A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.

4 A CHEGADA DA LUA CHEIA - Capítulo 4


Notas iniciais
Olá Pessoal, Boa Noite!!! Capítulo 4. O capítulo hoje, leva a história a uma nova perspectiva. Ótima Leitura!

POV VALERIE

Nada no mundo poderia ter me preparado para o que senti naquele momento.

Era um misto de emoções fortíssimas que quase me roubaram o folego: orgulho, alegria, tristeza, compaixão. Orgulho de Peter, por sua capacidade de ser nobre mesmo diante desta situação; Alegria por ouvir todas aquelas palavras de sua boca, pois, mesmo sabendo que sempre desejou se casar comigo, era muito bom ouvir; Tristeza por mais uma vez constatar que a vida não havia sido justa com ele; e, Compaixão, por ser solidária à sua dor, seus medos angústias e limitações, e por ver que acima de tudo, sua maior preocupação sempre foi eu. Que criatura maravilhosa!

Como podia passar pela cabeça dele a possibilidade de eu não ter mais o desejo de me casar com ele, devido a sua condição de ser um lobisomem?

Aquilo para mim não importava, pois, não o diminuía... seu coração ainda era bom. Ele realmente não se via com clareza. Enquanto pensava isto, minhas lágrimas não paravam de cair, mas como ele já estava se desesperando pelo meu silêncio, eu gritei...

— POR QUE VOCÊ FAZ ISTO? – Agora era minha vez de silenciá-lo até terminar, e foi o que fiz, dando-lhe um olhar de aviso para que ele me ouvisse até o final.

— Primeiro, eu acho que você não se vê com clareza, você não é um monstro Peter, ainda que seja um lobisomem. Você não vive por seus instintos de fera, pois, se não você já teria me matado e matado o vilarejo todo. – Peter claramente se encolheu, por reflexo, ao ouvir aquilo. — Você tem renunciado sua própria natureza, e só este fato, para mim, já redime sua condição. Então por favor, pare com isto. Segundo, por que você duvida do meu amor? Ou duvida que eu queira você como meu esposo? É o que sempre quis e continuo querendo, mas, não falo sobre isto, pois, reconheço todas as limitações que citou, e jamais eu havia pensado na possibilidade que me deste. E, e claro que sim, Peter. Eu quero muito sim, me casar com você. E eu aceito que seja desta forma, não me importo com festas, ou convidados. Eu me importo em pertencer a você e isto basta. É claro que eu gostaria que minha mãe e minhas amigas soubessem que eu me casei com o homem que eu amo, e estou muito feliz, mas, eu sei que não é possível e já aprendi que na vida não se pode ter tudo. E para mim, isto está de bom tamanho. E quando formos embora daqui, poderemos levar uma vida normal. Não vê minha vó, ela e meu avô viveram juntos toda uma vida. Com o papai e a mamãe era um pouco diferente, mas conseguiram viver juntos também.

Quando terminei, estas palavras, Peter deu um tipo de sorriso que eu já não o via dar à muito tempo, não era um sorriso comum, mas um sorriso de satisfação, de júbilo, de alegria intensa e de vitória. E eu podia sentir tudo isto, pois, estes sentimentos também estavam em mim. Assim, como para ele, era uma dádiva me ter como sua esposa oficialmente, para mim, era o mesmo, pois, desde a minha infância eu sonhei com o dia que ele me pediria em casamento, e enfim, mesmo com todas as adversidades e circunstâncias, este dia chegou.

Enquanto pensava isto tudo, ele já havia me pego no colo, rodopiado por toda a casa, enquanto me beijava desesperadamente e esfomeadamente. E eu retribuía, com toda minha paixão e satisfação.

— Então faremos desta forma, eu viajo, e neste período de lua cheia em que estiver fora, assim que passar o período de risco, eu procuro um vilarejo distante, acerto tudo e quando voltar acertaremos a data de sua viagem e para onde você vai. E assim que passar a próxima lua, eu venho te buscar, e você precisará estar com tudo arranjado para irmos, está bem assim para você?

Quando me perguntou, eu fiz biquinho e cara de desapontamento, o que o deixou atormentado, por não entender minha reação. Então, apressei em me explicar.

— Calma Peter, não se desespere! Eu só estou desapontada por ter que esperar por duas idas suas ainda, pois, eu fiquei muito empolgada com a ideia do casamento, e também, com a ideia de viajarmos juntos e passarmos um tempo só nós dois, longe daqui, e, livres. – Ao dizer isto, ele relaxou, me beijou mais uma vez, e me colocou de pé. E me atentando para o horário, eu disse...

— Bom, já passou da hora de comermos, estamos no meio da tarde, farei algo rápido como uma sopa, e logo após comermos, preparo suas roupas para a viagem.

Dizendo isto, apressei-me em direção ao fogão para preparar nossa comida. Enquanto eu o fazia, Peter me ajudava com a mesa e ia lavando e secando as louças para mim.

Nós permanecemos conversando sobre as mais variadas coisas. Combinei que passaria alguns daqueles dias em que ele estivesse fora, no vilarejo com mamãe e minhas amigas. Só tomei um susto quase derrubando uma concha de sopa quando em um dado momento ele me perguntou...

— Você irá ver o Henry? – Quando disse isto, virei-me de repente, pasma.

— Por que, está me perguntando isto? Você sabe que eu não ligo para isto. Eu admiro muito Henry, sei que devo a ele também por estar viva até hoje, mas, eu não quero que ele tire outras conclusões, e se eu der alguma brecha, posso acabar alimentando o que ele sente por mim, Peter. Acho que isto não é justo, eu não quero feri-lo, de verdade, gosto de Henry. E no mais, por que se preocupa? Vocês nunca se entenderam, sempre foram rivais.

Quando ouviu minhas palavras, tentou ser casual, mas, como o conhecia tão bem, aquilo não me escapou, mas deixei para lá, então ele me respondeu...

— Sei de tudo isto, mas gostaria que esquecesse estas desavenças como eu mesmo tenho tentado, para aproximar-se dele, pois, como já tenho lhe dito, minhas habilidades e instintos, estão cada vez mais desenvolvidos. E em se tratando de sua segurança, sinto com toda clareza e certeza, que posso contar com a lealdade de Henry em relação a sua proteção. E eu confesso que, isto me tranquiliza muito, principalmente nos períodos em que fico fora. E com relação ao medo da disputa por você, eu também confesso, que agora que você aceitou se casar comigo, e por isto já ser algo que posso de certa forma contar, não me assusta tanto mais, ele está próximo a você. Ao contrário, ele poderá sentir até mais, a sua distância no sentido sentimental da coisa. Para nós homens, coisas assim são muito visíveis neste aspecto, quando uma causa é perdida. E, no mais, ele te conhece, e também é respeitador demais, eu até admiro muito isto nele.

— A é, mesmo? Você ultimamente anda admirando Henry demais, estou ficando preocupara.

Foi bom pronunciar aquelas palavras, pois, eu senti imediatamente elas dissiparem a grossa tensão que estava se formando naquela conversa, a ponto de Peter, dar uma boa gargalhada, e eu o acompanhei, é claro.

Ao terminarmos de comer e organizar tudo. O dia já estava no finzinho da tarde e eu já havia feito a mala de Peter e estávamos esperando as horas passarem contemplando as flores do jardim, que estavam impecavelmente lindas e bem cuidadas.

Esse era um dos fatos deixavam um sinal visível da presença de Peter em minha vida e naquela casa. Pois, ninguém as cuidava melhor do que ele, e por mais que eu me desdobrasse, quando ele não estava, à resposta não era a mesma, elas continuavam lindas, mas não tão vistosas.

Quando chegou a hora, ele me guiou cautelosamente ajudando-me com minhas coisas até o vilarejo, trocamos um beijo muito acalorado, então, ele se foi... deixando o meu coração partido.

Eu sabia que estes momentos também eram muito dolorosos para ele, porém, ele evitava demonstrá-los para não me deixar sofrendo ainda mais. E eu me esforçava em fazer o mesmo, mas sempre fracassava, pois, a presença dele em minha vida sempre fez toda a diferença.

Todavia, logo me procurei me recompor, pois, eu precisava estar pronta para entrar na vila sem poder demonstrar nada.

Ao andar em direção ao Vilarejo, pude me dar conta de o quanto eu estava com saudades da mamãe, da Roxane, da Prudence, e dos demais.

Eu sempre me surpreendo com a capacidade que tive de superar o que o povo me fez nos terríveis dias de caça ao lobo.

Na verdade, com o tempo, eu pude entender o desespero que os levaram a tomarem aquelas medidas. Estivemos sempre tão desesperados por nos livrarmos daquela fera, que qualquer chance, era bem abraçada, e no mais, com o tempo, pude ir percebendo a vergonha e arrependimento do povo por ter agido daquela forma comigo. Até mesmo, eu ouso arriscar, que talvez hoje, agiriam diferentes, não sei, mas isto não vinha ao caso.

Quando estava em meus derradeiros passos para entrar na vila, tive a sensação da presença de alguém. E, naquele exato momento, desejei que Peter estivesse ali, mas, eu sabia que àquela altura, ele estava bem longe. Sua força e rapidez, também aumentavam muito nos dias próximos da lua. E ele sempre gostava de estar bem distante quando o processo de transformação chegasse.

Preparei-me para a qualquer momento me deparar com a presença de alguém, pois sentia que já estava próximo. Pensei rápido demais...

— Ai, meu Deus, que susto! Pelo amor de Deus! Quer me matar?

— Que pergunta tola! Você sabe que eu jamais faria isto, quantas vezes, terei de prová-la este fato?

Ele endureceu o olhar.

— Sabe que eu não perguntei no sentido literal. Mas, o que você está fazendo aqui? E há quanto tempo está me seguindo?

— Calma, Valerie! Uma pergunta de cada vez, e também uma correção. – Meu visitante me falava muito serio. — Primeiro, você sabe muito bem que eu faço a ronda no vilarejo nos períodos de lua cheia, mesmo que não tenhamos presenciado, mais ataques do lobo, eu não posso facilitar, muito menos, baixar a guarda. Esta é a minha cidade e o meu povo! E no mais, a minha avó mora aqui, a sua mãe também, os meus amigos... eu não posso deixar aqueles que eu amo vulneráveis. – Ele falava pausada e seguramente. Seu olhar era profundo.... — Segundo, eu não estava te seguindo, só coincidiu de chegarmos aqui no mesmo momento. E, eu atrasei um pouco para aparecer, com o propósito de criar um suspense, mesmo sabendo que, com você, estas coisas nunca tem a mesma graça que com as outras mulheres, pois, você parece não temer nada. – Ele me disse aquilo como um a incógnita e com uma profundidade no olhar que de primeira instância me preocupou, depois deduzi que era coisa de minha cabeça, estava ficando louca.... Bastava alguns minutos só, longe de Peter, e meu raciocínio já estava ficando afetado por sua ausência. Mas, logo recobrei a postura, pois, lembrei-me de minha plateia. E lembrei-me de Peter pedindo-me para me aproximar de Henry, pois, era confiável, e disto, eu também não tinha dúvidas.

— Está bem, eu sei. Me desculpe Henry, é só que não estou acostumada com tantos cuidados.

Quando eu disse estas palavras ele me encarou com um olhar de incompreensão que eu não entendi. Mas deixei para lá.

— De qualquer forma, foi bom te ver, iria mesmo te procurar para conversarmos.

Ele me encarou estranhamente de novo, mas desta vez sua máscara de tranquilidade comum a todas as ocasiões, logo estava à tona.

— Tudo bem, estou acostumado. Mas, o quer conversar comigo Valerie?

— Na verdade, eu quero saber como você está? Como tem sido esta nova vida sua, com esta nova vocação? Como está sua avó, se já se recuperou da perda de seu pai? Enfim, quero que saiba que me preocupo com você, e só procuro não demonstrar isto para o seu próprio bem, preciso que saiba disto.

Eu pronunciei cada palavra olhando nos seus olhos. E, no final, eu pude ver seus olhos brilharem de uma forma muito intensa, o que me deixou um pouco desconfortável, o que ele percebeu, é claro. Seria impossível Henry não notar, sendo dotado de toda a sua peculiar sensibilidade.... E, como sempre, ele foi um cavalheiro ao disfarçar.

— Eu sei disto, e saiba que não sou tão frágil assim. E além do mais, ainda é minha escolha estar desta forma. Pois, o dia em que eu achar oportuno, posso tentar mudar o rumo de muitas coisas, posso me casar e seguir minha vida, e isto não seria tão difícil, no sentido de que teria muitas interessadas em receber um convite assim de minha parte.

De uma forma estranha, aquelas palavras de Henry doeram em mim, mas não conseguia entender por que, pois, eu desejava muito que ele fosse feliz, encontrasse alguém que o amasse e que ele amasse também.

— Mas, eu sei que ainda não estou pronto para isto, ainda não. Quem sabe algum dia? Mas bom, com relação à vovó, dentro do possível ela esta bem, você sabe, ela é muito forte, não demonstra fraqueza em momento algum. Parece até com alguém que eu conheço, — ele disse isso, me dando um meio sorriso, — tire algum tempo e vá vê-la a qualquer hora. Sei que mesmo ela sendo durona, e carrancuda às vezes, ela é uma boa pessoa, e ela gosta e admira você. E com relação a mim, estou adorando minha vocação, na verdade, eu acho que nasci para isto. – Dizendo isto, ele sorriu mais, e muito sinceramente.

— Que bom! Eu fico feliz por você Henry! Em relação a sua avó, eu irei sim vê-la, eu a admiro também, sua força e determinação. E admiro você também Henry. Sua honra e lealdade principalmente, e acho importante que saiba disto, certo?

Ele me olhava com olhos insondáveis. A tranquilidade que emana de Henry, vem em camadas tão densas, e é tão impenetrável, que chega a ser algo assustador.

— Tudo bem, para mim. Mas agora, eu acho que precisamos nos apressar por que a noite está a caminho.

Enquanto conversávamos, não percebi que estava próximo de escurecer, então me aprecei até a casa de mamãe, e Henry decidiu me acompanhar. E eu não contestei, pois, me lembrei do pedido de Peter para permitir que Henry se aproximasse para minha proteção. De qualquer forma, Henry não era uma pessoa invasiva, portanto, não era difícil estar perto dele, aliás, é muito agradável desfrutar de sua companhia, e de alguma forma, era reconfortante me sentir protegida, acho que estava começando a me acostumar com isto, graças às insistências sem fim de Peter.

Enquanto caminhávamos em direção a casa de minha mãe, conversamos mais um pouco, e enquanto falávamos não pude deixar de pensar e me preocupar com Henry vagando pela noite nas redondezas do vilarejo, enquanto estávamos todos na segurança de nossos lares, e meu coração se condoeu com aquilo, com a nobreza daquele homem, tão jovem, mas, ao mesmo tempo tão responsável.

Como Henry era altruísta a ponto de expor sua segurança em benefício de outros. Estava distraída, a refletir nisso, quando senti ele tocar minha mão. Fato que me fez perceber que eu estava perdida nesses pensamentos:

— Chegamos srta. Distraída... – Henry me disse isso com um leve toque de humor.

— Me desculpe, mas, eu estava assim por uma boa causa.

Ele lançou-me um olhar curioso e perguntou:

— E qual é?

— Estava pensando sobre você. – Seus olhos arregalaram-se muito brevemente, transmitindo surpresa e admiração. Mas logo ele disfarçou... — na verdade, eu estava preocupada por você ficar por aí pelas ruas ou na floresta, nestas noites, e quero te pedir algo como amiga, eu posso?

Ele me olhava muito atentamente, como se estivesse bebendo cada palavra:

— Sim, claro.

— Se cuida, por favor, Henry! Eu não ficaria feliz se algo acontecesse a você está bem?

Percebi seus olhos brilharem, mas ele foi mais rápido em disfarçar, desta vez. Como já estávamos na porta da casa de mamãe ele bateu, e automaticamente ficamos na expectativa de sua chegada. O que não demorou muito.

— Minha filha! Quanta saudade!

Ela veio logo estendendo os braços para me abraçar, e Henry aproveitando a deixa, acenou com a cabeça, nos cumprimentando, e dizendo “encomenda entregue”, e foi se afastando, e eu acabei tendo que gritar um “obrigada!”, que foi respondido já de longe por um doce sorriso.

Notas finais
E aí pessoas lindas, o que acharam?