A Garota Problema
32 Tristes Decisões- Parte 1
Notas iniciais
Pov Vicente
Eu a beijei. Eu beijei Julia Lacoste, a garota que eu pensava odiar. Ou que na verdade eu odeio, mas veja só, aqui estou eu debaixo de um temporal a mantendo em meus braços enquanto sinto seus lábios se moverem em sincronia com os meus. E é bom, é boa a sensação que eu estou sentindo agora, o instinto de proteger a Juli de todos e de mante- la segura em meus braços... E isso é errado.
O beijo termina com alguns selinhos que eu lhe dou e por fim a vejo abrir os olhos e me encarar com aqueles olhos azuis que pareciam combinar com a tempestade agora. Julia não fala nada, apenas me encara e eu encaro seus olhos, sua boca, seu rosto molhado pelas gotas de chuvas, tudo nela é perfeito para mim agora.
Ela solta um suspiro e se solta delicadamente de meus braços que rodeavam sua cintura desprendendo seus braços do meu pescoço. Engulo o gosto amargo da dúvida, já que terei que explicar o por que do beijo e de outras coisas também.
– Juli...- seus olhos me encaram cabisbaixos e eu paro de falar na hora. Não tenho o que dizer.
– Não Vicente, só... Só esquece o que aconteceu aqui ok?.- seu tom não é raivoso nem choroso. Apenas normal e eu sinto uma pontinha de dor aguda no peito já que parece que o que aconteceu não significou nada para ela.
Apenas balanço a cabeça concordando, estou tão atordoado pelos últimos pensamentos, pelas minhas ultimas atitudes que não consigo falar. Apenas a encaro mais uma vez e ela me dá as costas voltando a caminhar na direção do hospital. A sigo e começamos a caminhar lado a lado rodeados pelo silencio e pela chuva que caia. Nenhum de nós dois ligou muito pela chuva, afinal já estávamos com as roupas ensopadas mesmos.
Depois de fazer o trajeto de volta observo ela começar a caminhar em direção a um ponto de onibus e resolvo me manifestar.
– Eu te levo.
Juli congela no lugar e após alguns segundos se vira para mim e andamos juntos em direção aonde o carro estava estacionado. Desligo o alarme e destravo as portas do carro. Entro no lugar do motorista e me sinto decepcionado quando Juli senta no banco de trás. Giro a chave e começo a dirigir de volta para o internato já que prometi que levaria a garota que está no banco de trás de volta para lá nesse horário ao Alberto.
Alberto, me lembrei que esse é o carro dele e que Juli e eu estamos encharcando o carro dele, mas bom, isso depois eu resolvo.
Durante o caminho todo fomos em silencio. Nenhum dos dois tocou no assunto ''beijo'' ou do que Juli ouviu... O que ela ouviu, tudo que eu disse?
Claro, agora ela deve estar pensando que eu sou o maior babaca da terra- mas eu sou!.
Julia entendeu tudo errado, eu só estava fingindo. Nunca que eu iria dizer aquelas palavras porque eu não sinto pena dela e NUNCA vou ter, porque sei que ela é uma garota forte e que não precisa da pena de ninguém. Mas se a cabeça dura me deixasse explicar tudo seria bem mais fácil. Solto um suspiro, estou tão cansado. Cansado de tudo, dessa história de mim com a Julia, do jeito dela de não deixar ninguém se aproximar, desse ano turbulento... A minha vida nunca esteve tão bagunçada!
Olho de relance para a loira lá atrás e a vejo com o rosto encostado na janela do carro e com os olhos fechados. Volto meu olhar para a estrada e respiro fundo tentando achar alguma solução para no momento meu problema: Julia Lacoste.
....
Estaciono o carro de frente ao internato e olho pelo retrovisor enquanto ela desce do carro. Vamos Vicente, não seja covarde, ela está indo embora...
Empurro a porta do carro o abrindo e pulo para fora, correndo até a baixinha que já estava um pouco distante. A alcanço e estanco atrás dela, o que eu deveria falar?
– Eu não aguento mais isso Vicente.- Juli fala de repente e se vira para mim, me encarando com os olhos cabisbaixos.
– O que voce não aguenta mais?- pergunto com a voz firme, mas por dentro estava com medo de sua resposta.
– De tudo que está acontecendo. Das nossas brigas, do nosso ódio, das atitudes das pessoas ao meu redor... Eu estou cansada de tudo Vicente, hoje vi meu pai entre a vida e a morte numa cama de hospital, por isso já chega de tanto ódio.- ela me encara nos olhos e respira fundo enquanto eu sinto meu coração se encolher cada vez mais.
– E o que isso significa?
– Que pra mim já chega. Voce me confunde tanto Vicente, e eu já estou farta disso. Se é para acabar com as brigas, com as indiretas e com tudo que criamos entre nós dois, não se aproxime mais. Isso só faz mal para voce e para mim... E eu já estou cansada de ficar tantas vezes mal e fingir que estou bem
Suas palavras me atingem de um jeito que eu não achei que fosse possível. Julia estava me enxutando da vida dela mesmo?...Mas eu não deveria me importar então por que essa angustia aqui no meu coração agora?
– Eu posso explicar, voce vai ver que eu não disse aquilo de verdade.- ela me silencia com um gesto
– Não é por causa do que voce disse hoje Vicente.- ela suspira e chega mais perto, pegando em minhas mãos e olhando para nossas mãos juntas- Isso é egoísta eu sei, mas eu preciso me afastar de voce antes que eu sofra.
Abri a boca para a responder, mas voltei a fechar sem palavras. Eu queria dizer para ela que eu não iria a fazer sofrer mas como? Como se eu não tenho a certeza disso. Tanto ela quanto eu já fomos magoados pela vida tantas vezes que não podemos ter certeza que isso já não virou um hábito... E se é para ser egoísta, que seja por nós dois então.
– Voce tá certa.- a olho nos olhos e solto nossas mãos, o que a surpreendeu- Vou me manter longe de voce Julia e espero que voce fique melhor assim.
Dando um sorriso forçado e inutilmente com todo o meu orgulho idiota, acenei um tchau para ela e ela acenou com a cabeça, não falando mais nada e dando as costas entrando dentro do internato. Quando perdi ela de vista, respirei frustrado e encarei o céu cinzento que parecia zombar de mim com seu vento arrebatador. Droga, droga de garota pra me deixar confuso e frustrado. Ela que quis assim pois não? Então eu só a deixei ir, quem sabe não foi o melhor para os dois e para nossas mentes confusas e briguentas?...
Caminhei para dentro do internato e ignorei alguns olhares pelo corredor. Subi as escadas e fui direto para o corredor dos dormitórios masculinos, entrando em seguida no ''meu quarto''.
Abri a porta e a fechei, me jogando na minha cama e fechando os olhos em seguida. Não me importei com os caras no quarto pois eu sabia que eles me olhavam confusos.
– O que aconteceu cara?- ouvi a voz de André de algum lugar do quarto.
Balancei o pé e isso significa para eles não fazerem perguntas.
– O que aconteceu é que eu sou um babaca André, um babaca...
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