A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.
48 VIAGEM A LIVERGOORN (VL)- Capítulo 46
Notas iniciais
POV VALERIE
Sinto o meu coração dilacerado. Como se estivesse faltando um pedaço de mim. A cada quilômetro que me distancio da estação, mais o vazio em meu peito cresce.
É neste momento, que várias memórias tomam conta de mim. Primeiro, o real motivo que me fez desejar vir a Livergoorn, ajudar Made, sim, mas, com o objetivo de me casar com Peter, às escondidas.
E como tudo mudou a partir daquela escolha. Peter se foi. Henry ficou e começou a ganhar cada vez mais espaço na minha vida.
Depois, esta viagem passa a ser para repensar a minha escolha de querer estar com Henry. Em seguida, ela passa a ter o objetivo de eu realmente avaliar longe dele o que sinto por ele.
E, agora, o seu real objetivo, realmente ajudar Made e fazer as compras do meu enxoval de casamento, com Henry e de nossos trajes de noivos. Como tudo mudou na minha vida em poucos dias. Como pode isto?
Às vezes, eu acho que estou sonhando e que nada disto é real, e que eu apenas estou, num daqueles meus sonhos, que parecem tão verdadeiros e que a qualquer momento, eu irei acordar.
A vida nos leva a fazer escolhas sempre. Mas, ela nunca nos pergunta se estamos preparados para as consequências de nossas escolhas.
No dia em que eu vi Peter deixar o vilarejo, com a promessa de que, ele estava fazendo aquilo para me proteger, e que só voltaria quando soubesse que eu estava segura. E, que, eu o prometi de volta, que esperaria por ele, eu jamais imaginei, como seriam os dias após aquelas promessas...
Por mais que soubesse do amor de Peter, e reconhecesse os sentimentos de Henry, eu nunca imaginei que fosse amada em níveis tão altos e de uma forma tão intensa.
Já era bom demais, ter o amor de Peter, mesmo com todos os riscos e obstáculos de sua condição de lobisomem, então, observar a evolução e intensificação dos sentimentos de Henry, foi algo extremamente extraordinário.
O que antes para mim, era apenas uma fixação de um menino rico, que sempre teve tudo que quis, se revelou o mais puro e profundo amor que já presenciei. As circunstâncias revelaram um Henry que jamais pensei existir, um homem maravilhoso de um caráter e amor imensurável...
E hoje, eu posso dizer com convicção, meu homem, maravilhoso. Parece surreal...
Às vezes ainda me pergunto: Por que será que os dois cruzaram meu caminho ao mesmo tempo? O que será que o Destino nos reservou? Eu realmente espero, estar pronta, para entender nos momentos certos, que às vezes, as circunstâncias da vida, nos levam a redefinir nossas escolhas, revelando reviravoltas que nos pegam desprevenidos.
Uma coisa hoje eu sei, que nada acontece por acaso, e que vale a pena acreditar plenamente no amor, pois ele realmente nos surpreende e como todo sentimento nobre, ele não acaba, e sim evolui! Foi o que aconteceu com o meu amor por Henry, expandiu, ganhou nova dimensão.
E certamente o dele por mim.
Eu sei que Henry me ama incontestavelmente.
E, também, foi o que vi acontecer com o amor de Peter, ele me amou tanto, que fez questão de deixar tudo preparado para que eu fosse feliz quando ele partisse.
Desde que embarquei, eu estou sentada como uma bola no meu assento, encolhida, chorando e olhando o tempo todo pela janela.
Desde o momento em que eu olhava para o Henry, enquanto o trem se afastava da estação, e via seu rosto repleto de lágrimas, um reflexo perfeito do meu, ficando ao longe no horizonte, eu não consegui mais desviar os meus olhos dali.
Num determinado instante, quando passa um carrinho com alimentos, Aquiles me chama...
— Quer comer ou beber algo, senhora?
Olho para ele, sem vontade de falar, pois, o nó ainda está em minha garganta, respondo acenando que não com a cabeça.
Noto que Aquiles está desconfortável ao meu lado e creio que, seja pelo meu choro constante. E digo-lhe:
— Desculpe o incomodo Aquiles. Eu não consigo me conter.
Aquiles me olha com compaixão e diz:
— Sei como é senhora, não é mesmo fácil. Para nenhum dos dois, eu tenho certeza, mas, concentre-se em uma coisa, agora que começou, logo, logo, também vai acabar, e poderá voltar para ele. Pense nisto.
Fico analisando o que Aquiles disse e ele tem razão, pior é o seu caso que a distância entre ele e sua amada nunca irá acabar. Assim, digo-lhe...
— O que infelizmente não é o seu caso não é Aquiles? Este distanciamento para você, não terá fim.
Bem, no momento em que digo, me arrependo, porque, a expressão de dor que vejo em seu olhar, é tão grande, que chega a refletir em mim.
— Perdão Aquiles, eu não quis ser inconveniente e nem te fazer sofrer.
— Tudo bem senhora, eu entendi. E agradeço por sua preocupação.
Dou-lhe um sorriso:
— Gosto de você Aquiles, e Henry também, tenha certeza.
Ele sorri contidamente e simplesmente diz:
— Também gosto da senhora e do senhor Lazar.
— Obrigada Aquiles.
Passamos o resto da viagem em silêncio, e, devo dizer que, eu durmo a maior parte dela.
No entanto, há um momento antes de dormir, que tomo o buquê nas mãos, cheiro e pego a carta para ler:
Para a Razão da minha Vida e Minha Futura Esposa: Valerie.
Tenho certeza que quando começar a ler esta carta, já estará longe do alcance dos meus braços, mas uma coisa eu quero que saiba: Nunca estará longe do alcance do meu coração.
Você já faz parte da minha vida, é um pedaço de mim. É como se fosse um órgão vital para minha sobrevivência. Seria impossível retirá-la de mim, e eu permanecer vivo. Pois, é impossível sobreviver sem um órgão vital.
Você é que mantém acesa em mim, a chama da esperança, da restauração, de uma nova vida e de que é possível voltar a ser feliz. Pois, você é a minha felicidade.
Cuide muito bem do meu coração, pois, ele está indo com você, e tenha certeza, que eu cuidarei do seu, que estará comigo.
Eu Amo você, minha Noiva linda e amada!
Na verdade, Te Amei Ontem, Te Amo Hoje e Te Amarei Eternamente!
Do Sempre Seu, Seu Noivo: Henry Lazar!
˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜
Passo um bom tempo chorando, mais um pouco, com saudades. Contudo, eu adormeço.
***
Sinto uma mão tocar o meu ombro com cautela, uma mão grande e com um aperto característico masculino, porém, não é o toque que eu amo e estou acostumada. Então, eu ouço a voz...
— Senhora por favor, acorde, porque chegamos. Estamos na estação de Livergoorn. Vamos? A senhora Made está a sua espera. Olhe pela janela.
Bem neste momento, em que ouço o nome Made, me dou conta: “A Viagem” cheguei...
Tento ajudar Aquiles com as malas e ele não deixa, o que me deixa aborrecida e ele simplesmente me olha sério e diz.
— Lembre-se que está ferida, eu não estou a fim de ver a senhora ter que dar ponto, de novo.
O comentário dele, faz a lembrança da dor, vir a minha mente e eu recuo da teimosia, na hora.
Ao descer, eu sou recebida por uma Madelaine, um Marverick e um Marvel muito felizes, que me abraçam e me beijam.
Aquiles desce, já conferindo tudo, tem seus olhos atentos a todos os lugares.
Ele cumprimenta os rapazes e a Made e nós seguimos rumo a carruagem com o brasão dos Oxford’s.
Made está em uma euforia só, a conversar comigo. Entretanto, eu estou um pouco anestesiada ainda, com o rosto repleto de lágrimas de Henry em minha mente.
Vejo que Aquiles já se entrosou com os rapazes.
Quando estamos a caminho da casa dos Oxford’s, e todos estamos juntos na carruagem, pois, eles têm um cocheiro. Made faz a pergunta que estava demorando...
— Valerie os Lancelot’s levaram você na estação não foi? E como está Araon?
Respiro fundo, pois, após deixar a casa deles, esta será a primeira vez, que eu terei de realmente me lembrar do que ocorreu.
Olho para Aquiles, e sei que ele tem a exata noção, de o quanto será penoso contar o que aconteceu, para Made, pois, eu terei de reviver as cenas.
Assim, respiro fundo e o faço...
Ao terminar, estou em meio a lágrimas e Made também, muito preocupada com Érion e com Araon que havia ficado arrasado.
Então, Marvel diz:
— Nossa! Eu havia percebido que ele era bastante diferente do Araon, naquele dia no noivado, porém, realmente dava para ver que tinha algo mais, eu só não sabia o que era.
— Ainda bem que vocês chegaram a tempo.
Marverick disse.
— Nem me diga Marverick, graças ao Criador!
Eu respondo. Resolvo perguntar a Made...
— Made tem duas pessoas que eu quero falar, aqui em Livergoorn, a Ananda, eu quero mesmo vê-la e a Elise.
— Elise a musicista?
— Sim, Érion me indicou-a porque eu estou com o objetivo de aprender a tocar, nestes dias, para passar o tempo, o que acha?
— Ótimo Valerie! Nossa que romântico, Henry cantando e você tocando.
Eu sorri e disse:
— Não conte nada a ele, nenhum de vocês viu? É uma surpresa que eu irei fazê-lo. Mas, a propósito Made, Henry toca, e para o seu governo, muitíssimo bem, viu?
E nesta hora, Marvel rindo, diz para mim:
— Eu já sabia, pouquíssimas pessoas o sabem. Mas, enfatizando... E o que é que Henry não faz e perfeitamente? Ele é um gênio, só que é muito modesto e nunca se mostra, então, ninguém imagina!
— Ai... nem me fale Marvel, o meu noivo é perfeito mesmo, fazer o quê? Eu é que sou uma mulher muito sortuda!
E todos riem de mim, inclusive Aquiles. E Made diz...
— Eu, se fosse você, não faria muita propaganda de Henry aqui Valerie, principalmente, por que ele é da Guarda, e as mulheres do Grande Reino tem uma “cascata inteira” por guerreiros, e não podem ver uma armadura.
Bem neste momento, eu arregalo os olhos apavorada, e digo...
— Ainda bem que Henry nunca vem vestido com o seu equipamento, que horror!
Eu digo isto tão assustada, e apreensiva, que todos riem muito mais, mas, para ter certeza, eu pergunto...
— É brincadeira isto, não é Made?
— Claro que não!
Made diz muito séria, por sinal, e, o meu sorriso some do rosto, já pelo acesso de ciúme travado em meu íntimo.
Marvel, Marverick e até Aquiles, ainda que contidamente, riem é muito, neste momento. E Marvel fala:
— Made, você está assustando Valerie, sabia?
— Mas, eu estou falando a verdade Marvel, e você sabe disto. E Valerie é minha amiga, estou dando as dicas para que ela se previna logo, eu é que não dou brecha com Araon, você sabe disto! Ele já não é fácil, ou você acha que eu não sei, eu saquei tudo naquela carinha de Araon, ele acha que me engana, mas, eu sou esperta!
Nossa a conversa de Made me assusta um pouco, como a cabeça dela realmente mudou depois que ela veio morar em Livergoorn.
Os rapazes só fazem rir, pois, sabem que ela está falando sério. E neste momento, eu tenho certeza que estão com pena de Araon, que desta vez, foi “pego pelo pé”, pois, ele é terrível mesmo, porém, a Made não é brinquedo, os dois realmente, estão na medida certa um para o outro. E Marvel diz:
— Eu sei Made, só que se você ficar falando estas coisas com Valerie, Henry não vai poder dar um passo sem ela aqui. E como vamos poder fazer programas só para homens quando ele vier?
— O QUÊ? – Eu digo brava e nervosa. – Como assim? – Meu sangue ferveu em segundos, quando eu compreendi o que estava por trás das palavras de Marvel. — Que história é esta de programa só para homens Marvel? Onde é que vocês pensam que vão levar o meu noivo, que eu não possa entrar? Olha só, eu acho que Roxane está precisando vir mais a Livergoorn sabia?
Marvel me olhava sério agora.
Nossa aquilo fez meu sangue ferver de raiva. Tenho certeza que meu rosto estava vermelho fúria, pois, o ardor era intenso. E sem papas na língua e aborrecida, eu disse...
— Muito bonito você Marvel, eu venho de longe, largo a minha vida, meu noivo que eu não deixo por nada, em Daggorhorn, por vocês, e você bem querendo levar o Henry para o mal caminho, eu mereço mesmo! – Eu estava uma fera com aquilo.
Todos até aquele momento, estavam rindo as minhas custas, até Aquiles, mas, no momento em que eu disse isto e no tom aborrecido em que eu falei, e olha que foi muito aborrecido mesmo, todos pararam instantaneamente.
Onde já se viu? Levar o meu noivo em um lugar que eu não possa estar presente, e desfilar com ele no meio das “sirigaitas” de Livergoorn. Marvel e Marverick viram que eu estava um tanto chateada e disseram:
— Calma Branquinha!
Olhei com olhos semicerrados para os dois, pelo visto, o apelido me dado por Araon, já havia se estendido. E eles se explicaram.
— Olha não é culpa nossa, é impossível não pegar o apelido, pois, temos de ouvir Araon te chamar assim o tempo todo. Se o próprio Henry não conseguiu contê-lo de te chamar assim...
— É verdade Valerie. — Made diz.
Bem, na verdade eu não me importo com o apelido, eu até gosto porque sei que é de origem carinhosa. Mas, eu ainda estava aborrecida, e não era com o apelido.
— Tudo bem, não tem problema, “o apelido”.
Eu frisei, deixando bem claro, que não era aquilo que me irritava.
— Agora é sério Valerie, é brincadeira, eu não vou levar Henry a lugar nenhum não. – Marvel diz preocupado.
E, eu digo muito séria.
— E não vai mesmo, Marvel! Pois, ele não arreda o pé daqui, sem mim, depois desta Marvel... e é sério, Roxane saberá disto, depois você se vira com ela. E Sophie também Marverick. Eu confio demais em Henry, porém, eu tenho os meus motivos, e eles são muito plausíveis.
E tinha mesmo. Esta é justamente, a cidade em que Henry teve a maior parte dos seus “casos” antes de mim. Eu é que não vou dar brecha, de maneira alguma!
Vai que ele reencontra, mais alguma aqui, e bem-disposta a provoca-lo, já basta o sufoco que eu passei, com minha insegurança em relação a Ananda. Graças a Deus não foi nada. Mas, definitivamente eu não quero arriscar.
— Valerie é brincadeira! – Os dois dizem juntos, agora muito sérios e apreensivos.
Aquiles só faz prender um riso com a situação deles.
— Brincadeira? Pois, vocês dois, pensem bem, antes de fazê-las então, viu? Pois, eu não brinco a respeito de fidelidade conjugal Marvel, isto, para mim, é coisa séria e sagrada! Você deveria saber disto, pois, está tão noivo quanto eu!
Nossa! Esta conversa, tinha realmente me tirado do sério, mais do que eu havia imaginado. Minhas mãos estavam trêmulas, e pelo olhar que Aquiles me deu, eu sei que ele percebeu, e sua expressão mudou para preocupação, e eu já sabia o motivo, eu ainda não posso me aborrecer. Dartanhã deixou isto claro. E minhas dores quase não têm me perturbado.
Made, que me conhece quando estou irritada, tratou de repreender os rapazes.
E neste momento, parece que reconhecendo o que acabei de pensar, minha cabeça começou a doer...
Havia dias que isto não acontecia, e meu ferimento, também doía, acho que resultado do meu sangue quente pela raiva.
Dei um leve gemido segurando a minha ferida e Aquiles percebeu, pois, estava em minha frente e disse.
— Está doendo senhora?
— Um pouco. – Resolvo dizer a verdade.
— Assim que chegar, refaça o curativo e tome o chá para dor, por favor, não ignore, ainda pode infeccionar, pois, é muito recente.
— Irei fazer isto Aquiles, mesmo por que, a minha cabeça está estourando, então, eu não terei como escapar do chá.
Todos me olham preocupados e vejo olhar de remorso em Marvel e Marverick pelas coisas que disseram para me provocar. Bem neste momento, Made os fuzila com os olhos.
Vi pelo semblante de Aquiles, que ele ficou apreensivo, e disse:
— A senhora precisa repousar. Ainda não pode se aborrecer, nem fazer esforço. Eu vou aproveitar e marcar o Dr. Dartanhã para amanhã.
— Já marquei. – Made diz. – Henry pediu por meio de Rox, e Marvel me falou, já está agendado para amanhã pela manhã mesmo.
Aquiles assente com a cabeça. E só no momento, eu me dou conta de sua responsabilidade frente a Henry para cuidar de mim.
***
Ao chegarmos a casa dos Oxford’s, a primeira coisa que Aquiles faz, é fazer uma busca pelas redondezas.
Eu chego, tomo um banho, faço o meu chá e descanso um pouco no quarto que Made.
Ela me disse que ali, eles são liberais e que quando Araon vem, eles dormem no quarto dela, e que Rox dorme com Marvel quando vem também. E, me diz por fim, que não há problemas em ceder um quarto para Henry e eu.
Todavia, eu a digo que eu prefiro dormir com ela em seu quarto, mesmo por que, nós nunca dormiremos juntas mesmo, porque, nós iremos revezar para dormir com a sua mãe. Ela aceita numa boa e não faz perguntas, creio que ela percebe que eu ainda não estou bem, e acho melhor assim, não quero ficar pensando no momento no que irei dizer.
***
Assim que acordo, eu percebo que já está à noite.
Me apronto e saio do quarto, para ver os outros e noto que o cheiro do jantar já preenche a casa.
Bem quando chego à cozinha, todos me esperam, inclusive Ananda. E Made diz:
— Surpresa! Preparamos um jantar para você nossa convidada tão esperada!
E elas vêm e me abraçam, Ananda como sempre é muito gentil e diz:
— Valerie, eu estava contando nos dedos o dia de sua chegada! Eu trouxe alguém para te conhecer, pois, Made me ligou hoje, antes de eu vir, e disse que você precisará dela.
Ananda diz e bem neste momento, aparece uma linda moça de cabelos escuros e olhos profundamente azuis. E Ananda me apresenta.
— Esta é Elise, a musicista.
— Olá Elise muito prazer, eu sou Valerie.
— Olá Valerie muito prazer também! Enfim, é uma alegria conhecer você, Ananda fala tanto em você que eu estava curiosa. Ela sempre diz que você é linda, maravilhosa, inteligente, enfim, que Henry arrumou uma noiva perfeita. E, agora, eu estou confirmando com os meus olhos.
— Nossa Elise, eu sinto muito dizer que Ananda exagerou, aliás, Ananda sempre exagera nas qualidades, pois, ela é um doce de pessoa.
Eu digo encabulada, e Ananda responde:
— Que nada Elise, ela é mesmo tudo isto, e além de tudo, é muito simples e modesta.
Ananda diz, confirmando, me deixando corada.
— Bem, Valerie pelo que eu saiba, ou seja, Made me disse, que você terá de fazer as aulas aqui. E me diga, qual instrumento você quer aprender?
Elise me pergunta animada. Ao que parece, ela é uma pessoa muito sensível e gentil.
— Bem, eu preciso mesmo fazê-las aqui Elise, se não houver problemas. E quanto ao instrumento, eu primeiro quero aprender o alaúde.
Eu respondo.
— Ah sim... Que ótimo, uma boa escolha, pois, os instrumentos de corda, são sempre os melhores para se começar. Combinaremos assim, então, como você quer aprender rápido, programarei as aulas em modo intensivo. E você terá de treinar pelo menos duas horas por dia.
— Tudo bem para mim Elise, mas, devo dizer que eu não sei nada, nunca toquei.
Eu disse sincera.
— Não há problemas, as vezes é até melhor.
— Então está tudo resolvido, obrigada Elise, foi um prazer imenso te conhecer.
— Nossa! Eu é que fico honrada de conhecer você Valerie, a futura Sra. Lazar.
O comentário de Elise me deixou corada novamente, mas, me fez ver também, o quanto Henry realmente é prestigiado.
Bem neste momento, Marvel e Marverick, vêm até mim. E eles me chamam para conversar. Sinto que Aquiles se aproxima preocupado.
— Valerie. – Marvel diz. – Nos perdoe pelos comentários na carruagem, nós não queríamos te trazer tanto desconforto. Reconhecemos que fomos muito inconvenientes. Prometemos que isto não vai mais acontecer.
Havia tanto arrependimento e sinceridade nos olhos deles, que eu não tive como negar.
— Tudo bem, mas, eu realmente espero, que isto, não se repita mais.
— Não irá se repetir, prometemos a você.
— Tudo bem então. Desculpe-me também, pelas coisas hostis que eu disse e por ter ficado tão nervosa.
— Claro, afinal, nós merecemos ouvir cada coisa daquela. Realmente nos perdoe.
— Está tudo certo rapazes, fiquem tranquilos também.
O restante da noite corre perfeitamente.
Acompanho Made quando ela vai dar o jantar a sua mãe.
Eu confesso, que me dá uma tristeza enorme, ver uma senhora tão jovem naquele estado. Como se estivesse alheia a tudo e todos.
E é tão lindo ver o carinho que Made e os rapazes têm com ela. Made conversa com ela, enquanto a alimenta. Os rapazes de vez em quando, vêm ao seu quarto, conversam com ela, a beijam e abraçam, e, em alguns momentos, eu tenho a impressão que ela está presente, pois, eu vejo um esboço de um sorriso de satisfação, pelo carinho dos filhos, em sua face. Assim que Made a alimenta, ajudo a trocá-la. Preparando-a já para dormir.
Aproveito a oportunidade e converso com ela com carinho, digo quem eu sou, falo de alguns fatos em que ela esteve presente na minha infância e adolescência em Daggorhorn, dou-lhe a notícia de que, eu irei me casar.
Eu conto-lhe, que eu ficarei alguns dias aqui, para auxiliar Made a cuidar dela, e que, haverá noites em que, eu serei a sua companhia. E no finalzinho, eu beijo a sua face, e mais uma vez, ela esboça um sorriso.
Made tem lágrimas nos olhos quando eu termino. E ao sairmos do quarto, para nos prepararmos para a noite, assim, que chegamos ao seu quarto, ela diz, tomando minhas mãos:
— Valerie, muito obrigada, pelo que você tem feito por nós. Você foi uma dádiva que Deus nos enviou, pois, apesar de amar a minha mãe e cuidar dela com todo o carinho, eu tenho estado muito cansada e realmente, eu precisava de refrigério. Deus a abençoe minha amiga e retribua a você, em tudo o que você precisa e merece.
Made chorava, enquanto dizia aquelas palavras, e eu já tinha lágrimas pelo rosto também, assim, a abracei e respondi:
— É um prazer enorme para mim, poder ajudar a vocês Made. E quero te propor uma coisa: eu tenho para mim, que eu irei dormir muito pouco, pois, já estou sentindo muita falta de Henry. Assim, eu te peço, deixe-me passar as noites, sempre com ela, pois, assim você se recupera mais rápido.
— Mas, Valerie é muito puxado, e você não está totalmente bem de saúde ainda.
— Sim, eu sei, mas, se eu estiver que ficar acordada mesmo, que é o que penso que vai acontecer, eu prefiro ficar ocupada. Faremos assim, eu começo hoje e faço uma experiência, e qualquer coisa, mudamos a rotina de novo. Entretanto, eu vou te pedir, para você me dar algum tempo para repousar durante o dia.
— Claro Valerie, para repousar e fazer as suas aulas. Você tem todo o meu apoio. E apesar de perceber, que você evita o assunto e eu respeito isto, eu já vou logo dizendo: quando Henry vier, independente de onde você escolher dormir, você ficará livre a noite viu?
— Mas, se Araon estiver junto, eu durmo com ela para você aproveitar Made, pois, sei que você quase não pode fazer isto.
Ela da um enorme sorriso e diz...
— Você faria isto?
— Lógico Made. Pois, assim que eu for embora, a minha rotina volta ao normal, mas, você não. Permanecerá na mesma rotina, ainda limitada, para fazer as coisas por você. Minha renúncia será temporária, mas, a sua, é por tempo indeterminado.
Ela me olha admirada e diz...
— Você é um anjo sabia? Não sei como Mildrad pode querer fazer mal a você, eu nunca vou entender isto.
Bem no momento em que Made diz o seu nome, eu estremeço e o medo dele, já me preenche, fazendo-me me sentir mal e totalmente desconfortável.
Made percebe, e diz:
— Valerie me perdoe. Mas, eu preciso te perguntar algo: o que Mildrad fez a você foi tão sério assim? Porque apenas o nome dele te deixa apavorada, e a presença então... eu nunca vou me esquecer da cena do noivado, a sua reação de desespero e pavor ao vê-lo. Olha, eu sei que deve ser muito difícil falar e eu sei também, que você deve querer me poupar de ouvir, mas, eu queria pelo menos entender...
Compreendo verdadeiramente a situação de Made, deve ser difícil enxergar estas coisas, horríveis, em um irmão de sangue, então, eu lhe digo...
— Olha Made, eu nunca falo detalhes sobre isto, o único que o sabe é Henry. – E, ela fica surpresa quando digo isto, pois, creio que pensava ser Peter o único, a saber. Mas, nem mesmo Peter, conseguiu acessar certas coisas em mim. Somente Henry, tem este poder.
— Olha Made a única coisa que eu posso dizer, é que, se Peter não houvesse chegado, eu teria me tornado uma mulher ainda sendo uma menina, e digo a você, foi por muito, mas, muito pouco.
Digo as palavras de vez, pois, o nó já se formava em minha garganta.
Bem neste momento, Made põe a mão na boca para abafar um grito e começa a chorar, e eu a abraço a consolando...
— Ah Valerie me perdoa... Me perdoa pelo que ele fez a você... Eu sinto tanto!
Ela diz em meio as lágrimas e eu respondo também em lágrimas, porque este assunto, é demais para mim...
— Sim, Made, nenhum de vocês tem culpa, das escolhas errôneas de Mildrad. Fique sossegada, porque eu compreendo isto.
Ela funga um pouco e diz:
— Obrigada Valerie!
A partir daquela noite, começa então, a minha nova rotina.
Realmente eu quase não consigo dormir, então, eu passo as noites com a madame Oxford, me dedicando aos seus cuidados.
Os banhos dela, sempre são administrados por eu e Made, juntas, principalmente agora, no principio, devido ao fato de o meu ferimento, ainda ser recente. As trocas, são revezadas por nós duas, mas, agora no início, também fazemos juntas, para que eu não me esforce tanto.
Ao findar de uns sete dias, além de retornar ao Dr. Dartanhã, acabo indo também a Dra. Helena, com o objetivo que ela me veja, para que ela comece a administrar os chás, para que eu evite a gravidez e para retirada dos pontos do meu ferimento.
Como eu já estou mais familiarizada com ela, a minha consulta é tranquila e mais fluida. Pergunto várias coisas a ela, dúvidas que eu tinha a respeito de evitar uma gravidez, e até mesmo, de preparar-me para uma ou facilitar o seu processo.
Perguntei também, sobre como é, normalmente, a atividade sexual durante a gravidez. Pelo pouco que sei, há uma orientação as mulheres a respeito de um tempo afastada da atividade sexual, muito ligado a questão religiosa de pureza, mas, como estas coisas ainda são pouco faladas devido ao tabu sobre o assunto, eu acabo sabendo o mínimo.
Então, como eu sei que Helena, é mente aberta, uma estudiosa e minha médica, acho ela, a melhor opção para esta conversa.
Helena me diz, que a vida sexual, deve ser normal durante a gravidez, e é até muito saudável, principalmente para o humor e auto estima da mãe, e a mãe estando bem, o bebê estará.
Ela só enfatizou, que, se deve evitar, é claro, algumas posições que requerem muito esforço, após o sétimo e oitavo mês, por causa do estagio adiantado da gestação. Ela também me orienta, que, o sexo não machuca ou compromete o bebê, em hipótese alguma, como muitas pessoas acreditam.
Foi muito bom ter esta consulta com ela, me acrescentou demais. Retirei várias dúvidas e saí muito mais segura em muitos aspectos.
Mesmo eu já havendo me relacionado, sexualmente, com Peter, e, eu já saber algumas coisas, até pelo fato, de já ter compartilhado poucos assuntos, com as minhas amigas, eu sabia que, nenhuma informação minha, era proveniente de origem técnica, e o fato de Helena ser médica, me deixou bem mais segura.
Agradeci o fato de Henry não está aqui. Eu não sei o motivo, mas, alguns assuntos, ainda são desconfortáveis falar em sua presença. Não que eu deixaria de fazê-lo, se necessário. Porém, sem ele, de certa forma, no momento, eu senti um pouco mais de liberdade.
Observo, no decorrer dos dias, o quanto Made vai se tornando mais descansada. O seu semblante suaviza e também o seu humor. Todavia, o meu fica mais pesado e cansado.
A esta altura, a saudade me oprime. E sinto demais, a ausência de minha mãe, das meninas e do Cedrico. Mas, o que realmente me consome, é a falta, a saudade que eu sinto do Henry.
Eu sinto a sua ausência em cada parte de mim. Eu penso nele vinte quatro horas por dia, e não há nada que eu faça, que não me faça lembrar-me dele. A dor em meu peito chega a ser física, pela angústia de não tê-lo perto.
As noites, são as piores horas, pois, o fato de ficar só, visto que, a madame Oxford não interage, me dá longos momentos para pensar. E tudo que ocupa os meus pensamentos, está relacionado com ele.
Eu sinto a ausência dos seus beijos, do seu abraço, de poder amá-lo, de conversar com ele, de sua voz, dos seus cuidados, de exatamente tudo, até da forma obsessiva de me proteger. E olha que eu nem acredito, que algum dia, eu diria isto. Eu o amo demais.
O pior momento, é quando eu extraio uma oportunidade, para ouvir as nossas músicas, é como se eu pudesse sentir sua presença, e a saudade fica esmagadora.
Esta noite mesmo, mais uma vez, eu coloquei o som baixinho no quarto em que eu fico com a madame Oxford. Eu venho percebendo, que aquilo também a tranquiliza. É como se ela se mostrasse, mais viva, até o seu sono passou a ser menos agitado.
Eu contei o fato para Made e ela ficou maravilhada. Ela realmente adora o carinho que eu venho dispensando a sua mãe.
Eu ouvia as músicas e pensava em Henry o tempo todo, na verdade, todas me faziam lembrar-me dele.
Em uma determinada circunstância, algo aconteceu, que a princípio me assustou...
Eu estava distraída, administrando os cuidados à madame Oxford, olhando a sua temperatura, conferindo se estava em uma posição confortável e por fim, eu acariciei o seu rosto e os seus cabelos, me lembrando da minha infância, das lembranças que eu tinha dela. Ela era tão linda quando mais jovem. O quanto a enfermidade a havia maltratado. Aquilo me trouxe uma imensa saudade da minha mãe.
De repente, de uma forma surpreendente, uma mão corre na minha bochecha, com carinho, porém, sem muita firmeza, enxugando uma lágrima que rolou dos meus olhos.
Eu tomei um choque, ao constatar que era a madame Oxford, em um pequeno momento de lucidez, imediatamente eu disse sorrindo:
— A senhora está aqui, seja bem-vinda! – Eu disse feliz, e ela sorriu. — vou chamar Made para vê-la.
Entretanto, ela segurou o meu braço com força, focou o seu olhar em meus olhos, um coisa que ela não faz há um longo tempo, e com uma voz fraquinha, mas, muito clara, me disse:
— Não! Não há tempo, é muito rápido. E, hoje eu realmente quero aproveitar o meu tempo com você Valerie! Você ficou tão linda querida! – Aquilo me fez chorar, ela se lembrava de mim... e ela prosseguiu. – Não chore querida. Eu estou bem. Na verdade, eu quero que guarde algo que vou falar com você, aqui. – E ela tocou meu coração. – Você também passará uma provação minha filha. Porém, não faça como eu, não desista! Eu fui fraca, e as dificuldades e decepções, falaram alto e eu me entreguei a isto. Porém, você é forte, é boa, é amável e muito amada. Não se entregue nunca, não importam as circunstâncias. E no mais, aquele que habita aqui. – E mais uma vez ela toca meu coração. – Seu noivo. – E agora ela toca a minha aliança e o meu anel de noivado. – Ele precisa de você, seja forte e lute por ele. Vocês nasceram para ficarem juntos, não importa as circunstâncias, só depende de vocês e da coragem de vocês para enfrentarem tudo o que houverem que passar. Seja forte...
E de repente, ela não estava mais ali.
Eu beijei o seu rosto, com carinho e ela voltou a dormir, sossegada.
E eu continuei a chorar, enquanto sentava na cadeira de leitura, para pensar e refletir, sobre tudo o que eu havia acabado de ouvir.
Passei um longo tempo chorando e refletindo em tudo que a madame Oxford me disse, em seu rápido e raro, momento de completa lucidez, enquanto ouvia a melodia que tocava no som.
Em meio a música, comecei a ler a carta de Henry para aquela noite:
Para àquela que ocupará o meu Coração, para Sempre!
Minha Noiva Perfeita: Você Valerie!
Olá princesa! Como foi o seu dia?
Através desta carta, eu quero desejar-lhe uma ótima noite. Se estiver conseguindo dormir, desejo que sonhe comigo, e nos encontraremos nos nossos sonhos.
Porém, se não o estiver fazendo, desejo que pense em mim. Pois, provavelmente é o que estarei fazendo neste momento, e nos encontraremos, em nossos pensamentos.
Amor, eu creio que, assim como para mim, estes dias longe, não tem sido fáceis. No entanto, eu quero que você concentre-se em algo: Muito em breve, nós estaremos juntos para sempre, casados, felizes, podendo dormir juntos todos os dias e sem restrições, podendo nos amar todos os dias, imagina... hum... Será maravilhoso, meu amor.
Passarmos uma noite inteira nos entregando ao nosso amor, e aos nossos desejos, e poderemos ainda acordar nos braços um do outro. Pensa bem... Falta pouco princesa, muito pouco.
Mais uma vez, eu quero dizer: Capriche na escolha do nosso enxoval, compre o que desejar. Mas, capriche especialmente, no nosso enxoval particular. Hum... Eu confesso que, já estou curioso minha futura esposa!
Amor, a minha saudade por você, chega a doer cada parte de mim, porém, eu tenho me concentrado que, muito em breve, a terei em meus braços novamente.
Amo você! E aguardo ansiosamente pelo nosso reencontro!
Durma com Deus, minha Noiva Amada!
Te Amo Hoje e Te Amarei Eternamente!
Do Sempre Seu, Seu Noivo: Henry Lazar!
˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜
Beijo a carta com amor e digo baixinho:
— Também amo você Henry, e sinto demais a sua falta meu amor!
Só ao terminar, que eu percebi que as lágrimas, corriam soltas. A saudade era tanta que quase me fazia sufocar.
E justamente, eu estava ouvindo uma música que me remetia mais ainda a sua ausência.
***
Falando em música, as minhas aulas de música, correm a todo vapor.
Eu estou ficando boa, Elise é uma gracinha de pessoa e diz que eu sou uma ótima aluna. Eu faço exatamente tudo o que ela me orienta e também, me dedico muito, durante às duas horas, de treinamento diário.
Em relação a Elise, depois de alguns dias de convivência, nos tornamos muito amigas, e num determinado instante, em que conversávamos sobre várias coisas, percebo que ela fica ansiosa quando me faz algumas perguntas a respeito de Érion.
Eu passo a observá-la mais, quando ela fala a respeito dele, e ali eu detecto coisas interessantes: os seus olhos brilham quando ela fala sobre ele, a sua respiração se altera, levemente, e, em um ponto específico do assunto, disfarçadamente, com a desculpa de olhar algo em suas mãos, eu consigo identificar, que a sua pulsação dispara ao falar dele.
Então, movida por coragem e pelo desejo de ajuda-la a se aproximar dele e ajuda-lo também, para que ele se cure logo, eu digo-lhe:
— Você o ama não é Elise? Você ama o Érion!
Ela me olha muito corada e diz...
— Nossa... é tão visível assim que eu o amo?
Dou-lhe um sorriso e digo-lhe com sinceridade:
— Na verdade, não, você disfarça até muito bem. Mas, acontece que, eu sou muito sensível a estas coisas. Eu sou boa em fazer este tipo de leitura.
E ela também sorri. Então, eu digo-lhe...
— Acho que eu posso tentar te ajudar Elise, eu e Érion nos damos muito bem.
E assim, conto a ela tudo que vem ocorrendo com ele, a sua tentativa de suicídio e tudo mais. E é impressionante o que acontece: movida pela força que dirige aqueles que verdadeiramente amam, todo o rosto de Elise se ilumina e até a sua postura ganha outra dimensão, e ela diz:
— Eu vou ajuda-lo Valerie! Eu irei me aproximar mais dele, e com esta proximidade, além de ajuda-lo, eu vou ensiná-lo a me amar.
— É isto aí Elise, é assim que se fala! Eu só te oriento, a ter cautela, pois, Érion é muito reservado, e não é fácil se ter acesso, às dores de alguém assim, eu digo isto, por conhecimento de causa. Porém, com paciência e amor verdadeiro, é possível sim.
Ela me olha sorrindo e diz...
— Muito obrigada, Valerie!
— Não agradeça ainda, eu nem comecei.
E sorrimos as duas com aquilo.
***
Os dias continuam a passar, Érion vem para as consultas com Dartanhã.
Eu percebo, que, eu não posso desperdiçar as oportunidades que surgem de preparar o terreno em relação a Elise.
E em relação a isto, foi bem interessante auxiliar Elise.
Érion veio a Livergoorn, duas vezes neste intervalo, para as consultas com Dartanhã e claro que, nestas duas vezes, eu o sugava de informações sobre o meu noivo precioso.
Eu esgotava sempre, o meu repertório de perguntas sobre Henry com ele, pois, ele era o que tinha paciência. Em seguida, eu enchia-lhe de conversas que sempre envolviam as inúmeras qualidades de Elise.
Em sua segunda vinda, eu providenciei que ela estivesse aqui, e eles passaram boa parte do tempo juntos. Presenciar aquilo foi ótimo para mim. Eu me sentia feliz por ajuda-los a se aproximarem. A única coisa, ruim, é que, ver casais, era uma tortura para mim, no sentido que, me dava mais saudade, ainda, de Henry.
Isto aflorava muito mais, a cada vinda de Araon. Porque, as manifestações de afeto dele e de Made, são muito explícitas, pois, os dois são menos reservados, e ver aquilo, me causava uma angústia imensa pela saudade de Henry.
Até nas ruas, o fato de ver os casais, me deixava mais melancólica.
Com o tempo, eu fui aprendendo a lidar com a situação...
O sono, a esta altura, já não me visitava mais, nem com as medicações. Assim, Made procurava me fazer alimentar bem, para que eu não enfraquecesse, o que era sempre uma guerra sem fim.
Eu ansiava a presença de Henry, eu o queria, e todo o meu corpo, reagia violentamente, em protesto a sua ausência. E de uma coisa, eu tenho certeza, eu nunca mais, me permitirei, em sã consciência, ficar sem ele. Jamais, porque, dói bastante.
Cada parte de mim, está incompleta.
Voltando ao assunto Érion. Em sua segunda vinda, conversamos muito. E, enfim, surgiu a oportunidade de nos aprofundarmos no assunto sobre Elise.
Ele começou a me dizer o quanto era agradável estar com ela e que ela havia mudado muito.
Ele me contou que a conhecia desde pequeno e que, eles haviam participado de vários recitais juntos, mas, que ela estava muito mudada. Bem neste momento, eu percebi um fato, que seria a minha deixa... ela havia conseguido despertar interesse nele, então, eu disse:
— Ela é uma pessoa maravilhosa mesmo, Érion. Eu gostei muito dela.
— É Valerie, e como. E sabe, eu tenho algo para te falar, mas, eu não quero que você retire conclusões precipitadas, pois, se você o fizer, eu não falo mais nada a respeito desse assunto.
— Tudo bem Érion.
— Eu percebo que Elise se preocupa comigo, de uma forma diferente e que ela interage diferente, comigo. E, eu confesso que eu gostei disto. Você andou falando com ela, sobre o que tem acontecido comigo?
— Bem Érion eu vou ser sincera, ela sabe sim. Porém, eu posso te garantir que esta preocupação dela, com você, não tem nada haver com isto, ela já existia. Porque, eu só a contei a ela, recentemente, e ela já apresentava esta preocupação, ou melhor, este interesse sobre você.
Ele me olha pensativo, e eu vejo os seus olhos brilharem quando o digo aquilo. Então, ele me diz:
— Hum... Fale-me mais sobre isto Valerie, como assim?
— Bem, eu vou ser muito sincera com você Érion, você já é adulto, sabe o que quer e mais, é muito centrado. Elise ama você, Érion!
Bem neste instante, ao ouvir as minhas palavras, os olhos de Érion, ganham outro brilho e ele diz:
— Como assim? Ela disse isto a você Valerie e com estas palavras?
A pergunta de Érion me fez lembrar as inseguranças do Henry, a necessidade de ouvir com clareza, de saber detalhes, noto o quanto os dois se parecem, neste aspecto.
— Érion, eu vou continuar sendo sincera. Após várias conversas, sobre você e algumas coisas que eu percebi, exatamente como você tem percebido, eu a perguntei claramente. E ela disse que sim. Ela realmente ama você e há muito tempo. E, se você crê, que isto é o que você quer, se é importante para você, invista nisto, pois, os dois merecem esta chance, porque, vocês são pessoas maravilhosas.
Ele me dá um imenso sorriso, que eu não via há muito tempo em seus lábios, e diz:
— Obrigado Valerie! É realmente compreensível, o fato do Henry te amar tanto. Você é uma pessoa incrivelmente cativante. Agora, eu compreendo o quão natural é, o meu irmão ser tão perdidamente apaixonado por você! E você e Henry se complementam muito Valerie, chega a ser impressionante. Na bondade, no cuidado como o próximo, no equilíbrio... às vezes, eu sentia dificuldades em compreender o quanto Henry te ama, pois, ele a ama desde que eu me conheço por gente. E, pelo fato de você não o corresponder, eu achava aquilo meio insano, doentio. E, eu confesso que, eu já cheguei a duvidar que um dia você fosse amá-lo. Pois, você tinha uma obsessão, tão grande, por Peter, que eu acreditava, ser impossível, que Henry conseguisse ter acesso a você. Quantas festas que íamos a Daggorhorn, em que percebíamos ele tentando se aproximar e não conseguindo, por que, você não dava este espaço. Era angustiante aquilo. E hoje, é incrível ver o quanto você o ama, é praticamente palpável isto, e a intensidade do seu amor por ele, não perde para o dele. A vida é interessante não é? Que reviravolta! É como no meu caso com Elise, tanto tempo eu a conheço... foi preciso aparecer você, e você se aproximar dela, e eu estar vivendo este meu momento, para que eu pudesse percebê-la de forma diferente...
Neste momento, meu rosto fica extremamente quente de vergonha.
— Bem é verdade Érion, mas, sabe, depois de tudo o que eu tenho vivido, eu tenho compreendido uma coisa. Na verdade, eu sempre venho me perguntando o por que eu tive que passar por tudo que passei? Por que primeiro eu tive Peter para depois ter Henry? Por que Henry sofreu tanto? Todas estas coisas, às vezes, são fontes de angustias para mim. Porém, eu tenho aprendido que tudo tem o tempo certo para acontecer não me pergunte a razão.
— Exatamente Valerie, este é o ponto. Por exemplo, hoje eu vejo, por mais que Henry já te amasse por muito tempo, somente agora, eu o vejo preparado para lidar com você, com a sua história, com o seu momento de fragilidade. Por que estou afirmando isto? Veja bem, Laura deu a Henry uma construção de caráter formidável, por que no fundo, ela era assim, ela era incrível, os meus pais falam sempre isto. No entanto, ela de certa forma, o protegia muito. Então, eu acredito que, se ele não a tivesse perdido tão cedo, talvez ele não teria vivido tudo o que viveu e não seria tão persistente, tão forte e até mesmo, corajoso, para arriscar e se lançar de corpo e alma para lutar e esperar por você. E, digo mais, eu creio que, ele não seria tão preparado, em termos até de sensibilidade, para lidar com este seu momento de fragilidade e até instabilidade. É como se em tudo houvesse um propósito.
O que Érion fala, faz todo o sentido para mim. E eu digo:
— Eu creio plenamente nisto Érion e vejo isto, hoje em dia, quando olho o tanto que, as minhas experiências de perdas foram importantes para compreender a dor da perda de Henry e o quanto aquilo o feriu e o angustiou por anos e em várias áreas. Realmente, eu entendo hoje, que em tudo há um propósito. E eu digo uma coisa Érion, olhando a minha vida neste istante, não há nada neste mundo que eu deseje mais, do que me casar com Henry, e fazer parte da sua vida para sempre. Henry hoje, é a única certeza absoluta que eu tenho. É tudo o que eu quero para mim. É por isto que eu tenho me preocupado tanto com ele e tenho te enchido de perguntas. Me perdoe, ele é importante demais para mim, a felicidade dele sempre será a minha meta.
— Eu tenho visto o quanto você está angustiada por falta dele sim, e se isto te conforta, ele está do mesmo jeito. Um está a cópia do outro. Ele perdeu peso, não dorme, aliás, ele já não dorme mesmo, não come direito, madame Lazar está passando um aperto com ele, tentando o fazer comer. Mas, com você, pelo visto, não é diferente. Made disse, que insiste o tempo todo para você comer e ela compartilhou comigo, que você não está dormindo. Entretanto, nem precisava dizer, olha as suas olheiras... o peso, é visível que você perdeu.
Senti o meu rosto quente, como Érion é observador.
— É cunhadinho você é incrível mesmo. Você observa tudo.
— E você não é assim cunhadinha? Inclusive, eu quero te agradecer Valerie, demais, se não fosse por você e Henry, eu não estaria aqui.
— Não precisa Érion, é isto que uma família faz, um cuida do outro.
Ele sorri, sinceramente e diz:
— Verdade. Ainda bem que, nós, nem precisamos lembrar a você, que, assim como o Grandão, você já faz parte da nossa família, não é?
Eu passei a observar, que quando Érion vinha a Livergoorn, Araon não vinha e quando Araon vinha Érion ficava. E, Sophie, é claro, só viria quando a tia Clara ou tio Heitor, viesse.
Na realidade, os tios estavam de olho no relacionamento dela com o Marverick. Como se isto, resolvesse alguma coisa, Araon e Érion davam cobertura para todas as suas travessuras. Para ser justa, mais Araon do que Érion.
Contudo, em relação a Marverick, como a coisa era mais séria e o próprio Araon via isto, pela liberdade que ele tinha com Made, eles pegavam um pouco mais pesado, agora, com Sophie, para ela se dar conta que, Marverick era muito responsável, e não se relacionava de qualquer forma e sem intenções futuras. No entanto, ainda assim, Marverick sempre ouvia alguns sermões deles. O que era engraçado. Imagina Araon dando sermão em alguém? A pessoa mais sem vergonha do mundo.
Os meus dias começaram a ficar mais interessantes, quando eu e Made começamos as nossas saídas em busca do meu enxoval.
Eu creio que, quem não gostava muito, era o Aquiles, por ter que estar, em todos os lugares conosco. Porém, ele nunca se manifestava. Que dirá reclamava.
Na verdade, eu estava adorando sair para comprar as coisas de minha casa. Mas, eu admito que, eu sentia falta de ter Henry comigo para escolher.
Sempre que eu me via na iminência de escolher algo, a primeira coisa, que me vinha a mente, é o que ele iria achar, se ele iria gostar.
Comprei artigos de cama, de mesa e banho. Cada coisa magnífica, com cores clássicas, mas, algumas, eu escolhi em tons mais vivos, porque Henry sempre me disse, que adora a forma com que eu dou cor as coisas.
Aconteceu algo muito interessante, no dia em que eu e Made, saímos para comprarmos o meu enxoval íntimo. Eu nunca imaginei, que poderia ser tão inusitado, principalmente na companhia de Made. Mas, eu devo dizer que, para Aquiles, foi terrível aquilo.
Como as ordens de Henry, é para que ele seja minha sombra, ele tem que estar em todos os lugares em que estou. E, não havia outro jeito, seja dentro da loja ou fora da loja, ele ficaria exposto da mesma forma.
Eu creio que, fora, seria até pior, por que, quem passasse, o veria em frente ao local em que a fachada, dava todos os indícios de o que vendia.
Porém, dentro da loja, ele teria que ver as clientes, ou os clientes, pegando os artigos que os interessavam. Querendo ou não, isto remetia a privacidade e gosto das pessoas, e creio que isto, não era algo interessante para ele.
Eu confesso que, dentro, de certa forma, ele teria acesso ao que eu estava fazendo e escolhendo. E este fato me incomodou, o que Made em relação a ela, tirava de letra, e isto me preocupou mais ainda.
No entanto, quando a vendedora percebeu que eu estava pouco à vontade e principalmente, quando ela viu o porte do meu anel de noivado, da aliança e bracelete e que eu era escoltada, pelo melhor guerreiro do Reino, pois, Aquiles realmente, era conhecido. Ela perguntou...
— A senhorita deseja ser atendida com mais privacidade?
— Nossa... isto é possível? – Eu perguntei claramente aliviada.
— Sim, claro! Para clientes como você, sim.
Made se surpreendeu, pois, ela não percebeu que eu estava incomodada. Só aí ela se deu conta e disse...
— Valerie, como você mudou ao lado de Henry, você ficou reservada como ele. Só agora eu percebi. Meu Deus! Me desculpa amiga, estas coisas hoje em dia, são tão naturais para mim, que eu não havia me dado conta. Vou fazer algo, vou ficar, até você escolher o que é para você, mas, quando você for escolher o que é para ele, eu saio para te dar privacidade, tudo bem? Ou você quer que eu saia logo? Pois, se for o caso, eu saio também.
— Não Made, você pode escolher as minhas coisas comigo, mas, realmente as de Henry, eu prefiro escolher sozinha.
— Claro, eu te entendo. Pois, eu acho que isto tem muito mais haver com ele do que com você, e, eu sei o quanto o Henry é reservado, ele sempre foi.
— É verdade Made, e obrigada por compreender.
— Claro que compreendo! O que não fazemos pelos homens de nossas vidas me diz?
Dou-lhe um sorriso por sua constatação. Por se tratar da mais pura realidade.
Apesar de, eu não aprovar ser tratada de forma diferente, nesta situação, específica, este fato me agradou, porque eu não estava disposta a expor as minhas escolhas íntimas a ninguém.
Observei que, algumas mulheres, que evidentemente, eram de classes sociais mais distintas, já se conduziam direto para serem atendidas nestes locais privativos.
Porém, eu notei que, havia um outro ambiente, composto por biombos, que servia para que, as pessoas que estavam com pressa e não gostariam de esperar, experimentassem as suas peças ou fizessem as suas escolhas.
Bem no instante em que, eu compreendo este fato, eu me dou conta de que, eu não vejo Aquiles.
Eu começo a olhar de um lado para outro, o procurando. Ele parece ter percebido, pois, quando viro meus olhos para a região dos biombos novamente, vejo-o. Ele que faz questão de acenar com a cabeça para mim para mostrar que estava me vendo dali.
Aquilo me deixou paralisada. Eu tenho certeza, que Aquiles procurou aquele lugar para se refugiar dos olhares, mas, eu creio que ele que não saiba, que aquele ambiente, era como se fosse um provador feminino.
Eu fiquei muda, sem reação e estática. O que Made percebeu e perguntou...
— O que houve Valerie? E que cara de chocada é esta?
Reuni minhas energias e disse num sussurro para Made...
— Olha só, Made, onde Aquiles resolveu se esconder...
Made olha, preocupada. Ela fica estatelada ao ver a cena. A sua reação, é de, tão chocada quanto eu, porém, assim que o choque passa, ela começa a rir, porque ela sabe, que se alguém o ver ali, o seu constrangimento será muito maior, ainda mais que ele é conhecido.
Bem neste momento, a vendedora chega com as minhas peças para escolher.
E neste exato instante, ouvimos um grito desesperado vindo dos biombos...
Uma moça sai apavorada de lá e um Aquiles muito vermelho e constrangido, sai atrás, me fazendo arfar e colocar a mão na boca com o inesperado. Todavia, Made, ainda lúcida da situação, diz rapidamente...
— Moça o privativo para a Sta. Valerie, por favor, e rápido.
E compreendendo, a vendedora me tira num átimo dali.
Porém, ao passar por Aquiles, ouço Made dizendo, muito sutilmente, para ele.
— Aquiles, aquilo era lugar para se esconder? Um provador feminino? Vamos sair daqui, antes que, além de ser conhecido como guerreiro, você seja conhecido, também, como um tarado! Aff...
— Eu não sabia! – Ele diz consternado.
E, Aquiles olha para mim, constrangido ao extremo e sai...
***
Assim que Made retorna, eu e ela, escolhemos cada Lingerie lindíssima. Made me fez comprar algo que nunca usei. No entanto, ela, juntamente com a vendedora, disse que, a partir de agora, seria importante que eu o usasse. Pois, evidenciava a minha nova classe social, esta peça seria o espartilho.
Eu confesso que, aquilo não me agradou, eu nunca gosto de me sentir diferente ou separada das outras pessoas, porém, Made me explicou, que como agora, eu seria esposa de alguém que frequenta ambientes onde isto é observado e é importante, era necessário eu tê-lo pelo menos para algumas ocasiões.
Made me disse também, que os homens enlouquecem com aquele artigo. Eu confesso que, essa parte me interessou, ver Henry enlouquecido comigo, é algo que eu, realmente gosto. Como ela tinha mais experiência que eu nisto, eu a ouvi e acabei comprando dois, um para sair em ocasiões especiais. E outro para meus momentos íntimos com Henry.
Made, sempre queria que eu escolhesse coisas mais ousadas, porém, eu sempre optava por coisas não tão extravagantes, mas, também não muito conservadoras.
Eu procurava mesclar, bom gosto, com sensualidade, entretanto, sem me deixar vulgar, pelo fato de não condizer comigo. E, de uma coisa, eu tenho certeza, porque o próprio Henry, sempre me diz isto, ele me ama do jeito que eu sou. Então, se eu optasse pelas coisas que Made queria que eu usasse, aquela não seria eu. Como eu iria ostentar aquilo?
Dessa forma, eu optava sempre, por coisas que realçava o que eu já possuía, de qualidades, em mim. E que eu sabia que Henry gostava.
Por exemplo, os meus seios... eu sei que se trata de uma parte do meu corpo, que o tira do sério, então, eu caprichei nas escolhas das peças para cobri-los.
É claro que, eu levei umas três peças, que o surpreenderiam de alguma forma, mas, até para usá-las, eu teria cautela, de procurar sondar o terreno primeiro.
Para a noite de núpcias eu deixei para escolher sozinha, juntamente com as coisas de Henry, porque eu possuía em mente, algo muito especial.
As camisolas e Robes que eu escolhi, eram perfeitos, chegava a dar pena de usar.
Assim que eu terminei com Made, eu fiquei somente com a vendedora e lhe disse tudo, cada detalhe, exatamente do jeito que eu queria.
Como foi difícil escolher as peças de Henry, meu Deus! Imaginar o meu digníssimo, futuro marido, com aquele corpo, perfeitamente esculpido, naquelas peças, não foi algo fácil.
Eu tenho certeza, que o meu banho, ao chegar na casa dos Oxford’s, será gelado.
Agora, eu compreendo que, o mais interessante, será convencer o Henry a usar algumas peças daquelas, para mim, eu tenho certeza, que, algumas ele irá relutar em usa-las.
No entanto, eu sei que eu posso usar de alguns meios de convencê-lo. E, eu estou disposta a isto.
Eu também comprei, alguns acessórios importantes, coisas que eu sempre gostei, que são realmente de utilidade.
Escolhi três roupas para banho, para mim e para Henry, pois, como vamos viajar, certamente, poderemos precisar, das três peças de banho dele, duas são belíssimas.
As peças que eu escolhi para a lua de mel e algumas peças mais sofisticadas, minha e de Henry, só chegariam em alguns dias. Porque, apenas eram adquiridas sob encomenda. E eu as fiz, escolhendo as cores.
Por fim, compro um conjunto de presente para Made, outro para Prudence, outro para Roxane e um para Sophie para presenteá-las, cada uma com a sua característica específica.
De repente, eu me lembro de Elise e penso em levar algo para ela. Resolvo fazê-lo, embora com receio. Penso em como Érion é, e em como ele gostaria de vê-la, nestes momentos e assim, eu escolho.
Saio do atendimento privativo satisfeita e fico aguardando juntamente com Made e Aquiles, na recepção de espera.
Assim que tudo está pronto, eles me chamam para o caixa.
Eu acerto tudo e vou para o pacote pegar as minhas encomendas que já estão separadas.
Como eu havia pedido para identificar os presentes, eu logo soube qual era o de Made.
Antes de me aproximar, eu coloquei dentro do embrulho, num envelope, com uma cartinha minha e de Henry, expressando o nosso carinho a sua família, a quantia que Henry havia separado para que eu desse a ela, com o objetivo, de auxiliar nos gastos com a sua mãe, por algum tempo.
Quando chegamos a carruagem, eu Made e Aquiles, entramos. E, assim, eu entrego a Made, o seu presente e digo-lhe...
— Para você, eu gostaria que você abrisse, apenas em casa, em seu quarto Made, tem uma carta para você e seus irmãos, aí dentro.
Os olhos de Made se enchem de lágrimas por meu gesto e ela me beija aos montes, nas bochechas, como é típico dela.
Dou-lhe um grande sorriso por aquilo e seguimos viagem, satisfeitas conversando e rindo.
***
Na segunda semana de viagem, bem no início dela, tia Clara e Sophie chegam a Livergoorn. Na verdade, eu havia comentado com Érion, sobre o meu desejo, de que elas me auxiliassem na escolha do meu vestido de noiva.
Eu na verdade, estava insegura, e como Made não segue os padrões normais de escolha, pensei em alguém mais centrada, logo me lembrando de tia Clara.
Assim, saímos: eu, ela, Sophie, Made e Aquiles, é claro.
Eu confesso que, esta história de Aquiles ser a minha sombra, já estava me irritando. Eu sei que eu prometi ao Henry cooperar, mas, esta perspectiva de não ter liberdade, é muito ruim.
Então, em alguns momentos, eu sempre entrava em algumas discussões com Aquiles, dizendo que, ele não precisava estar tão perto.
Ou, até mesmo, dizendo que ele não precisava conferir a cada loja que eu entrava antes. Eu sei que ele estava desempenhado o seu trabalho e muito bem, por sinal. Porque ele era muito criterioso e meticuloso, além do fato de ser, absurdamente competente.
Todavia, sinceramente, aquilo era muito constrangedor e irritante, porque me fazia ser o centro das atenções, pois, quando as pessoas percebiam que eu era escoltada, e que era pelo melhor guerreiro do Reino, só faltavam colocar tapetes vermelhos e lançar pétalas de rosas para eu passar. E eu honestamente, odiava aquilo.
Assim, quando eu resmungava ou reclamava, eu percebia que Aquiles fazia de tudo para desconsiderar. Pois, no fundo, ele sabia que as minhas reações, são motivadas pelo fato de eu detestar chamar a atenção, e sei que ele também não gosta, mas, o seu trabalho, querendo ou não, o coloca em evidência.
Acontece, que, neste dia com a tia Clara, eu já estava com o estopim curtíssimo por saudades de Henry, ainda mais que, com a sua carta de ontem a noite, num momento de cochilo, eu acabei tendo um sonho íntimo com ele, e que sonho!
Eu acordei mais cheia de desejo que sempre, nesta manhã, meu corpo inteirinho queimava por Henry com uma necessidade absurda de tê-lo em mim, comigo, dando-me prazer e recebendo prazer, e ele estava indescritivelmente lindo e sensual, no sonho.
Assim, no momento de sair, Aquiles disse:
— Senhora, como nós estaremos em mais pessoas, por precaução e medida de segurança, eu gostaria de lhe pedir que, sempre caminhasse ao meu lado, quando estivermos nas ruas, pois, se algo acontecer, eu tenho mais facilidade para agir estrategicamente.
Aquilo me irritou, pois, além de gostar de ter somente o Henry, como o único homem, caminhando ao meu lado, esta história de eu ter que ficar observando do lado de quem, eu posso andar, é incômoda, então, eu lhe digo:
— Aquiles, você não acha que está exagerando? Precisa mesmo disto tudo, de todas estas medidas de prevenção e precaução?
Eu realmente estava irritava e exercia uma voz, com uma oitava a mais e olhava no fundo dos olhos de Aquiles o enfrentando...
Porém, eu não contava com sua reação.
— Senhora, eu a respeito demais e também ao Sr. Lazar. Porém, a senhora tem de saber que este é o meu trabalho e eu só faço, por que o faço bem. – Ele diz com autoridade. – Eu sei que isto é constrangedor e irritante para você e, eu compreendo, mas, é o que eu fui contratado para fazer, e, eu empenhei a minha palavra que o faria. Porém, a escolha é sua, se você me disser, que não vai cooperar e que é demais para a senhora, eu deixo esta missão hoje, agora, neste exato momento. E, vou agora mesmo, ao senhor Lazar expor os meus motivos e a sua escolha. E a partir daí a senhora se resolve com ele!
Nossa! Aquilo me pegou de surpresa!
Se Aquiles quis me conter e me impressionar, ele conseguiu as duas coisas. Pois, eu compreendi exatamente a seriedade de sua responsabilidade e da minha, diante de Henry se aquilo falhasse. E, claro, eu nunca esperava que ele fosse reagir daquela maneira. O que me mostrou que algumas coisas eram incomodas a ele e ele simplesmente não dizia.
Então, mais calma, eu disse...
— Tudo bem Aquiles, me desculpe, eu sei que você não tem culpa, mas, compreenda também, que não é fácil para mim.
— Eu sei e garanto a senhora que eu compreendo, mas, o que eu posso fazer? É o meu trabalho. Então, por favor, coopere. E no fundo, eu quero que tudo acabe bem, porque eu quero muito ver o seu casamento com o senhor Lazar, Valerie. Já parou para pensar, que se algo acontecer, isto pode não ser possível? Pense no que estará abrindo mão, se por um descuido qualquer, algo acontecer a você, e como o Henry vai ficar? Hum?
Percebi que Aquiles naquele momento, havia deixado de falar como um guerreiro, seu tom agora era de um amigo. Ele até chamou ao Henry e eu, pelo nome, para evidenciar isso. Realmente, Aquiles apreciava a mim e a Henry. Assim me desarmei completamente:
— Tudo bem Aquiles, eu vou mesmo cooperar, sinceramente, me desculpe.
E a partir deste dia, eu não questionei ou reclamei mais. Principalmente, por que, mais tarde, durante uma seção de prova de um dos vestidos de noiva que eu estava olhando, num instante em que, eu fiquei sozinha com a tia Clara, ela disse:
— Valerie, minha filha, eu percebi o quanto você está irritada com a questão da segurança, e sinto-me na responsabilidade de lhe dizer algumas coisas para considerar. Eu posso?
— Claro tia, apesar que, Aquiles já foi bem convincente.
E ela sorri, pois, ela estava perto e pode ouvir claramente as palavras de Aquiles.
— Sim eu sei, e o que eu quero dizer, está muito mais voltado a fazer você compreender, que a partir de agora, você precisa buscar a começar a aceitar algumas mudanças que irão acontecer, daqui para frente, em sua rotina. Olha Valerie, casais como você e Henry, sempre chamarão a atenção, e despertarão muita inveja nas pessoas, no geral. E, certamente, esse fato, despertará muitos inimigos, perseguições... por mais que vocês não sejam disto. Mas, a vida é assim. E o fato de Henry ter certa posição social, vai atrair muita raiva a você, pois, muitas gostariam de estar no seu lugar, e vão te achar indigna! E sabe por que eu estou falando isto? – Eu acenei que não com a cabeça. – Eu passei por isto com o seu tio Heitor. E, eu só superei, por que eu pedi a Deus que me desse, muita sabedoria, e, eu tive uma amiga que me orientou. O que quero dizer, é que você deve começar a se acostumar com esta vida de atenções. Eu não estou dizendo, que você terá de apreciá-la ou se deixar levar por ela. Mas, é necessário que você, esteja consciente, que isto pode piorar quando vierem os filhos, porque, eles também, serão alvos e vocês terão de ensiná-los a lidar com isto. E como você poderá fazer isto, se você mesma, não aprender a tolerar.
As palavras da tia Clara, me fizeram ponderar e refletir. Pois, por trás delas, havia uma enorme verdade: ter Henry na minha vida, significava “mudanças”.
Contudo, todas até agora, têm sido maravilhosas, mas, é claro que, nada nesta vida é perfeito. Algum preço haveria por isto, e de todos, certamente este era o menor.
Assim, eu deixei que aquelas verdades, penetrassem na minha alma, e elas trouxeram clareza e paz ao meu coração e aquilo foi maravilhoso.
— Obrigada tia. Eu não irei me esquecer disto!
Eu disse sorrindo, e, a tia Clara me retribuiu com um beijo no rosto.
Aquela manhã foi maravilhosa, provei tantos vestidos, mas tantos..., porém, houve um, que quando o provei pela primeira vez, aliás, quando coloquei os olhos nele, a primeira vez, meu coração, naquele momento, o escolheu e o impacto foi tão grande, quando o vesti, que todas choraram.
Com o traje de Henry, foi diferente. Eu iria olhar o terceiro modelo, quando de repente, chega alguém trazendo uma peça nova, que havia acabado de chegar. E, ao bater o olho, mesmo ao longe, eu sabia que era exatamente daquela forma, que eu queria vê-lo no altar me esperando.
Bem neste momento, ocorreu-me algo. Eu precisava de uma madrinha e damas de honra com os seus cavalheiros.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Então, automaticamente eu pensei: Rox e Marvel, Prudence e Cedrico, Made e Araon, Sophie e Marverick, Rose e Aquiles é claro, e Érion e Elise. E para Madrinha e Padrinho tia Clara e tio Heitor. Então, eu digo:
— Bem, somente agora, eu me dei conta, de que, eu preciso de damas de honra e padrinhos e bem, — tomei a mão da tia na minha e disse-lhe: — tia Clara, a senhora e o tio Heitor, podem ser, os nossos padrinhos? E, eu escolho, como damas de honras e cavaleiros: Rox com Marvel, Prudence com Cedrico, Made com Araon, Sophie com Marverick, Rose com Aquiles e Érion com Elise.
Neste momento, Made e Sophie, pulam de alegria e tia Clara me abraça. Assim, já sei as suas respostas. E, a tia diz.
— Já que eu sou a madrinha, o meu presente é o vestido da noiva e o traje do noivo. Pronto. E mais minha querida, deixe-me organizar tudo para o seu casamento, eu farei com que seja inesquecível. O Heitor me contou, pois, Henry o falou, que vocês o farão no terreno, e, que lá, tem um belíssimo lago, e, que será pela manhã, é isto mesmo?
— Sim tia, está corretíssimo! E, eu quero que a senhora organize o meu casamento sim!
Digo muito empolgada, porque agora eu realmente via o quanto era tudo real, meu casamento está as portas. O meu Casamento com o amor da minha vida: Henry.
Como até agora isto ainda é incrivelmente surreal, de tão perfeito e encantador!
— Então, eu tenho algumas belíssimas ideias, e pode ficar tranquila, que será tudo muito bonito, porém, sem muita ostentação, pois, além de Henry ter dito ao Heitor, que você, tanto quanto ele, não gosta, eu percebo isto nitidamente em você, ficou mais claro ainda na escolha dos trajes. É tudo com muito bom gosto, porém, sem coisas chamativas. Algo que, ealmente combina com os dois, a carinha de vocês. Assim o que eu pretendo fazer, certamente deixará todos os presentes impressionados, por um longo tempo, com uma belíssima recordação de seu casamento para guardar na memória.
— Nossa tia Clara! Eu nem sei como agradecer a você e ao tio Heitor, estou muito feliz... muito mesmo.
— O melhor agradecimento que você pode nos dar, é fazer o nosso Henry, muito feliz e isto você já faz minha filha, e, nós é que agradecemos a você. Nosso Grandão sofreu muito, e nós o amamos demais. Nós queremos muito que ele seja restituído de tudo o que passou. E, sabemos e sentimos com certeza, que é em você que está este caminho.
— Mais uma vez obrigada tia. E eu prometo que farei sempre o meu melhor para fazer Henry muito feliz tia, de todo meu coração!
A esta altura, eu, ela, Sophie e Made, que estavam quietinhas, ouvindo e chorando, nos abraçamos e choramos juntas, compartilhando felicidade.
Nossa! Tudo o que conversamos me deixa eufórica. Eu beijo muito a tia no rosto. Pois, aquilo me daria a oportunidade de fazer algo que estava em minha mente. E, agora, sem os gastos do meu vestido e traje do Henry, eu poderia. Que seria, dar os vestidos as minhas damas de honra. Assim, eu poderia leva-los dali, e lá em Daggorhorn, vovó Lazar acertaria as medidas de cada uma.
Assim o fiz, escolhi os seis vestidos das damas de honra iguaizinhos, e eram lindos e delicados. Tipicamente para serem usados pela manhã.
***
Tudo correu bem naquela semana, até Ananda veio me visitar, para passar uma tarde comigo. E, como estar com ela, me lembrava do Henry, pois, eu a conheci por causa dele.
Mas, no geral era muito agradável estar em sua companhia, falamos sobre o Grande Reino, sobre o Reino e sobre o que ela anda fazendo. Eu achei curioso o momento em que ela viu Aquiles, pois, ela o perguntou:
— Aquiles, a quanto tempo? Que bom ver você, e pelo visto recuperado. E como está Camelot?
Aquiles respondeu.
— Olá senhorita Ananda. É bom vê-la também! Ele está bem, está em Daggorhorn.
— Você tem previsão de quando ele virá aqui?
Aquiles responde um tanto constrangido...
— Não senhorita Ananda. Caso ele venha, eu devo pedir para procura-la?
— Claro, seria um prazer Aquiles.
— Tudo bem.
— Obrigada Aquiles.
Ele assente com a cabeça e sai.
Neste instante, olho para Ananda e digo...
— Você conhece Camelot, Ananda?
Ela sorri para mim, e diz melancolicamente:
— Não tanto como eu gostaria Valerie, mas, sim, eu o conheço.
— Compreendo. – Espero um pouco, porém, como ela não diz nada, pergunto, olhando profundamente para ela: — Você gosta dele, não é?
Ela sorri para mim, e pela primeira vez, eu me surpreendo com Ananda corando.
— Não precisa responder Ananda, mesmo por que, eu já sei a resposta, simplesmente por seu olhar.
Ela sorri e cora mais.
— É sério... bem que Elise disse, que você é boa para estas coisas, de cupido.
Ananda fala e sorri, levando-me a sorrir junto.
— E por que, vocês não estão juntos Ananda?
Eu pergunto.
— Boa pergunta Valerie.
Ela diz. Aguardo mais explicações em silêncio... após algum tempo, ela continua...
— Bem, a verdade é que Camelot, não aprova muito o fato de eu ser mais liberal entende? E por outro lado, eu não quero mudar.
— Como assim Ananda?
— Eu sou uma mulher liberal Valerie, gosto de trabalhar, gosto de sair. E Camelot, deseja alguém o oposto disto.
— Tudo bem, até ai eu entendi. Mas, a pergunta é: ele gosta de você?
Ela respira fundo e diz...
— Eu acho que sim. É tão difícil ver estas coisas quando se trata da gente, não é mesmo?
— E como. Mas, no fundo a gente sabe, pois, dá para sentir.
Eu digo e aguardo.
— Bem. Não é segredo para você, que aqui no Grande Reino as coisas em relação aos relacionamentos, são diferentes e que, nós mulheres, somos mais abertas em relação a ir para cama com um homem, antes do casamento.
Ananda fala aquilo com uma naturalidade que me assusta. Como só aceno com a cabeça, mas, fico muda, ela diz:
— Bem, eu já estive algumas vezes com Camelot. E, confesso, foi diferente. E, eu tenho para mim, que não foi diferente apenas para mim, creio que, para ele também. Pois, ele me procurou outras vezes. Porém, aí fica a pergunta: ele me procurou por que gosta de minha companhia e sente falta de mim? Ou, por que gosta do sexo que eu lhe proporciono? Desculpa falar tão abertamente assim Valerie, não sei ser diferente, eu sou assim, me perdoe. Às vezes, eu sinto que isto incomoda ao Camelot também.
Absorvi as suas palavras e comecei a refletir sobre elas... Então, eu disse:
— Alguma vez, ele te procurou e você o recusou tipo... – ai como é difícil para mim, falar destas coisas abertamente mas, eu sinto que eu preciso ajudar Ananda — tipo assim, ele veio e você deixou claro, que ele não teria sexo, e vocês conseguiram passar um tempo juntos sem isto?
Ela fica pensativa.
— Sim. No nosso primeiro encontro e no último. No último, eu estava passando mal, na verdade de TPM e a minha é fortíssima. E ele passou dois dias comigo e sequer, me tocou com esse objetivo. Conversamos muito, namoramos, mas, sem intimidades, ele também cuidou de mim, e modesta parte, muito bem.
— Então, ele gosta de você Ananda! Pois, se o interesse dele, fosse somente sexo, ele teria dado um jeito de ir embora, procurar onde ele teria disponível. E não teria ficado desfrutando de sua companhia, e cuidando de você e sem satisfazer a sua própria necessidade, o homem só tem este tipo de preocupação, com a mulher que ele gosta, Ananda.
— Sim, eu penso nisto. Mas, então, por que ele não me assume? Por que não deixa as coisas ficarem sérias?
— Vocês já conversaram abertamente sobre isto, sobre ter algo sério?
— Sim. Claro! Já deu para ver, que eu não sou de rodeios...
— E o que ele disse?
Ela respira fundo.
— Na verdade eu percebo... Pois, eu sinto que, ele não tem coragem de dizer. Que por ele ser conhecido e eu também, ele teme os comentários a cerca dele se casar, justo comigo. Querendo ou não, as pessoas julgam. E por ele ser um homem honrado como Guerreiro e de posses, isto pesa para ele. Camelot no fundo, é muito machista.
— E foi justamente se apaixonar, por uma mulher liberal. A vida é incrível mesmo.
Eu digo refletindo...
Ananda me olha incrédula com o que eu disse.
— Mas, não é?
Eu insisto...
— Sim é.
Finalmente ela admite sorrindo.
— Na verdade, você está apaixonada por ele Ananda.
Ela sorri novamente, mas, sem humor algum, desta vez. E, confirma com um aceno de cabeça.
— Eu acho que, eu posso te ajudar, muito embora, não será fácil. Por que, eu tenho que lidar e administrar o ciúme de Henry, quando me aproximar dele para isto.
— Não Valerie, não vá provocar Henry por uma questão minha. Por favor, justo agora, que está tudo bem com vocês e o casamento está tão perto. Por favor.
Ela diz apavorada.
— Fica tranquila Ananda, eu jamais faria algo que trouxesse desconforto para o Henry, ele sabe de todos os meus passos.
Ela respira aliviada. E eu prossigo, tentando montar com ela, algumas estratégias...
— Faça o seguinte. Me diga, você já enviou cartas para ele?
— Não. Por que?
— Geralmente homens gostam.
— Sério?
— Sim, embora não admitam, algumas vezes.
Eu digo e ela fica pensativa, então prossigo...
— Faça-se presente na vida dele, mesmo estando distante. E quando você o acostumar com isto, diminua um pouco, para que ele sinta falta. Esteja a disposição quando ele te procurar, mas, não o procure. Evite contato íntimo por enquanto. Conquiste-o Ananda, aos poucos e com paciência, e, com estes pequenos gestos, mostre a ele, que ele é especial para você. Que você pode até ter tido outros, porém, que ele é diferente. E o mais importante, um passo de cada vez. Comece pelas cartas. Se quiser escrever uma agora, Araon ou Érion vindo, eu dou um jeito para que ele receba de maneira discreta. O que você acha?
— Você ainda pergunta? Eu vou fazer, eu não tenho nada a perder.
Ela sorri e eu auxilio ela a preparar a carta, dou-lhe o material necessário e ela escreve e lacra e dá a mim.
Passamos uma tarde agradabilíssima. E Ananda vai embora tranquila e cheia de esperança em relação a Camelot...
***
Falar em cartas, me faz lembrar das várias cartas, que eu tenho lido do meu Henry, são tão lindas, é como se ele estivesse aqui, dizendo aquelas palavras para mim.
A cada dia, ler as cartas dele, me deixava mais saudosa.
Na verdade, são os momentos mais difíceis. Pois, apesar de renovarem a certeza do seu amor por mim, elas me fazem ansiar demais por sua presença.
E sempre que, eu tenho um tempo livre, eu retiro para relê-las.
A de hoje por exemplo, parece que ele previa a melancolia que se abateria sobre mim:
Para a Mulher que, arrebatou, a minha Vida inteira para si. Você Valerie, minha futura Esposa, a quem amo perdidamente:
Tenho absoluta certeza, que ao receber esta carta de hoje, seu estado emocional, deve estar muito próximo ao meu: você deve estar ansiosa, saudosa, angustiada... Tenha certeza minha noiva linda, que eu estou exatamente assim. Porém, temos um conforto, pela data, com certeza, já estamos na iminência de nos ver, então, precisamos nos preparar para receber um ao outro. Quero te ver, na medida do possível, bem. E sei que, queres o mesmo para mim.
Certamente, teremos muitas coisas para conversarmos e fazermos. Porém, eu confesso que, a esta altura meu amor, o meu desejo por você, também é absurdamente insuportável. Cada parte de mim protesta a sua ausência e creio que, com você não seja diferente. Amo você princesa, muito!
Aguarde-me, espere-me, pois, muito em breve, eu garanto, estarás em meus braços!
Amor, mais uma vez eu peço, cuide-se. Se preserve de aborrecimentos e de tristezas, na medida do possível. E, o mais importante, não se arrisque de maneira alguma!Seja qual for o motivo, não vale a pena! Sua vida é muito preciosa para arriscá-la. Portanto, não o faça!
Princesa, eu sinto tanta falta de seus beijos, dos seus lábios nos meus. Sinto falta deles percorrendo o meu corpo. Sinto falta de suas mãos tocando-me da forma que só você sabe fazer para me enlouquecer de desejo e prazer! Sinto falta de sua maneira única de cuidar de mim, de nossas conversas, do seu sorriso, das suas risadas espontâneas. Da sua “carinha sapeca” quando esta disposta a me provocar ou me enlouquecer. Sinto falta por completo de você Valerie!
Se prepare, pois, muito em breve, nos veremos, esteja pronta para mim!
Amo você, Meu Grande Amor! E a Amarei Eternamente!
Do sempre e sempre seu, Seu Noivo: Henry Lazar!
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Meu peito inteiro, fica dolorido de saudades. Como amo o Henry...
Passo um longo tempo lendo e relendo a sua carta, a ponto de guardar cada palavra, até começar a pensar nele, as dizendo pessoalmente para mim...
Outra pessoa que me gera muita saudade, é minha mãe. Sinto falta de poder conversar com ela, de estar com ela. Sinto de vovó Lazar também.
E claro, saudades demais do meu Henry.
Mas, não posso negar que sinto falta dos meus amigos, principalmente Prudence e o bebê. Engraçado, eu e Rox, sempre fomos as mais ligadas, porém, a gestação de Prudence, nos aproximou muito mais. Fico pensando se eu terei um afilhadinho ou afilhadinha? Eu estou ansiosa para descobrir.
Fico ainda mais feliz por saber que é graças a Henry, que hoje, eu tenho os meus amigos, tão próximos a mim, novamente. Como aquele homem é essencial para mim, eu o amo demais...
POV AQUILES
Eu já participei de várias missões, de vários trabalhos, de todos os tipos em minha vida, mas nunca nada parecido com agora. É incrível a satisfação que eu tenho de fazer esta escolta. Eu não sei o por que, mas, algo no fundo da minha alma, me diz que este casal tem algo a me ensinar ou me dar, que eu não compreendo.
É como se já estivesse determinado, que algum dia, os nossos caminhos se cruzariam e eu sei que há um propósito para isto. Eu só ainda, não sei qual é.
Poucas são as pessoas, que eu tenho afeição verdadeira em minha vida. Talvez seja pelo fato, de eu já ter perdido tudo que dá referência e raízes a um homem nesta terra: mãe, pai, irmãos, minha esposa, meu filho que nem chegou a nascer...
Mas, é incrível como eu me sinto em casa, no meio de Valerie e Henry, é um sentimento diferente. Tem também o fato de a jovem amiga de Valerie chamar-me a atenção. Porém, este é um luxo do qual eu não posso usufruir. Enquanto, eu não lavar a minha honra e o meu coração, enquanto eu não vinga-la, eu não me permitirei seguir em frente.
É incrível ver o quanto o medo de Henry, reflete a minha dor. Sei exatamente o que ele teme, pois, eu sinto todos os dias a dor que ele quer evitar sentir.
Todos estes dias, têm sido tranquilos, porém, esta tranquilidade não me convence, eu sei que algo está para acontecer, hoje então, eu sinto isto tão latente em mim.
Uma coisa interessante de se ser um guerreiro, é que, com o tempo, temos a noção, ou intuição, não sei, sobre o que temos para enfrentar. Parece um instinto.
Isto num campo de batalha, ajuda muito, principalmente para um estrategista de guerra, como eu. Eu sempre fui assim, pois, eu cresci na guerra, e ela orientou sempre a minha vida.
Eu já vi a morte cara a cara, milhões de vezes, e, eu nunca a temi. Muito pelo contrário, houve momentos em que eu a desejei ardentemente. E foi quando então, a busquei na tentativa desesperada de aplacar a dor tão profunda em meu peito.
Porém, uma coisa eu aprendi. Ninguém deixa este mundo, sem cumprir a sua missão. E, uma das minhas, eu ainda não cumpri. Mas, tudo em mim, diz que eu estou, cada vez mais perto.
E, eu tenho para mim, que está ligado ao Henry e Valerie, eu não sei o por que.
Desde cedo, eu tenho estado apreensivo, algo me diz, que o dia de hoje, não irá se encerrar de forma tão pacífica como tem sido.
Assim, o meu estado de alerta é máximo.
***
Todo o dia corre bem, Valerie tem a sua aula de música, realiza seus afazeres.
É impressionante como ela tem sido cooperativa, principalmente depois da última discussão que tivemos, onde, eu mostrei a ela, que só há como ter êxito no que estou fazendo, se cada um cumprir a sua parte criteriosamente. Ela é muito madura para a sua idade.
Tivemos um jantar maravilhoso. Porém, sinto Valerie apreensiva. É impressionante como ela também é sensitiva e muito intuitiva.
Eu venho observando isto, desde que eu iniciei o trabalho com eles, por exemplo, ela sente o perigo. Observo que, ela, às vezes, parece que o prevê. A maior prova disto, foi o dia da tentativa de suicídio de Érion. Como ela sabia? Como ela pressentiu?
E hoje, o dia todo eu a percebi assim. Assim como eu, mas, no meu caso, é devido aos longos anos de experiência em combate, mas e ela?
Estamos no fim da noite, e todos já se recolheram. Exceto, o senhor Marvel e o Marverick. Ao que me parece, eles também estão sem sono.
Porém, quase por volta de vinte três e trinta, o que eu pressentia aconteceu...
Mildrad chega à casa dos Oxford, e vai adentrando casa adentro, ele percorre seus olhares por todo lado, eu estou em uma posição em que, eu ainda não posso ser visto, bem a frente do quarto de Madame Oxford. Onde Valerie está.
Marvel, ao perceber sua presença, aproxima-se e interpela-o:
— O que veio fazer aqui Mildrad?
Ele dá uma risada sarcástica, uma de suas marcas registradas, o sarcasmo a ironia, a maldade e a crueldade, então, diz:
— Ué, eu vim ver a minha mãe!
Ele disse, provocando ao Marvel e percebi que o sangue de Marvel ferveu, pois, ele sabia o quanto Mildrad nunca se importou com ela e tinha coragem de usá-la como desculpa para seus propósitos imundos. Porém, Marvel se controlou e disse.
— Se você quer vê-la, volte amanhã, pois, hoje ela já tomou a medicação da noite, para dormir e não pode ser incomodada.
— Claro, eu dormirei aqui.
— Não, você não dormirá aqui Mildrad, você não é mais bem vindo a esta casa.
— Como assim, eu também sou filho eu já disse, você querendo ou não, gostando ou não, eu sou seu irmão Marvel. Esta é sua opinião, mas, há Made e Marverick. Eles contam...
Eu estou louco para intervir, porém, só o farei se necessário, para não revelar que a senhora Valerie tem proteção especial. Na verdade, eu gosto de trabalhar com o elemento surpresa em casos assim, com uma mente doentiamente imprevisível como a de Mildrad.
Neste momento, Marverick aparece. E diz com firmeza.
— Saia daqui Mildrad, nem eu quero que Made te veja, pois, a última vez que ela o viu, foi para ter mais um desgosto e chorar. Deixe-nos em paz.
Mildrad agora entrava, percebi que estava surpreso com a fala de Marverick... Marvel estancou na sua frente e disse.
— Daqui você não passa.
Ele começou a levantar a voz e eu compreendi a sua estratégia na hora.
Ainda que ele não conseguisse colocar as mãos em Valerie aqui, ele queria aterrorizá-la. Então, ele queria acordá-la, acordar Made e colocar terror nelas, o que me preocupou mais, pois, eu sei que Valerie não dorme, porém, eu sei que ela tem ligado o som baixinho no quarto, pois, ela percebeu que isso acalma a madame Oxford.
Assim, eu vi que Mildrad queria era fazer o seu show... Porém, hoje não, hoje eu não permitirei. Fiz sinal a Marvel evidenciando que, eu queria coloca-lo para fora, antes que ele acordasse as mulheres, e, ele fez, discretamente, sinal positivo para mim.
Porém, eu ainda estava esperando timing certo, então, ele disse:
— Não adianta Marvel, eu sei que Valerie está aqui e eu irei vê-la, eu chegarei até ela.
E Marvel me dá a deixa que eu preciso.
— Eu não teria tanta certeza assim Mildrad.
— Por que? Por causa do namoradinho riquinho dela?
E ele ri em escárnio, porém, o que Marvel diz, o deixa possesso.
— Não Mildrad mais uma vez você está errado! “O noivo dela seu futuro marido, não vai permitir! Henry não vai deixar você chegar perto dela.”
Marvel enfatizou o que Mildrad não sabia: Valerie, pertencia ao Henry. E, agora, furioso ele diz:
— Quem disse que ele é noivo dela? E quem disse que ele pode comigo? Breve eu darei um jeito nele.
Neste momento exato, eu intervenho.
Saio de meu esconderijo dizendo com firmeza.
— CHEGA! saia desta casa Mildrad. Saia por bem, ou eu colocarei você para fora.
Desta forma apareci, e, eu confesso que, foi maravilhoso ver a cara daquela criatura, ao me ver. Sua expressão foi da fúria a incredulidade, a fúria de novo.
— Aquiles! Então é verdade, você está a serviço do Lazar. E os outros?
— Não vou repetir Mildrad.
— Ou o que?
Bem neste momento saquei a minha espada, e ela já estava estendida no pescoço de Mildrad e um fio de sangue corria por seu peito manchando sua camisa.
Ele me olhava de olhos arregalados, pois, certamente não esperava que eu reagisse em frente aos seus irmãos, e eu não gostaria de fazê-lo mesmo, porém, eu creio que, o ato o deixará mais consciente de que a sentença para ele se chegar perto, independente de sua família, é a morte.
E tenho para mim, que neste momento ele percebeu. Noto Marvel e Marverick imóveis, esperando por qualquer desfecho.
Pode parecer doentio, mas, a sensação que eu tenho, ao ver, um canalha como Mildrad, na mira da minha espada, como o tenho agora, é esplêndida. Ver as reações que antecedem a iminência de uma morte certa, o medo, a fúria, por estar em uma posição de desvantagem... as pupilas dilatarem pela expectativa.
Tudo isto gera um prazer realmente doentio em mim. Para mim, isto já não é tão estranho mais. Pois, nesta vida de guerreiro, em que eu me encontro a longos anos, lidar com a morte, ou matar, tem se tornado algo natural para mim, desde que isto seja com um propósito.
A pura verdade, é que eu vivo a Guerra, eu respiro a Guerra e na Guerra, a morte é uma constante nas nossas vidas, seja ao nosso redor, ao nosso lado, ou, face a face conosco.
Assim, vou pressionando a espada fazendo-o recuar, até encontra-se totalmente fora da casa, o ódio que ele transfere para mim no seu olhar, é intenso, mas, não me abala nenhum pouco. Continuo o fazendo recuar, até que se encontra fora do terreno.
E por fim, ele vai-se embora. Porém, o seu último olhar para mim é de pura fúria. Mas, não deixo de notar que ele não dá uma única palavra.
***
POV VALERIE
Durante a madrugada com madame Oxford, geralmente, eu leio as cartas de Henry, também leio a Bíblia que Henry me deu, ou algum livro que eu trouxe da biblioteca que ele me deu de presente. Porém, esta noite, aconteceu algo interessante...
Lá pelos meados da madrugada, dei uma cochilada, algo que tem sido bastante incomum para mim. E no meio deste cochilo, tive um Flash de um sonho. Que me fez ficar assustada ao acordar.
Eu via Mildrad nesta casa e tentando, de todas as maneiras, entrar para ter acesso a mim. Porém, Aquiles não o permitia. Ele colocava Mildrad para fora.
Porém, o que realmente me assusta do sonho, é o ódio nos olhos de Mildrad por Aquiles.
Acordo sobressaltada do cochilo e percebo que, o som ainda está ligado, porém, como a madame Oxford está quietinha e a musica parece tranquiliza-la, eu deixo permanecer assim.
Passo o resto da madrugada preocupada com o que este flash pode significar.
***
Pela manhã, assim eu que saio do quarto, logo após dar o banho, e o café da manhã a madame Oxford, sigo para o quarto de Made, que, a esta hora, creio estar na cozinha, preparando o nosso café da manhã.
Assim, faço minha higiene matinal e tomo o meu banho.
Arrumo-me e preparo-me para minha aula de música de hoje, ensaiando um pouco. Realmente, eu tenho me dedicado, ensaiando todos os dias.
Após fazer alguns exercícios com as notas, saio do quarto e vou para a copa, onde Aquiles está sentado, à mesa, aguardando o café. Noto que ele está apreensivo, e tem algo a me dizer, então, digo-lhe:
— Bom dia Aquiles. Pode dizer o que tem a falar.
Ele me olha um pouco surpreso e diz...
— Bom dia senhora. E, bem, não há necessidade de se preocupar, porque eu já resolvi. Porém, a senhora precisa saber que, Mildrad esteve aqui ontem a noite, e, que ele saiu furioso por que não teve acesso a sua pessoa, e, mais furioso ainda, por que em uma discussão, com o senhor Marvel ele descobriu que a senhora está noiva do senhor Lazar.
Aquilo me preocupou, pois, agora Mildrad tinha na mira dele, o meu Henry e também Aquiles.
Não conseguindo esconder, a tristeza que esta convicção me traz, começo a chorar e sento-me escondendo o meu rosto nas mãos.
O que faz Aquiles se aproximar mais, sentar ao meu lado e dizer:
— Senhora, não fique assim, me perdoe, eu disse, porque, eu preciso que fique mais atenta, mas, está tudo sob controle... ele não irá tocá-la eu prometo. Dou-lhe minha palavra, que se a senhora, seguir todas as minhas orientações, nada irá lhe acontecer. A única coisa de que eu preciso, é que sejas cautelosa e siga à risca, tudo o que lhe for passado.
Choro mais um pouco, e respondo em meio, aos soluços...
— Eu sei Aquiles, e agradeço..., porém, você não entende... me deixa arrasada o fato de que, por minha causa, Henry está em perigo constante também. E, agora, você também, está na mira do ódio de Mildrad. A lista dos que correm risco, não para de crescer. E querendo ou não, são pessoas que são importantes pra mim. Mesmo você Aquiles, que conheço tão pouco, eu não quero o seu mal. Eu não suporto mais lidar com estas coisas....
Aquiles me olha com compaixão e compreensão e diz...
— Eu entendo Valerie, com todo respeito, e agradeço pelo carinho e cuidado que tem comigo. Mas, entenda, este é o meu trabalho, minha escolha de vida, é prazeroso para mim, usar todas as habilidades que a vida me proporcionou para proteger e cuidar de pessoas tão preciosas como você e o Henry. Eu confesso, que eu não tenho desejo de morrer no momento, pois, tenho questões e pendencias pessoais, para resolver, ainda nesta vida terrena. Porém, eu ficaria imensamente honrado e feliz, se morresse defendendo a vida de pessoas como vocês dois. Vocês são pessoas incríveis, é um orgulho e prazer cuidar da proteção de vocês. Preciso que você saiba disto.
Olho-o com carinho e digo, agora mais calma, porém, com minha cabeça latejando, após longos dias tendo estado bem...
— Obrigada Aquiles, é bom saber que somos estimados por uma pessoa como você! E agora posso te pedir um favor?
— Claro, o que precisar senhora.
Ele responde, já retornando ao seu tom profissional. E eu prossigo...
— Prepare o chá para dor, para mim, por favor. A poção, está na cômoda do quarto de Made, eu mesmo queria fazê-lo, para não incomodar, porém, a cabeça está latejando, e se eu insistir em me levantar, eu tenho certeza, que eu não vou suportar muito tempo de pé.
Aquiles me olha entristecido e depois, eu consigo vislumbrar a fúria em seu olhar, e, eu sei, que ele está com raiva por Mildrad ter aparecido e mais uma vez, ter me abalado emocionalmente, a ponto de me deixar vulnerável as dores, novamente.
Ele sai para fazer o que pedi e quando volta, Marvel e Marverick voltam junto com ele, porém, Aquiles vai direto a cozinha.
Marvel, preocupado em me ver, com a cabeça deitada de lado, sobre o meu braço, na mesa, pergunta:
— Você está bem Valerie?
Faço sinal de positivo, levemente, com a cabeça. Porém, não o olho nos olhos. Então, ele diz:
— Minta melhor. Você já está sabendo não é?
— Hum, rum...
Eu respondo simplesmente. A cabeça começa a latejar muito, e eu não quero falar no assunto porque eu sinto que ficarei pior.
Bem neste momento, Marverick acaricia minha cabeça e diz direcionando-se a Marvel...
— Vamos chamar a Dartanhã Marvel, antes que ela piore.
Bem neste instante, Made entra na copa...
— Meu Deus! Valerie, Aquiles me disse que você está passando mal. O que houve?
Aquiles chega, com meu chá, e, troca olhares com Marvel e Marverick. Com esse gesto, deles, eu compreendo que Made também não sabe, como eu não sabia...
A verdade, é que os homens tentaram nos poupar. Aquiles me disse, apenas por medida de segurança.
Então, para tentar poupar Made eu digo:
— Não é nada Made, eu só estou indisposta. Pode ser, pelo fato de eu não estar dormindo normalmente.
Porém, ela me conhece e diz:
— Valerie, você mente muito mal. O que houve?
Marvel agora olha Made com um olhar estranho...
— O que você acha que houve Made? Quem você acha que chegou aqui, ontem, quase a meia noite, com a desculpa que veio ver a nossa mãe?
Marvel diz irritado e nervoso, e Marverick intervém...
— Marvel acalme-se, ela não tem culpa.
— Mas, foi ela quem disse a ele, que Valerie estaria aqui, dentro de alguns dias, Marverick.
Marvel diz e agora ele está furioso. Vejo que Marverick recua um pouco, olhando para Made, com decepção em seu olhar. Porém, não diz nada, para não alimentar, mais ainda, a fúria de Marvel.
Eu tomo um sobressalto com a revelação de Marvel, e Aquiles fica em estado de alerta, e apressa-se em estar ao meu lado.
— Mas, eu não fiz por mal, você sabe disso Marvel.
Made diz, já chorando. E prossegue. Agora dizendo para mim:
— Valerie me perdoe... há umas duas semanas atrás, ele ligou e perguntou pela mamãe. Eu dei notícias e perguntei se ele viria vê-la. E como sempre, ele deu desculpas e disse que não. Só que... só que... – Eu sabia que o que Made iria dizer, era difícil para ela admitir. Então, eu disse...
— Pode dizer Made...
— Só que eu sinto falta dele... e, eu sei que a mamãe também sente, e Marvel não entende... eu também sei, que as coisas que ele faz, são terríveis. E, eu não imaginava jamais, o que ele fez a você, me perdoe. Porém, eu disse que Marvel iria ficar noivo, e disse que você, em alguns dias, estaria aqui para me ajudar com a mamãe. Só que eu fiz isto, para ver se ele se animava em vê-la. Mas, pelo que eu percebi, ele só veio por você. Pois, se ele quisesse ver a mamãe, ele viria em um horário em que ela estaria acordada e para curtir ela um pouco e não tão tarde. E somente agora, eu entendo, o que Marvel sempre diz, principalmente, depois do noivado, que eu vi a fúria e obstinação dele por você. Porém, eu já tinha feito, me perdoe Valerie, eu ter sido tão tola.
E, Made senta-se aos meus pés e chora muito, com a cabeça em meus joelhos. Porém Marvel está fora de si, de tanta raiva e continua a repreendê-la duramente...
— Agora não adianta chorar Made. Quando você vai aprender, que, Mildrad não tem coração? E, que ele só nos procura, para nos usar?
E Made desespera-se de chorar e a esta altura, minha cabeça dói demais.
Tudo isto, está me consumindo, porém, eu tento ser forte. Noto que Aquiles, está de olhos atentos em tudo, principalmente em mim, temendo que, a qualquer momento, tudo seja demais para mim.
Digo com a pouca força que eu tenho:
— Marvel, me ouça, eu perdoo ela...
Ele dá uma risada sombria e diz, não me deixando concluir...
— Mas é claro que você perdoa, Valerie. Você é uma boa alma. Porém, desta vez, ela precisa aprender.
No entanto, Marverick, agora, com mais seriedade, mas, deixando muito claro, que ele não quer desacatar o seu irmão, de maneira alguma... Ele respeita demais a autoridade de Marvel e no fundo, Made também, por isto ela está tão abalada... Então, Marverick diz:
— Marvel, meu irmão, acalme-se... você sabe que eu te apoio em tudo. Principalmente, em relação as atitudes de precaução, que nos orienta acerca de Mildrad. Eu sei que Made errou, errou sim, mas, Valerie já a perdoou. Graças à Deus, a Aquiles e a você, nada aconteceu. Então, se acalme. Nós apenas temos a nós três agora, não temos um de nós mais... – Ele disse referindo-se a Mildrad. — Nós, não podemos contar com a mamãe e não temos o papai. Só temos um ao outro. Desta forma, nós precisamos ficar unidos, para passamos por isto juntos. Made vai aprender, é mais difícil para ela, compreenda que, nem todos, somos iguais.
Noto que Marverick tem suas mãos nos ombros de Marvel. Que o olha com várias emoções perpassando a sua face. Orgulho, alegria, tristeza, decepção e amor. Então, ele respira forte e diz:
— Meu Deus! Meu garotinho cresceu... — Marvel diz com os olhos cheios de lágrimas. – Eu passo tanto tempo focado em proteger vocês, em manter esta casa, em correr atrás de preparar as coisas para conseguir me casar o mais rápido possível... ou seja, preocupado, trabalhando, correndo todos os dias. Que eu não me dei conta, Você cresceu! Você está certo...
E os dois se abraçam agora...
Eles choram juntos e aquilo é demais para mim... eu choro também, recostando a minha cabeça na de Made, que ao ver a cena entre os irmãos, não para de soluçar.
Eu sinto Aquiles muito desconfortável, por presenciar um momento tão íntimo, porém, ele não arreda o pé, um milímetro de perto de mim.
Marvel se afasta de Marverick, mas, puxa-o pela mão e traz até Made, e a toma pela mão e diz:
— Venha cá, minha menininha.
Ele a puxa, e ela, embora ainda magoada, não hesita, e vai até os dois, porém, antes, beija minha testa e sussurra:
— Me perdoe!
Dou-lhe um sorriso e sussurro de volta:
— Claro!
Assim, os três irmãos se abraçam e choram muito... Após um tempo, Marvel diz:
— Eu amo tanto vocês dois, mas tanto, que só de pensar que Mildrad pode atrair o mal a vocês, eu me desespero. Por favor, me compreendam. Quando o papai se foi, ele confiou vocês a mim, pois, a mamãe já começava a dar indícios, de que não estava muito bem. E Mildrad, ele já percebia que não teria jeito. Então, compreendam a responsabilidade que eu tenho. — Marvel dizia isto, muito comovido, e, era possível ver em suas palavras, toda a sua angústia pelo peso da responsabilidade que estava sobre ele. – Viu Made? Perdoe-me quando eu sou duro demais com você.
E Made responde:
— Eu te compreendo Marvel, e, eu prometo que, eu aprendi a minha lição. Amo você meu irmão.
E os três se beijam e se abraçam... então, Marvel se separa deles. Ele vem e senta-se sobre os joelhos, em minha frente e diz tomando o meu queixo:
— Não se preocupe, eu dei a minha palavra ao Henry, que eu tomaria conta de você. Isto que você viu não é culpa sua. Vivemos isto há muito tempo. E procuramos da melhor maneira, nos mantermos unidos e centrados, porém, antes, isto era uma responsabilidade, apenas minha, no entanto, agora eu tenho alguém para se preocupar lado a lado comigo.
Ele diz, olhando, neste instante, para Marverick, dando a ele o reconhecimento de o quanto ele havia amadurecido. Ele volta a me olhar e conclui:
— Nós, só temos que te agradecer. Por tudo o que, você, tem nos, feito. Você, tem sido uma dádiva de Deus para nós, Valerie. Acredite!
Ele beija a minha testa com carinho, e enxuga as minhas lágrimas, que correm soltas, com os seus dedos, e abre espaço para Made e Marverick me abraçarem.
Made me abraça por último e por um longo tempo. Por fim, ela se afasta e diz:
— Mais uma vez, me perdoe e muito obrigada minha amiga linda!
Beijo o seu rosto e digo:
— Não por isto.
E, sorrimos juntas, ainda com lágrimas nos olhos. Porém, Made pergunta:
— Como você está?
— A minha cabeça, dói muito Made, está piorando...
E Marvel diz...
— Vou chamar Dartanhã e em seguida, eu vou para o trabalho. Mas, qualquer coisa, por favor, me chame.
E Marverick diz...
— Fiquem com Deus, eu estou indo também, está na minha hora. Se cuidem meninas. – E agora ele diz a Aquiles. – Aquiles, por favor, cuide delas.
Aquiles responde sério:
— Pode deixar.
Made fica um bom tempo comigo, inclusive, ela fica ao meu lado, durante a consulta.
Dartanhã aumenta a dose dos meus chás e passa outra poção com a intenção, de aliviar a minha ansiedade.
Ele deixa, ordens expressas, de que eu preciso de repouso, e, de que, eu preciso dormir ao dia, já que eu, não estou conseguindo dormir à noite.
E, mais uma vez, ele diz para mim, e faz questão de dizer, próximo a Made e a Aquiles:
— Você precisa se poupar de aborrecimentos, você precisa ser preservada. Isto não é brincadeira. É sério.
Naquele instante, Made me olha com tristeza e mais uma vez, sussurra:
— Desculpe.
Quando termina de me atender, Dartanhã vai até Aquiles e eles conversam um longo tempo e depois ele vai embora.
O dia transcorre bem, tirando o fato, de Made e Aquiles, me obrigarem a ficar de repouso, e só me permitirem sair do quarto, para fazer a minha aula com Elise. Que aliás, é maravilhosa.
Durante o período em que eu estou tocando, retiro todo o foco de minha ansiedade, e concentro-me nas notas, na melodia e no som. E sem contar que, a companhia de Elise é agradabilíssima.
Depois, deste incidente, ficou bem claro, que as minhas dores e o meu abalo emocional, estão intimamente ligados, ao aparecimento de Mildrad. O próprio Dartanhã, confirma a associação. E este fato, deixa-o apreensivo.
Me preocupa, o fato de que Araon, virá esta semana. Porque, então, certamente, Henry saberá o que está acontecendo comigo e que, eu voltei a ter dores.
Sinceramente, eu gostaria de evitar preocupa-lo. Então, eu faço uma tentativa...
— Aquiles?
— Senhora...
— Eu sei que você está cumprindo o seu dever. Mas... Acontece que eu não gostaria de preocupar o Henry...
Ele nem me deixa terminar.
— Senhora, nem termine, por favor. Eu não vou omitir o que houve do senhor Lazar, eu não posso fazer isto, e você sabe disto.
Respiro fundo, pois, sei que ele tem toda a razão.
— Tudo bem Aquiles.
***
Nossa, já fazem dezessete dias, que eu estou em Livergoorn.
A esta altura, o meu coração está em frangalhos.
A minha saudade é insuportável. A dor corrói cada pedacinho de mim. A angústia é tão grande, que há momentos, em que é difícil respirar.
Esta madrugada, eu tive outro flash. Só que este, foi maravilhoso! Acredito, até que seja fruto do meu desejo e saudade do Henry:
Eu o via chegando de Daggorhorn, todo arregimentado com a sua armadura de Guerreiro. Ele estava lindo de armadura, e, ao vê-lo, a primeira coisa que eu fazia, era pular em seu colo, de tanta saudade.
Eu passei um longo tempo, pensando nisto, e até um pouco mais alegre, pois, afinal, ele disse que viria me ver, e já tem mais de quinze dias, ou seja, passou da metade de dias de jornada aqui... Então, pode ser a qualquer momento.
O período da manhã, passa tranquilo...
Eu tenho minha aula com Elise. Que por sinal, é ótima.
Após o horário de almoço, me retiro para dormir. Eu preciso descasar o que não tenho dormido a noite.
Assim, quando eu acordo, me apronto, saio do quarto e vou até a cozinha.
Inesperadamente, eu sou surpreendida por dois cavaleiros, altamente arregimentados, com as suas armaduras, conversando com uma Made, muito sorridente.
Eram Araon e Érion. Assim que eu adentro pela cozinha, eles me abraçam, embora, comedidamente, creio que, por causa de Henry.
E, eu declaro:
— Nossa! Os dois aqui... que surpresa boa, antes, vinha apena um ou outro e estão fardados...
— Sim, estamos a serviço do Reino. Nós fomos convocados esta semana, para um treinamento na Guarda, que será aqui em Livergoorn. Então, somos obrigados a andar assim.
Érion responde e bem no momento, em que ele conclui, a minha mente faz a conexão...
— Quer dizer que, Henry também fará o treinamento?
— Sim, ele chegou. Ele está conversando com Aquiles na frente da casa...
Eu nem deixo Érion terminar...
— Desculpa Érion.
Digo já saindo correndo pela porta da cozinha. E, ao longe, eu ouço Érion dizer, rindo...
— Tudo bem, vai com calma Branquinha.
Calma? Como, assim, calma? Eu estou morrendo de saudades dele, ninguém entende?
Bem no segundo em que, eu curvaria a casa para pegar o corredor lateral, eu avisto um rosto que eu não vejo há 17 dias, que simplesmente, desaba em lágrimas, ao me ver... e, eu acompanho e levo os meus braços estendidos ao seu pescoço, quando a alcanço e grito:
— Mamãe! Que saudade!
Ela me abraça fortemente e choramos as duas, matando as saudades.
— Oi minha querida, quanta falta eu senti de você, minha filha!
— Eu também mãe!
Digo chorando... E prossigo olhado para ela agora...
— Temos tantas coisas para conversar, tenho tanto para te mostrar mãe...
— Teremos tempo filha, teremos tempo.
— Mãe, cadê o Henry?
— Está conversando com o Aquiles. Sabe como ele é responsável com suas obrigações, principalmente quando se trata de você!
— Eu sei mãe...
Eu já iria correr, porém ela me segura pelo braço e chora de novo e eu a abraço novamente e passamos um tempo nos braços uma da outra.
Só que, ela percebe, a minha ansiedade em vê-lo, então, ela me solta e diz:
— Vá! Vá ver o seu noivo, pois, ele está tão desesperado de saudade quanto você, surpreenda-o.
Dou-lhe um beijo no rosto e um sorriso e saio em real desespero...
Nunca, um trajeto tão curto, se tornou tão longo...
Porém, nada me preparou para o que eu sentiria quando eu ouvisse a sua voz...
Eu ainda não havia curvado o corredor, portanto, eu não podia vê-lo, porém, eu já podia ouvi-lo conversando com Aquiles e meu coração disparou, em velocidade máxima...
O meu corpo inteiro se aqueceu com a expectativa de sentir o seu corpo, meus lábios começaram a literalmente, formigar, somente pelo fato de minha mente, antecipar a sensação dos seus lábios os tocando.
Assim, ao curvar o corredor e ganhar acesso a frente da casa, automaticamente, o meu sorriso aparece, mesmo vendo, que ele está de costas para mim, conversando com Aquiles.
E meu Deus! Ele está lindo de armadura!
Eu não culpo as moças, de o desejar, se o virem assim. O meu Henry já é perfeito, porém, ele fica ainda maior e mais belo de guerreiro.
Um pensamento ganha foco: meu Guerreiro, meu homem lindo demais! Elas que fiquem bem longe, pois ele é apenas “Meu”!
E antes mesmo, do meu grito sair, ele já se vira, de frente para mim, creio que, por que sentiu o meu cheiro.
Então, eu grito, em pleno êxtase, correndo ao seu encontro, de braços estendidos como no flash:
— HENRY!...
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