A Fórmula do Amor
3 Sorriso Metálico
Notas iniciais
Diário do Berg
Eu já estava com dois meses de aula naquela maldita escola. Meu apelido lá dentro era “dente de lata”, fui assim batizado pelo John. A Ludi estava sempre com as outras amigas dela e eu abandonado, sozinho, ou como se diz na linguagem de hoje em dia, forever alone. As tais meninas que se apresentaram para mim no primeiro dia não falavam mais comigo, pois eu tentava evitá-las o máximo que podia (aquela ameaça do John fez eu me borrar de medo).
Até essa época eu nunca tive nenhum contato com o mundo feminino, não conhecia nada do ciclo da menstruação e outras coisinhas indiscretas do mundo em questão. Nunca havia ficado com nenhuma garota até o presente momento, porém senti que as coisas estavam mudando quando chegou uma aluna nova na minha sala:
— Pessoal, eu quero que vocês conheçam a nossa nova colega: Madalena Feitosa. — disse o professor Pierre. — Pode escolher o lugar em que você vai ficar. Escolha bem a sua carteira, pois ela será sua até o final do ano no mapeamento da sala.
Eu olhei aquela criatura dos pés à cabeça. Ela era tipo um Berg de saia. Juro a vocês por tudo o que há de mais sagrado nessa vida. Pronto, juro pela minha coleção de cards do Yugi-Oh!, beleza?
Enfim, o problema não era esse. Era só porque Madalena Feitosa era chata pra caramba. Vocês vão me entender futuramente. Da primeira vez que a vi até fiquei contente, pois achei que tinha alguém pra compartilhar as zoações, mas quando ela escolheu uma das carteiras que estavam ao meu lado (as do meu lado esquerdo e direito sempre ficavam vazias) e puxou conversa a aula toda eu tive essa concepção na minha, até então, inocente cabeça. A primeira coisa que Madalena fez foi abrir o seu sorriso metálico:
— Oi, Berg.
Eu estava com a mão direita tapando o meu rosto, somente pra evitar qualquer tipo de contato com ela. Mas quando ela me chamou pelo nome eu pensei: “Como essa criatura sabe o meu nome?”. Tive de responder.
— Oi, Madalena. Seja bem vinda! — sorri amigavelmente.
— Que legal! Você sabe o meu nome. — ela riu com uma risada até engraçada, fungando o nariz.
— O professor disse (na verdade queria perguntar da onde ela sabia o meu nome).
— É mesmo... — riu daquele jeito mais uma vez. — Seu aparelho é verde! Nossa! Olha o meu — mostrou os dentes para que eu pudesse vê-los. — O meu é cor-de-rosa. Gosta?
— Não sou muito fã.
Virei de costas, peguei o lápis e fingi estar fazendo algo no caderno só para demonstrar a ela que eu estava ocupado e que não queria papo. De vez em quando eu olhava pra trás e percebia que ela estava olhando pra mim com o queixo apoiado nos punhos e os cotovelos fixos no braço da carteira. Ela ficou assim até o final da aula.
No tão esperado final da aula (já não aguentava olhar para trás e ver aquela menina me devorando com os seus olhos brilhantes), saí rápido da sala, mas acabei esbarrando em Madalena. Suas coisas caíram no chão (assim como as minhas caíram no primeiro dia), mas como eu corri, acabei nem percebendo. Virei para trás e da porta da sala vi a coitada de joelhos no chão tentando amontoar aquela verdadeira biblioteca que ela trazia e colocando em sua mochila. Foi então que minha consciência pesou e eu resolvi voltar e ajudá-la.
— Fui eu quem esbarrou em você não foi? Me desculpa, eu tava apressado.
— Não tem problema.
Abaixei e comecei a ajudá-la a colocar os livros de volta na mochila. Madalena continuava com o seu olhar fixo no meu rosto. Acho que pra ela era meio como olhar num espelho em que se vê você em seu sexo oposto. Pra mim era. Um dos livros dela chamou minha atenção e eu acabei por comentar:
— Curte Sidney Sheldon?
— Sim. Esse que você ta segurando (Se Houver Amanhã) é o meu preferido.
— Eu já li todos. O Sidney era um ótimo autor.
Notei que ela esperava que eu falasse mais alguma coisa, mas caiu a ficha de que ela estava interessada em mim e eu não estava nem um pouco a fim de namorar comigo mesmo. Um silêncio momentâneo e uma troca de olhares involuntária (da minha parte). Levantei-me, entreguei a mochila a ela e falei:
— Prontinho. Suas coisas.
Ela estalou um beijo no meu rosto e saiu correndo, nem colocou a mochila nas costas. Ludi observava tudo na porta da sala. Confesso que quando a vi, tomei um susto.
— Hum... Berg arrasando corações!
— Não brinca Ludi. Cruz credo, Ave Maria ao quadrado!
“Cruz Credo, Ave Maria ao quadrado”. Aquele era o bordão da minha vida. Sempre eu falava isso, até hoje falo. Portanto, não se irrite se por acaso eu abusar dessa fala.
Os comentários de Ludi não me irritavam. Enfim, o negócio era de que Madalena não saía da minha cabeça nem um minuto. Não sabia bem ao certo o que eu estava sentindo por ela; às vezes me pegava pousando minha mão esquerda no lado do rosto em que ela me beijara. Não sabia se era amor, paixão ou só estava assim porque aquele era meu primeiro contato com o sexo oposto.
À noite eu fui dormir e fiquei imaginando mil coisas, do tipo: E se ela, em vez de ter me beijado no rosto tivesse me beijado na boca, nossos aparelhos ficariam enganchados? Sairiam faíscas nesse possível beijo? E eu, corresponderia?
Ah dane-se, ela só queria fazer amizade comigo! Pelo menos era isso o que eu queria acreditar...
Além de estudioso, eu sou tímido. Mais tímido do que qualquer coisa, aliás. Tanto que faltei aula no dia seguinte. E no outro, e no outro. Quando eu resolvi aparecer no colégio, o tal do valentão, o John, veio me receber na porta da sala. Aí eu pensei: “ferrou, afinal a Madalena é uma menina e ele me proibiu de chegar perto das meninas da sala!”.
— Haha! Eu pensei que você não era de nada, dente de lata. Mas eu me surpreendi. — disse ele.
— Do que você ta falando?
A Madalena veio correndo em minha direção, de braços abertos. Quando chegou perto de mim, me deu um abraço e um beijo no rosto. Ainda abraçada em mim, sussurrou ao meu ouvido:
— Oi amor! Já estava com saudades. Desculpe, mas falei pra todo mundo do nosso romance secreto.
Estava muito assustado para questionar sobre algo. Tanto que eu só fiquei de olhos arregalados, vendo John e os outros caras rirem e falarem:
— Tá namorando a Madalena, hein Berg!
— Já pensou se ela fica grávida? Coitada da criança. Vai ser um monstrinho!
— É capaz de já nascer com os dentes de lata! – brincou outro.
— Não liga amor. — disse Madalena com os braços rodeando o meu pescoço. — Eles não conhecem a felicidade.
A única coisa que eu falei naquele momento foi:
— Cruz Credo, Ave Maria ao quadrado!
Ficamos conhecidos na São Benedito como “O casal mais bizarro da escola”. O título caiu como uma luva, não? (Pode responder e ser sincero. Estamos entre amigos!).
Diário da Madalena
Sei que foi uma surpresa para o Berg, claro. Mas do jeito que ele havia me olhado naquele dia, do climão que pintou, não havia outra: daria namoro, óbvio. Eu mesma tomaria a iniciativa, mas ele faltou aula na terça, quarta e na quinta, aparecendo só na sexta. Nesse meio tempo eu fiquei tão empolgada que acabei falando pra todo mundo que nós dois estávamos namorando. Parecíamos feitos um para o outro e tínhamos até os mesmos gostos literários. Meu Deus, eu achava o Lindemberg o sonho de qualquer garota!
Diário do Berg
Bom, agora eu tinha uma namorada. Não desmenti a lorota que a Madalena soltou pela escola toda, mas também não disse a ninguém – nem a ela – que era verdade e que eu queria um compromisso. Madalena fazia questão de se perfumar, se maquiar, e mesmo com a farda da escola, ir à aula o mais arrumada possível. Ela dizia que era só pra mim.
Eu tentava procurar algo na Madalena que me atraísse, mas era como eu me apaixonar por mim mesmo e eu nunca me achei atraente. Mas por que ela falou aquilo com as pessoas? Eu mal conversei com ela. De boa, eu nem toquei nela! Foi só uma troca de olhares idiota! Que vergonha eu estava sentindo, mais uma vez dentro daquela escola! Parecia que todos queriam que eu pagasse pelos meus pecados e pelos deles também.
Não sei de onde diabos ela conseguiu o número do meu telefone. Ligava-me toda hora e quando eu estava no colégio era uma melação. Ficava se esfregando em mim, coisa mais chiclete!
Nas horas vagas eu gostava de desenhar. Eu gostava de imaginar coisas, eu era um sonhador. Numa dessas eu me peguei sorrindo e pensando nela. AHHHHHH! Eu estava gostando da Madalena!
Bem, eu tinha de admitir isso pra ela. Bem difícil, mas ela sempre me fazia rir. Era simpática, inteligente, gostava de boa música. Disse a ela tudo o que eu estava sentindo, (por telefone, é claro) e ela questionou:
— Se acha tudo isso de mim por que não selamos nosso namoro?
— Tipo como?
— É que assim: a gente sempre namorou de mãos dadas (mentira dela) e ta na hora de darmos nosso primeiro beijo. O que acha?
Marcamos na pracinha da frente da escola. Eu, idiota, me vesti como se fosse fazer uma entrevista de emprego. Ela estava do mesmo jeito. Eu entreguei um buquê de flores e uma caixa de chocolates para ela e esta ficou toda boba.
Sentamos-nos em um dos banquinhos da praça. — Ai amor, assim eu fico encabulada!
— Que nada, é só uma lembrancinha.
Não sei quem foi o filho da mãe que colocou uma música na mesma hora. Aquilo foi de aumentar o clima “romântico”.
When you look me in the eyes...
And tell me that you love me,
Everything’s alright
Borrifei um spray na minha boca, pra ficar com um hálito legal. Ela parecia ansiosa. Já eu, não. Porém, a iniciativa sempre tem que ser do homem. Que nada, bem na hora da iniciativa, Madalena forçou meu rosto de encontro ao dela; fiquei sem ar.
I find my paradise...
When you look me in the eyes…
A música mesmo que eu queria que tocasse era uma que dizia: “I love the sound of you walking away” (“eu amo o som de você indo embora”. Daqui a pouco vocês vão saber o porquê). Eu queria era o sarcasmo dos Franz Ferdinand, e não o romantismo dos Jonas Brothers; mas enfim, aquele era o hit do momento. Em todo caso, esse foi o meu primeiro beijo e isso é único e imodificável.
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