão feliz na verdade. – Acariciei seu rosto delicado com uma ponta não pintada do dedo.
Depois daquilo, eu passei semanas acordada durante a madrugada, fazendo patrulhas no quarto de Thomas e sem conseguir explicar o que havia realmente acontecido. Presumi ser realmente insana ou anormal durante esse tempo, eram as únicas explicações para o que eu tinha visto e sentido. As minhas tardes agora eram resumidas aos psiquiatras e Thomas, passei todo o tempo que pude com ele, brinquei e o amei o meu máximo. Até o dia em que pego no sono em frente ao seu quarto pela madrugada, e sou acordada por um apito. A mãe de Thomas se assusta ao me ver ali na porta de seu quarto e seus olhos exalam uma mistura de desalento e angustia. Dois enfermeiros passam pela porta junto com ela. Eu me afasto, ver aquilo uma vez havia sido suficiente, encaro o mesmo relógio e ele marca 2h39m da manhã.
— Me desculpe, Thomas. – Eu me ajoelhei ali mesmo no chão e chorei.
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