A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.
15 COMEÇAM AS MUDANÇAS – CURANDO UM AO OUTRO – Cap.15
Notas iniciais
POV VALERIE
Ao abrir os olhos, já era possível sentir a claridade entrando pelas frestas das cortinas, e eu sabia que teria que me levantar logo, por que, eu precisava deixar tudo pronto para o Henry antes dele acordar, porque, hoje, ele volta à vida normal. Vai para a vila e vai trabalhar na ferraria.
Ao pensar nisto, olhei para o lado, na ânsia de olhar para sua figura e contemplá-la alguns minutos antes de me levantar. Foi quando eu percebi que meu braço ainda estava estendido em sua direção, assim, também como o dele. Porém, a minha mão, não estava mais em seu rosto, estava pousada em seu peito, bem em cima de seu coração. E a sua, estava envolvendo minha cintura. O que me fez corar. E eu agradeci por ele estar dormindo e não poder me ver.
Nós, realmente havíamos estabelecido limites de contato antes de entrarmos em acordo de dormir aqui, mas, será que conta os movimentos que fazemos durante o sono? São inconscientes. Bem, eu fiz uma nota mental, de que eu precisava conversar com ele sobre isto mais tarde.
Olhei-o por mais alguns minutos, e fiquei encantada com a sua aparência, é a segunda vez que o vejo dormindo, e realmente ele proporciona uma vista adorável neste estado, ele realmente é lindo.
Henry tem ombros largos, é bem alto, tem um rosto incrível, que dormindo parece um anjo de tão perfeito. As pernas eu já vi só algumas vezes de bermuda, mas são lindas também, muito embora naquela época, eu não ter me atentado aos detalhes. Os braços, são fortes, com músculos muito bem definidos.
Na verdade, quando se olha para Henry, tudo inspira proteção. Creio que, qualquer pessoa que puder desfrutar de um abraço seu, sentirá antes de qualquer coisa, segurança. E este pensamento sobre ele abraçar alguém, foi bem desconfortável para mim. O que me surpreendeu um pouco pela intensidade.
Não pude deixar de notar que, durante o sono, seu rosto perde as expressões de preocupação e seu semblante fica ainda mais angelical. Ao mesmo tempo em que, os cabelos revoltos, dão a ele um ar mais sedutor, mais másculo. Realmente Henry é maravilhoso, e com estes pensamentos me dou conta que é hora de levantar.
Vou até o banheiro, preparo tudo para o seu banho, inclusive separo algumas das peças de roupa que ele trouxe ontem, para que ele possa vestir. Eu dou uma rápida organizada no quarto, recolhendo as roupas que precisarão ser lavadas e colocando-as para lavar.
Preparo o café da manhã, fazendo um bolo, mais biscoitos, faço o café, fervo o leite, também faço um suco de laranja, então, eu vou até a horta, que sempre tem um pouquinho de tudo, colho uvas frescas, e as preparo, colocando-as na mesa, coloco as roupas no varal. Rapidamente dou uma limpeza e organizada na casa, como estou acostumada a fazer isto pela manhã, cuido do jardim e pomar. Também tenho pressa de fazer tudo logo cedo, pois eu, preciso ir à vila hoje, preparar as coisas para o jantar, e passar na casa das meninas, para avisá-las, e também preciso ver a mamãe.
Neste momento, me ocorre uma dúvida a respeito de Henry, se ele ficará aqui esta noite, ou não. Tenho que confessar que isto está sendo muito confortável para mim, mas, será que não é cansativo para ele? Afinal, ele tem sua vida, faço outra nota mental, para que eu me lembre de falar sobre isto com ele também.
Após tudo pronto, corro para o meu quarto, vou até meu banheiro, tomo banho, escovo os dentes, lavo os cabelos, e ao me secar e me vestir, escolho um vestido verde, pois acho que vai contrastar de uma forma bem bonita com minha capa vermelha, presente da vovó, e sinto uma ponta de melancolia ao pensar nela. Como eu sinto a sua falta, principalmente morando aqui, por mais que agora, esta casa, tenha meus toques pessoais, tudo aqui me lembra ela, esta casa ainda tem a cara dela.
Depois de pronta, me ocorre uma ideia. Acho que Henry nunca tomou café na cama, e fico pensando como seria sua reação, e percebo que tenho a intensão de descobrir.
Já tem uma hora e meia que levantei, eu acho que deve estar próximo dele acordar. Vou até a cozinha preparo tudo em uma bandeja, bolo, biscoitos, café, suco leite, as uvas e duas xícaras e copos, pois, também pretendo tomar o meu café junto a ele.
Chego até a porta do quarto, e observo sua expressão, e assim, como no dia anterior, ele já dá sinais de que vai acordar, então, eu coloco a bandeja na mesinha no seu lado da cama, e sento ali, esperando.
Passam-se menos de dois minutos e ele abre os olhos, e dá um imenso sorriso ao me ver, e coloca um dos braços debaixo de sua cabeça, e antes mesmo, de pensar, beijo o seu rosto e digo:
— Olá, bom dia!
— Oi, bom dia, acho que eu dormir demais. – Ele diz, apontando para os meus cabelos ainda úmidos.
— Não, na verdade, você está bem adiantado ainda. Eu é que tenho o costume de me antecipar pela manhã, ontem foi um dia atípico. E... Tenho uma surpresa para você. – Então pego a bandeja e levo em sua direção, enquanto ele se senta, com a expressão de quem está bastante impressionado e também comovido. Ele me olha espantado, e seu rosto é perpassado por várias emoções, e por fim, após se recuperar, ele fala...
— Nossa, obrigado! Nossa Valerie.... Nunca fizeram isto para mim. – Ele me disse dando-me o sorriso mais sincero que podia.
— Eu sei, na verdade eu imaginava. E... Achei que seria algo muito especial, apesar de ser um gesto bem simples.
— Ah, para com isto, simples nada, eu já estou começando a ficar em débito com você, você tem feito tantas coisas por mim. – Eu bufei.
— Ah, honestamente Henry, pare você! Meus gestos não são nada, diante... – Ele não me permitiu terminar, segurou firme os meus braços, aproximando-nos a centímetros de distância, olhou com toda intensidade nos meus olhos...
— Preste bastante atenção no que eu vou dizer... – Eu acenei com a cabeça confirmando, e, ainda em choque pelo gesto. – Todas as suas ações nestes dias, tem sido um presente para mim, eu... eu não tenho palavras para descrever os efeitos que elas têm provocado em mim, você não faz a mínima ideia... Com estes seus gestos, você tem acessado áreas da minha vida, que eu nem imaginava que seriam mais possíveis, estes “simples”- E ele fez questão de enfatizar ironicamente o “simples”- gestos tem me curado de uma maneira tão grandiosa que eu não sei nem como explicar. Portanto, nunca mais pense isto Valerie. Porque, você tem feito por mim, coisas que valem muito mais do que qualquer outra atitude, e eu sei, eu sinto que você tem feito de coração, talvez seja por isto que esteja surtindo tamanho efeito.
As palavras dele estavam tão carregadas de verdade e sentimentos, que eu não tive como contestar.
— Então Peter, estava certo. – Pensei alto.
— Hã, como é? Como assim, o que tem haver o Peter... com o que estou te falando? – Bom acabei falando em voz alta o que estava pensando, mas, agora não tem jeito, terei de explicar a Henry.
— Bom esta é uma parte do sonho que eu não tinha compartilhado, e antes de me perguntar por que, vou logo dizendo.... Por que achei um pouco constrangedora para aquele momento, mas, enfim, Peter me disse algumas coisas sobre isto no último sonho:
“ — Então, eu ainda estou aqui até que eu tenha certeza que você vai prosseguir, que você vai se permitir ter uma chance, e sério, nada me deixaria mais feliz que fosse com Henry, ele merece, ele sofreu demais também. E é engraçado, como ele pode te dar tudo o que você precisa, proteção, amor, e em contrapartida, você também pode dar a ele o que ele precisa, afeto, carinho, cuidado, por sinal, você, é maravilhosa nisto, eu acredito que vocês podem curar um ao outro.”
— Ele na verdade estava dizendo para mim, que entendia que através de tudo que está acontecendo, nós podemos curar um ao outro. – Henry, ficou alguns, minutos pensando nisto, foi quando falou.
— Ele não poderia estar mais certo, eu mesmo acabei pensando nisto, por um momento... – Ele disse isto, parando para observar minha reação, mas por quê?
— Por quê? O que te levou a pensar nisto?
— Bom, eu estava refletindo sobre como eu queria estar aqui para te amparar quando você acordasse ontem, e acabou acontecendo tudo ao contrário, e eu estava pensando justo nisto, quando de repente surgiu um pensamento do nada, como se o meu inconsciente estivesse gritando para mim:
“...você também precisa dela, ninguém, nunca te trouxe tanta sensação de conforto e segurança e cuidado como ela hoje, mesmo ainda não te amando como você deseja e espera, imagina quando ela te amar então, você vai desistir mesmo de tudo isto?”
É claro que ele terminou a frase como um pimentão, o que me fez rir duplamente, uma por isto, e outra por me dar conta de mais uma semelhança entre eu e Henry, parece que os nossos inconscientes, adoram nos repreender. E eu continuei rindo e ele acabou se juntando a mim...
— Coisa de doido né? – Ele me perguntou ainda sustentando o humor.
— Bom, eu realmente espero que não, por que se for, eu também estou ficando doida... — E fui tomada por mais uma rodada de risos.
— Por quê? – Ele perguntou surpreso.
— Ah.... Simplesmente por que, isto acontece comigo o tempo todo, e o pior, o meu inconsciente ainda é petulante. – E eu ri de novo. E um pouco mais sério, Henry falou:
— Mais uma semelhança.
— Acabei de pensar sobre isto. – Eu disse percebendo agora, que a conversa voltou ao tom normal.
— Bom, em todo caso, Peter e nossos inconscientes, estão certos, e de tudo, acho que isto é uma coisa boa, e teremos de aprender a lidar com isto. Eu estou disposto, e você Valerie?
— É claro que eu estou Henry, mesmo por que, eu já te disse, eu tenho experimentado uma enorme sensação de prazer, ao ver suas reações diante destas coisas, isto.... Isto. Não. Tem. Preço!
— Obrigado, fico feliz por se sentir e pensar assim, e realmente muito grato, o que me lembra, que, se você pode fazer coisas por mim, isto também significa que eu posso fazer por você também, não é mesmo? E sem muita relutância, por favor.
— Bom tudo bem, desde que não haja exageros, posso muito bem viver com isto. – Disse a ele, dando um sorriso. — Bom, agora vamos comer, não estou te apressando, mas, sei que você precisa se aprontar para ir à vila, e a propósito hoje, eu também vou, vou ver minha mãe, comprar as coisas para o jantar, com as meninas e o Cedrico. E preciso avisá-las também. E você poderia falar com Cedrico por mim.
— Sim, claro, e já que você vai à vila, vamos juntos, posso te dar uma carona, ou isto é um exagero? – Ele perguntou em tom de brincadeira.
— Claro que não, seria ótimo poder ir com você.
— Então, tudo bem.
Terminamos de comer e Henry foi para o banho, eu arrumei o quarto, ajeitei a cozinha e quando estava tudo pronto e eu o esperava no jardim, ele saiu da casa, maravilhosamente perfumado, e tão... sexy, com aqueles cabelos molhados e batidos naturalmente...
Ele estava com a roupa que eu havia pegado no guarda roupa, uma calça jeans clara, botas, uma blusa de manga curta branca bem apertada, evidenciando cada curva de seu abdômen, que por sinal era maravilhoso, e reparei que ele ainda não tinha colocado o casaco. Enfim, percebi que eu não conseguia tirar os olhos do seu corpo, e também havia me esquecido de respirar, ele se aproximou, tocou meu queixo...
— Valerie, respira!
Senti meu rosto em chamas vivas. Mas, ele como um bom cavalheiro, apenas deu um sorriso casual, e se sentou ao meu lado.
— Eu estava pensando em uma coisa. – Ele disse se virando para olhar para o chalé. – Nunca passou pela sua cabeça dar um toque seu nele? – Ele perguntou apontando o chalé. – Ele já tem muito de você, o jardim, a forma de cuidar, mas.... Ainda acho que ele é mais a cara de sua avó.
Sorri naquele momento lembrando-me do que eu havia pensado nesta manhã, e Henry fez uma expressão de curiosidade, e antes que ele me perguntasse, eu fui falando...
— Eu ri por que eu havia pensado nisto, nesta manhã, e sim, eu já quis fazer isto, entretanto, o papai não estava mais aqui para fazê-lo, Peter sempre quis fazer e eu não permiti, porque, eu sei que geraria especulações sobre quem estava fazendo, e tudo mais, e as pessoas não podiam saber que ele estava aqui. Bom, então é isto, não fiz ainda por falta de oportunidade, e gostaria mesmo de fazer, não me incomoda ele ser a cara de minha avó, só que ele já representa saudades demais, por causa dela, e agora tem... o Peter. Enfim, tenho pensado nisto.
— Bem... – Ele estava pensativo. — Eu posso.... Não. Posso não, eu quero. Eu quero muito fazer isto por você.
Como creio, que ele já esperava, eu já estava começando à protestar. E assim, ele pediu para que eu esperasse só um pouco.
— Por favor, este é um gesto que representa o mínimo para mim. Isto em relação aos gastos e ao trabalho em si, que realmente não me farão diferença Valerie, mas você nem pode imaginar a satisfação que vai ser para mim, poder fazer isto por você, algo que sei que você realmente quer, e também, considere que esta será uma ação entre amigos, pois, pretendo envolver as meninas e o Cedrico nisto. Tenho absoluta certeza que eles vão adorar a ideia, já posso ver que eles ficarão empolgadíssimos. Valerie, por favor, me permita fazer isto, saiba que vai ser uma maneira de você me alegrar também, e aos outros com certeza, você quase nunca nos deixa fazer nada por você, não sem antes começar uma guerra. Por favor...
Por mais constrangida que eu ficasse com a oferta, era muito difícil dizer não a Henry, quando ele me pedia de uma forma tão doce, eu podia ver que isto era importante para ele, era como eu, com os meus gestos pequenos, evidentemente mínimos diante dos dele. Mas no fundo ele tinha razão, ele podia fazer aquilo por mim. Então, não resistindo, eu falei:
— Tudo bem, então. – E, surpreendentemente ele se levantou me pegou pela cintura e me girou quase que pulando de alegria, eu só conseguia rir, antes de ficar tonta. E quando voltamos a nos sentar falei:
— Bom, mas sem exageros. Assim que eu chegar de viajem, poderemos começar então.
— Claro! Tudo bem, mas, antes eu quero te mostrar uma coisa e quero que você coloque a sua opinião em tudo, eu só fiz um esboço...
— Um esboço de que? Como assim? – Então, muito animadamente ele começou a me explicar.
— Esta madrugada, antes de você acordar com o sonho, eu já estava na sala, como você sabe. E eu estava pensando sobre isto, e que iria falar com você hoje, e então, eu rascunhei o chalé. Algumas coisas, para que nós pudéssemos colocar no papel tudo o que você quer. E, assim que você houver me passado tudo, faço um desenho final. Mas, lembre-se, coloque tudo o que quiser, fique com ele hoje, e todos os detalhes que for se lembrando, vá anotando, que à noite após o jantar e que todos forem embora, falaremos a respeito, e antes que você me pergunte. Eu não tinha te perguntado ainda, mas como pretendia conversar hoje, fiz logo o desenho, por que eu estava com receio de não ter tempo na ferraria.
— Tudo bem, Henry. Ah... você falou algo que me fez lembrar duas perguntas que quero lhe fazer.
— Sim, pergunte qualquer coisa. – E ele apenas esperou.
— Bom, a primeira é se você pretende ficar esta noite?
— Sim, se você quiser, ou não, se você tiver outros planos, e sei que isto te leva a uma pergunta secundária a respeito de como vou fazer já que teremos pessoas jantando aqui hoje? E eu já pensei sobre isto também, vou até a vila com a as meninas e Cedrico, passo em casa, e volto correndo para cá, você se importa de ficar apenas um pouquinho só? Mas, é que eu acho mais prudente para evitar comentários desnecessários, você sabe.
— Não. Claro, você pode ir, e sim, quero que você fique, tem sido ótimo, sério.
— Que bom, também estou gostando de ficar aqui, você faz com que eu me sinta.... Em casa. E sua outra pergunta?
Bom, a outra era mais complicada, era constrangedora. E claro que ele percebeu minha relutância em falar.
— Posso ver que é constrangedora Valerie, mas sinceramente, gostaria de ouvir, vou tentar me comportar da melhor maneira que eu puder.
— Tudo bem então. – Mesmo sabendo que todo meu rosto estava fervendo, eu falei de uma vez.
— Alguns movimentos que fazemos durante o sono, inconscientemente e involuntariamente, também contam no que diz respeito ao nosso acordo de dormirmos... na mesma cama?
Não era só para mim, que era constrangedor, ele também virou um tomate vivo, e o seu rosto demonstrou preocupação.
— Por que você está me perguntando isto, o que aconteceu? Por acaso eu...
Ele não conseguiu terminar a frase, mas logo percebi que ele estava levando as coisas para o sentido errado, como Henry tinha a facilidade, às vezes, de fazer isto.
Então, eu me apressei em explicar.
— Calma, Henry, não é nada disto que você está pensando. – Ele relaxou visivelmente.
— É que ao acordar... minha mão estava sobre o seu coração, e a sua... — o seu olhar ficou alarmado... – na minha cintura, só isto. Todavia, eu achei que eu devia te falar, afinal você fez tanta questão de colocar estas coisas para mim ontem, você sabe. Que eu fiquei com receio que depois, se você descobrisse, sei lá, ficasse chateado comigo.
Ele respirou profundamente desfazendo-se da tensão...
— Desculpa Valerie, eu não tinha a intensão de aterrorizar você, e você já sabe os motivos da minha relutância. E minha resposta é: não. Acho que neste caso não há problemas.
Só que de certa forma eu me sentia tão mal com a reação dele, não sei, é como se fosse uma rejeição, não, sei explicar, ele já tinha me explicado tudo direitinho, mas, parecia que nossos papéis estavam invertidos, e esta percepção me deixou mesmo, constrangida, então, eu propus...
— Quero propor uma coisa, pois, eu sinto que isto incomoda demais você e eu estou começando a ficar desconfortável por isto. Acho melhor eu voltar para o meu quarto, certo?
— Como assim, não entendi. O que aconteceu? Você não quer? O que está deixando você desconfortável? A minha presença? – Ele estava apavorado e entendendo tudo errado de novo, então, eu terei de explicar detalhadamente.
— Calma, Henry, deixe eu te explicar direito. Sim, você, mas, não a sua presença na cama comigo. São estas colocações suas, seus limites. Eu entendo, eu respeito, acho louvável, e correto. Só que, todas às vezes que você me diz isto, ou tem uma reação como a de agora a pouco, eu me sinto mal. Parece que os nossos papéis estão trocados, e no mais, me causa uma terrível sensação de rejeição que eu não sei nem explicar, já que eu não estou fazendo nada, e por não termos nada ainda desta maneira. Não sei, é difícil até de explicar. Mas, eu não me incomodo com fato de dormir com você nestes termos. Para mim, eu encaro como algo normal, você se preocupando comigo por causa dos meus pesadelos, e eu, permitindo desta forma, por que não quero que você perca nem uma hora de sono por minha causa. Me desculpe, mas, é assim que eu vejo.
Henry, precisou de um longo tempo para refletir, até conseguir pronunciar alguma palavra.
— Entendo, entendo tudo perfeitamente. E do fundo do meu coração, eu quero te pedir desculpas, realmente eu enfatizei muito esta coisa do contato. E fiz isto propositalmente você sabe por que, eu te expliquei tudo ontem, mas, veja bem, acho que eu vou precisar ser mais claro, para não deixar você se sentindo assim. Devo isto a você. Muito embora, não fiz isto antes, por que é algo que irá me expor, mas enfim, você é muito madura, tenho certeza que entenderá.
Antes que ele prosseguisse, o parei, porque não era a minha intenção que ele se expusesse.
— Se vai te expor, não precisa Henry, eu não quero que você faça isto.
— Mas, eu quero fazer Valerie! Eu acho melhor mesmo que seja assim, afinal, é uma das coisas que podem ajudar a me cicatrizar. Pelo menos eu acredito, desta maneira. E... e eu confio em você para isto.
Ele respirou profundamente, e eu senti que era para buscar forças e coragem em seu íntimo.
— Quando eu disse para você sobre o quanto eu te queria, você entendeu que eu estava me referindo a... desejo? Você se lembra? Você compreendeu?
— Sim, eu me lembro, e sim, eu entendi cada palavra Henry, e eu acredito nelas, e é por isto que eu nem sei explicar a questão da rejeição, se é que você me entende.
— Claro que eu te entendo, muito mais do que você imagina Valerie. Quando eu disse aquilo para você, eu estava dizendo a mais pura verdade, e não é sem esforço que eu me recuso a certos contatos físicos, com você, muito pelo contrário. Por isto da minha reação de agora a pouco, eu fiquei com medo de ter agido por impulso, eu não me perdoaria por isto, primeiro por causa do que eu falei para você, eu quero demais você, e realmente você não faz ideia. Mas, a quero para mim, como minha esposa, e o mais virá como uma dádiva inclusa no pacote, que já é muito mais do que eu mereça. E segundo, por que eu já te disse que eu quero você inteira, não quebrada, não quero me aproveitar desse nosso momento de fragilidade, dá para entender?
Eu entendia, mas, havia mais, algo que ele queria, eu sentia que queria falar, entretanto, ele estava com muita dificuldade. Então, eu entendi que precisaria ajuda-lo, aproximei-me, até ficarmos muito próximos, já que estávamos de frente um para o outro, tomei as suas mãos, as beijei, e falei:
— Entendo, e quero, eu preciso que prossiga, eu quero muito te ajudar Henry.
Ele me deu um sorriso triste, que me doeu o coração, e mais uma vez, eu beijei as suas mãos, aproximei-me beijando a sua face e encostando os meus lábios em sua orelha eu sussurrei:
— Estou aqui, e assim como você tem estado disposto, eu estou disposta a estar aqui por você, para te curar.
E voltei para encarar seus olhos, e ele estava com os olhos fechados, pensando, absorvendo, ou talvez, ainda criando coragem. Suas mãos tremiam tanto, e estavam suadas. Então, ele abriu os olhos, encarando-me profundamente, e ali eu consegui contemplar, uma enorme extensão de tristeza, que refletiu em minha alma.
— Você se lembra... daquele dia... em que você estava com Peter.... No celeiro?
Imediatamente eu congelei por dentro, mas, eu mantive a minha expressão, eu estava ali por ele, depois eu lidaria comigo. E notei também que sua voz estava embargada, como que contendo uma forte emoção.
— Sim. – Contudo, eu tive que perguntar. – E você me disse que havia me visto com Peter...
E bem quando comecei a falar, o entendimento me atingiu: Ele presenciou tudo! Meu Deus!
— Você viu tudo aquilo, não foi? E foi despois daquele dia que... você rompeu comigo...
Ah meu Deus, Henry tinha visto tudo aquilo? Ele me disse que tinha me visto com Peter, mas, eu nunca imaginei que foi justamente aquela vez.
— Sim, eu vi. E claro, eu já vi vocês juntos várias vezes neste período que tenho acompanhado vocês a distância, para a sua proteção. Mas, nunca daquela forma. Naquele dia...
Ele hesitou, mas eu sentia por que. Era porque, na verdade, era doloroso demais para ele acessar aquilo. Agora, eu posso começar a entender um pouco as suas reações. E como que, confirmando os meus pensamentos, lágrimas começaram a transbordar de seus olhos.
— Você não tem ideia de como eu sonhei com momentos como aquele com você. E ver você daquela maneira... com o Peter, me... despedaçou.
Por mais que eu estivesse tentando me conter, minhas lágrimas também transbordaram...
— Oh Henry, me perdoe, você jamais deveria ter visto aquilo...
Eu disse horrorizada comigo, com ódio de mim, por ter causado aquela dor em Henry.
— Não Valerie, não fique assim, eu compreendo que você, não, que vocês não tinham culpa. Mas, o que eu posso fazer? Por isto eu compreendi o que você disse sobre rejeição, pois, foi o que eu senti naquela hora, juntamente com inúmeras outras coisas terríveis, foi exatamente rejeição nua e crua. E este é um dos principais motivos de eu querer que você me deixe claro, que você mostre para mim, caso algum dia realmente você venha a me amar, me querer, entende? Não é um capricho, é como se fosse a única maneira de eu conseguir apagar isto, fechar esta ferida.
— Eu compreendo, perfeitamente. E quero que você saiba, que não é confortável para mim, ainda que como você diga, eu não tenha culpa. Não é confortável para mim, saber que eu te feri e te fiz sofrer tanto. Por isto, é que eu disse que eu não te mereço, você é muito além do que eu possa sonhar em merecer Henry.
— Eu sei que você se sente assim, sinto isto em você. E para terminar, a minha reação quanto ao que aconteceu, ao você acordar, foi por que como eu te disse, eu sonho, sempre sonhei com isto, e é literalmente. E, eu tenho medo de ter algum sonho assim, e acabar fazendo algo, impulsivamente, em que eu possa ser levado pela circunstância, e me arrepender depois. Ou até mesmo, ao fazer, você se afastar de alguma maneira, eu não suportaria isto, seria reviver aquele dia.
Ao terminar de falar, sua voz era apenas um sussurro. E tanto o seu rosto quanto o meu, estavam banhados em lágrimas.
Depois de algum tempo refletindo, com esforço, eu recobrei o meu equilíbrio.
— Bom, se for demais para você a questão da cama e do quarto, podemos rever isto, sem problemas. Entretanto, antes que você pense que eu estou me esquivando, eu quero que você saiba que eu desejo que tudo continue como está sim, só que eu não quero fazer nada que possa ferir você, jamais, nunca mais Henry. Realmente me perdoe. E... Tem mais...
Eu não sabia por que, mas eu estava sentindo uma necessidade enorme de falar aquilo para ele, e estranhamente também, eu estava sentindo uma vontade arrebatadora de beijá-lo, mas não no rosto... e sim... nos lábios. Então, eu simplesmente falei.
— Às vezes, um pouco de impulsividade, não faz mal, sabia? Às vezes quando agimos por impulso, na verdade estamos seguindo os nossos instintos, e nossos instintos verdadeiros, quase nunca, nos enganam.
E enquanto ele me ouvia pronunciar isto, seus olhos olhavam com intensidade para os meus lábios. O que tornava o que eu estava sentindo ainda muito mais potente.
— Por que você está me dizendo isto? – Ele perguntou perplexo, voltando a olhar nos meus olhos.
— Não sei.... Talvez, seja por que quando agente se controla se monitora demais, podemos deixar passar certas coisas fundamentais Henry. Por exemplo, não pense, não edite, apenas responda. Não importa o que seja certo?
— Certo.
— No que você estava pensando enquanto te falava sobre impulsividade?
— Que...
— Não pense...
— Tudo bem, eu estava controlando... uma vontade imensa... de beijar seus... Lábios. – Ele disse aquilo totalmente ruborizado, e eu fiquei também.
Mas, mesmo assim, aquilo foi o suficiente para eu ceder ao MEU instinto, a MINHA vontade, que era enorme naquele momento. Não sei qual seria a consequência daquilo. Mas, honestamente, eu iria enfrenta-la. Fechei o resto do espaço entre nós, e antes de tocar os seus lábios eu disse:
— Eu também, eu estava pensando nisto e eu quero, eu vou... beijá-lo.
Conclui já com os lábios tocando os dele...
Nada me preparou para o que eu iria sentir naquele momento. Ele estava hesitante, eu também. Nós, não sabíamos o que estava acontecendo, mas, um desejo enorme se apoderou de mim, e acho que dele também, por que ao sentir o calor daqueles lábios nos meus, ondas de eletricidade percorreram cada centímetro de minha pele.
Minhas mãos, ainda hesitantes, foram para os seus cabelos, meus dedos percorriam por entre cada mecha, trazendo-o mais junto a mim. E após alguns segundos, acho que se dando conta do que estava acontecendo, Henry cedeu...
Seus braços me envolveram de uma maneira, calorosa, suas mãos, percorriam minhas costas, minha cintura, e uma delas subiu até os meus cabelos. Então, sua língua invadia minha boca pedindo espaço, o que eu, retribui, prontamente, e enquanto nossas línguas exploravam cada canto desconhecido, ondas e mais ondas de calor percorriam o meu corpo.
Sim, eu beijei Peter muitas e muitas vezes, e também o desejei muito, mas, ali com Henry, era diferente. Aquele beijo era potente, parecia que a cada minuto uma sensação de cura, de completude, de plenitude, me inundava, e eu podia sentir pelas reações de Henry, que ele estava sentindo o mesmo.
Não sei o quanto aquilo durou, começou calmo singelo, mas depois ganhou uma intensidade sem tamanhos, e eu podia sentir com cada célula do meu corpo. E quando já estávamos sem ar, nos separamos.
E eu não hesitei, não retrocedi. Eu não sei por que, mas, eu não estava arrependida daquilo, eu precisava, Henry precisava, não sei o que aconteceria a partir daquele momento. Mas eu estava satisfeita e feliz, e foi o que eu fiz, mostrei para ele toda a minha satisfação transbordante em um imenso sorriso, enquanto olhava profundamente em seus olhos, por que eu queria que ele visse isto, sentisse isto.
Ele continuou me olhando enquanto acalmávamos nossas respirações, ainda abraçados, e enfim retribuiu meu sorriso com um sorriso triunfante. E... Simplesmente... o meu coração se derreteu com seu sorriso.
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