A Fuga Carpática
10 A Família Vasile
Notas iniciais
Boa leitura!
Ainda de noite, Andrei segue com a carroça sob a pupila negra do ceu que a todos vigia até Bârlad. A viagem não é longa e chegam na cidade ao mesmo tempo que o sol chega para os Dacos.
Lá na cidade, Loredana sugere que passem silenciosamente e que abriguem-se, primeiramente, na casa de sua família, pois um desconhecido poderia entregá-los aos piratas sem saber o que se passa.
Loredana aponta onde Andrei deve amarrar a sua carroça. A jovem desce e chama na casa de seus pais.
- Bunî dimine'ţî (bom dia)! Grita Loredana.
- Staţi o le'cî (espere um pouco)! Afirma uma voz feminina de dentro.
- Scumpo (querida)? Que ocê faz aqui? E o mosteiro? Interroga a amistosa senhora enquanto abraça firmemente sua filha.
- A gente temo' muito do que falar, ma' este pessoar pode ficar um pouco conosco?
- Ba da (pois sim)! Concorda a mulher.
- Apropo (aliás), este é a minha mami, o nome dela é Ioana Vasile. Apresenta Loredana sua mãe ao grupo.
Todos entram na casa da família Vasile. A casa é pequena e tradicional. Conta com pratos e costurar artesanais nas paredes, um aquecedor com lenha, móveis também de fabricação manual e um fogão elétrico (fruto do desenvolvimento iluminista). Não se encontrava geladeira por dentro, pois tudo podia ser colhido diariamente da estufa (outro fruto do desenvolvimento iluminista), mas havia, já, um televisor, feito com o monopólio mineral marciano.
Ioana deixa as visitas por um momento e vai acordar seu marido, um homem, apesar de sua idade avançada, que mostra saúde, um pouco acima do peso, porém aparenta ter, também, músculos, alto e de bigode.
- Ne'ţî ('dia)! Bem-vinda, scumpo (querida)! Bem-vindos, visitantes! Saúda o homem.
- Ele é o meu tati, seu nome é Dan. Loredana introduz seu pai aos amigos.
- Então, o que houve com o mosteiro? Ocê precisa dalguma ajuda? Pergunta generosamente Ioana.
- Deixe-me esclarecer! Etto, a senhora conhece os piratas de minérios no novo mundo? Jaguar e eu, apontava Hinata ao rapaz, lutávamos contra eles, mas fomos surpreendidos quando um grupo nos capturou e trazia-nos num trem, donde saltamos e caímos perto do mosteiro onde ajudava a sua filha... Explica Hinata.
- Então eu decidi que ia ajudar eles na luta, afinal é uma causa nobre. Loredana corta Hinata.
- Ah, e este homem é Andrei. Ele trazia a gente em direção a Iaşi, donde a gente íamo' pegar o trem para Petrograd. Termina Loredana.
- Ocês parece' tão indefezo'. Como lutam com esses poderoso'? Interroga Ioana enquanto ferve o leite.
- Acabou-me a munição do revólver hoje de noite quando fugíamos de piratas que perseguíam-nos desde Vaslui. Responde Hinata.
- Também me acabaram as flechas. Acrescenta Jaguar.
- Eu não lido com isso e ão posso ajudar em armas. Ma' se quiserem comida e teto enquanto se preparam pra sair de novo, aí eu ajudo. Disse Ioana oferecendo ajuda.
- E Andrei deve conseguir sair daqui sem ser notado e sem a gente, pois os piratas estão atrás dele também. Adiciona Jaguar.
- Que assim seja: Eu e Andrei trabalhamos na carroça para que não seja reconhecida e ocês podem ficar aqui até quando acharem necessário. Afinal, a casa é pequena, mas não falta comida e amor por aqui. Propõe Dan.
Dan sai e leva consigo Andrei em direção à carroça. Ioana serve lente quente da fazenda comunitária e pão feito em casa. O trio começa uma conversa fechada:
- Nós deveríamos recuperar a munição. Sugere Jaguar.
- Eu dou-me melhor com armas de fogo. Seria bom que encontrássemos outro pirata e, assim, eu tomasse-lhe a arma. Cogita Hinata.
- As flechas posso fazer com a madeira da floresta. Cogita Jaguar também.
- Mas s'oê for lá, os piratas pode' tá esperando pra atacar. Teme Loredana.
- Se tivéssemos qualquer tipo de escudo, poderia ser útil agora e também mais tarde. Pensa Hinata.
- Sé ("sei lá"). Jaguar já está neutro.
O grupo faz um silêncio estranho pensando em várias possibilidades.
- Aujé (basta)! Afirma estressadamente Jaguar. Aujé umã (basta já)! T'îa-só akûeî ka'a-pe! Vamos àquela mata, façamos as u'uba (flechas) e peguemos armas para a Hina. Jaguar parece decidido.
O trio deixa a casa e sai à floresta de coníferas próxima à cidade. Procuram entrar silenciosamente, mas as folhas caídas do outono não fazem sua parte junto com eles. Significantemente adentro da vegetação, Jaguar começa a tirar galhos de certas árvores, não das coníferas que ainda estão verdes, mas doutras com bom aspecto para flechas. No momento em que Jaguar ainda trabalha com a faca de Hinata fazendo o galho tornar-se uam boa seta, os três podem ouvir passos e põem-se parados. Poderia ser um animal selvagem ou um dos capangas de Vladimir, porém ambos oferecem perigo.
Com o som aprochegando, os três se escondem por trás duma conífera grossa. Jaguar e Hinata mantêm-se alertas e examinam a distância. Subitamente Hinata salta ao encontro do inimigo e faz evasivas sequenciais por trás das árvores. Enquanto ela distrai o comparsa, Jaguar sobe numa conífera bastante alta e, de lá, salta sobre o ameaçador, toma sua arma e a joga para Hinata. Em seguida Jaguar e Hinata correm e fazem de escudo o mesmo tronco. Com mais passos chegando, Hinata sai atirando nos dois novos adversários ligeiramente e Jaguar pula pelos galhos agilmente e toma-lhes os revólveres.
Jaguar e Hinata voltam ao tronco onde estava Loredana. Ela encontra-se lá confusa e sem reação aos eventos recentes. Jaguar dá uma arma a Loredana ao ouvir mais passos sobre as folhas secas. O trio apresenta-se bravamente ao inimigo mirando-lhe com os revólveres, porém era apenas um urso que passava pela floresta. Então todos saem da floresta e voltam a Bârlad.
- Bârlădienşili* (bârlădencele, as bârladenses) cresceram desde que saí, hihi. Comenta Loredana.
- Você é crescida, mas nada madura. Adiciona Hinata.
- Eu não pude curtir a madureza, mas o seu par já veio crescido. Loredana fita Hinata com um olhar sugestivo.
- Eu não sei do que está falando. Hinata reage, mas fica claramente vermelha.
- Endé katu-pe (tudo bem), Hina? Você está muito vermelha. Nota Jaguar.
- Você está bem mesmo sem ter dormido à noite? Acrescenta.
- Kamawanai de (não ligue)! Estou bem.
Os três jovens continuam pela cidade e escondem suas armas. Hinata toma a de Jaguar e guarda junto à sua sob sua saia numa espécie de cinta na perna, onde costumava guardar sua própria arma antigamente. Loredana põe seu revólver sub seu chapeu. Achegam-se à casa da família Vasile. Na porta veem-se Dan e Andrei trabalhando na carroça. Dan tinha em mãos duas rodas novas com pneus no lugar duma simples camada de borracha e ferramentas enquanto Andrei retirava os adornos dos cavalos.
- Salutare, fraţilor** (saudações, irmãos)! Voltaro'? A manhã já se vai, ocês quer' almoçar? Cumprimenta o generoso Dan.
- A-î-potar karu (quero comer)! Já tenho fome! Responde Jaguar.
- Hara heta (estou com fome)! Exclama Hinata.
Todos entram novamente na casa. Dentro, vê-se Ioana pondo ao fogão elétrico sarmale în dovlecei*** e, em seguida, servindo na mesa smîntînă (creme derivado do leite muito usado na culinária romena) e vinho moldávio (característico de ser bem escuro, fosco e um pouco mais forte do que o gaúcho).
- Mas onde ocês tava' durante a manhã? Deciriro' como continuar a viage'? Interroga Ioana.
- Se não incomodarmos, poderíamos passar uma noite com vocês, pois ainda é um pouco perigoso de sermos capturados pelos piratas, mas saímos logo. Cogita Hinata.
- Tão pouco? Mal pude contemplar as Bârlădie... A fala de Loredana é obstruída por Hinata.
- A vida é uma bicicleta. Para ter equilíbrio é preciso movimento! Cita Hinata.
- Poftă bună (bom apetite)! Afirma Ioana tirando do fogão e pondo sobre a mesa o sarmale.
Jaguar e Hinata mal sabem como comer a gastronomia nova, então Loredana dá-lhes smîntînă para acostumarem-se mais facilmente com o sabor.
- Ocês num quer vinho? Oferece Dan.
- Eu prefiro água. Responde Hinata.
- Do que é feito isso? Interroga Jaguar.
- É suco de uva fermentado. Responde Loredana.
- Pois então é como chicha****! Deduz Jaguar tomando-se um copo.
- É bom que você não beba, Lola. Manda Hinata.
- Stai (calma), só um copinho. Retruca Loredana degustando o vinho de sua casa
- Peẽ ñyrõ ixebe (perdoem-me)! Esta chicha é muito forte. Comenta Jaguar com uma careta.
- Posso beber da sua água? Pergunta Jaguar a Hinata.
- Seu folgado. Insulta Hinata claramente vermelha dando o seu copo d'água.
- O que ocê costuma comer lá no novo mundo, băiete (rapaz)? Pergunta-lhe Ioana.
- Temos riqueza em pirá (peixe), manioka (mandioca), abati (milho), e os incas trazem-nos às vezes camote (batata doce), mas eu sou caiçara e é mais difícil chegar até a minha taba. Explica Jaguar.
- Espero qu'ocê goste da nossa comida, não tem nada disso aqui. Comenta Ioana.
- E a jovem? Vira-se para Hinata. O que ocê gosta de comer lá na sua casa?
- Eu gosto muito de Tempura, Udon Ramen e Takoyaki. Responde Hinata
- E ocê? O que ocê faz da vida? Interroga, agora, a Andrei.
- Ah, ele é um mercante. Ele viaja o país comprando e vendendo de tudo. Dan responde no lugar do homem.
O grupo come uma boa refeição. Ao terminarem, Jaguar sai ao quintal da casa onde arma a sua inim para a tradicional sesta. Dan também sai para descansar, mas Andrei volta à carroça. As meninas continuam na mesa conversando com Ioana. Todos ficam nisso até que o sol baixa e começa a refrescar o clima.
Notas finais
**Frate (irmão, no texto encontrado no plural vocativo) é uma saudação usada na Romênia informalmente e formalmente, por exemplo: Fraţilor, în ţara asta n-ar fi rău să fie bine (irmãos/compatriotas, neste país não seria mal ser bom) - Ion Creangă, escritor.
***Sarmale é uma comida romena de influência turca. Contém carne moída enrolada em folhas de repolho ou de videira (pé-de-uva). A variação encontrada neste episódio é, na verdade, com a carne dentro dum pimentão, dovlecei (pronuncia-se dovletchêi) em romeno.
****Chicha é uma bebiba andina encontrada no Peru, principalmente. Há vários tipos: Chicha de mandioca, para fazê-la uma mulher mastiga cubinhos de mandioca e os cospe em água fervente. Chicha de milho, com o mesmo procedimento. E chicha de arroz colombiana, preparada como arroz doce, porém com fermentação. A chicha tem de 3 a 5 graus de álcool. Enquanto o vinho tem de 10 a 15.
Na fala das personagens moldávias tenho mantido o sotaque caipira no nível que julgo adequado. Se você crê que está exagerado ou fraco, escreva no comentário, por favor.
Fale com o autor