A Galinha Psicocótica
4 Valeu as penas
Notas iniciais
–Foi realmente uma tragédia o que aconteceu com a Josefá, Chiquinho- a sra. Maria Mugunza chorava, secando as lágrimas com os dedos roliços. – Eu tenho fé! Fé que deus vai punir esse assassino que fez isso com a pobre mulher!
–Pobi esposa, nunca fez mal a uma só arma viva!- Chico tirou o chapéu e o apertou contra o peito, lembrando-se da mulher que viveu com ele nos últimos 25 anos.
–Eu sei Chiquinho, eu sei... mas as coisas vão melhorar, vai ver! Já já a polícia aparece com o criminoso!
–Será? Tenho muita fé na puliça não, Maria... mas renha, deixe isso pra lá e vamu toma um cafézinho!
Jessie, que ciscava no jardim, ouviu toda a conversa. Ela estava lá justamente por que já ouvira alguns dias antes que Maria Mugunzá , irmã de Chico, viria passar uns dias para ajudá-los a cuidar da casa, que andava tão feia e bagunçada sem o carinho e a mania de limpeza de Josefa. Jessie lembrava-se perfeitamente da senhora roliça de cabelos alisados: fora ela que comera um pedaço do peito de Galindo e o coração da pobre criatura... ao final, a mulher ainda tivera coragem de repetir e lamber os dedos. Ela esperaria pacientemente e logo a noite, quando todos estivessem dormindo, ouviria o desejo de matar que explodia dentro de si e banharia suas penas em sangue. Que maria enchesse o papo naquela noite, pois esta seria a última vez.
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Os grilos faziam sua melodia noturna e as luzes da casa jaziam apagadas quando Jessie saiu do galinheiro carregando sua nova arma: a faca que matara Galindo. A luz da lua, ela olhou seu reflexo galináceo na lâmina “*Cocó*... eles irão pagar caro... *cocó* por ter banhado nosso amor em sangue *cocó*” pensou a galinha enquanto se preparava para a matança. Mais uma vez, Jessie entrou pela portinha do cachorro, porém dessa vez não se entalou (ela havia feito uma pequena dieta) e então caminhou pelo corredor, valendo-se de seu apurado nariz galináceo1 para farejar tia Maria.
–*cocó* 2º quarto, *cocó*
Com um misto de pulo e vôo baixo, Jessie alcançou o trinco e abriu a porta, demorou um pouco para os olhos da galinha se acostumarem com a escuridão do cômodo, mas ela era uma galinha paciente e esperou alguns segundos até que conseguisse enxergar o vulto do corpo gordo de Maria Mugunza esparramado na cama, adormecido. A simples visão daquela mulher tão perto de si despertou em Jessie as lembranças de seu amor sendo esquartejado e devorado por esses canibais assassinos... ela não perdoaria... não poderia perdoar... sentiu uma ira assassina dominar seu corpo e pulou na cama, procurando uma maneira rápida de acabar com aquela devoradora de Galindos. Por fim decidiu... então pulou sobre o peito da mulher, que roncou alto e nem sequer percebeu o peso da galinácea e o risco que corria perto da criatura penosa... Jessie novamente saltou no ar, levantando a faca, e pousou no peito da mulher com um baque, acordando-a... Maria abriu os olhos terrivelmente assustada e então a última coisa que viu foi o vulto de uma faca... e de uma galinha... Jessie cravara a faca com força na garganta de Maria, sufocando o grito que poderia ter vindo. Sangue jorrava para todo lado, manchando as penas de Jessie.... mas ela não se importava, estava possuida por sua fúria assassina, então continuou: retirou a faca do pescoço de Maria e usou-a para arrancar a cabeça da mulher, o que demorou algum tempo, mas valeu a pena para Jessie que segurou-a pelos cabelos com o bico e jogou-a longe. Em seguida, ciscou em cima do corpo e usando sua faca, abriu um buraco no corpo inerte da mulher e arrancou seu coração.
–*Cocó* isso é por Galindo! *cocó!
Por hora, Jessie saciara sua sede de sangue... então, tão silenciosamente quanto havia entrado, saiu da casa, desta levando o coração de Maria em seu bico. Porém ela não percebeu o que deixara para trás: uma pena vermelha banhada em sangue.
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