A Gangue do Palhaço
3 Capítulo 2: O Palhaço Sangrento
A Gangue do Palhaço
O Palhaço Sangrento
Parte dois de três
A luz do sol invade o quarto.
Amanda está deitada em sua cama, acordada pela luminosidade que bate em seu rosto e o esquenta. Ela está tonta, tudo parece um tanto surreal. Ela sempre odiara as manhãs. Tinha que se levantar e encarar o pai na mesa do café. Toda convivência com ele é mal-vinda, apenas o fato de estar com ele no mesmo cômodo é, por si só, um exercício excruciante.
Ela desliza o pé pelo lençol macio e sente que ele está mais pesado. Estranhando, ela o tira da cama, e vê que há uma corrente enferrujada em volta do seu tornozelo. Ela se senta na cama, em um salto, e tentar soltar um grito, mas nenhum som sai de sua garganta.
Desesperada, ela puxa a corrente, mas ela fica cada vez mais apertada, causando uma dor enorme. "Não! Não!", sua mente berra.
Após a dor no tornozelo se intensificar e desaparecer, ela cai de volta na cama, exausta. "Isso não faz sentindo". Sua tontura aumenta, e logo fica mais difícil respirar. Sua garganta dói e ela sente outra corrente, dessa vez em volta do seu pescoço, a sufocando.
Quando pequenos pontos pretos começam a dançar e obscurecer sua visão, ela acorda, sobressaltada. Todo o dia anterior surge em sua mente: "Oh, meus Deus! Não! Não pode ter sido verdade!"
Uma fraca luz invade o espaço por uma pequena janela, no canto direito, e é suficiente para revelar detalhes que seriam melhores ocultos. Tudo no lado de fora se resume a um borrão verde, causado pela alta velocidade em que estão. No interior, todos estão com olhos abertos, mas não parecem estar acordados. São cerca de 25 pessoas, entre mulheres, homens e crianças. Uma das crianças, que deve ter no máximo 8 anos, está choramingando.
Quando os ruídos do garoto se tornam um choro estridente, o homem que os marcara se levanta e tira uma garrafinha pet do bolso. Ele tenta diminuir o choro enquanto o estranho se aproxima, mas não consegue parar os soluços que o escapam. O homem segura suas bochechas com uma mão, a outra forçando a entrada do líquido em sua boca.
— Para de frescura, moleque — murmura o homem. — Bebe essa porra.
Após beber o líquido, o garoto vomita nos pés do homem, que rosna e lhe dá um soco. Ele cai para o lado, chorando mais do que nunca.
— Quem é você?! O que está fazendo... — berra o menino, e é interrompido por uma série de chutes.
O homem o chuta como se fosse um saco de pancadas. Amanda fica enojada com o som dos golpes; ela até pensa em interceder por ele, mas sabe a serventia que isso teria: nenhuma.
— Eu... Só... — berra o garoto, entre os chutes. — Eu só quero a minha mamãe!
O homem para de chutá-lo.
— Ah! O menininho quer a mamãezinha? — diz o homem, logo depois cuspindo nele. — Sabe quando você vai ver a mamãezinha de novo? Nunca.
Ele se abaixa, segura o menino e vira a garrafa em sua boca. Após longos goles, ele o solta.
Seu estado é lastimável: os pequeninos olhos azuis estão vidrados, suas mãos estão fechadas em punho e uma onda de espasmos começa a correr pelo seu pequeno corpo. Não demora muito para ele começar a tremer violentamente, vomitando uma espuma amarelada que enche o ar com o cheiro de doença.
Os espasmos param. Quando Amanda percebe que sua barriga não está mais se movimentando com a respiração, lágrimas começam a escorrer pelo seu rosto.
"O que eu estou fazendo aqui?".
Eles passam por uma lombada e vozes animadas surgem no exterior.
O som das vozes acende um pavio de esperança nela, que logo é apagado quando o caminhão para e o "supervisor" deles abre a porta traseira, cegando a todos com um clarão de luz.
— Fala aí, otário! — uma voz desconhecida o saúda.
— Fala aí, Maricas!
— Como foi a viagem?
— Chata pra caralho — responde ele, fechando a porta ao sair. — Um garoto não aguentou o mata leão e vomitou tudo, tá a maior carniça.
Tudo está escuro de novo. O medo toma conta de Amanda, como nunca antes. O único som que ela escuta é o das moscas que cercam o menino morto. Pensar nele lhe causa arrepios, nunca esteve tão perto de um defunto. Ela vira para o outro lado, o lado da porta, e tenta esquecê-lo... Como se isso fosse possível.
Após um longo e perturbador período de tempo, a porta se abre. Cerca de 6 homens estão lá parados, observando o vagão.
— Atenção! — grita um deles. — Eu sei que a maioria pode escutar, mesmo que não consiga se mexer. Vocês serão encaminhados para outros veículos, que os levarão para o verdadeiro destino. No caminho, eu aconselho que sejam extremamente cuidadosos com suas ações, pois não toleramos desobediência. Entendido?
Após alguns segundos de silêncio, eles entram e começam a arrastar as pessoas para fora.
— Você bem que poderia ter feito um regime antes, né? — fala um deles para uma mulher que é arrastada pelos braços.
Um chega em Amanda e a arrasta cuidadosamente para fora. Isso a surpreende. "Vai ver nem todos são tão ruins", pensa ela. Enquanto ele a arrasta, os outros sorriem e apontam. "Por que será?". Ele chega em frente a uma van novinha em folha, a porta traseira aberta com três antigos passageiros do caminhão lá dentro. Eles estão apoiados nas paredes, cansados e respirando pesadamente.
O homem entra logo depois dela, fechando a porta. Ela se senta, o mais distante que consegue dos outros passageiros e dele, mas quando a van começa a se mexer, ele se acomoda ao seu lado. "Deus... Por favor!". Ele é grande, possui cabelos negros encaracolados e penetrantes olhos castanhos. Ele a observa, e quebra o silêncio depois de algum tempo.
— Qual o seu nome, princesa? — pergunta, seu hálito de cigarro.
Amanda não responde.
— Vamos docinho, não precisa ser assim... — diz ele, enquanto coloca a mão no ombro dela.
Ela tenta controlar o nervosismo.
— A... Amanda.
Ele sorri para ela.
— Que nome lindo! Sabe, Amanda, eu adoro meninas que não são medrosas... — murmura ele, enquanto desce a mão para o seio dela.
Ela o encara, pasma. "Não! Não! Não!", pensa, enquanto lágrimas começam a brotar. Ele solta uma risada e, com a outra mão, seca o seu rosto.
— E você, minha cara... — diz ele, lentamente, enquanto tira a mão do seu rosto e abre o zíper da calça. — Não possui medos... Certo?
Dessa vez ela consegue gritar, mesmo que não tenha ninguém para ouvir.
***
Escuro. Nojo. Gritos. Tapas. Horror. Fim. Humilhação. Tempo. Balanço. Ladeira. Parada.
Quando a van finalmente chega ao seu destino, Amanda está deitada no chão, chorando. Seu estuprador abre a porta, coloca um saco de pano preto sobre sua cabeça e amarra suas mãos nas costas. Depois de fazer o mesmo com os outros, que já estão totalmente acordados há algum tempo, ele os encaminha para algum lugar coberto, onde eles param.
Pode-se ouvir o barulho dos outros veículos chegando e descarregando as pessoas.
Após alguns minutos, os sacos são retirados de suas cabeças. Eles estão em fila, no meio do que parece ser um galpão mal cuidado. O grande portão foi fechado, as luzes estão acesas. Ninguém se atreve a dar sequer um pio. Os homens que os trouxeram estão em fila também, tão nervosos quanto os passageiros.
O som de passos começa após alguns instantes. Do outro lado do galpão, surge um homem bem vestido, com seus cabelos loiros curtos e olhos verdes. Ele sorri e exibe covinhas. Após olhar para as vítimas, ele para em frente a um dos homens e lhe dá um tapa na cara.
— Eu disse 30 ou mais — murmura ele, ainda sorrindo e com seu forte sotaque.
O homem grandalhão se encolhe. Amanda acha a cena bizarra, pois aqueles caras poderiam muito bem acabar com a raça dele. Ou talvez não... Ele possui uma certa aura de poder, como se tivesse nascido para mandar e quem não concordasse com isso que encomendasse o seu próprio caixão.
— Por que só temos 20? — pergunta ele, com um tom de voz já controlado.
Um dos homens da fila começa a falar, mas ele o interrompe com um gesto.
— Shut the fuck up.
O outro levanta o rosto e murmura:
— James...
Ele levanta uma sobrancelha.
— Do que você me chamou? — rosna ele.
— Se... Senhor James. Não podíamos pegar muitas pessoas, era uma cidade muito pequena. Aliás, um garoto, cerca de 8 anos, não resistiu.
— Melhor assim... — murmura ele, enquanto se vira para dois caras da fila. — Tragam o corpo, ainda podemos salvar muita coisa.
"Salvar... Muita coisa?", pensa Amanda, confusa.
Após os dois saírem a passos rápidos, ele passa a supervisionar os seus novos brinquedinhos. De um em um, ele passa por todos, cutucando, pedindo para mostrarem os dentes, perguntando se fumam... E quem não responde leva uma pequena descarga elétrica causada por uma arma de choque.
Quando ele chega em frente à Amanda, ela tenta parecer confiante e destemida. Já passara por muita coisa, não tinha nada a ganhar, sabia disso, mas ia lutar até o fim.
— Você fuma? — pergunta ele, a avaliando da cabeça aos pés.
— Por quê? — pergunta ela de volta, se preparando para o choque ou tapa que provavelmente irá receber. Mas isso não acontece.
Ele ri.
— Por quê? Por quê?! — responde ele. — Porque os pulmões de um fumante não valem nem a metade dos pulmões de uma pessoa saudável, como eu acredito que você seja.
"Mas... O quê?".
— O que você quer dizer com... — Ela começa a falar, quando é interrompida por um tapa.
— Fale apenas quando eu permitir. Se você for inteligente, é claro.
Ela levanta os olhos.
— E se eu não for inteligente?
Ele sorri, vira as costas e murmura:
— Oh, my darling… Você vai aprender.
"O que ele disse?", pensa ela. De repente, os homens restantes os levam para dentro do lugar, passando por paredes de gesso e caixas de papelão, entre outras coisas. Até que chegam em uma abertura que dá para um corredor de celas. Eles colocam Amanda em uma delas, com mais duas pessoas.
A cela é apertada, tem um único colchão de casal no chão e um balde de metal no canto. Parece ter sido limpa há pouco, pois possui um forte cheiro de alvejante.
Ela se senta no chão da cela, acabada. Só de pensar em tudo que aconteceu, a longa viagem, o estupro, a surra, as ameaças... Como sua vida pôde mudar tanto da noite para o dia? Ela ainda pode sentir aquele homem em cima dela, o cheiro rançoso de suor, os suspiros, as risadas...
"Eu vou me vingar", pensa ela, enquanto chora baixo.
***
Em algum momento, ela pegou no sono.
Quando acorda, Amanda está com o pescoço duro devido a posição adotada. Há algum barulho no fim corredor, um som estranho, que não combina com o lugar. Está escuro, ela não consegue enxergar nada, nem suas próprias mãos em frente ao rosto.
Um guincho metálico arranha o silêncio e alguém grita. O sangue de Amanda gela. "O que é agora?", se pergunta. De repente, o som de algo batendo contra as grades a assusta novamente. Os dois prisioneiros da sua cela, um homem com seus 30 e poucos anos e uma mulher com cerca de 40 anos, estão de mãos dadas na escuridão.
O tempo passa e nada. "Será que eu estou delirando?". Ela se aproxima da grade, mesmo sem poder enxergar. Tenta capturar alguma cor dentro do escuro que domina tudo… Sem sucesso. Ela sente o cheiro metálico familiar, cheiro de sangue, mas não dá importância, afinal está cheio de gente machucada nas celas. Quando está se preparando para voltar para os fundos, ela sente que está sendo observada.
Ela tenta enxergar alguma coisa, e dessa vez consegue.
Amanda berra e se joga para trás, caindo de costas e batendo com a cabeça no balde, que acaba espalhando urina para todo lado. Mesmo sabendo que não há mais espaço entre ela e a parede, a garota continua se apertando, tentando fugir daquela visão macabra.
"Essa coisa não pode ser real!"
A coisa era constituída por uma juba de cachos vermelhos reluzentes, sob a pele pálida de uma máscara feita de pele humana, apenas com os buracos dos olhos e duas fendas no lugar do nariz. Escorre sangue de suas bochechas. A figura veste um macacão azul e luvas brancas, sendo apenas iluminada pela lanterna que carrega.
Uma risada extremamente doentia explode de onde deveria estar a boca da tal criatura, causando uma onda de gritos e choro. A mulher da cela de Amanda, coberta de urina, grita:
— Vade-retro Satanás! Meu senhor é mais forte!
Isso arranca mais e mais gargalhadas da criatura.
— Onde está o seu "senhor" agora? — pergunta ele, com uma voz extremamente familiar.
Ela berra e começa a rezar o pai nosso, ele então fixa os olhos em Amanda, que para de gritar e o encara com os olhos arregalados.
— Você não tem medo... — murmura ele. — Certo?
"É ele. É o desgraçado".
Ele levanta a máscara, devagar, revelando o seu verdadeiro rosto. O cabelo preto e os olhos castanhos que ela reconheceria em qualquer lugar.
— Você... Você é louco!
Ele dá uma risada e enfia a mão dentro da cela, tentando alcançar o rosto dela.
— Você não me achou louco quando eu te fiz se sentir daquele jeito...
Isso foi a gota d'agua. Amanda salta para a frente e morde a mão dele, com toda a força que pode, até sentir a umidade quente do sangue atravessar a luva branca que a mão dele veste.
Quando ele finalmente consegue tirar a mão de dentro da cela, lança um olhar assassino para ela.
— Sua filha de uma puta! Sabe por que eu não te mato agora mesmo?! — berra ele.
— Porque o James tem mais colhões que você? — grita ela, de volta.
Ele está vermelho, quase roxo de raiva. Ele quer entrar na cela e matá-la agora mesmo... Mas não pode, seria suicídio. Após ponderar por alguns momentos, ele coloca a máscara novamente, de um modo um tanto teatral, e murmura:
— Saiba que eu mesmo vou arrancar seus órgãos... E não pense que terá anestesia.
Amanda entende tudo, finalmente.
Na verdade, é muito óbvio. Não importa o que ela faça, seu fim será a morte. "Tragam o corpo, ainda podemos salvar muita coisa", "Os pulmões de um fumante não valem nem a metade dos pulmões de uma pessoa saudável...", está claro, claro como água. Todas essas pessoas terão o mesmo fim.
Ao perceber o seu destino, todo o seu medo vai embora.
"Eu ainda posso atrapalhar a vida deles... Bastante".
***
No dia seguinte, duas mulheres chegam ao corredor.
Elas não se vestem como empregadas, parecem secretárias de alguma empresa respeitável. Carregam algumas marmitas e as distribuem. Elas não estão tampadas. Quando jogam duas dentro da cela de Amanda, ela vê que dentro há arroz, feijão e uma gororoba amarela, muito estranha.
— Nós somos três — fala para as duas, que sorriem.
— Você não vai comer — diz uma delas.
— Você virá conosco — completa a outra.
Amanda sorri também.
— Tentem me tirar daqui.
***
Amanda é arrastada pelo corredor por dois homens.
— Me soltem! Me soltem! — grita ela.
— Cala essa boca, putinha — murmura um um deles, apertando o braço dela com mais força.
Após ser arrastada até uma sala que parece metade camarim e metade escritório, eles a jogam através de uma porta. O cheiro é insuportável, uma mistura de fezes, urina e vômito. O desespero toma conta dela.
— Vocês não podem me deixar aqui! — grita ela, dando socos e chutes na porta.
Suas mãos doem, ela se senta e tenta se acostumar com o cheiro. Há uma pequena fresta na madeira, o que acaba tornando o cômodo um pouco claro. Ao estudar o local, ela percebe que há uma mulher amarrada na parede, a observando, com correntes pesadas em volta dos seus braços e pernas.
— Cansou do seu showzinho? — pergunta ela.
— O... O quê? — pergunta Amanda, confusa.
A mulher ergue as sobrancelhas e bufa.
— Qual é o seu nome? — pergunta ela.
— Amanda... E o seu?
— Sônia. Você veio na última demanda, certo?
Amanda dá de ombros, confusa.
— Escuta aqui, você precisa me prometer obediência. Eu sei de mais coisas sobre a organização do que muitos desses empregados do James.
— Eu não entendo...
— Me escuta! — rosna ela. — Eu conheço os segredos e o funcionamento desse lugar, eu posso!
O pavio de esperança, há muito apagado, se reacende em Amanda.
— Você pode... — murmura ela.
Sônia sorri. A chegada de uma companheira só pode significar que a vida decidiu lhe dar mais uma chance.
— Eu posso tirar a gente desse lugar.
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