A Garota Que Sugava Almas.
2 2. Brincadeira De Mau Gosto.
Notas iniciais
2. Brincadeira De Mau Gosto.
2. Brincadeira De Mau Gosto.
— Doroth! Doroth! — uma voz fina e infantil ecoava em meus ouvidos me acordando de sonhos bons do quais não tinha havia meses. Quando abri meus olhos e sai de baixo das cobertas pude ver que era Jaxon gritando e batendo em minha porta com seu carrinho de brinquedo.
— Está na hora de acordar, papai preparou café da manhã e vai nos levar a escola.
‘ — Já estou indo —falei com voz sonolenta ao ver no relógio que não se passavam das sete da manhã. — Agora pare de bater com esse carrinho antes que eu faça o mesmo com ele na sua cabeça!
Ao sair da cama em passos pesados pude ver que Jaxon já havia saído da porta de meu quarto. Lavei meu rosto no banheiro que tinha em meu quarto e me observei no espelho enorme que havia no mesmo. Eu estava um desastre. Meus cabelos negros e cacheados estavam mais rebeldes do que nunca, meus olhos eram completamente cobertos por fundas olheiras escuras que ficavam cada vez mais evidentes levando em conta minha pele pálida.
Fiz uma careta para meu reflexo e me concentrei em vestir uma roupa decente para meu primeiro dia na nova escola.
Enquanto me aprontava pude ver que meu gatinho, que por sinal não tinha nome algum, me olhava atentamente, como se gravasse cada um de meus movimentos e pensamentos. Os olhos cor de mel do bichano vagavam por meu quarto em um silencio que me causava arrepios na nuca.
— Vou te chamar de Pec — disse para quebrar o silencio e também para dar um nome ao pobre do gato. — Gosto desse nome, e você?
O silencio continuou, onde eu estava com a cabeça para esperar que o bicho respondesse minha pergunta? Desci as escadas que separavam os quartos da sala e da cozinha rapidamente, o cheiro de gordura e fritura me deixava asfixiada.
— Bacon com ovos? — revirei meus olhos olhando para a frigideira em que meu pai fazia a combinação dos alimentos. — Sério que não se lembra que sua filhinha não come nada de origem animal?
— Eram as únicas coisas que achei para vender por aqui perto — meu pai parecia indiferente em relação se comeria ou não, e servia o café da manhã a Jaxon que aguava ao olhar para o grande pedaço de bacon que tinha em seu prato. — O mercado estava muito longe, mas se quiser te dou dinheiro e você compra uma fruta pela rua.
Respirei fundo e contei a dez para não começar a falar para meu pai o quando ele estava sendo irritante.
— Tudo bem. Não quero dinheiro — retruquei pausadamente com a voz mais calma que consegui — apenas cuide do Pec enquanto eu estou fora.
— Pec? — interrogou meu pai achando que eu estava tendo algum tipo de ilusão —Do que você está falando?
— Um gatinho que peguei para cuidar — respondi já saindo pela porta da frente com a mochila em minhas costas.
Diferente da minha antiga cidade, não havia pessoas na rua e o vento assobiava alto em meus ouvidos fazendo com que o vento frio queimasse em meus braços nus. O barro vermelho como sangue que formava a maior parte das ruas e calçadas sujava meu tênis branco enquanto eu andava.
O trajeto da escola parecia mais longo a cada passo que eu dava, o que me deixava aflita.
Soube que finalmente cheguei no meu objetivo quando comecei a ver pessoas que não fossem da terceira idade. E lá e estava minha nova escola, um prédio de dois andares, bem novo levando em conta todas as casas da vizinhança, e com uma bandeira com o nome da escola pendurada entre as duas únicas janelas do local.
Assim que segui porta á dentro a primeira coisa que fiz foi procurar a sala de número três e me sentar em uma das carteiras vazias antes que alguns dos professores chegassem.
— Esse lugar é meu! —uma garota loirinha que parecia uma Barbie de tão enfeitada, exclamou enquanto mascava um chiclete. — Se levante.
— Esse lugar era seu —dei ênfase no “era” arqueando uma das sobrancelhas —,agora dá para sair da minha frente? A visão de olhar para você não é nada agradável.
A menina me olhava como se não estivesse acreditando no que havia escutado, seus olhos cerrados demonstravam o quanto ela estava me odiando.
— Você me paga — ela finalmente se retirou de minha frente e sentou em algum lugar alheio da sala em tempo da aula começar. —Não sabe do que sou capaz, novata.
Passei todas as aulas que tinham antes do intervalo fazendo rabiscos abstratos na carteira em que eu sentava, com a intenção de fazer o tempo passar mais rápido. Assim que o sinal que indicava que haveria um intervalo entre as aulas bateu, sai em direção ao pátio, que estava frio o bastante para sair uma leve fumaça de minhas narinas ao respirar.
Acendi um cigarro que estava em meu bolso traseiro da calça jeans, não me lembrava como ele fora parar lá, já que não fumava havia semanas. Tossi em meio á segunda tragada que foi feita a poucos segundos depois da primeira.
Tirei o baseado de meus lábios e o joguei no gramado assim que vi uma silhueta feminina passar nos arredores do pátio e voltei á sala de aula para pegar meus pertences e me retirar antes que o próximo sinal tocasse.
Segui o mesmo trajeto que fiz pela manhã, agora voltando para casa. Meus pensamentos vagavam lentamente assim como meus olhos que percorriam todo centímetro daquela pequena cidade, mas apesar disso, o único lugar em que todas minhas idéias e pensamentos iam era para o bosque.
Ao andar por alguns minutos pude enxergar minha casa onde meu irmão brincava sentado no gramado de entrada, que agora estava aparado devidamente.
— Você chegou cedo —Jaxon franziu o cenho assim que me viu chegando. —Papai me falou que só chegaria depois das duas.
— Papai nem sempre sabe de todas as coisas — chutei a pedra que estava em meus pés. — Estou subindo para meu quarto. Não me incomode.
Acendi as luzes de meu quarto sem pensar duas vezes. Para minha surpresa, meu animal não estava em nenhum dos quatro cantos de meu quarto. Hesitei em logo tirar meu uniforme e sair para procurá-lo.
Estava ansiosa, a ponto de mal notar a boneca de porcelana da qual não me lembro de está em cima de minha cama antes. Joguei um dos travesseiros que tinha em cima da cama sobre a boneca que tinha olhos vidros assustadores levando em conta o silencio que sempre fazia em meu novo quarto.
Fui em direção á sala, onde meu pai estava, assim que mudei minha roupa.
— Onde você colocou meu animal ? —interroguei secamente a meu pai. — não me diga que não o viu.
—Para dizer a verdade eu o vi sim — ele respondeu sem olhar em meus olhos — se não estou enganado, ele saiu com um outro gato.
— Realmente não acredito nisso! —bufei — Você não é capaz de cuidar nem de um gato, imagine de dois filhos!
Bati a porta de entrada com força demasiada e percorri todo quintal de casa a procura de meu indefeso animal, que era meu único amigo nesse lugar, por mais tosco que isso soe.
Veio em minha cabeça que ele pode ter ido ao bosque que fomos ao entardecer de ontem. Não pensei duas vezes e caminhei até lá. Ao me aproximar do local, o sopro do vento ficava cada vez mais forte fazendo os galhos das árvores estalarem no alto das copas.
A cerca que fazia a fronteira entre meu quintal e o bosque estava coberta por um pouco de sangue seco. Antes de meu coração começar a bater mais forte, raciocinei e cheguei a conclusão de que algum roedor ou até mesmo um pássaro que pousara por lá pode ter se machucado, assim como quase aconteceu comigo mesma na noite passada.
Pulei a cerca com menos dificuldade que antes e dei alguns passos, olhando em volta e prestando atenção em todos os movimentos e sons que podiam ocorrer. Ouvi um som agudo... Uma espécie de miado.
— Pec? — chamei com a voz trêmula.— Pec, vem cá.
Gradativamente quanto mais eu andava os miados do animal se tornavam mais altos e desesperados. Tornei meus passos mais longos até sentir um cheiro que eu conhecia bem, o mesmo cheiro que eu havia sentido há dois meses atrás ao encontrar minha mãe morta na sala de minha casa:
Cheiro de sangue.
— Pec! — falei mais alto. Olhei minha esquerda, olhei minha direita. Nada.
Assim que me aproximei da árvore mais alta do bosque minha curiosidade despertou.
Escorria algum tipo de “tinta” dos galhos da árvore que caiam no chão formando uma pequena poça. Aproximei-me.
O cheiro era forte. Ao olhar que tinha algum tipo de camada com pelos pendurada pelo galho logo deduzi que seria algum tipo de urso de pelúcia. Tinha que ser.
Perceber que não se tratava daquilo me fez parar de sentir os joelhos.
A pele das costas de Pec foibrutalmente arrancada e pendurada no galho da árvore e seus ossos estavam expostos e os de suas costelas eram o que deixava o cadáver de meu animal pendurado no galho. Em meio disso pude ver um corte vertical feito em sua garganta.
Seus olhos que uma vez já foram em um lindo tom de mel estavam abertos e com uma espécie de “pintas” negras como se estivessem sido queimados e seus pelos estavam em um com algumas manchas amarronzadas de sangue seco.
Não tive forças o suficiente para me manter de pé e deixei-me cair sobre o amontoado de galhos que fizeram alguns arranhões em minhas pernas.
Senti que minhas mão encostaram na poça de sangue de meu falecido animal e imediatamente as levantei, limpando em minha camisa.
Voltei a olhar para a cena de meu animal morto e percebi que um outro gato — provavelmente fosse quem produziu o som de miados — me observava. Ele era totalmente branco e por um momento achei que seus olhos fossem da cor de seus pelos e assim que foquei minha visão em seus olhos felinos, o animal correu pisando em uma das poças de sangue que mancharam suas patas como tinta.
Por um microssegundo em que pisquei meus olhos o outro bichano havia sumido pelo bosque adentro.
Mesmo com meu estômago embrulhado e meu coração saindo pela boca, tentei convencer-me de que se tratava apenas de uma brincadeira de mau gosto.
Apenas tentei.
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