A Fuga Carpática
2 O Jaguar da Aldeia
Jaguar cresceu numa vila que foi encontrada pelos iluministas. Desde pequeno os viu lutando para defender a sua civilização. Eram homens que deixaram pra trás o velho mundo e aderiram-se a uma nova casa. Quando já havia vivido uma dúzia e meia de estações chuvosas, ele quis que lhe permitissem lutar com os brancos, pois seria um orgulho fazer parte dessa luta. Ele sempre treinou seu arco e flecha, aprendeu a usar veneno na zarabatana e tinha habilidades altíssimas no estilingue. Sempre negavam-lhe que lutasse, pois era novo e sem preparo.
Numa noite quente, ele pegou sua inim (rede de dormir) e fugiu pela mata densa sentido norte, para onde via os iluministas saírem pela luta. Ele conhecia a floresta, mas não o suficiente para chegar à bacia de Ykatu (amazonas). Perdeu-se na floresta, mas seguiu rumo norte orientando-se pelo ceu.
Aleatoriamente, numa semana quente e seca, Jaguar dá de frente com uma caravana de iluministas que seguia rumo a uma mina pirata na bacia do rio. Ele se manifesta rapidamente para não ser confundido e morto. Quando o veem, os iluministas levam-no pra dentro de seu acampamento improvisado e lhe perguntam donde vem e o que procurava. Ele conta de sua origem nas aldeias caiçaras e de como sempre quis ajudar os iluministas, tanto que sempre treinou para poder combater os piratas. Os iluministas, como fizeram todos até agora, recusam-se a deixá-lo lutar, porém um mais velho do grupo levanta a sua voz dizendo:
- Xiru (meus amigos), eu já estou velho e não consigo obter o mesmo desenpenho de quando tinha a idade de vocês. Deixem-me checar as habilidades do garoto, quem sabe até chegarmos na mina ele aprenda o suficiente para ajudar?
Todos concordam com o membro mais velho. Depois da janta de mandioca, o velho combina com Jaguar de começarem bem cedo o treinamento.
Na manhã, o velho treina com o menino na mata densa fazendo-o acertar certos alvos com flechas, tiros de zarabatana e de estilingue. Ele nota o domínio do garoto sobre o estilingue e a zarabatana, mas vê que pode melhorar com a flecha. Os dois treinam dia e noite com a flecha para que o menino seja silencioso e hábil.
Na última noite antes de atacar o grupo não dorme. Eles seguem pela mata toda a madrugada até a mina e, quando o sol nasce e o trabalho pirata começa, a caravana se cloca em pontos estratégico e dá início à briga.
Um atira no motorista do trator que se preparara para entrar na mina com uma flecha envenenada com veneno de sapo. Outro acerta com tiros de zarabatana os que vieram assistir o motorista ferido e agonizante. Um tiroteio começa e muitos são feridos e condenados a morrer na selva sem ajuda nenhuma. Com o confronto muitos piratas e iluministas morrem.
Um vulto aparece nas sombras e mata todos os piratas com tiros de arma de fogo. O vulto de cabelos mais negros que a noite é eficaz e rápido, logo sai do cenário. Jaguar procura os pontos onde estavam seus companheiros e vê que quase todos morreram. O único que sobrou estava tão ferido que já não podia ser salvo e Jaguar estava bem longe de seu pajé. No chão da mina, o garoto encontrou uma faca já cega de tão gasta. Ele a guarda pra si e segue pela bacia de Ykatu a procura de mais piratas. Ele anda incansavelmente deitando-se tarde e acordando antes de Guaraci (Sol).
No caminho dá de frente com um varal cheio de roupas femininas perto do rio Ykatu. Fazia tanto calor neste dia que o menino se deixa levar, larga suas armas na margem e entra na água.
Nadando com a guarda totalmente baixa ele sente algo por de baixo da água, quando ergue sua cabeça vê um rosto feminino com longos cabelos escuros. No susto, sua primeira reação é afastar-se. A menina lhe diz de primeira:
- Com essa pele vermelha e esses adornos você não deve ser um pirata, então pode nadar aqui comigo. Mas não tente nada estranho! Além de não fazer o meu tipo eu sei defender-me muito bem.
- Anauê, jovem. eu estou sozinho na floresta depois que meu grupo foi derrotado por piratas. Vi que você tem equipamentos para deslocar-se pela floresta à margem do rio. Se não incomodar, deixaria-me seguir com você? Quem sabe sou útil em suas brigas? respondeu Jaguar.
- Hoje faz calor e estou cansada. Se você conseguir-me algo para comer daqui do rio eu te deixo.
Jaguar sai do rio, pega seu arco e algumas flechas. Logo na primeira tentativa acerta um peixe Piraíba e agilmente o tira d'água. Oferece-o à menina dizendo:
- Aqui está seu almoço, jovem... Fala como se perguntasse-lhe o nome.
- Doumo Arigatou. Se quer saber tanto, meu nome é Moriyama Hinata, mas pode me chamar de Hina. Responde a garota com um ar neutro.
- Neiñepi (de nada). E o meu é Jaguar. Jovem Hina. Se ajudar, use esta faca minha.
- Como se atreve a dizê-la sua? Esta é minha faca! Donde a sacou?
- Ora, estava numa mina um pouco ao sul.
- Pois ali estava ela. Fez-me tanta falta! Não acredito que estava com você. Diz Hinata claramente alterada.
- Bem, arigatou por encontrá-la para mim, sem sua ajuda eu teria apenas o meu revólver. Continua a menina, agora mais calma.
Depois do almoço os dois seguem num caminho silencioso sem levantar uma palavra ao longo do rio. Com a Aracema (por-do-sol), Hinata para e começa a armar a sua barraca.
- Meninos ficam do lado de fora. Disse a menina num tom autoritário.
- Não se preocupe, eu fico de fora cuidando de nós dois. Responde Jaguar armando a sua rede entre duas goiabeiras.
A jovem fecha a sua barraca num movimento rápido e levemente alterado. Os dois dormem uma boa noite de sono pesado como se os cantos dos grilos e das cigarras fossem uma canção de ninar.
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