A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.
54 VIAGEM A LIVERGOORN – A GRANDE TRISTEZA - Cap. 51
Notas iniciais
POV HENRY
Confiro a sua pulsação e está fraquinha. Rapidamente deito-a no chão da carruagem e começo a massagear seus pulsos para, em seguida, bombear seu coração para auxiliá-la a suportar até o Hospital.
Faço novamente e Araon me dá o kit de primeiros socorros. Pego o álcool e esfrego em seus pulsos e massageio novamente ali. Quando vejo que sua pulsação se estabiliza mais um pouco, volto com ela ao meu colo e começo a chorar com ela nos braços.
Assim seguimos até o Hospital da Guarda.
Em todo trajeto, vou considerando tudo o que presenciei neste dia, cada detalhe, tudo que eu temia aconteceu: Valerie correu perigo de vida, e estive o tempo todo na iminência de perdê-la.
Como é doloroso, parece que minhas dores foram ampliadas de uma forma extraordinária. Porém, algo me chamou muita atenção: a existência de dois tipos de lobisomens, e pelo que eu compreendi, um do mal e outro do bem. E o que mais me inquieta é saber que os dois líderes têm ligação com Valerie, e pressentem tudo sobre ela.
Mas, por quê? Quem eles são? O que são dela? Ficou óbvio para mim que, embora um grupo seja do bem e o outro do mal, os dois líderes conseguem pressentir o que se passa com ela. Mas, por quê?
Uma coisa eu sei: o fato dela ter o sangue e ser de uma terceira geração a faz especial e foco de atenção. Mais uma prova de que nós, talvez, nunca possamos desfrutar de uma vida normal.
Todavia, de tudo isto o que mais me atormenta é o fato de que eu sinto que há algo sobre sua próxima geração que ainda é uma incógnita. E, confesso, eu não tenho forças de deixá-la por isto. Eu sei que o fato dela ter a maldição no sangue não a faz amaldiçoada. Valerie é boa em sua essência, porém, eu fico pensando: e nossa geração de filhos? E quando digo nossa é porque eu realmente não pretendo abrir mão dela e nem de ter nossos filhos.
Só espero que nunca haja uma situação em que ela descubra que eu sempre soube dos riscos de tê-los. Porém, se o preço a pagar para desfrutar de uma vida feliz ao lado dela for este, eu estou disposto, pois eu a amo.
Nunca as horas demoraram tanto a passar para mim. Érion corria o tanto quanto os cavalos permitiam para uma carruagem.
Durante todo o percurso, eu fui chorando, já não me lembrava da presença de Araon. A única coisa que eu estava focado era em Valerie totalmente inconsciente em meu colo.
Meu mundo estava de cabeça para baixo, eu não sabia o que aconteceria. Por vezes movimentei suas pálpebras, e nenhum sinal de vida em seu olhar. Em meio ao desespero, a única coisa que eu me lembrei foi de mais uma vez pedir por ela.
Não sei por que, mas, desde a última vez em que fiz aquela oração para ela a caminho da casa de Dartanhã, e vinha todos os dias lendo aqueles trechos da Bíblia com ela, minha fé estava mais fortalecida. Algo lá dentro de mim dizia que ela não iria partir. E de certa forma isto me confortava.
Então, pedi novamente em meu coração:
"Senhor, eu te agradeço pela vida de Valerie, te agradeço por ter me dado ela, Senhor, depois de eu ter esperado tanto. Mas, Deus, assim como eu já disse ao Senhor, eu não estou preparado para perdê-la, ou para abrir mão dela. Eu a amo muito, demais. Minha mãe sempre me ensinou que o Senhor tem o controle de tudo, e sempre sabe o que é melhor, e eu realmente não consigo acreditar que me destes um presente tão valioso para me permitir perdê-la agora. Tenho aprendido que em tudo há um propósito. Cumpra os seus nas nossas vidas, porém, se possível, mantenha Valerie viva! E mais uma vez eu digo a Ti, Senhor, de todo o meu coração: se tiver que levar alguém, ou seja, se um sacrifício for realmente necessário, que seja o meu, pois, eu a amo demais, Senhor. Mas, se possível for, nos permita viver os dois, e desfrutarmos de uma vida juntos, termos uma família completa com filhos, afinal, meu Deus, nós dois já perdemos demais. Dá-nos um tempo de restituição. Assim eu te peço, Senhor! E peço que me dê forças para que eu vença tudo o que eu tiver que passar para estar com ela. Agradeço-te por tudo até aqui."
Assim que termino, como da primeira vez, meu coração se enche de paz. Continuo com Valerie no colo acariciando seus cabelos, e de vez em quando, beijando seus lábios.
***
Eu estava tão focado em Valerie o tempo todo, que não percebo quando chegamos ao Hospital.
E para minha surpresa, ao fazê-lo, toda uma equipe vem ao nosso encontro, já pronta para receber Valerie, inclusive quem estava à frente dela, era Dr. Dartanhã. Eles a retiram, já a preparando para a internação.
Eles a retiram de meu colo e a colocam na maca.
E ele me diz:
—Henry, eu estava saindo de plantão, está no meu horário de troca, porém, o Coronel-General Constantine ligou, me localizou e me disse o que houve. Pediu que eu ficasse para atender o caso, e quando peguei todas as informações que foram adiantadas por Camelot para agilizar a entrada dela, eu vi que se tratava de vocês. Estou à disposição aqui enquanto for necessário. Eu mesmo e minha equipe cuidaremos dela. Fique tranquilo.
—Obrigado, Dartanhã.
Ele acena para mim, e rapidamente eles se retiram com Valerie.
E eu fico desolado.
Em seguida, outra equipe pega Made ainda desacordada e Araon segue com ela.
Incrível... É que quando entramos no Hospital, eu e Érion, que o tempo todo estava quieto e percebo que está desolado com o que aconteceu a Valerie, todos nos olham de cima a baixo. Só aí me dou conta, de que estamos ensanguentados da cabeça aos pés. Fica pior quando Camelot chega, pois, como ele e Aquiles são conhecidos, creio que todos tem a exata noção de que participamos de uma carnificina legítima, o que não deixa de ser.
Neste momento, enquanto eu termino de passar todos os dados de Valerie no atendimento que Camelot não sabia, uma figura imponente chega: o Coronel-General. Ele vem direto a mim, e cumprimenta-me primeiro com nosso cumprimento de militar, e depois me abraça como um filho, não se importando com o estado de minha armadura que é sangue puro. Então diz...
—Assim que Camelot me avisou, eu adiantei tudo no comando e vim o mais rápido que eu pude, Capitão. Eu posso garantir que ela terá o melhor atendimento possível. Ela está nas mãos do melhor. Ele estava de saída do plantão, porém, eu o pedi e ele ficará responsável pelo caso dela.
—É, eu sei, ele me disse. Dr. Dartanhã é muito competente. Ele já vem acompanhando-a em outras questões. Obrigado, Coronel.
—Por nada, filho. E me chame Constantine, está dispensado de suas obrigações no momento.
—Mais uma vez, obrigado!
Ele cumprimenta Érion e Camelot. Araon já havia saído, pois, foi solicitado a ficar com Made.
Bem neste momento, tio Heitor chega ao Hospital. O que é uma surpresa para mim. Ele vem direto em minha direção, e diz...
—Meu filho!
Ele abraça-me e digo-lhe...
—Que bom te ter aqui tio. Este é o Coronel-General Constantine.
Apresento-os e eles se cumprimentam. E o tio agora se vira... E assim abraça Érion e cumprimenta Camelot e diz...
—É bom ver vocês vivos depois de tudo o que houve... Eu só sei de algumas coisas, Grandão... Foi inclusive o senhor Coronel que as passou para mim.
Ele diz agora se reportando a Constantine, que responde...
—Passei o que soube por auto de Camelot. Também só cheguei agora, e não tivemos como conversar. Estamos todos aguardando notícias da futura Sra. Lazar.
Ele diz isto colocando uma mão em meu ombro como sinal que era solidário ao meu momento.
Toco o seu ombro como sinal de agradecimento, e digo ao tio agora:
—Tio, o senhor viu Suzette? Eu estou preocupado, Valerie e Made fugiram, Aquiles disse que ela deve estar desesperada...
E o tio começa a dizer:
—Sim... Na verdade... Eu acabei de chegar, precisei vir rapidamente a Livergoorn para buscar algumas coisas que estou precisando. Cheguei e encontrei Suzette verdadeiramente desesperada, e sem ter notícias do que estava acontecendo, e quando resolvi sair de casa para tentar buscar notícias, um rapaz chega, procurando por Marvel, para saber se havia chegado, pois, a pedido de Aquiles, ele foi dar notícias reais do que estava acontecendo. Como Marvel não havia chegado, eu o convenci a passar para mim. Assim, liguei pro Comando da Guarda e quando perguntei por você passaram para o Coronel-General Constantine, e ele me passou rapidamente o que houve, e vim correndo para cá, pois, ele disse que você estaria trazendo a Branquinha aqui para o Hospital do Comando. Mas, me conte pelo amor de Deus o que houve?
O tio estava fora do seu normal de tão preocupado, pois, ele disse as palavras quase que sem respirar, então eu disse:
—Tio, eu nem sei direito, pois, não deu tempo de conversarmos, e todos nós estávamos em grupos separados. Porém, esta noite, eu e Valerie, quase não dormimos apreensivos, não sabíamos por que, mas, a verdade é que parece que estávamos pressentindo algo... Acordei mais cedo que o normal sem sono, e o Coronel ligou antecipando o treinamento em uma hora. Eu fui. Porém, depois, Valerie me disse que sentiu que algo iria acontecer comigo. E ela e Made fugiram para me interpelarem na estrada. Aquiles e Camelot foram atrás delas em seguida, porém, ao que parece, Mildrad tinha preparado outra emboscada para mim mesmo, exatamente como Valerie previu. Porém, neste meio tempo, ele conseguiu pegá-la. Só que eu fui atrás, assim que consegui largar a batalha com os homens que ele contratou, e Aquiles foi em seguida. No entanto, quando tudo parecia sob controle, ele a tomou de mim e a arremessou nas rochas... Ela bateu a fronte e chegou aqui desacordada. Agora estou esperando notícias desesperado. No momento é só o que eu tenho a lhe dizer, tio Heitor...
Como o tio me conhece desde que nasci, ao olhar para mim, ele sabia exatamente a extensão da dor que eu estava sentindo. Porém, manteve-se quieto ao meu lado me apoiando com seu olhar e sua presença. Eu tenho certeza que me poupando de me expor. Mas, ao contemplar seu olhar, eu sabia que em breve ele me daria seu ombro, pois, sabia o quanto eu precisava....
***
Passamos um bom tempo em torno de quase duas horas aguardando notícias, e a esta altura, já passava do horário de almoço, porém, nem sinal de fome eu tinha.
Num determinado momento, mais uma figura ensanguentada adentra o Hospital, vindo em minha direção, onde eu estava reunido com os outros...
Era Aquiles. Ele traz uma maleta em sua mão e sei exatamente o que ela contém. Ele vem até mim e a entrega...
—Aqui está, senhor, as evidências.
Aquiles me entrega a maleta. E o Coronel aproxima-se mais. Então, diz:
—Onde estava, Aquiles?
Aquiles me olha e me lembro de que não havíamos formulado uma desculpa para dar acerca de como Mildrad morreu. E o que houve... Então, minha mente estratégica, automaticamente, passa a trabalhar... Porém, creio que por saber o quanto não aprovo mentir, Aquiles diz:
—Eu fiquei para tentar recolher as evidências dos restos mortais de Mildrad. Pois, como aquela região é cercada por ursos selvagens, quando ele já estava totalmente dominado e ferido, um atacou Mildrad, enquanto socorríamos Valerie. Acho que sentiu o cheiro de sangue, e como Mildrad estava fraco para reagir ou fugir, a fera teve êxito. Assim, eu pedi a Henry para ficar, pois, eles precisavam socorrer Valerie e dar assistência a Made, e até mesmo para que eu pudesse me recuperar do choque que recebi, antes de ter de estar no meio de gente novamente, eu precisava ficar só. E Henry permitiu que eu ficasse para recolher o que conseguisse para reunir como evidência.
Eu olhava Aquiles admirado, por ver o quanto ele estava sendo brilhante na sua desculpa. Devo dizer que eu sempre abominei mentira, porém, não tive outra escolha a não ser aceitar o que ele disse, pois, se eu abrisse a boca, poderia representar perigo a todos nós por causa dos lobos. Assim, eu só confirmo com a cabeça e Camelot e Érion, fazem o mesmo. Porém, o Coronel pergunta...
—E quem imobilizou Mildrad o ferindo?
Aquiles ainda é o mais rápido a responder.
—O Capitão Lazar. Foi ele quem lidou com Mildrad o tempo todo, e montou uma estratégia para imobilizá-lo.
E Aquiles dá um breve relato do que houve de verdade, de como eu decepei a mão de Mildrad, e o restante antes de encontrar-se com a estória do urso.
Por fim o Coronel admirado somente perguntou...
—Você disse que precisava se recuperar de um choque, Aquiles. Qual?
Aquiles o olha com tristeza e responde:
—O de descobrir que foi Mildrad que abusou de Irina, porém, não sabe quem a matou.
O Coronel fica chocado, e coloca sua mão no ombro de Aquiles tentando lhe passar conforto. E diz:
—Imagino como deve estar sendo triste para você, mas, pelo menos poderá ter mais um pouco de paz por saber que um dos que fez isto está morto.
—Claro, enfim eu consegui uma parte do quebra-cabeças.
Constantine o olha e depois olha para mim e diz.
—Mais tarde conversaremos sobre os trâmites legais, Henry. Mas, hoje ainda oficializo com o Comando que você o capturou.
—Foi um trabalho em conjunto, Coronel.
Eu digo.
Porém, Aquiles disse:
—Claro que não, Henry. Você merece toda a honra devida.
—Me desculpe a franqueza, como se eu me importasse com isto. Tudo o que eu queria era aquela criatura morta e Valerie bem.
E dizendo isto, passo a maleta contendo os restos de Mildrad ao Coronel.
Ele a pega e diz:
—Independente de qualquer coisa, haverá recompensa. Já está definido pelo Comando, e certamente uma cerimônia para sua condecoração, pois, este feito te gerará muitos benefícios e méritos diante da Guarda, Henry. E como seu Coronel, mas, também como um homem que tem longos anos de experiência em sua frente, eu aconselho a ceder e recebê-las. Nunca sabemos quando precisaremos usufruir destes privilégios. E no mais, deixe para pensar nisto quando estiver de cabeça fria, este não é um bom momento...
—Obrigado, Constantine. Eu o farei, porém, agora, eu realmente só estou focado na minha noiva e sua saúde, e em saber quando poderei tirá-la daqui e levá-la para casa...
—Foi bom tocar nisto, Henry. Você está liberado de suas obrigações com o Comando nestes dois dias restantes. Vá cuidar de sua noiva. Família é o mais importante...
Olho para ele incrédulo, pois, sei que outro em seu lugar jamais faria isto. O Reino sempre está em primeiro lugar.
Aquiles me olha, pois, certamente sabe o que se passa em meus pensamentos pela minha expressão, e seu olhar me mostra que ele se lembrou do dia em que ele me disse que o Coronel era um homem humano e muito diferente dos demais do comando, por já ter sofrido na pele algumas experiências pessoais.Creio que o Coronel também nota o que se passa em minha mente, pois, diz...
—Ficou surpreso, não é? Eu entendo, pois, outro em meu lugar jamais faria isto, porém, minhas experiências nesta vida, em meio a guerras, horrores, morte e sofrimento, me ensinaram muitas coisas úteis. Uma pena que, para aprender, eu tive que sofrer, mas, hoje eu posso aliviar um pouco o sofrimento dos outros, e vale muito a pena...
Ele me dá um sorriso melancólico e diz:
—Vou procurar ver se consigo adiantar as notícias para aplacar sua angústia, Henry.
—Obrigado, senhor.
Digo-lhe e ele se afasta. Olho para os lados e vejo, cada um tem no semblante preocupação: tio Heitor está apreensivo demais, e sei que não é somente pela Branquinha, como eles a chamam, mas, por mim também, pois, ele tem a exata noção de como ficarei caso algo aconteça a ela, e esta demora realmente está me angustiando.
Lá no profundo de meu coração, sei que algo está ocorrendo, só não sei o que é ainda. Além de estar muito preocupado comigo e Valerie, sei que Aquiles está decepcionado por não ter conseguido impedir que ele a tocasse.
Camelot, está apreensivo por nós, mas, tenho certeza que está arrasado pelo que aconteceu a sua irmã.
Érion está num estado de angústia, e agora eu entendo e vejo com clareza, o quanto eu fui idiota desconfiando dele e Valerie. Ele a ama sim, mas, agora é nítido, que é como ama a Sophie, sua irmã. Ele quer ver Valerie bem, mesmo porque sabe que se algo acontecer a ela eu vou sofrer e ele sofre com isto. E esta certeza é confirmada quando ele me lança um olhar solidário, e os seus olhos brilham por acúmulos de lágrimas, fazendo os meus também se encherem, e vou até ele pedindo licença aos outros, pois, me lembro que Érion também não está totalmente recuperado, assim digo-lhe:
—Você também está angustiado, não é?
—Demais, Henry. Eu estou sofrendo por ela, pelo que passou, pelos traumas que podem ficar disto, justo agora que ela estava melhorando, e claro, muito preocupado com você, Grandão, pois, sei que por mais que esteja intacto, firme e forte no momento, a qualquer segundo você pode desmoronar. E quero que saiba, que eu estou aqui, aliás, nós todos estamos aqui. Divida sua dor conosco para que fique mais suportável carregá-la. Tudo bem?
Sou sincero em responder:
—Não posso prometer. Nem sempre, eu consigo ser racional nestas horas, porém, eu vou tentar. Isto eu prometo.
—Tudo bem.
—Vou ficar com os outros para te dar privacidade.
Eu digo e me afasto.
Assim que chego ao lado de tio Heitor, três pessoas adentram no hospital: Marvel, trazendo uma Ananda angustiada, e Elise.
Ananda me olha e lágrimas correm. Sei que está arrasada por Valerie, e, imediatamente, ela vem até Camelot, que não hesita em abraçá-la, e ela o recebe mesmo no estado em que está. E os dois pedem licença e se afastam para terem privacidade.
Elise também me olha já chorando e vai direto a Érion, porém, como os dois são bem mais reservados em público nas demonstrações de afeto, ele a beija, toma sua mão e sai dali com ela.
E Marvel vem até a mim, e por mais que tente disfarçar, vejo a tristeza em seu olhar, mas, ele é firme ao dizer:
—Enfim, acabou?
—Sim, Marvel. E por você seus irmãos e sua mãe, eu sinto muito!
Eu digo com toda a sinceridade, pois, embora eu odiasse a Mildrad e quisesse matá-lo, eu amava os rapazes e a Made.
Bem neste momento, sua máscara cai e ele desaba, e eu, mesmo no estado em que estou, o puxo para um abraço. Eu e Marvel somos amigos de uma vida toda, e apesar da distância, nossos laços ainda são fortes. É uma amizade madura, ele procura ser muito equilibrado em tudo como eu, porém, assim como eu também, sempre teve de lidar com muitas responsabilidades, e o peso disso é enorme em seus ombros.
Ele recebe o meu acolhimento e chora, chora muito, e por mais difícil que seja para eu separar isto, eu consigo, eu realmente não nasci para ser mal. A dor de Marvel por perder seu irmão faz-me esquecer, momentaneamente, que seu irmão é Mildrad, porém, quando me lembro do nome, e este nome me remete a minha Valerie ferida ali dentro daquele Hospital correndo risco, eu estremeço e uma batalha é travada nas minhas emoções. Eu sofro por Marvel, porém, a possibilidade de algo acontecer com Valerie me desestabiliza. Assim, Marvel percebe e afasta-se um pouco, e com a mão em meu ombro diz:
—Perdoe-me, eu não imaginava que fosse ficar assim, e sei que você também está sofrendo...
Porém eu respondo...
—Sem problemas, Marvel. Você precisa vivenciar seu luto. Sei separar estas coisas.
—E ela como está? E Made, cadê?
—Made teve um choque emocional e acabou dormindo no caminho. Eles levaram-na para cuidar dela também. Mas, fique tranquilo, Araon está com ela. Já Valerie, chegou aqui inconsciente, perdeu muito sangue. Ele a jogou contra as rochas... Nós estamos aguardando a um bom tempo. Dartanhã está com ela.
—Bem, fico mais aliviado por saber que ela está nas melhores mãos.
Noto que Aquiles percebe a necessidade de dar assistência a Marvel, pois, se aproxima e diz:
—Vamos dar uma volta, Marvel, para você espairecer e quando eles liberarem, estará pronto para ver Made.
Noto também que Aquiles quer me dar um tempo as sós com o tio Heitor. Creio que já é visível o quanto eu estou por um fio.
Tio Heitor também compreende, pois, chama-me e leva-me para uma ala mais reservada do hospital. E ali diz:
—Posso lhe ajudar a tirar a armadura, filho?
—Claro, tio. E eu estou até incomodado pelo tanto que as pessoas olham para nós desde que chegamos, por estarmos cobertos de sangue.
E ele me ouve, já retirando o peitoral dianteiro e traseiro, enquanto retiro a proteção de braço e a malha. E assim que o faz, nós colocamos em uma cadeira no canto do corredor. Ainda que eu esteja completamente sujo, tio Heitor me olha nos olhos e diz já me abraçando...
—Ei, meu filho, eu sei o quanto está sofrendo e o quanto está doendo. Eu estou aqui, Henry.
Deito minha cabeça em seu ombro e deixo ceder toda a vontade em que eu estou de chorar e colocar pra fora o temor que me domina. O medo de perder Valerie, o medo do que pode estar acontecendo a ela, a tristeza por eu ter permitido Mildrad colocar suas mãos imundas sobre ela, o medo quanto a haver algo sombrio com relação ao seu sangue de lobo que possa trazer-lhe qualquer dano no futuro. Medo de algum dia ficar sem ela. Algo completamente insuportável de se pensar, que dirá de se viver.
Choro, e choro muito, nos ombros do tio Heitor. E neste momento eu não me sinto tão só, pois, é o que eu estava sentindo, por ver que eu não tenho meu pai ou minha mãe comigo. Minha avó está distante e Valerie está lá dentro nas mãos do Criador.
Porém, este mesmo Deus me enviou um recurso, os braços de tio Heitor, que tem sido tão importante em tentar suprir a ausência do meu pai na minha vida, e como ele tem se esforçado, mesmo quando eu não permitia tanta aproximação. Mas, agora, depois das mudanças que Valerie provocou em mim, eu posso desfrutar disto, do carinho e cuidado de um pai, pois, é o que o tio Heitor tem sido para mim.
Depois de um longo tempo, ele se afasta com lágrimas pelo rosto e diz:
—Filho, eu sei o quanto está doendo, e quero que saiba que está doendo muito em mim também. Doendo por ela, por ter passado por mais um tamanho sofrimento, mas, também por você, dói-me demais vê-lo correr o risco novamente de uma perda, Henry. Mas, meu filho, eu preciso dizer: independente de quais forem as notícias que sairão lá de dentro, você precisa ser forte, ter confiança em Deus, Henry e esperança. O Criador é um pai muito melhor do que nós, e perfeito. Eu tenho certeza que ele está cuidando da Branquinha, e seja como for, confie, não perca a fé. E coloque para fora tudo o que estiver sentindo, meu filho. Não trancafie mais dor dentro do seu coração. Permita que as lições que Valerie tem te dado, de vida, que tem te permitido mudar, aflore. Por ela, faça valer a pena cada esforço dela em comprometer-se em te curar, Henry. Por favor, Grandão...
Olho para o tio ainda chorando e digo:
—Vou tentar, tio, eu prometo. Mas, dói muito ao menos pensar em perdê-la... Eu não suportaria.
—Eu sei, Henry, e o melhor, o Criador sabe, meu filho, só que os caminhos que ele usa para trabalhar conosco são diferentes, confie, Nele. Não O afaste de você como Seu amigo, como fez quando perdeu a sua mãe, Henry.
Eu respiro fundo e compreendo o que o tio quis dizer, que ao invés de eu passar tudo isto distante do Criador, eu passar mais próximo. Porém, algo dentro de mim faz-me sentir que desta vez é diferente, pois, eu consegui orar, eu estou mais receptivo às pessoas. Tudo muito distinto de quando minha mãe partiu.
Então, eu olho para tio Heitor e digo...
—Tenho tentado fazer diferente tio, quero que saiba...
—Eu já tenho percebido meu filho, porém, só disse isto para o caso da provação aumentar, para você não esmorecer e perder a fé. Eu não estou dizendo para não chorar ou gritar, ou ter qualquer reação que precise para colocar sua dor para fora. Não, muito pelo contrário, eu quero que a coloque filho. Você precisa, é um ser humano, porém, confie.
—Tudo bem, tio, eu vou tentar...
Ele me abraça mais uma vez e espera eu me recuperar e voltamos para a recepção da emergência.
Depois de mais uma hora de espera, um total de três horas e meia, enfim, Dr. Dartanhã volta acompanhado por outro médico, creio que de sua equipe, e de Constantine.
E agora todos nós, sem exceção, nos aproximamos dos dois. Meu coração fica acelerado no peito. E sinto minhas mãos trêmulas.
Tio Heitor se aproxima mais de mim, fica ao meu lado e coloca a mão em meu ombro.
O silêncio é agourento e desconfortável.
E, o que vejo no olhar dos três recém-chegados faz meu coração se apertar. Sinto que Dartanhã procura palavras em seu arsenal para o que quer que seja que queira me dizer.
Não aguentando mais a angústia, eu digo:
—Pode falar, Dartanhã. Eu não aguento mais esperar por uma notícia. Eu estou ansioso demais.
Ele olha a todos nós, passa as mãos nos cabelos, respira e por fim, olha nos meus olhos e diz:
—Olha, Henry, foi demorado, pois, tivemos de fazer muitos testes com ela, muitos procedimentos. Foi preciso suturá-la, porque ela sofreu um corte enorme na têmpora, do lado esquerdo. Com o impacto, ela vai ficar com o rosto bastante roxo por alguns dias, devido aos hematomas que já estão se formando, inclusive, em torno dos olhos. Provavelmente ficará roxo também. Bem...
Vi que Dartanhã tinha dificuldade de passar para mim o que tinha para falar. Neste momento, um arrepio correu minha espinha, o que fez meu sangue gelar, pois, o que quer que seja que Dartanhã tivesse a dizer, não era bom, e eu lembrei-me de suas palavras no dia em que conversamos sobre o diagnóstico de Valerie: “Sobre o risco de ela sofrer outro trauma durante este período em que a mente dela já estava reagindo a um desgaste”. Assim, imaginei que ela poderia estar mais abalada, ou estar mais sensível, porém, nada me preparou para o que eu ouviria.
—Henry... O impacto, pelo visto, foi grande. E aliado a todo o estresse que ela vem vivenciando e ao trauma emocional que ela sofreu novamente, estando em domínio de Mildrad...
A cada vez que ele dava uma pausa, creio eu que testando meu humor e minhas reações, uma agonia imensa preenchia meu peito e tio Heitor apertava mais meu ombro, e todos ficavam mais ansiosos.
Por fim, ele parecendo perceber que não poderia mais prolongar a nossa agonia, disse:
—Ela teve rebaixamento do nível de consciência. Em palavras simples, é como se a mente se recusasse a lidar com tudo ao redor no momento. E"psíquico-organicamente" falando, ela jávem estando debilitada... – que agonia eu não sei o que ele quer dizer, porém, eu sinto o tio Heitor estremecer e Aquiles arregalar os olhos, então eles sabem... Dartanhã parecendo compreender que só tio Heitor e Aquiles entenderam, termina... – Isto quer dizer que ela entrou em coma...
—O QUÊ?
Foi a única coisa que eu consegui pronunciar. Por todos os lados eu vi demonstração de tristeza e angústia. Ananda recomeçou a chorar nos braços de Camelot, Elise nos braços de Érion, que também já chorava, se desesperou. Aquiles cobriu o rosto em desespero. E eu estava estático, e tio Heitor ao meu lado, e agora Constantine também. Os dois estavam próximos, creio que preocupados com a qualquer momento que eu viesse a desabar.
Porém, eu só ocupava uma pequena parcela de minha mente com tudo isto, pois, a maior parte dela tentava se dar conta, processar direito, o que eu tinha acabado de ouvir.
Era possível? Será que eu estava realmente acordado? Não, isto não pode ser. Eu estou tendo um pesadelo, eu estou tendo um sonho ruim que está difícil de acordar. Não pode ser. A razão da minha vida. Tudo o que eu ainda tenho de bom na minha vida é Valerie, nada faz sentido sem ela. Não pode ser. Ela está bem, ela está forte, ela está saudável, ela está... Então, eu digo...
—Não é possível, não é verdade. Vocês não esperaram tempo suficiente, ela vai acordar...
Dartanhã respira fundo e tem os olhos marejados, e naquele momento, eu sei que o que está ali não é só o médico, e sim, é um dos amigos do meu pai... Ali, exatamente ali, minha ficha cai. E Dartanhã diz:
—Henry, é normal entrar num processo de negação, pois, é duro admitir, é duro aceitar. Mas, acredite, eu jamais brincaria com isto, principalmente com você, meu filho. Acho que eu nunca relutei tanto em meus longos anos de medicina em dar uma notícia. Nunca foi tão doloroso.
Tento me locomover e tio Heitor aumenta o aperto tentando me conter, porém, eu toco sua mão e o olho pedindo para que me deixe só com meu olhar. Afasto-me de todos, vou até uma parede e sinto todos os olhos atrás de mim me queimarem. Passo a mão no rosto. Por dentro, tudo em mim está uma confusão, uma tristeza sem fim.
Estou próximo de onde estão as partes protetoras de ferro de minha armadura, pego o peitoral. Um misto de emoções e sentimentos estranhos começam a me percorrer. Sinto dor, uma dor imensa, mas, junto a ela, raiva, raiva de mais uma vez passar por isto, por este sentimento de perda e impotência, onde não posso mudar nada do que está acontecendo.
E agora a raiva cresce para uma cólera quando me lembro da cena em que Mildrad se satisfazia em dizer que agora eu poderia matá-lo, pois, ele tinha conseguido o que queria, afastar, tirar Valerie de mim. E neste instante, permito que a cólera me domine. E lanço o peitoral de ferro longe em uma direção que não bata em ninguém, mas faço o maior estrago possível quebrando tudo pela frente! E daí, se está quebrando? E daí o prejuízo? São bens materiais, eu posso repô-los todos depois...
Todos ficam alarmados, porém, as pessoas próximas a mim só se afastam, mas, não intervém, pois, creio que saibam que preciso daquilo. Porém, os médicos de outras equipes e enfermeiros e pacientes, presentes no recinto, se alarmam e saem exasperados. Dartanhã tenta contê-los dizendo: "Calma, gente, é normal ele está assim. Ele acabou de receber uma notícia muito difícil."
Percebo, mesmo continuando o que estou fazendo, que alguns entendem, mas, outros estão furiosos, creio que, pelos danos materiais, e começo a rir sem humor em meio a raiva. Não sabem eles que eu posso repor tudo isto?
Mas, e os danos que me foram imputados? E os estragos que a vida tem feito em mim? Com coisas que dinheiro nenhum pode repor?
Agora, eu pego a proteção de braço e começo a socar o balcão de atendimento. E a esta altura, já não há ninguém atrás dele, pois, quando comecei meu acesso de fúria, todos se afastaram apavorados.
A esta altura com minha visão periférica e meus sentidos de guerreiro que estavam alertas, percebo que todos estão preocupados, e médicos, e mais médicos, chegam e enfermeiros tentam desocupar o local de pacientes. Alguém tenta se aproximar para me conter, porém, neste momento, pego a espada e, sem retirá-la da bainha, soco ela na parede uma, duas, três, quatro, cinco... Várias vezes, e vou gritando agora para tentar afugentar a dor que emana do meu peito e percorre todo o meu corpo. E a força que exerço é tão grande que os nódulos de meus dedos estão todos brancos e o fio da espada já partiu a bainha e agora talha a parede com vontade, arrancando lascas da massa.
Chegam mais homens e quando eles vão tentar se aproximar para me conter, Dartanhã grita:
—NÃO SEDEM ELE, EU NÃO DEI ORDENS!...
—Mas, Doutor, ela vai quebrar tudo...
Bem nesta hora, o tio Heitor diz:
—Podem deixar que todo prejuízo material é por minha conta...
—Por minha também...
Agora Constantine diz...
—E minha...
Por último foi Aquiles...
Mas, mesmo assim, os homens, que eram grandes como eu, avançavam, e eu tinha exata noção que eu não poderia e nem iria feri-los. Este não é meu objetivo. Eu protejo civis, não os machuco, porém, preciso aplacar e colocar para fora ao menos um pouco de toda esta dor. E continuo socando a espada.
No entanto, agora, Constantine, Aquiles, juntamente com Camelot e Érion, intervêm e se colocam entre os homens e eu, não os permitindo avançar até mim.
E Constantine agora, cheio de autoridade, diz alto e claro:
—Não toquem nele, eu ordeno!
Um dos homens, achando que fazia o correto, disse...
—Mas, ele está destruindo um patrimônio...
Constantine, sem perder a paciência, no entanto, diz firme e duramente, a um palmo de distância do civil, encarando-o de forma ameaçadora...
—Foi dito claramente que tudo será restituído! Não toquem nele! E agora eu estou dizendo como autoridade militar! Vai desacatá-la?
Percebo que o homem murcha na hora, mas, ainda olha para os outros que fazem sinal com a cabeça para deixar.
Dartanhã agora fala...
—Ele precisa colocar tudo isto para fora. Assim que eu terminar aqui eu apresento meu relatório sobre todo o caso na administração. Vocês podem ficar sossegados. Como já foi dito, assumimos todas as responsabilidades.
E bem no momento em que ele diz isto, creio que por muito ter suportado, a espada se parte ao meio.
E agora sem ter o que usar, e com as emoções um pouco mais amortecidas, desabo ao chão cedendo aos meus joelhos. E agora me curvo até encostar a testa no piso gelado, cubro o rosto com as mãos...
E o choro, enfim, me vence... Choro, choro demais, tentando colocar para fora toda esta dor imensa que está dentro de mim, e que faz doer cada músculo e cada osso meu. É uma dor que não tem origem nem limite. É grande demais, não tem como descrevê-la ou delimitá-la, vai quase ao limiar da loucura.
A dor por não ter a certeza que Valerie ficará bem...
POV AQUILES
Como estar vivenciando este momento de Henry está sendo difícil para mim...
Pois, eu sei cada dor que ele está sentindo, e parece que, eu estou revivendo as minhas. Quando os médicos chegam ao ambiente acompanhado por Constantine, no semblante deles eu sabia que algo estava errado...
E quando eles disseram o primeiro termo que remetia ao coma, eu senti meu sangue fugir do rosto. Vi em Heitor que ele também sabia do que se tratava, e nós dois, tenho certeza, que já estávamos preocupadíssimos com a reação que Henry teria.
Por mais que eu não seja de demonstrar, eu tenho certeza de que nada acontece por acaso. Se Henry está passando por isto, algum propósito tem. Eu mesmo, apesar de toda a dor de ter perdido Irina, aprendi muito. Muitas lições eu tirei. Uma delas é que devemos aproveitar o tempo que temos ao lado das pessoas que amamos, pois o tempo passa, e não volta, e às vezes não teremos estas pessoas por um longo período.
Outra coisa que tenho aprendido neste pouco tempo com ele e Valerie é que existem, ainda, pessoas que amam, que cuidam, e que ter estas pessoas ao nosso lado faz a nossa jornada de vida, por mais difícil que seja, se tornar mais suportável. Vejo isto nos laços de amizade que eles têm com os Lancelot’s, com os Oxford’s e os demais. Isto realmente é algo maravilhoso de se contemplar.
Agora ver o sofrimento de Henry, machuca muito o meu coração, por ver uma pessoa tão boa, tão correta passando por isto, e o pior, alguém que já perdeu tanto... Como é difícil compreender... Vejo que ele procurou se manter firme e forte enquanto pode, mas, ao receber o real diagnóstico de Valerie, e passar o efeito do choque inicial com a notícia, ele quase enlouqueceu.
Mas, apesar de sua reação ter sido extrema, achei muito necessária. E creio que todos nós que o acompanhamos de perto também tiveram o mesmo sentimento, pois, todos compreendemos o quanto aquilo está sendo penoso e doloroso para ele.
Seu choro e gritos de desespero são doídos demais, suas tentativas de destruir os objetos que estão na frente, dá para sentir, é com a esperança de descarregar todo o pesar que está sentindo em seu interior. Eu sei, pois, eu mesmo já passei por isto, quando perdi Irina.
Naquela época eu só tinha Camelot de amigo próximo e Constantine, mas, com Camelot eu não podia contar, pois, ele estava tentando vivenciar da melhor forma a sua própria dor de perder a sua irmã.
Assim, meu refúgio foi Constantine, e mais tarde, com o tratamento, Dartanhã. Constantine é um amigo excelente e fico feliz que ele gostou de Henry como um filho. Acho os dois, homens de caráter muito parecido.
Sensatos, bons, reservados, mas solícitos às necessidades dos outros. Na verdade, eu vejo que se Henry não tivesse necessidade de algum dia deixar a Guarda, a meu ver, ele seria a pessoa que eu conheço com mais potencial para substituir Constantine. E por conhecer muito o meu velho amigo, sei que ele também já identificou isto em Henry.
Constantine está de olho nele para isto, porém, desde que eu o contei sobre a história de Henry e Valerie, e de o quanto Valerie não gosta da ideia dele na guarda, ele tem ponderado. Pois, ele mesmo concorda que esta vida de guerreiro ligado ao Reino tem um preço muito alto, e lidar com isto não é fácil. Principalmente em termos de família, perdemos muito!
Noto o quanto o tio Heitor e Érion sofrem por ver Henry no estado em que está. Noto o quanto Marvel ficou admirado com a postura de Henry de separar as coisas em relação a ele perder seu irmão, apesar de que, não foi só Marvel, todos nós ficamos. Henry realmente é altruísta e bom. É uma marca forte nele.
Por fim, me compadeço demais, quando no fim de suas forças e descarga de cólera, ele desaba indefeso e com o coração, certamente, aos pedaços ao chão, e chora, chora demais. Neste momento, não consigo mais me conter, e me aproximo lentamente dele. Quero muito lhe dar suporte, ainda não sou tão íntimo assim, reconheço, porém, sei e conheço a dor que está sentindo...
POV HEITOR
Toda dor tem sua parcela de incômodo. Porém, há dores que, além do incômodo, geram ainda mais sofrimento.
Nossas próprias dores já são fardos difíceis de lidar e suportar. É claro que cada uma, sempre está dentro de um nível de escala específica, de angústia, incômodo e sofrimento.
No entanto, pelo menos para mim, não há dor maior do que a de contemplar o sofrimento de quem amamos. E como a vida me ensinou a ser sensível a isto!
Vivenciei isto com Eleonor, minha primeiraesposa, quando adoeceu com câncer; com Clara, para ajudá-la e auxiliá-la a se curar dos traumas dos abusos sexuais de seu pai, e as consequências da negligência afetiva de sua mãe; de meus filhos, auxiliando-os a lidar com a ausência de sua primeira mãe, apesar de que isto foi somente até Clara chegar, pois, ela foi muito competente em relação a isto. De Adrien, pai de Henry, tentando dar suporte a ele, para conseguir lidar com sua paixão por Suzette e deixar de trair Laura e se manter firme neste propósito, e quando, enfim, ele conseguiu se manter sem isto, ajudá-lo a lidar com a perda de Laura. E, a partir daí, lidar com as dores de Henry, que foram muitas.
As pancadas que o Grandão recebeu foram imensas... Como o meu filho do coração sofreu! A perda de Laura o machucou demais e gerou nele traumas terríveis.
Eu sinceramente não sei como ele não se tornou insensível com o passar dos anos. Realmente o coração dele é muito bom. E mais tarde, ele teve que lidar com a perda brutal do seu pai, que foi outro golpe terrível. E agora lidar com a iminência, o tempo todo, de algo acontecer a Valerie.
Assim, ver o sofrimento deste meu filho, tão querido, dói muito em mim. A única coisa que vem ao meu coração, constantemente, é a necessidade de interceder por ele. Pedir a este Deus que amo, e creio tanto em sua existência e bondade, que cuide dele, que não permita que ele sofra mais uma perda e, mais uma vez, de uma forma tão brutal.
Olho para todos os rostos presentes e é possível sentir e vislumbrar a tristeza profunda de cada coração aqui, expressa em cada semblante. Todos têm a noção exata de o quanto Henry está sofrendo. Quando digo todos, digo a respeito dos que são próximos.
Quando a equipe de suporte chega, com o objetivo para sedá-lo, é neste momento que eu vejo o quanto o Grandão é estimado, querido e amado e, às vezes, acho que ele, por medo de se apegar e perder, nem se dá conta disto.
Imediatamente alguns de nós tomamos sua defesa e não permitirmos, principalmente, Dartanhã. E quando os enfermeiros chegam querendo retirá-lo dali, por causa de seu acesso de raiva, o Coronel, Aquiles, Camelot e Érion não permitem. E enfim, Henry é deixado em paz para continuar seu pranto, na busca de aplacar a sua dor feroz.
A questão de Henry, em relação ao medo do apego, mudou muito com a chegada de Valerie. É engraçado como uma criaturinha daquela pode fazer tão bem à vida de alguém.
A Branquinha, como estamos nos acostumando a chamá-la, atrai-nos a ela. Ela transborda amor e enche-nos de vontade a amá-la. E apesar de tão meiga, doce e gentil, ela é forte, valente e guerreira, pois, eu creio que não deva ser fácil resgatar alguém como Henry, sempre tão fechado em si mesmo, de seu mundo de dores. E ela está mesmo empenhada nisto, e creio que só não tem feito mais, no momento, devido à sua saúde.
Mesmo Henry sendo bem mais velho, vemos claramente que Valerie o tem ensinado muito. E ele, em troca, tem aprendido a amá-la cada vez mais e intensamente. É bem notório isto nele.
Por outro lado, ela demonstra todo seu amor na maneira de cuidar dele e nunca querer preocupá-lo além do necessário.
Agora é triste demais de se ver quando ele desaba de joelhos ao chão e depois abaixa sua testa até o mesmo, a encostando no piso, enquanto cobre o rosto com as duas mãos. E ali chora dolorosamente.
Neste momento eu não resisto, me aproximo, e sinto Aquiles fazer o mesmo.
É impressionante, o quanto Aquiles tem estado presente e dado suporte. Acho que Henry não só contratou um bom, aliás, excelente funcionário, como ganhou um amigo de longo prazo. Aquiles conserva algo em si, difícil de se ver nos dias em que vivemos, lealdade. Talvez isto nele seja mais realçado por ser um cavaleiro a muitos anos. É notável o quanto ele preserva o código de honra em si.
Ele agora olha para mim, e coloca a mão sobre um ombro de Henry e eu coloco no outro e digo em baixa voz:
—Filho, você deseja sair daqui?
Com dificuldade, ele ergue a cabeça e me olha nos olhos e diz num curto fio de voz:
—Sim, tio, por favor. Eu quero conversar com Dartanhã e a equipe, mas, só quero o senhor e Aquiles, no momento, comigo.
Agora ele diz olhando para Aquiles:
– Eu preciso que me contenha caso eu dê um ataque de fúria novamente, tudo bem?
Aquiles assente que sim. E assim ajudamos o Grandão a ficar de pé. Noto o quanto que está mais calmo. Ele fica constrangido ao encarar a todos, porém, Henry nunca perde sua dignidade e seu caráter. Ele olha um a um nos olhos e diz:
—Me perdoem todo o transtorno. Cada prejuízo material será reposto, como já foi dito aqui. Porém, acredito que a agressão emocional do que eu fiz pode não ser reposta, mas, peço-lhes que me seja perdoada. Não é uma justificativa, mas, um desabafo. Os danos e as perdas que a mim foram causados não serão repostos. Pensem nisto. Mais uma vez, me perdoem.
Assim que Henry faz seu pronunciamento, faço sinal a Dartanhã e Roberte eles se aproximam juntamente com Constantine, e quando vou contestar, Henry diz:
—Deixe tio. É até bom, pois, não sei qual será minha reação diante de tudo que tenho para ouvir. E não quero mais fazer estragos.
—Tudo bem, Henry.
Assim seguimos eu, Henry, Aquiles, Dartanhã, Dr. Robert e Constantine, até uma sala, que quando entramos, percebemos que é de Dartanhã.
POV HENRY
Levantar-me do chão foi algo difícil, pois, sabia que ao fazer aquilo tinha uma realidade a encarar.
Primeiro, eu teria que dar satisfação do que eu fiz. E o faço sem pensar muito, para que eu não me envergonhe, mais ainda, por perder o controle. Algo que evitei minha vida inteira, me contendo, mas, uma das desvantagens de se ser acessível emocionalmente, é esta, não dá para ser rígido e ter controle o tempo todo. De certa forma, ficamos mais vulneráveis.
E depois, eu precisaria enfrentar uma conversa com Dartanhã para lidar de verdade com o quadro de Valerie. Sei que eu não posso fugir disto, afinal, ela só tem a mim e a Suzette, sua mãe.
Dartanhã entra em sua sala, e todos entramos juntos. Ele e Dr. Robert, sentam-se em seus lugares. E, ele faz sinal para eu, tio Heitor, Aquiles e Constantine sentarmos nas cadeiras que estão dispostas. O fazemos e assim ele diz:
—Henry, a primeira coisa que quero saber é como você está? Eu não estou falando do óbvio, pois, sei que emocionalmente você está abalado e arrasado. Vou ser bem objetivo e específico. Eu não deixei sedá-lo e não pretendo, pois, creio que isto não ajudaria em nada, mas, eu preciso de você calmo, não só por ser um ambiente hospitalar, mas, para algo mais importante. Precisamos conversar claramente sobre o estado e o quadro clínico de Valerie. Precisamos tomar algumas decisões e eu preciso que você esteja bem para isto. Acho importante trazer a mãe dela também, para que ela opine em algumas coisas, é uma sugestão. Assim, eu gostaria de lhe administrar um chá calmante, com um efeito mais leve, para te fazer realmente acalmar e relaxar um pouco, para evitarmos agora uma crise como aquela. Ela foi necessária, eu entendo, naquelas circunstâncias, mas, convenhamos que se persistir, eles proibirão sua permanência no hospital. E eu creio que você não irá querer se afastar daqui, de perto de Valerie, justamente neste momento. Estou certo?
—Claro. Está sim, Dartanhã. E mais uma vez me desculpe. Agradeço todo o seu apoio e cuidado com ela.
—Sim, estamos todos empenhados no caso dela. Estou mobilizando toda a minha equipe, Henry.
—Mais uma vez, obrigado. E eu quero, sim, o calmante.
Neste momento, um enfermeiro entra e Dartanhã dá algo para que ele prepare.
Observo que todos estão apreensivos.
Dartanhã começa:
—Henry, Valerie está num quadro que podemos chamar de coma, que seria um profundo rebaixamento do nível de consciência. Eu confesso que quando ela chegou, mesmo com os hematomas e o corte, eu imaginei de imediato que era só um estado de estupor, que também é um rebaixamento de consciência em escala menor, e que ainda pode responder a alguns tipos específicos de estímulo, mas, fizemos todas as tentativas de acordá-la. Aguardamos o tempo necessário, refizemos as tentativas e também fizemos testes e nada. Ela não respondeu. Infelizmente, pois, deu-nos a certeza que trata-se de um coma. O que nos tranquiliza um pouco é que pelos testes que fizemos até agora com ela, tudo leva a crer que é um coma de classificação leve, dentro de algumas escalas que utilizamos. Pela ferida aberta em sua fronte e pelos hematomas que estão se espalhando ficou claro que ela sofreu uma concussão, que seria um quadro quecaracteriza-se pela presença de sintomas neurológicos sem nenhuma lesão específica identificada. Mas, que pode sim deixar danos muito pequenos, dependendo da situação, reversíveis ou não, onde podem ocorrer perda da consciência, prejuízo da memória, dores de cabeça, náuseas e vômitos, distúrbios visuais e da movimentação dos olhos. No caso dela, de imediato, o que identificamos foi a perda da consciência. Ela apresentou algum outro tipo dos sintomas que eu citei antes de perder a consciência?
—Somente a dor de cabeça antes de desmaiar, e disse que estava sentindo frio.
Respondo.
—Entendo, e como aconteceu? Como ela bateu a cabeça? Onde foi?
—Ela foi lançada contra às rochas. Mildrad a lançou e não deu tempo de conter totalmente a queda, só parcialmente. Mas, a cabeça se chocou.
Dartanhã anotava tudo o que eu dizia furiosamente em um bloco de anotações.
—Bem, Henry, dentro de tudo o que eu disse, tudo leva a crer que ela sofreu um traumatismo leve, e está em coma. E precisará receber cuidados especiais. Ela irá precisar ficar hospitaliza. Geralmente, no setor em que ela vai ficar, ela não fica com acompanhante.
Começo a me alarmar, pois, eu não sairia de perto dela de maneira alguma. Porém, Dartanhã se apressa em dizer...
– Porém, graças a intervenção de Constantine, nós providenciamos que ela poderá ter um acompanhante, e vocês poderão fazer um revezamento entre duas pessoas.
Rapidamente digo...
—Eu quero ficar direto.
Dartanhã me olha sério, porém, agindo na verdade como um pai, toma a minha mão e diz:
—Eu sei, filho, e admiro isto, mas, isto não seria correto por dois motivos, você também está sobre um forte abalo emocional e precisa se cuidar, e você também precisa dar acesso à mãe dela para também estar perto neste momento, Henry. Pensa bem!
E só aí percebo o quanto estou sendo egoísta privando Suzette de estar com Valerie neste momento. Porém, eu digo:
—Dartanhã, existe alguma previsão de melhora, evolução do quadro? Previsão de quando eu a poderei levar para casa, mesmo que ela necessite de cuidados especiais em casa, enfermeira, e que isto tenha um custo. Eu estou disposto a pagar para ela estar no seu ambiente.
Ele me olha cheio de compaixão e diz:
—Nestes primeiros dias, não poderá, Henry. Ela precisa de observação criteriosa, porém, assim que passar este período crítico, poderemos removê-la sim, mas, para a casa dos Oxford's. Por enquanto, eu só a libero para ficar aqui em Livergoorn. Daggorhorn, no momento, de maneira alguma. Aqui, nós temos recursos para qualquer intervenção que for necessária. Perdoe-me. Eu sei que isto será um inconveniente, pois, você precisa trabalhar, principalmente, agora que os gastos aumentarão muito. E não estou dizendo por mim, pois, isto é tranquilo para mim, Henry, mas tratar um paciente no quadro de Valerie já não é barato, e em casa então... Haverá despesas com o hospital, enfermeiros, medicações.
Respiro fundo, porém eu digo:
— Isto não é na verdade o que me preocupa, Dartanhã. Minha maior preocupação gira em torno dela ficar por muito tempo exposta a morbidez de um ambiente hospitalar. Em casa, querendo ou não, há mais calor humano. É claro que eu não estou questionando o tratamento do hospital, me perdoe se passo esta impressão, mas, há diferença de se estar doente sendo cuidado em casa e num hospital.
— É claro que entendo, Henry, e você está corretíssimo em sua análise. Por isto eu disse, só vou segurá-la aqui no período crítico. Assim que ele passar eu a libero certamente.
— Obrigado, mas, não quer dizer que não me preocupo com as despesas e gastos. Na verdade, o que eu quero dizer é que se fosse necessário, eu gastaria todos os recursos que tenho para que ela ficasse bem. Não me importaria com isto.
Todos abaixam a cabeça ou desviam o olhar dos meus, pois, neste momento há tanta sinceridade em minhas palavras que a força delas faz com que as lágrimas que venho contendo transborde.
Respiro fundo e me recomponho. Assim que terminei de dizer, e todos demonstram sua tristeza diante de minhas palavras, Constantine pediu licença e disse:
—Dartanhã, pode providenciar tudo o que futura Sra. Lazar for precisar, mesmo com o atendimento em casa, e todas as despesas serão custeadas pela Guarda do Reino. Eu já passei o caso para o comando e eles me deram aval. E quanto a você, Henry, está dispensado de suas obrigações com a Guarda, e livre para dar assistência e cuidar de forma satisfatória de sua noiva. Devido ao grande feito para com seu Reino, você será congratulado com alguns benefícios e este será um. E a parti de hoje, o Reino estará te liberando para uma licença remunerada.
Eu não permito que ele termine...
—Mas, eu não posso aceitar. Eu tenho um compromisso...
—Não é questão de aceitar ou não, Henry. Você prestou um grande serviço ao seu Rei e ao seu povo, retirando de circulação um criminoso como Mildrad. E agora será recompensado por isto. Cabe a você somente aceitar. E fim de discussão. E vá se preparando, pois, também receberá uma recompensa financeira por isto.
—Olhe, eu até entendo que eu tenha direito aos benefícios, mas recompensa financeira, não. Eu jamais iria querer desfrutar de um dinheiro que quase custou a vida de Valerie. Irei repassá-lo à família Oxford.
Deus me livra! Só de pensar em colocar as mãos neste dinheiro, me enoja.
Vejo Dartanhã fazer sinal a Dr. Robert, que nos pede licença e sai. E Dartanhã diz:
—Ele vai em busca do seu calmante, Henry, ver o por que da demora.
E neste momento, foi o tio Heitor quem interveio.
—Olha, Henry, a vida é sua, meu filho, mas, eu quero deixar um conselho. Repassar uma parte aos Oxford’s, sim, eu até concordo, pois, eles não têm muitos recursos. Mas, tudo, não, meu filho. Você irá passar por um período de muitos gastos com a saúde de sua noiva, embora saibamos que a Guarda irá auxiliar muito, mas, infelizmente não sabemos por quanto tempo. O que está acontecendo com Valerie irá durar, então, deixe isto como reserva, pois você já tem gastos em andamento com as construções e reformas. Então, pense e reflita com cautela, Henry. Você nunca foi dado a resoluções impulsivas.
Respirei fundo, e quando iria argumentar, Constantine disse:
—Seu tio está correto, Henry. Reflita um pouco e tome as decisões de cabeça fria.
E foi a vez de Aquiles, que até então, só observava nos dando privacidade...
—Desculpe a intromissão, mas, eu concordo. Neste momento, Henry, você deve pensar que tudo aquilo que aparecer e todo o recurso que possa de alguma forma prover conforto, melhoria, segurança e maiores possibilidades para cuidar de Valerie, nunca será demais. E é muito bem-vindo.
—Eu concordo com Aquiles, Henry.
Desta vez foi Dartanhã. E em seguida, Dr. Robert volta com o meu chá calmante. Agradeço e tomo em dois goles, já que não estou sentindo sabor, por estar de certa maneira entorpecido.
—Tudo bem, posso conviver com isto, mas, minha decisão é que uma parte do recurso vai para família Oxford.
—Bem, eu queria falar duas coisas. A primeira é um pedido, e faço-o a você, Henry e a Dartanhã. –era Constantine falando... –Assim que for liberado para ver sua noiva, eu gostaria de entrar com você para vê-la. Será que seria possível?
—Por mim, tudo bem. –Dartanhã disse.
—Claro!
Eu respondi.
—Obrigado.
Constantine agradeceu. E concluiu:
—A segunda também é um pedido a Dartanhã, para que eu possa utilizar sua sala alguns minutos para ter uma conversa com Henry, Heitor e Aquiles. Eu posso?
—Claro. Preciso mesmo ver como está Valerie e pedir para que a preparem para vê-la. Ah, sim, antes que eu esqueça... Henry, nós suturamos o corte dela, mas, ele já estava em processo de melhora, achei interessante. A cicatrização física dela é algo impressionante. E mais, eu disse sobre os hematomas nos olhos e rosto, não se assustem. Certamente foi devido a pancada nas rochas.
Foi interessante o comentário de Dartanhã. Será que sua rápida cicatrização está relacionada ao seu sangue de lobo ou a saliva do homem-lobo, quando tentou estancar o sangue? Ao pensar rapidamente nisto, respondo:
— Tudo bem. Obrigado, Dartanhã.
Assim que ele sai, Constantine diz:
— Bem, o que irei tratar aqui é extremamente confidencial e estou arriscando minha carreira se isto sair daqui. Porém, me sinto na obrigação deste gesto, como homem humanista que sou, pai de família e esposo que, por muitas vezes, negligenciei as necessidades de minha família em função de meu trabalho, por ser menos experiente que hoje, e por ainda não ter experimentado as dolorosas marcas de algumas escolhas. Assim, como hoje colho as consequências de algumas escolhas errôneas, e meu amor pelo ser humano é tão grande que me faz querer ensiná-lo pelas minhas experiências, e se possível poupando-os das suas próprias decisões e escolhas errôneas, eu me sinto no dever de compartilhar com você, Henry, algo. Para que de posse desta informação você reflita, e muito, para que em seguida venha a tomar algumas decisões. Tudo bem até aqui?
Constantine pergunta, e eu respondo firmemente:
— Sim.
E ele prossegue.
— Como você sabe, temos convocado os nossos melhores guerreiros de todo o Reino para este treinamento, e haverão outros. Porém, eu sugiro a você que, no momento, não se envolva nos próximos. Apegue-se ao álibi do adoecimento de sua noiva, e assim que ela se recuperar, use o álibi do seu recém casamento, para assim que vencer esta licença, você pedir prorrogação, alegando estes fortes argumentos.
Agora ele se vira a Aquiles e diz...
— Não me surpreendo, Aquiles, se você já estiver ciente do que estou tentando trazer nessa conversa, visto que, você é um experiente combatente e foi da Guarda por longos anos. E também não me surpreende se já houver tentado seduzir Henry para a sugestão que estou dando, por suspeitar o que irei dizer agora.
Agora Constantine se reporta mim. E diz seriamente...
– Estamos na iminência de uma grande guerra, Henry, e certamente os melhores serão os primeiros convocados. Assim, se tiver que seguir meu conselho o faça logo, pois, diante de uma guerra você não o poderá fazer mais. E durante algum tempo, não acho uma boa ideia que se afaste de sua futura esposa, ela vai precisar muito de você.
Neste exato momento, eu tenho a exata noção de que Constantine está colocando sua cabeça a prêmio compartilhando esta informação preciosa comigo.
E só o está fazendo por mim, e agora sei também, que é por Aquiles. Sinto que da vez passada, na situação de Aquiles, se ele o tivesse feito, talvez Irina, sua esposa, estaria viva. Constantine estava buscando espiar um erro que levou a uma consequência grave, pois, talvez se Aquiles tivesse sido avisado e deixado a Guarda antes, provavelmente nada do que aconteceu a sua esposa teria acontecido.
É impressionante constatar o quanto cai nas graças dele, e que ele tem por mim uma compaixão de pai para filho, e por Aquiles grande admiração e respeito. Aquiles parece compreender, pois, lhe toca o ombro em silêncio e agradecido. Assim ele prossegue...
— Sei o quanto se esforça no seu ofício de Guerreiro, Henry, é notável. Tem uma mente estratégica e fantástica, é rápido e preciso nas decisões e ações. Porém, também sei que o que move você vai além de um ofício. Você usa a Guarda e o estar em combate para lidar com seus demônios interiores. Isto é visível para mim.
Fico extremamente constrangido, tentando compreender como Constantine sabe daquilo, então ele rapidamente diz para que eu entenda:
— Henry, posso reconhecer isto, pois, tenho meus próprios demônios interiores para enfrentar, e também uso o que faço para tal, o que facilita encontrá-los no outro, quando tenho meus olhares atentos. Assim, não se surpreenda por eu ter reconhecido seu escape para sua dor. Porém, eu encarecidamente aconselho-o a arrumar outro. Quisera eu poder voltar no tempo e mudar muitas de minhas escolhas. Pense a respeito, meu filho, e esta semana ainda preciso de uma resposta.
Ele me olha por um tempo, aliás, todos me olham com um olhar surpreso.
Tio Heitor, por um instante, busca meus olhos e, com seu olhar, pede que eu considere.
***
Dartanhã retorna e diz:
— Vim buscá-lo para vê-la, Henry, porém, há um inconveniente. Preciso que dê um jeito de retirar estas roupas, antes de entrar na sala de cuidados intensivos. Afinal, você está lavado de sangue e poeira.
Ele me encaminha até um banheiro e retiro minha armadura ficando somente com a roupa que visto por baixo: uma blusa branca colada ao meu abdômen, que evidencia completamente os detalhes de meu corpo e uma calça de tecido leve marrom. Apesar de ser constrangedor, pois, por onde passo o olhar de cada mulher recai sobre mim, eu não hesito, ignoro cada olhar, pois, quero ver Valerie. Assim que entrego minha armadura a Aquiles para que guarde na carruagem, lavo meus braços e rosto. E por fim, saio.
Dartanhã nos conduz, eu, tio Heitor e Constantine ao local em que Valerie se encontra e, antes de entrarmos, nos equipa com vestes específicas do hospital, nos prepara, para só depois nos permitir entrar. Porém, antes de fazê-lo, respiro profundamente longas e várias vezes e, por fim, reúno coragem para fazê-lo.
Nada preparou meu coração para o que eu iria sentir ao vê-la naquele estado, totalmente entubada, imóvel, o rosto quase todo roxo, e totalmente pálida, o corte em sua têmpora foi enorme e levou vários pontos.
Minhas lágrimas começaram a correr soltas por meu rosto, pois, era demais para mim vê-la assim. Senti que os dois corpos ao meu lado ficaram tensos.
Aproximei-me dela e, não resistindo, toquei seu rosto com carinho e seus cabelos em seguida. Ela estava coberta com um lençol branco.
Senti Constantine dar um suspiro pesado antes de dizer:
— Sua noiva é linda, Henry. E como ela é jovem.
Dou um sorriso sem humor, porém, sem desviar meus olhos de Valerie e digo:
— Sim, ela é. Obrigado! E sim, ela é muito jovem.
— Quantos anos ela tem?
— Dezenove.
Eu respondo e Constantine também se comove, digo também, pois, ao olhar rapidamente na direção dele e tio Heitor, vejo que o rosto do tio já está lavado de lágrimas. É como se ele estivesse vendo a própria Sophie ali. Valerie, assim como eu, apesar de há tão pouco tempo em contato com sua família, já o havia conquistado e era como uma filha querida para ele e tia Clara. Esta perspectiva ainda dói mais em mim.
Depois de um longo tempo, Constantine diz:
— Desculpe, mas, é que fico imaginado que poderia ser minha filha aí. Ela tem a idade de sua noiva, Henry. Meu Deus, ela é muito nova para estar passando por isto.
Dou a ele um sorriso sem humor algum e digo:
— Você não viu nada. Este é apenas mais um evento traumatizante e horrendo da coleção dos que ela viveu. Minha princesa é uma guerreira, Constantine.
E neste momento, cedo à minha dor por me lembrar com clareza de cada sofrimento de Valerie. O choro me abate violentamente, e sinto o tio se aproximar, e automaticamente viro-me em sua direção e vou de encontro aos seus braços estendidos. E choramos os dois. E digo em meio ao choro e a dor excruciante de meu coração:
— Por que, tio? Por que não foi comigo? Ela não merecia passar por isto, sofrer de novo. Por que, tio Heitor? Por que Ele permitiu isto acontecer? Ele sabe que já sofri tanto com minhas perdas, eu não posso não consigo pensar em perdê-la. Eu a amo tanto...
Não consigo prosseguir, o tio dá um tempo e responde:
— Deus é sábio, Henry. Se fosse você ali naquela cama, e ela estivesse aqui agora em seu lugar, ela sofreria muito mais. Ele permitiu você, pois, sabe que está preparado para passar por isto, e estar firme pelos dois, por você, pois, você precisará cuidar de você para cuidar dela ao acordar, mesmo porque ela pode ter sequelas, não sabemos; e por ela, você é o melhor em cuidar dela, e dar-lhe conforto e segurança. E sem você quem faria isto por ela, meu filho?
Reflito um pouco e digo.
— Você tem razão, tio.
Levanto-me de seu ombro agora, e vejo Constantine imerso em pensamentos com muitas lágrimas também correndo e diz:
— Desculpe, eu não queria ser invasivo e participar deste momento, mas, fiquei constrangido de quebrar o clima e interromper. Estou indo, e o que precisar, Henry, qualquer coisa, me procure. Eu estou a total disposição, isto inclusive se decidir deixar a Guarda por um tempo. Meu tratamento com você continuará sendo o mesmo. Sempre estarei à disposição para você, filho. Uma pena não ter conhecido você antes. E mais, eu moro muito próximo ao hospital, e sei que a casa em que estão ficando é mais longe um pouco, assim, se precisar de banho ou qualquer outra coisa, pode me solicitar que já vou deixar minha esposa de sobreaviso para auxiliar no que precisar. Serve para você, à mãe dela e qualquer outro envolvido, inclusive você, Heitor. Foi um prazer. Uma pena conhecê-los num momento tão difícil.
— Obrigado. A recíproca é a mesma, Constantine.
Tio Heitor responde sinceramente. Assim, Constantine se despede de mim e tio Heitor e sai.
Tio Heitor então diz:
— Filho, eu sei que você precisa de um momento a sós com ela. Te espero lá fora.
— Obrigado, tio.
Então ele sai.
Tio Heitor estava certo, eu precisava mesmo. Assim que ele sai, puxo a cadeira confortável para o acompanhante e sento-me ao lado de sua cama e começo a acariciá-la em silêncio. Traço linhas imaginárias com as pontas de meus dedos em seu rosto, seus braços. Passo as mãos em seus cabelos. Tomo sua mão na minha e, enfim, beijo a sua palma.
E ali o choro me vence novamente, diante da sensação de suas mãos geladinhas, mãos que amo tanto, que quando estão ativas, conseguem me enlouquecer com seus toques, me enchendo de desejo ou de prazer.
Valerie tem um significado especial e sagrado em minha vida. Ela tem sido toda a fonte da minha transformação, da minha libertação de um mundo sombrio e de minhas dores. Ela mesma foi a força propulsora que me moveu. Tenho ciência que eu jamais conseguiria sem ela. Eu realmente a amo, e demais.
Passo um bom tempo assim, conversando baixinho com ela, me declarando. E por fim, beijo com carinho e cautela cada canto de seu rosto machucado e cheio de hematomas que começam a ficar mais intensos à medida que as horas passam. Sei que demorará para eles sumirem pela intensidade de sangue coagulado em cada um. Enfim, beijo seus lábios, frios, distantes, tão diferentes dos lábios quentes e que sempre foram tão próximos e receptivos aos meus beijos.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Depois de um longo tempo com ela, curtindo-a, chorando, lembrando, saio dali com uma convicção: preciso lutar por ela. Lembro-me agora dos sonhos com minha mãe, e ali entendo seus recados: “Lute por Valerie, não desista dela”. Creio que era sobre isto que ela se referia, a tudo que eu iria passar com Valerie ao alcance de minhas mãos, mas, ao mesmo tempo tão distante de mim. Como é doloroso isto!...
Saio pelos corredores em busca da sala de Dartanhã para pegar todas as informações que a inda preciso para depois ir em casa tomar banho e me preparar, pois, esta noite eu quero passar com Valerie no hospital...
***
A pior coisa, depois de tudo que aconteceu, foi chegar na casa dos Oxford’s. Encarar Made após a morte de seu irmão, e também a seus irmãos, muito embora, eu já houvesse visto Marvel, e por último o pior, ver Suzette.
Ela já sabia o que havia acontecido, porém, quando eu cheguei, tive a exata noção de que ela esperava para ouvir de mim. A minha versão de tudo.
Então, após falar muito pouco com todos, eu a puxo para o meu quarto que divido com Valerie.
Assim que entro, sou acometido por lembranças que me torturam, principalmente ao olhar para a cama em que quase a possuí como mulher mais uma vez.
Respiro fundo com a lembrança e sento-me na beirada de uma das camas de solteiro, e indico para que Suzette sente na outra.
Assim, conversamos muito e eu a conto tudo e com riquezas de detalhes, pois, ela quer saber. Eu só omito a parte dos lobos.
Por fim, eu e ela terminamos nos braços um do outro nos consolando e reconfortando mutuamente. Afinal, minha dor e a dela poderia se dizer que eram de quase da mesma proporção. Seu sofrimento, era tão significativo quanto o meu.
Montamos uma agenda de revezamento, e concordamos que enquanto Valerie estiver no hospital será só entre eu e ela, pois, nenhum dos dois quer deixá-la.
E depois, sim, poderemos abrir o revezamento a outros, pois, tia Clara, Sophie, minha avó e até a própria Made irá querer certamente.
***
Os dias passam e a rotina sempre é a mesma. Eu e Suzette revezamos o hospital com Valerie, e por mais que outros insistam, eu não abro mão de dividir isto com mais ninguém, pois, se pudesse nem sairia de perto dela.
Vejo os momentos em que ela recebe medicação, em que cuidam de sua pele para que sua longa permanência deitada não lhe provoque feridas. Dartanhã me diz que é importante sempre trocá-la de posição e no meu tempo com ela eu o faço quase que de hora em hora.
Os únicos momentos em que saio do quarto e de seu lado é quando eles vão higienizá-la na cama, e quando vão remover e recolocar ou trocar sondas em seu corpo. E também quando chega o momento de trocar com Suzette.
Passo todo o tempo conversando com ela, embora tenha convicção que não pode ouvir, lendo a Bíblia para ela, e para mim para renovar minha esperança. E passo o tempo todo cuidando dela.
Ela continua linda! Mesmo com todos os hematomas. Como eu a amo, cada dia mais.
***
No terceiro dia em que ela está no hospital, Constantine volta para vê-la e procura vir em um horário em que eu estou ali.
Ele vem, conversamos um pouco, ele me convida para tomar um banho e almoçar em sua casa. Eu recuso. Porém, ele diz que não aceita. Todavia, eu não quero deixar Valerie só.
E bem naquele momento, Made chega com Araon para nos ver. Eu passo um tempo com eles, e quando Constantine insiste, Made diz que fica com ela para que eu vá, almoce, decentemente, e tome um banho. Vou mais pelo banho, pois, sei que higiene é fundamental para quem está internado. Como fico o tempo todo ao lado de Valerie, preciso estar limpo.
Ao chegar à casa de Constantine, sua esposa, que é uma senhora muito gentil, nos recebe com carinho.
Ele nos apresenta e pede logo que ela me prepare um banho. Assim que ela termina, ela me avisa e eu sigo para o meu banho.
Ao retornar, eles me esperam na sala e sou surpreendido com mais duas pessoas ali. Uma, eu conheço de vista e logo me cumprimenta, e a outra, fico meio em choque ao vê-la, e ela também. E pelo que vejo é a filha de Constantine, pela aparência que tem com seu pai e sua mãe.
Mas, o choque maior vem quando confirmo minhas suspeitas de que a conheço...
— Olá, Henry.
— Olá, Louise.
Constantine fica surpreso e digo:
— Conheço sua filha, Constantine, de um baile no Reino. Porém, Louise, na época, me disse que não era daqui.
Digo, lançando-a um olhar reprovador.
— E não era mesmo, Henry. Ela morava fora, estudando. Acabou de se formar, e acabou de voltar para passar um tempo conosco.
Constantine respondeu e Louise estava com um olhar estranho para mim.
— Ah, sim...
Respondo não dando muita atenção a Louise mais, pois, eu havia ficado constrangido. O triste de se ter um passado, onde se faz escolhas erradas, é que elas sempre podem bater a porta...
Assim que a Senhora Alice nos convida a mesa, ela e Constantine pedem licença. Se ausentam por um tempo, e o filho também, dizendo que irá lavar as mãos para a refeição. Eu e Louise ficamos a mesa esperando-os.
Assim, Louise diz do outro lado da mesa:
— Meu pai sabe que sou liberal, Henry, e que saio com rapazes nestes bailes. Ele não apoia, porém, não me proíbe, pois, sabe que sou independente. Ele sabe que na cidade onde estudei eles são ainda mais liberais que aqui. Porém, ele não sabe sobre você, especificamente. Não fico passando uma lista dos homens com quem vou para a cama.
Aquilo me deixa constrangido, porém, logo digo:
— Olha, Louise, aquilo fez parte de atitudes e escolhas minhas no passado, e são coisas das quais não me orgulho nada de ter feito. Pois, eu fui criado com princípios. Mas, devido a algumas circunstâncias, permiti que acontecessem, porém, elas continuarão no meu passado, pois, eu tenho um compromisso no meu presente e que representa todo o meu futuro. Sinto muito. Todavia, eu não quero nenhum mal entendido, pois, gosto demais de seu pai.
Ela me olha insondável, porém diz:
— Mas, como pode falar em futuro se meu pai disse que sua noiva está em coma. E se ela tiver sequelas? E se ela não voltar, e se voltar e não se lembrar?
Fico impaciente com Louise e logo eu digo:
— Já chega! Desculpe, Louise, mas, estou pedindo fervorosamente a Deus que nenhuma destas coisas aconteçam, mas, caso aconteçam, eu irei esperá-la, eu a amo. Lembra-se que eu fui claro naquela época dizendo que não tinha mais que uma noite para oferecer? Pois, além disso, envolveria o coração, e meu coração já possuía dona.
— Sim, mas...
– Mas nada, Louise. A dona era Valerie minha noiva, eu sempre a amei. Ela é minha espera de uma vida toda. Eu a amo e sempre irei amá-la, e não tenho mais nada a oferecer a ninguém. Perdoe-me.
Louise ficou em silêncio, porém, depois disse com sinceridade:
— Me desculpe!
— Tudo bem. Me desculpe também, por ter sido tão direto. Mas, é melhor assim, eu garanto.
Em seguida, todos retornam e eu e Louise não nos falamos mais.
Louise foi uma das moças que eu me envolvi nos bailes do Reino, e assim como Ananda, tinha se esforçado muito para ir para cama comigo. E neste, meu pai estava e acabei cedendo por ele. Apesar dela ser muito bonita, e atraente, tem um temperamento forte e é maliciosa. Não gosto da ideia de tê-la perto. E me assusta saber que ela é filha de Constantine.
Como não quero problemas maiores, assim que terminamos e Constantine me convida ao seu escritório para conversarmos, eu reúno coragem e digo:
— Constantine, eu agradeço tudo o que tem feito por mim, porém, eu preciso lhe contar algo, que pode diminuir sua estima por mim. Porém, eu não suporto mentiras e mal-entendidos, eu já aprendi através de algo que passei, que ao prolongar certas coisas, posso torná-las piores.
Ele me olha com atenção e apreensivo, eu prossigo:
— Bem, eu amo Valerie de uma vida inteira. Porém, antes de tê-la, tive algumas, digamos “experiências” antes dela. Coisas de uma noite, e a maioria das moças de fora daqui. Só houve uma de Grewnville, Valerie até a conheceu, e hoje são amigas. Porém, sua filha, por coincidência é uma delas, e eu acabei de saber ao vê-la aqui. Perdoe-me. Mas, queria que se caso um dia soubesse, que não o fiz proposital. Eu não sabia e me arrependo muito deste meu passado. Na verdade minhas atitudes da época não condiziam com o que aprendi e muito menos com o Henry que sou hoje. Tive excelentes princípios de minha mãe. Perdoe-me por ter... Passado uma noite com sua filha.
Nunca me senti tão constrangido, tirando o dia em que eu tive de falar de detalhes sobre Ananda com Valerie.
O silêncio que se estendeu foi constrangedor e preocupante. Constantine me olhava sondando-me e eu não desviava o meu olhar de seus olhos. Queria que visse minha sinceridade, passavam-se várias emoções por seu rosto. E por fim, surpreendentemente, ele disse:
— Responda-me sinceramente, você foi o primeiro dela?
Ele me estudava o tempo todo com seu olhar. Eu fui muito sincero...
— Hum... Sinto muito dizer, mas não. Me perdoe, Constantine, se é que pode.
Ele continuava a me encarar.
— Às vezes, me surpreendo com o quanto você é sincero, Henry. Bem, eu tenho certeza que não foi o último também, nem de perto. Mas, sinceramente, ficaria até feliz se tivesse sido o primeiro, pois, eu já sabia que você não foi. Fique tranquilo, Henry. Embora no início não foi nada fácil saber e aceitar a liberalidade de Louise, eu nunca gostei na verdade, porém, é um dos altos preços que eu pago, por passar muitas vezes, longos tempos longe de casa e de minha família em função da Guarda. – aquilo me faz engolir seco. – Mães, acabam sempre sendo mais maleáveis, e na verdade, eu nem poderia cobrar isto de minha esposa, ela fez o melhor que podia. Porém, agora também sei, sei que as escolhas são de Louise. Obrigado por ter sido honesto comigo. Não é qualquer um que teria coragem. Você me provou, mais uma vez, que se trata de um homem de verdade e honrado.
Aquilo me surpreende mesmo, pois estava preparado para ser colocado para fora desta casa. Enfim, não aconteceu. Porém, lá no fundo de meu íntimo, eu sabia que Louise ainda me daria trabalho...
***
Os dias passam se arrastando. Valerie está há dez dias no hospital. Eu e Suzette estamos esgotados, mas, nunca queremos deixar o local.
Neste décimo dia, enfim, Dartanhã me convoca para uma reunião com Suzette, antes de trocarmos o plantão. Assim ele diz:
— Ela está pronta. Enfim, ela está pronta para ser cuidada em casa.
Aquilo de certa forma alegra a mim e Suzette, pois, indica que Valerie está fora de perigo.
Porém, eu pergunto:
— Algum prazo para ela acordar?
— Não, infelizmente, Henry. Ela continua estável, sem sinais. Exatamente como no dia em que chegou.
A tristeza abate meu coração e os olhos de minha sogra se enchem de lágrimas.
***
A remoção de Valerie para a casa dos Oxford’s é feita cautelosa e cuidadosamente.
Todos estão empenhados em ajudar.
Um dia antes, eu e Suzette preparamos tudo para sua chegada. Cada um fez o que podia dentro do horário de folga do seu plantão.
Made continuou cedendo o quarto que já era meu e dela, pois, tinha duas camas de solteiro. Valerie ficaria ali com quem revezasse a noite com ela. Mas, claro que comprei uma cama específica de hospital para facilitar os cuidados com ela. O quarto foi levemente modificado, com algumas poucas mobílias sendo retiradas para receber os equipamentos que Valerie necessita e a sua cama hospitalar. Made também me cedeu um outro quarto.
Mas, devo dizer que mesmo estando num ambiente confortável de um lar, a cena de vê-la naquele estado nunca era confortável. Era sempre triste e angustiante.
Mas, eu procurava tentar sempre me mostrar inteiro, principalmente, para dar apoio a minha sogra e agora também a minha avó, que hoje chegaria de Daggorhorn, pois, insiste estar perto, agora que eu e Valerie estaremos em casa e não em um hospital. Ela quer auxiliar nos revezamentos dos cuidados, o que preocupa a mim e Suzette, devido a sua já avançada idade para tamanha artimanha de perder noites de sono e fazer algum esforço físico. Mas, como eu a conheço e sei o quanto ela já ama Valerie, ela o fará com imenso prazer.
Tia Clara também vem com ela, e Sophie vem junto e para ficar, quer auxiliar nos cuidados visto que Made agora está novamente mais envolvida com os cuidados de sua mãe. Ou seja, temos duas convalescentes na casa agora, e o trabalho aumentou, e todos dentro do possível procuram ajudar, colaborar como podem.
Eu passo a fazer todas as despesas da casa, visto que em minha função e de Valerie, todo o orçamento deles foi alterado, mas, é claro que tio Heitor não me permite fazer só, alegando que Araon e Érion e Sophie sempre estão aqui. Então eu permito, sem muita relutância.
É incrível como os Oxford’s abriram sua casa para nós de uma forma que nos deixe tão confortáveis. Eu estava preocupado e fiz uma reunião com eles com os três irmãos, querendo dizer que o meu desejo era alugar uma casa para ficarmos, já que eu não sabia o quanto tempo tudo isto levaria. Porém, o que recebi foi uma bronca de cada um, iniciando de Marvel e deixando claro, que deixamos de ser apenas amigos há muito tempo, e que somos uma família, e que família tem este papel de cuidar, acolher e zelar em todo e qualquer momento.
Na verdade, estavam em êxtase por poderem nos fazer isto, pois, agora começavam a se sentirem menos em débito comigo e Valerie por tudo o que já fizemos por eles. A verdade é que nós quatro estávamos chorando ao final.
***
Cada dia com Valerie em coma tem sido uma tortura para mim. Eu tive que reorganizar meu tempo e minhas atividades.
Como decidi continuar com os serviços de Aquiles e seus homens como garantia por mais algum tempo, visto que, Mildrad tem aliados e não sabemos se nos retaliarão pelo acontecido, ele e Camelot me sugeriram a continuar treinando firmemente, mesmo sem iminência de prazo de voltar para a Guarda.
Eu realmente decidi pedir minha licença por Valerie. O fato de ter possibilidade de retorno, algum dia, me deixa mais confortável.
Assim, uma das coisas que muito me distrai é quando me reúno com Aquiles e Camelot; e às vezes, Araon e Érion estão juntos, quando vem de Grewnville me ver e ver Valerie e suas namoradas. E assim, nós treinamos combate exaustivamente, às vezes, quase uma tarde inteira ou uma manhã.
Estes realmente são momentos em que consigo me afastar, ao menos um pouco, das preocupações, porque eu preciso estar concentrado o tempo todo para não me ferir.
Tanto Aquiles quanto Camelot, parecem ter a noção de o quanto estes treinos são importantes para que eu consiga me desligar por um momento do drama que estou vivendo. Pois, atacam-me com fúria o tempo todo, não me dando tempo de pensar em nada, a não ser em lâminas que se cruzam, golpes certeiros, estratégias de defesa, ou estratégias de ataque.
Eu, na verdade, aprecio demais lutar com Aquiles. Ele tem habilidades incríveis e faz-me testar e ampliar meus limites o tempo todo. Tenho percebido o quanto estou mais ágil e mais forte, embora durma pouco e esteja comendo mal.
O único inconveniente disto é que, com os combates, e exigindo muito do meu corpo, ele protesta para que eu melhore a qualidade de minha reposição de energia, ou seja, me alimente mais, e durma melhor. Mas, como? Nada tem sabor, e o sono quase nunca me alcança, e quando o faz, é por pouco tempo.
Aquiles, então, como é extremamente habilidoso no uso de duas espadas ao mesmo tempo, realmente me oferece grandes desafios. Mas, eu realmente o agradeço, pois, além, de estar contribuindo para que eu me torne um combatente cada vez melhor, tanto nas espadas, adagas, ou luta corporal, isso tem me auxiliado a manter pelos menos por algumas horas diárias, os meus tormentos, bem longe.
À medida que vou melhorando a cada dia, e vou aprendendo os pontos fortes e fracos nas defesas e ataques de cada um, eles vão se tornando desafios cada vez menores e desinteressantes.
Até mesmo Aquiles, e ele parece ter percebido isto. Pois, no início, ele me cansava com facilidade, agora eu o canso com larga escala de distância do tempo final para os treinos.
Primeiro, porque estou bem mais habilidoso, o que todos fazem questão de dizer e ficam abismados, e segundo, a vantagem da minha idade, pois, sou bem mais novo que Aquiles, portanto, tenho mais energia. Mas, ainda assim, eu o acho um oponente e tanto. Ele faz jus a fama que tem como guerreiro.
Assim, quando a luta entre eu e eles já não oferece muita diversão, uma determinada tarde, Araon diz:
—Henry, eu acho que está na hora de aumentar o grau de dificuldade. Que tal dois oponentes contra você? Aquiles e Camelot.
Um sorriso auspicioso nasce em meus lábios, embora sem humor, mas, não posso negar que aquilo tornaria meus momentos de refúgio mais interessantes, então...
—Claro! Desafio aceito! Aquiles e Camelot então, contra mim.
Aquiles e Camelot se olham e trocam olhares e sorrisos cúmplices e se posicionam. Então, reverenciam-se entre eles e depois para mim, e eu retribuo.
Assim começamos.
As investidas agora são mais precisas, rápidas e vem de todos os lados. Apesar de Camelot também utilizar somente uma espada, ele também é ágil, e o fato de ter Aquiles como parceiro o permite trabalhar mais as brechas de sua defesa. É impressionante o quanto eles lutam num timing perfeito. Pés se cruzam e se afastam, espadas também, se cruzam e se confrontam, desvencilham-se e voltam a se cruzar. É uma ótima cena de se ver, e de se interagir.
Sinto minha taxa de adrenalina cada vez mais alta, à medida que os golpes tornam-se cada vez mais velozes e perigosos. Mas, é impressionante o quanto aquilo não me intimida, ao contrário, me faz mais frio e calculista.
Penso cada golpe com precisão e rapidez, vejo cada possibilidade de ataque, transponho as brechas, testo meus limites, e à medida que o tempo passa, vou me tornando mais ágil e perigoso. Por duas vezes quase fui atingido. Porém, por três vezes, desarmei Camelot e duas vezes terminei com a espada na garganta de Aquiles, depois de deixá-lo somente em posse de uma.
Por fim, encerramos mais um dia. E todos nós estamos exaustos, e Aquiles faz uma reverência acompanhado por Camelot, evidenciando pleno respeito por meu desempenho.
Estes eram os únicos momentos de paz, pois, estava com os problemas, pelo menos por um tempo, fora de foco. No entanto, assim que terminava, tudo voltava ao normal.
Passei a ler mais. Ando mais introspectivo que o normal. O único entretenimento mesmo, são os treinamentos. Ali posso extravasar todas as minhas infinitas frustrações.
***
Certa tarde, eu estava conversando com Aquiles enquanto ele montava guarda em frente à residência dos Oxford’s, quando de repente, um mensageiro, joga uma carta gritando:
— Senhor Henry Lazar.
Pego a carta e olho confuso para Aquiles.
A carta chega lacrada, e endereçada a minha pessoa: Ao Senhor Henry Lazar.
Em seguida abro-a para conhecer seu conteúdo...
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Caro Henry Lazar,
Em primeiro lugar, quero expressar minha imensa tristeza, pelo estado de saúde de sua noiva, a senhorita Valerie. Realmente, não só eu, mas, todo o meu "Clã" encontra-se triste e abalado com a notícia de que ela está em coma.
Realmente fiz o que pude para fazer com que a queda não fosse tão danosa, mas, infelizmente não alcancei meu objetivo.
Porém, quero que saiba, que embora nossas crenças e costumes sejam diferentes de vocês, ainda assim, estamos erguendo constantemente preces por ela, almejando sua completa recuperação.
Como eu disse, estarei sempre de olho em vocês, guardando, vigiando, afinal, para isto, existo. Sei que a ama. Não é preciso conhecer muito vocês para compreender isto. Só pela forma que estava disposto a dar sua vida por ela, deixa isto muito mais do que claro. Fico imensamente feliz por isto, pois, sendo assim, já tenho ciência de o quanto fará sempre para cuidar dela e protegê-la.
Porém, hoje quero apresentar um motivo ainda maior, para que você continue protegendo-a e cuidando dela. Ela é alguém muito especial, muito além da nossa compreensão. Devo dizer que você realmente tem um grandioso tesouro em suas mãos.
Não posso te dar muitas informações sobre isto no momento, mas, no instante certo, você saberá. Só posso antecipar, que devido ao grande valor que ela representa, você jamais estará sozinho para protegê-la. Eu sempre estarei por perto, ainda que a distância.
Bem, mas, há outros motivos para este meu contato. Como eu já havia dito, em nosso último encontro, somos responsáveis em guardar os humanos e manter dentro do possível, a paz.
No entanto, sempre o fazemos de longe, não nos expondo pelo óbvio motivo de que, se o fizermos poderemos ser confundidos com outros Clãs, que não possuem nossa natureza pacífica.
Assim, quando o fazemos, é de forma a não interferir naquilo que vocês mesmo podem fazer.
Mas, em casos extremos, acabamos por fazê-lo, como é o caso de agora. Sabemos que a maioria dos problemas que envolve as guerras e mortes, e até mesmo problemas como este que envolveu você e Valerie, é agravado e ampliado pelo alto índice de corrupção na Guarda do Reino. E temos acompanhado isto de perto há quase uma década, e nos últimos anos se agravou muito. Outras pessoas além de Mildrad, envolvidos com o "Lado Negro" se beneficiam disto.
Assim, entendemos que chegou o tempo de dar um basta nisto. E entendemos que você é a pessoa ideal para realizar este feito. Primeiro, porque é muito conhecido como cidadão idôneo e de caráter. Segundo, pois é um guerreiro de referência, e não há nada que desabone sua conduta, portanto, não será contestado. E terceiro, você está cercado de homens de confiança pra executar cada passo que eu te orientar (Aquiles, e seus homens, Araon e Érion, e deixe um álibi civil ciente de tudo, para que se algo acontecer estejam respaldados; oriento que seja Heitor, e não se surpreenda por eu conhecer seus vínculos, pois, para realizar o que fazemos, sempre sabemos um pouco de tudo, mas, não temos pretensão de sermos invasivos, portanto, nos perdoe).
Sendo assim, envio-lhe nesta carta, uma lista com todos os infiltrados envolvidos na Guarda.
(...)
Acho que não preciso mencionar para guardar esta carta a sete chaves, mas, dê uma cópia ao seu álibi.
Bem, agora vem uma questão fundamental. Passarei todas as coordenadas estratégicas para que reúnas as provas necessárias para provar diante do Comando a veracidade de suas informações.
Cada nome deste está relacionado com o "Lado Negro" seja direta ou indiretamente.
Segue abaixo a participação de cada um, e a quem estão ligados.
(...)
Só apresente estes nomes ao Comando, após recolher as evidências e os testemunhos.
No mais, o que precisar, estou à disposição. Para conseguir falar comigo, deixe um bilhete nas rochas onde nos vimos a última vez, preso com uma adaga, este será o sinal de que é seu. E eu darei um jeito de me comunicar com você.
Mais uma vez, cuide de Valerie e se cuide também. No tempo certo, você saberá tudo que deseja neste momento. Confie em mim, pois, creio que já dei inúmeras evidências de minha confidencialidade.
Att.,
Lobo Prateado.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Ao terminar o conteúdo da carta, eu estava perplexo. Muitas coisas se passaram em minha cabeça. O homem-lobo sabia sobre Valerie, a conhecia, mas, visivelmente ela não sabia nada a seu respeito.
Será que tinha algo relacionado a Peter? Creio que não, pois, o lobo negro mencionou Cesaire, o pai dela, e é notório que os dois clãs distintos se conhecem, mas, não se relacionam. Mas, quais serão as ligações entre os dois? Eu pude perceber também que os dois têm ligação com Valerie a ponto de sentirem o que ela sente, pois, os dois pressentiram seu perigo, mas, os dois grupos a veem de forma diferente.
Enfim, o mais importante agora é colocar o plano do lobo prateado em ação. Bem neste momento, me lembro de Aquiles, que está estático próximo a mim, em silêncio, esperando.
Respiro fundo e dou a ele um relatório do conteúdo da carta, porém, omitindo as questões pessoais de Valerie. Ele me olha seriamente e diz:
—Estou à disposição para o que precisar. Porém, te aconselho ter uma conversa com Constantine e pedir auxílio dele.
—Será, Aquiles?
—Claro, Henry. Eu posso te garantir que se há corrupção na Guarda, e eu sei que há, não há alguém mais interessado em exterminá-la que ele. Ainda mais se ele puder fazer isto antes de aposentar. E você está em cota alta com ele, Henry. Ele dará total credibilidade e apoio a você, sem contar que ele será um excelente álibi, e apoio estratégico na execução das denúncias...
Fico refletindo, sobre o que Aquiles disse. E vejo que ele está certo.
—Tudo bem. Faremos uma reunião hoje ainda entre eu, você, Camelot, Araon, Érion, e tio Heitor, e com Constantine. Antes preciso que vá até ele e converse pessoalmente dando só as informações estritamente necessárias.
—Tudo bem. Eu estou indo.
***
Após a reunião, montamos todas as estratégias necessárias para alicerçarmos as denúncias com provas.
Percebi o quanto Constantine ficou impressionado e grato pela minha atitude, e também o quanto compreendeu que eu não poderia revelar a origem da carta. Ele entendeu o nome Lobo Prateado como codinome e eu deixei assim, seria melhor do que dar explicações e expor o Clã ao qual pertencia a matilha de lobos.
Em conjunto, orquestramos um plano onde cada suspeito será envolvido onde encontra-se vulnerável. Identificando qual a falha de defesa, o comando apresenta.
Tudo é traçado meticulosamente e documentado, pois abrimos uma ata da reunião, onde Érion escreve cada passo e, ao final, todos assinamos. Por fim, tio Heitor recebe uma cópia de tudo o que foi decidido e da carta, e Constantine também, pois, como se trata de um plano arriscado, nos precavemos para que se algo der errado, tudo aquilo chegue nas mãos devidas.
Assim que a reunião termina, noto que Louise está na cozinha conversando com Suzette e Made. E fico surpreso com sua presença ali.
Constantine percebe meu desconforto e diz:
— Desculpe, Henry. Louise pediu para vir, pois, queria conhecer e ver sua Valerie.
Ela aproxima-se de mim e me estende sua mão e diz:
— Olá, Henry. Conheci Valerie, ela é muito bonita. É uma pena seu estado.
Porém, rapidamente digo...
— Ela ficará bem, Louise. Valerie é uma guerreira!
Digo desconfortável, e naquele momento, tanto tio Heitor quanto Suzette me lançam um olhar apreensivo de aviso e advertência.
Constantine, neste instante, diz:
— Henry, eu posso ver Valerie?
— Claro, Constantine. Vamos.
Chamo-o e a tio Heitor também. Entramos e vamos direto vê-la.
Beijo seu rosto e digo:
— Olá, meu amor. Você tem visitas querendo te ver.
Acaricio seus cabelos e depois beijo sua testa, e quando viro para olhar para o tio e Constantine, eles estão com lágrimas nos olhos.
Eles se aproximam, a olham e Constantine diz:
— Os hematomas sumiram quase todos. E como ela está ainda mais linda!
Olho para ela novamente e respondo:
— Ela ainda é linda, Constantine! – e agora acaricio seu rosto. – Minha linda, não é princesa?
Digo triste beijando seus lábios delicadamente.
Saímos do quarto e enquanto tio Heitor e Constantine se reúnem aos outros rapazes, eu vou para o terreno respirar um pouco.
Após alguns minutos, ouço uma pessoa se aproximando, e olho e vejo Louise sozinha. Ela se aproxima mais e diz:
— Desculpe meu comentário.
— Tudo bem, eu compreendo. Mas, eu tenho realmente certeza de sua recuperação e nada mudará isto, Louise. E mais uma vez eu digo, eu esperarei por ela o tempo que for preciso.
— Eu sei, Henry, você já disse. Não precisa ficar tão na defensiva. Mas, eu quero que saiba que se mudar de ideia em algum momento, eu estou aqui.
Olho com incredulidade para ela... E digo:
— Olha, Louise, me desculpe, mas, eu não vou mudar de ideia. Não gaste seu tempo esperando, siga sua vida, você vai encontrar alguém para você.
E não aceitando minhas palavras, ela diz, aliás, Louise era insistente:
— Eu já encontrei.
Eu rapidamente rebati dura e friamente:
— Não! Não encontrou, pois, este alguém de quem você está falando já está comprometido e não está disponível!
Ela insiste furiosa:
— Por mais que você não queira ouvir, Henry, ainda que Valerie acorde, ela pode acordar com sequelas. Você irá se prender a alguém assim? Você pode ter quem quiser, qualquer mulher que desejar. Por que ficar com alguém que pode nem ser mais inteiramente a mesma pessoa, ou normal?
Aquelas palavras de Louise fazem ferver meu sangue, pois, por mais que eu não gostasse de pensar nisto, eu sabia que aquilo era uma possibilidade. Porém, eu me recusava a acreditar, e aquilo me fez pensar.
Será que ela voltaria do coma completamente normal? E se não, como isto seria para mim? Tentei fazer uma imagem mental de uma Valerie dependente para algumas coisas, uma Valerie mais frágil. E por mais que me doesse vê-la daquela forma em minha mente, eu ainda a queria por perto. Eu a queria comigo, aliás, eu a quero de qualquer maneira, pois, eu a amo.
E neste momento, Louise dá um sorriso se sentindo vitoriosa, achando que me fez ponderar em seu favor, e surpreende-se quando eu digo:
— Sim, eu irei querer Louise. Aliás, eu quero Valerie de qualquer maneira, pois, eu a amo incondicionalmente. Se agora mesmo ela se levantasse daquele coma cheia de limitações, sejam elas quais forem, eu a quero, não só como minha noiva, mas, como minha esposa, justamente para ter o privilégio e a honra de eu mesmo poder cuidar dela. Casamentos são assim. Se você não sabe, é na alegria e na tristeza, na saúde e na doença e até que a morte nos separe!
Mas, ela era teimosa e petulante:
— Sim, casamentos. mas, você ainda não se casou!
Porém, digo algo encerrando o assunto e deixando-a com um semblante furioso!
— Sim, eu AINDA... – e friso bem o ainda – Não me casei, mas, eu sou um homem de palavra e considero um noivado um compromisso sagrado, tanto quanto um casamento, principalmente no meu caso e de Valerie que já estamos com tudo pronto. E assim que fôssemos embora realizaríamos a cerimônia! Era só uma questão de tempo. Meu noivado, foi um compromisso em que eu selei diante dela, de Deus e de nossas famílias, que ela podia se preparar, pois, eu estava pronto para recebê-la como minha esposa! E é o que farei assim que ela deixar aquela cama. Espero que você dê este assunto por encerrado, Louise!
Ela me olha com raiva e diz:
— Tudo bem. Eu preciso ir. Boa tarde, Henry!
— Boa tarde, Louise!
E bem neste instante, tio Heitor chega e percebe que estou agitado e diz:
— Filho, você está bem?
Não adianta tentar esconder as coisas do tio, ele me conhece...
— Não, tio. Estou tentando respirar e por a cabeça em ordem.
Ele me olha com compaixão, e depois, o seu olhar muda, para um de alerta e diz-me seriamente:
— Filho, gostaria de te dar alguns conselhos. Eu posso?
Mesmo sabendo mais ou menos do que se tratava eu disse:
— Claro, tio. Fique a vontade!
— Sim. Obrigado, Henry! Você sabe que eu amo você, meu filho, e odeio invadir sua vida e privacidade. Porém, eu preciso te alertar de algo...
Ele espera e eu digo:
— Pode falar, tio, eu quero ouvir.
Assim, ele prossegue:
— Cuidado com esta moça, Henry. Ela não me passou confiança, ao contrário do pai dela. Constantine é um homem de caráter exemplar, mas, a filha eu não sei. E filho, tem mais, eu estou preocupado, pois, meus sentidos de homem experiente e vivido, me diz que ela veio aqui por você e não por Valerie. E por mais que eu saiba o quanto você ama a Branquinha, não subestime estas coisas, Henry. Você está vivendo um momento de fragilidade emocional, de carência emocional profunda e também, de carência física de homem, e que já se estende de um tempo, mesmo com Valerie bem. E vinha suportando bem, pois, tinha uma meta e mais ou menos um prazo para concretizá-la. Agora as coisas são diferentes. Portanto, a meu ver, como homem que já viveu isto e experiente, eu digo: cuidado, Henry! Não subestime o poder da carência e a astúcia de uma mulher determinada a conseguir o que quer, pois, quando você se der conta, pode ser tarde! A Bíblia nos ensina a: “fugir da aparência do mal”, e quando ela diz isto, ela se refere a nossos desejos e fraquezas carnais, pois, são coisas poderosas que podem nos dominar facilmente. Eu posso dizer isto com propriedade, pois, quando Eleonor adoeceu e depois quando fiquei viúvo por um ano, eu pude perceber o quanto a carência e nossas fraquezas de homem podem nos deixar vulneráveis. Ainda bem que o Criador, logo me deu a Clara, pois, se não, eu estaria perdido! Clara foi a minha salvação. E filho, eu tenho certeza que Valerie é a sua, mas, você terá de ter um pouquinho só mais de paciência. Porém, eu tenho certeza, valerá a pena cada minuto, ou segundo de espera! Mas, repito, seja prudente, não facilite as coisas, e afaste-se de Louise. Estes são conselhos. Claro que você é um homem e deve fazer o que quiser, mas, meu medo é que se arrependa depois, e aí será tarde.
Cada palavra de tio Heitor penetra meu coração, e digo:
— Pode deixar, tio. Eu não irei subestimar. Eu quero mesmo, e demais, me afastar de Louise.
— Muito bom ouvir isto, Henry. E nunca se envergonhe de pedir ajuda quando for difícil sozinho. É melhor solicitar ajuda e conseguir do que não solicitar e cair na armadilha.
— Obrigado, tio, pelas palavras!
Ele me dá um abraço e diz:
— Não tenho dúvidas que de alguma forma a Branquinha voltará para você, Grandão. Então, resista. Seja forte, filho.
Eu respondo com determinação:
— Eu serei, tio. Eu serei e obrigado mais uma vez.
Abraço-o e enquanto busco conforto em seu ombro de pai, choro em desabafo...
***
Cada dia que passa, sinto-me mais angustiado em ver Valerie naquela cama. Cada momento que eu entrava em seu quarto era uma tristeza vê-la daquela maneira.
Acompanhar que ela não podia mais se cuidar, se banhar sozinha, comer, beber, simplesmente ficar constantemente inerte daquela forma, era angustiante.
Todos os dias, eu passava várias horas com ela. Era sagrado isto, conversar, ler a Bíblia, ouvir música com ela. Todos os dias, a primeira coisa que eu fazia, após eu fazer minha higiene e tomar banho, era ir para seu quarto, isto quando não era eu que passava a noite cuidando dela. E ali, eu beijava seu rosto, dava bom dia, lia a Bíblia, cantava para ela, e depois é que eu saia para cuidar das outras coisas.
De hora em hora ia até o seu quarto, isto quando eu já não estava lá, e a trocava de posição temendo que seu corpo se ferisse. Quando era necessário trocar as roupas de cama que era feito dia sim dia não, eu é que a pegava no colo, enquanto alguém realizava a tarefa.
Sempre assim, a mesma rotina a cada dia, dia após dia.
A noite era a mesma coisa, antes de deitar-me, ia até ela, lia a Bíblia, cantava para ela e depois, lhe dava um beijo de boa noite.
Porém, enquanto ela encaminhava-se em seu sono ininterrupto, minhas noites eram cada vez mais sem sono...
***
Enfim, chega o dia que reservamos para colocar o plano para recolher as provas de corrupção da Guarda em ação, e confesso que minha apreensão é enorme. Primeiro, porque ninguém além do tio Heitor e Constantine sabem e, segundo, receio de algo dar errado e colocar a vida das pessoas que amamos em risco.
Tudo é programado e arquitetado minuciosamente, visando o mínimo erro possível. Para que os riscos a nós sejam o mínimo possível. Uma fuga nestas circunstâncias seria impossível, pois, justamente, este é um período em que Valerie não pode ser removida...
Antes de sair, eu vou ao seu quarto, e passo um tempo com ela e a beijo por todo o rosto e cabeça antes de sair e digo:
— Fica com Deus, meu tesouro. Estou indo terminar algo que eu comecei para que tenhamos paz completa. Eu te amo, Valerie, para sempre!
Beijo-a mais uma vez e saio para selar meu destino...
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