A Força do Amor

37 Quem Respeita Quem?


Notas iniciais
Como vão, caros leitores? O tempo vai fechar para o nosso casal mais que apaixonado e o clima de tensão só vai piorar... Boa leitura!

Faltando sete dias para a chegada de Legolas outro ataque violento a Cidade do Lago quase a levou a ruína. Seu grupamento estava a sudeste da floresta e não havia homens suficientes que pudessem defendê-la. Bard conseguiu retornar a cidade com um pequeno contingente e aqueles que conseguiram fugir para a floresta tentaram chegar a todo custo à trilha dos elfos na esperança de serem abrigados pelo povo élfico.

Kyara estava no jardim do castelo cuidando do seu canteiro de ervas, preparando-se para o momento em que o confronto com os Orcs chegasse. Cumprindo o acordo que fizera com o rei, para não se desgastar demais, ela ficava apenas uma parte do dia na casa de cura quando necessário, ou se ocorresse algum caso urgente, e aquele foi um dia de urgência e completamente atípico para os elfos.

As sentinelas da cidade avisaram o rei da chegada de um grupo de homens da Cidade do Lago, relatando o ataque ocorrido pedindo abrigo, porque não poderiam voltar à cidade e tão pouco se abrigarem na floresta. Alguns estavam muito feridos e correndo risco de morte se não fossem socorridos logo.

Nunca na história daquele povo foi permitida a entrada de homens no reino, a não ser se capturados ou na ocasião em que o rei Aragorn, quando ainda era um guardião Dúnedain, trouxera para o cárcere a criatura Gollum nos dias em que Sauron tentou, pela segunda vez, dominar a Terra Média.

Uma tropa com cinquenta guerreiros élficos foi até a floresta resgatar os homens e escoltá-los a cidade, porém mantiveram-se todo o tempo vendados e somente retiraram suas vendas quando chegaram à casa de cura. Eram quatorze guerreiros do povo de Grimbeorn e estavam famintos, sedentos e muito feridos. Por sete dias permaneceram internados, porém nem todos retornariam a guerra e a seus lares.

Dos quatorze homens, três não resistiram aos ferimentos e um tinha a perna esmagada, que precisou ser amputada. Preocupada com as notícias nada felizes sobre o estado de saúde dos homens, Kyara e o senhor Hirengil dedicaram-se a tratar dos sobreviventes da melhor forma possível e a magia dela foi o que bastou para se recuperarem bem. A dificuldade maior foi manter vivo o homem mutilado. Cada dia que resistia era um milagre e ela empenhou-se ao máximo e usou o que pôde dos seus conhecimentos e do seu poder para salvá-lo.

Há quatro dias da chegada de Legolas, finalmente o enfermo começou a reagir ao tratamento. Contudo, tanta dedicação não poderia ter resultado em coisa pior para Kyara, que estava completamente esgotada e doente. Quando soube da notícia de mais um desmaio dela, o rei, pessoalmente a levou da casa de cura e a internou em seu quarto para se recuperar de sua fraqueza.

Legolas era esperado na quinta-feira, mas, por conta do último ataque à Cidade do Lago, a floresta e os povos que a habitavam estavam agonizando. A guerra havia chegado e batia às portas do reino élfico. Fazia-se urgente um ataque em massa contra a horda Orc, o que fez com que ele chegasse à cidade élfica na terça-feira, antecipando dois dias da data prevista.

Kyara dormia quando as tropas adentraram na cidade e, como já era de se esperar, Legolas foi diretamente para o castelo acompanhado de Haldir e mais duas figuras ilustres totalmente inesperadas. Glorfindel e Elrohir visitavam o reino de Celeborn para tratar da partida de mais um navio élfico para as terras imortais e depararam-se com a situação em que a floresta se encontrava. Com a chegada de Legolas ao reino para convocação das tropas os dois guerreiros não poderiam ficar de fora.

Legolas relatou sobre o tempo que passou fora, o contingente que dispunha para a guerra e quais povos estariam envolvidos. Relatou ainda sobre as precárias condições da Cidade do Lago e avisou que, provavelmente, precisarão de nova ajuda dos elfos para se refazerem. Confirmando as conjecturas do rei quanto à participação de Dain II Pé-de-Ferro, o anão que herdou o trono dos anões na montanha solitária após a morte de Thorin e seus sobrinhos, este aguardará a chegada das tropas no vale da montanha para, juntos, divisarem os soldados.

Ele perguntou ao pai sobre a esposa e foi informado de tudo o que havia ocorrido desde sua partida. Legolas se preocupou com a saúde dela e o rei o alertou sobre os poderes da Kyara, que a estavam adoecendo devido ao seu uso excessivo.

Ele deixou os visitantes na companhia do rei e correu para o quarto, encontrando-a num sono profundo. Seu semblante estava muito abatido, e sem coragem de acordá-la ele acariciou seus cabelos e beijou-lhe os lábios. Sentindo seu carinho, ela, ainda dormindo, remexeu-se balbuciando seu nome e ele sorriu. Aproveitou que ela dormia para se banhar e se trocar, e desceu para o gabinete.

Legolas e seu pai se reuniram com o comando do reino, capitão Narthan, que, embora estivesse em recuperação e impedido de seguir para a guerra, sua opinião sobre as estratégias a serem adotadas seriam de suma importância, além de outros três comandantes, Athan, Caladhon e Erudhir. Participavam desta reunião o conselheiro Rumir, Haldir, capitão dos Galadhrim de Lórien Oriental, que ocupavam a antiga Dol Guldur e uma parte da região sul da floresta, Glorfindel e Elrohir. A chegada dos elfos à cidade causou grande alvoroço, principalmente com o humor do capitão Narthan. Ele esperava por tudo, menos a presença de Glorfindel.

Legolas fez uma explanação geral sobre as condições das tropas dos outros povos, e poderiam contar com os homens da floresta da região oeste, da Cidade do Lago e Valle, que haviam sido convocados com a ajuda de Bard e os anões de Dain. Contando com todos os grupos que se formaram chegaram a um contingente de quatro mil e duzentos guerreiros.

Narthan relatou as informações coletadas com as patrulhas que realizaram e, a julgar pelas investigações feitas, eles poderiam esperar por um exército com oito a dez mil Orcs bem armados e Wargs. Discutiram por algum tempo a distribuição das tropas e locais estratégicos para a batalha, e a conclusão que chegaram era que a região erma do vale da Montanha Solitária seria a área mais apropriada para uma emboscada, aproveitando os paredões da muralha da sentinela e os rochedos da montanha do Corvo. Com a autorização de Dain poderiam ocupar todos os postos em torno da montanha.

Nesta hora uma batida na porta soou pelo gabinete e as portas se abriram. Todos se surpreenderam com a presença da Kyara.

— Senhores!... Cumprimentou ela polidamente o que foi retribuído com uma reverência por parte dos presentes... Dirigiu-se a Glorfindel e Elrohir e os abraçou... – Meus queridos amigos. Que bom poder revê-los... Voltando-se para Haldir o cumprimentou com uma reverência, que foi prontamente retribuída.

Legolas caminhou até a esposa e a abraçou beijando-lhe a testa. Ergueu seu rosto e evidenciou sua palidez e as marcas das noites mal dormidas... – Enfrentei muitos perigos na floresta e conto nos dedos às horas que pude dormir, mas, pelo que vejo você teve desafios maiores. Como se sente?

— Agora, feliz. Por que não me acordou?

— Por motivos óbvios. Inclusive peço que retome o seu repouso. Vamos à guerra e nossos capitães estão aqui para traçarmos nossos planos. Não vamos deixá-los esperando, não é mesmo?... Logo estarei com você.

Kyara sorriu e voltou sua atenção aos senhores, que aguardavam pacientemente a retomada da reunião.

— Majestade! Muita falação costuma deixar a garganta seca, posso pedir que providenciem vinho aos cavalheiros?

— Por favor! Faça-nos esta gentileza... Fico feliz em vê-la bem disposta. Temia que seu marido chegasse de viagem e a encontrasse ainda acamada.

— Agora estou certa de que me recuperarei, plenamente... Disse ela sorrindo e pediu licença, retirando-se para providenciar o vinho.

Retomando a reunião constataram que a escolha do lugar para a batalha poderia acarretar em um risco muito grande para a cidade de Valle, que estaria mais próxima do combate. A melhor opção seria evacuar a cidade e levar os moradores para as terras além da montanha. Teriam que criar um bloqueio para impedir os Orcs de atravessarem o estreito da montanha, caso fossem vencidos. Com sorte poderiam ser encurralados entre o rochedo e o paredão. Entretanto, o pouco tempo que dispunham para o confronto final não os favoreciam.

— Eu posso bloquear a passagem impedindo que os Orcs ataquem os moradores de Valle e da Cidade do Lago, sem risco para nossas tropas... Disse Kyara adentrando no gabinete, inesperadamente. Todos voltaram à atenção para ela mais uma vez e Legolas logo se manifestou.

— Lamento informá-la, mas sua intromissão está terminantemente proibida. Você não se sustenta de pé sozinha, como espera conseguir essa proeza? E a propósito, passou a ouvir atrás das portas?... Perguntou Legolas impaciente.

— Estou fraca porque fui impedida de ir para a floresta. Preciso dela para me curar, e você sabe disso. Por que acha que adoeci? No momento que estiver lá fora recuperarei minhas forças e o meu poder... Eu posso bloquear a passagem, e posso ir mais além. Se me permitem uma opinião, todos nós sabemos que os Orcs estão concentrados nas montanhas de Emyn Duir. Por que esperar pelo ataque do inimigo se podemos surpreendê-los no seu covil? Com meus poderes eu bloquearei os acessos e os manterei presos nas montanhas. Isso provocará baixas significativas no seu contingente, talvez até desistam dessa guerra insana.

Eu não acredito no que estou ouvindo... Pensou Legolas exasperado.

Legolas respirou fundo tentando encontrar paciência para a loucura da esposa. Precisava conversar com ela a sós.

— Senhores! Peço a compreensão de todos, mas precisarei me ausentar por um instante. Tenho que resolver uma questão muito importante. Kyara poderia me acompanhar, por favor?

— Pois não... Senhores!

Ela fez nova reverência na sala prevendo a terrível discussão que teriam. Mas, desta vez ela não se dobraria a vontade do seu esposo sabendo que a situação exigia uma medida extrema e definitiva. Ao saírem da sala Kyara se dirigiu as escadas. No entanto, Legolas parou no hall.

— Não há necessidade de irmos a outro lugar. Quero apenas que nos deixe tratar do assunto em paz. Não há necessidade de fazer os outros presenciarem uma discussão nossa. Você já extrapolou os limites com sua intromissão.

— Ah! Então você não pretendia discutir o assunto comigo. Só queria me tirar da sala para que eu não o envergonhasse mais. O que vai fazer agora? Correr para lá e trancar as portas antes que eu entre?

— Kyara, você não conhece a região. Aquele lugar é extremamente perigoso, não só pela horda Orc, mas por todos os outros perigos: áreas pantanosas, aranhas gigantes, alcateias de lobos. Se tentarmos nos aproximar seremos dizimados porque eles estarão protegidos pelas montanhas.

— Não estou dizendo para o exército ir até lá. Uma pessoa sozinha poderá passar despercebida, ou um pequeno grupo.

— Nunca permitiria que você fosse até lá sozinha ou com quem quer que seja. Desta vez não vou permitir que se arrisque. Eu vou fazer o impossível para mantê-la segura... E, por favor, chega de escândalos. Apesar da sua teimosia estou contando com o seu bom senso. Não esqueça minha posição perante os soldados.

Kyara não respondeu. Por um instante analisou a situação e decidiu que desta vez lutaria para que fosse ouvida. Sem pensar duas vezes deu as costas a Legolas e retornou a sala de reunião.

— Cavalheiros, eu sinto muito pela minha intromissão, mas insisto para ser ouvida. Meu marido não quer autorizar minha participação. Está envergonhado em demasia por conta do vexame que estou causando me intrometendo num assunto que não me diz respeito. Afinal, sou apenas uma mulher e o que uma mulher poderia entender de guerras, não é mesmo?... Kyara já não fazia questão de tratar a situação com diplomacia, deixando evidente a ironia nas suas palavras... – Diante da importância do problema e a emergência que se apresenta sou obrigada a tal atitude.

— Cavalheiros, peço perdão pela intromissão da minha esposa, mas ela não tem passado muito bem de saúde nos últimos dias e provavelmente tem tido delírios.

Todos se mantiveram em silêncio assistindo a discórdia entre o casal. Legolas segurou delicadamente o braço dela para conduzi-la até a porta. Essa foi a gota d’água para Kyara se rebelar.

— O que está dizendo? Que estou louca? Estou muito certa do que falo. Eu posso ajudar. Para quem controla as forças da natureza e se comunica com os animais, isso não seria tarefa difícil, não acha?

Ela dizia virando-se para Legolas. Logo se desvencilhou dele e se dirigiu ao rei e seus comandantes.

— Majestade! Cavalheiros! Os senhores me conhecem e já presenciaram a manifestação da minha magia. Já me viram lutar e não é segredo para ninguém minha história. Sei que estou muito fraca por usar meus poderes excessivamente para curar os soldados do nosso reino. O que precisam entender é que a fonte da minha energia está na floresta. É lá que poderei me curar desta fraqueza. No momento que sair daqui de dentro do reino recuperarei meus poderes e poderei ser de grande ajuda.

— Kyara!... Intrometeu-se o rei demonstrando impaciência... – Seu marido já se manifestou contrário a sua participação. Quanto a isso não poderemos fazer nada. Minha posição é que ele está muito certo em impedi-la de vir conosco. Jamais permitiria que nenhuma de nossas mulheres nos acompanhasse. É uma dama casada com o herdeiro do reino e suas responsabilidades estão aqui dentro e não lá fora no meio da guerra... Pensa que esqueci sua imagem ferida?... O rei suspirou buscando controle... – Então, por gentileza, gostaria de tratar do assunto em questão com os cavalheiros aqui presente sem mais interrupções... Disse o rei dando ênfase ao seu pedido.

Kyara olhou furiosa para seus opositores... – Vocês dois se esquecem de quem eu sou? Você, principalmente, Legolas, conheceu e se apaixonou pela guerreira e feiticeira de Tanusia, guardiã e sacerdotisa da magia de Tiria. Como pode ignorar isso? Como pode me reduzir a uma fraca e insana. Nunca poderia esperar que meu próprio marido me anulasse desta forma.

— Não me esqueci de nada. Você é quem se esqueceu de quem é. Agora é minha esposa e não permitirei que se mate. É apenas isso que estou tentando impedir... Falou Legolas com o pouco de paciência que lhe restava.

Ela caminhou até ele encarando-o nos olhos não conseguindo dominar a ira... – Como poderia esquecer que é meu marido? Você me faz sua mulher quase todas as noites que dormimos juntos. E sou imensamente feliz... Legolas a interrompeu lívido de vergonha pela falta de decoro da esposa.

— Se é feliz por ser minha mulher, então deveria... Desta vez ela o interrompeu.

— O quê? Diga, Legolas. Eu deveria o quê? Obedecer?... Um dia me disse que não importariam as circunstâncias e nem a opinião de quem quer que fosse você sempre me respeitaria. Agora vejo o quanto me respeita e me considera.

— Disse também que a protegeria a todo custo, mesmo que isso não a agradasse. Agora estou tentando protegê-la de si mesma. Sua impetuosidade a levará a morte, e prefiro enfrentar sua ira a vê-la morta... Kyara, na batalha contra o bruxo me vi impedido de detê-la. A consequência disso foi à tortura que sofreu que, por pouco, não a matou... Nessa guerra você não vai se envolver, nem que eu tenha que amarrá-la... Falou Legolas entre dentes.

Ela lhe deu às costas ignorando as ameaças que ouvira e dirigiu-se a todos na sala.

— Vocês marcharão para a guerra, mas não para a vitória. Perecerão e levarão o reino e a floresta a ruína. E tudo por causa do ego machista de vocês.

Ela foi para a mesa do rei e apanhou um grande mapa estendo-o na mesa da lareira.

— Não percebem que atraí-los para o vale da Montanha Sombria não funcionará? Qualquer soldado enxergaria o cerco de pedra. Os Uruks, na gana de sangue e morte, cairiam na armadilha, mas os Meio-Orcs perceberão que estão sendo atraídos e recuarão para a floresta. Se isso acontecer o que farão? Irão atrás deles? Se fizerem isso perderão a surpresa e a vantagem sem a proteção das muralhas. Na floresta serão varridos pelo inimigo em um número três vezes maior, sem contar às trilhas que levam a muralha. E se estiverem arquitetando um ataque pelo Morro do Corvo? Os Orcs poderão se dividir e atacá-los pelos flancos... Eu sei que isso vai acontecer.

— Está se deixando levar pelos seus pesadelos, Kyara... Além do mais, o que você sabe sobre a geografia da região?

Perguntou o rei tentando desacreditá-la em seu argumento, que, no entanto, não tinha nada de absurdo. Pelo contrário, os capitães reconheceram a possibilidade. E, apesar de reconhecerem a razão nas palavras da Kyara, não faria o rei e principalmente Legolas concordarem com os planos dela.

— O que eu sei sobre a região? Muita coisa, majestade. Sempre me permitiu estudar seus mapas. Quantas tardes fiquei aqui em seu gabinete com Idrial estudando-os? Ela mesma tem profundo conhecimento do lugar onde vive. Foi ela que me mostrou as trilhas ao qual me refiro.

— Isso não a põe em condições de saber mais do que qualquer um de nós que patrulhamos essas matas há séculos... Retrucou Legolas perdendo a paciência.

— Não se trata de somente conhecer a região Legolas, e sim estratégia. Também concordo que o vale de Erebor seja o único lugar possível para esse confronto. O que questiono é a estratégia adotada e não terem um plano alternativo. Com meus poderes teremos uma arma a mais para combatê-los. Reduzo seu contingente nas montanhas centrais e vocês poderão dividir o nosso atacando-os, também, pela retaguarda. Deste modo serão empurrados para dentro do vale.

— Você está ouvindo o que diz? Já que conhece tanto a floresta sabe o risco que isso representará. Como espera que permita uma loucura dessas doente como está? Mesmo estando em contato com a natureza como pode garantir que terá poder suficiente para tal feito, Kyara?... Falou Legolas exasperado... – Esqueceu o que sua mãe disse? Ela deixou bem claro que aqui na Terra Média seus poderes são limitados. Não percebe que colocará sua vida em risco para que tenha êxito? Isso não é solução. Ninguém em sã consciência aceitaria um risco desses... Eu a quero longe disso tudo. Você não vai sair desse castelo, entendeu? Não vai sair daqui, Kyara... Gritou ele inflamado com a teimosia da esposa.

— Legolas!... Respondeu ela, impaciente... – Como pode dizer que não conseguirei? As coisas que fiz nos Campos de Lis não são suficientes para você?... Sempre fui capaz de erguer minha espada para defender meu povo, e desta vez não será diferente. Agora, vocês são o meu povo, minha família. Não temo somente por perder você, Legolas, seu pai ou algum dos nossos amigos, mas todos os homens que estarão lá e que não voltarão mais. Não vou me poupar me esconder e muito menos fugir se posso ajudar. Eu posso lutar!... Não negarei minhas raízes e o sangue que corre nas minhas veias gostem vocês disso ou não... E calou-se ofegante tentando se controlar. Tentava a todo custo fazê-los entender que se matariam sem condições para enfrentarem sozinhos tantos inimigos.

Sua ira era tamanha que sem perceber sua magia irradiava uma luz azul por todo o seu corpo com seus olhos acesos, como brilhante, transformando-a numa imagem chocante. Percebendo seu total descontrole respirou fundo recuperando aos poucos a coloração natural da sua pele. Evidente que tal esforço a deixou ainda mais debilitada e ela cambaleou para o lado sendo amparada por um dos capitães élficos. Legolas não percebeu. Na sua cegueira não conseguia atinar para mais nada e muito menos manter sua postura controlada. Contudo, todos os demais estavam impressionados com a discussão e assustados com a visão daquela mulher manifestando sua magia tão inesperadamente.

— Você me pediu para não impedi-lo de ser um elfo. Agora sou eu que lhe peço para não me impedir de ser uma guerreira. Sei o que estou dizendo e o quanto precisarei dispor das minhas forças.

E deu-lhe às costas dirigindo-se para a porta.

— Se não é capaz de atender ao pedido do seu marido, então terá que acatar as ordens do seu governante. Você está proibida de sair do castelo até que eu retorne... Capitão! Reforce a guarda do castelo. Será sua responsabilidade fazê-la cumprir minhas ordens. Se for preciso, tem autorização para trancá-la nos seus aposentos ou numa cela se achar mais seguro.

Ela se virou para encará-lo incrédula e falou com zombaria... – Sem ofensas, capitão, mas acha mesmo, Legolas que me trancar a ferro irá me deter?

Desta vez foi o rei quem se pronunciou... – Uma ordem dada deve ser obedecida. Aquele que não acatá-la poderá ser punido com o exílio... Você mesma disse que seguiria os preceitos do nosso povo. Pois bem, esta é a nossa lei, Kyara... Veja a que ponto está levando esta discussão tola e totalmente desrespeitosa. Veja em que situação está colocando seu marido.

Ela voltou os olhos para o rei e silenciou-se por um instante. Inevitavelmente relembrou o dia do seu casamento e a conversa que havia tido com o sogro. Kyara abaixou os olhos sentindo-se culpada por suas atitudes e o quanto estava se arriscando com sua afronta, não somente para com o marido, mas para o rei e todo o seu reino. Justamente o que ela havia dito que jamais faria. Ela abriu a boca para se desculpar se obrigando a aceitar as condições que lhe foram impostas, mas não o fez, encarando tanto pai quanto filho. Olhou ao redor sentindo-se uma estranha diante de pessoas estranhas. Logo pensou que tudo esteve bem enquanto se portou adequadamente aos olhos daquela gente, entretanto, não poderia ser ela mesma nunca mais.

Por um momento tudo no gabinete ficou em suspenso aguardando que ela se manifestasse. Legolas deu as costas a Kyara e se dirigiu a mesa do pai. Fazendo uma reverência para os cavalheiros que se mantiveram calados surpreendidos pela discussão que se sucedeu, ela se manifestou em tom solene.

— Minhas sinceras desculpas por minha interrupção e por toda a discussão que foram obrigados a presenciar, cavalheiros. Peço, encarecidamente, que esqueçam o que se passou nesta sala. O príncipe Legolas não pode ser condenado por ter se apaixonado por uma mulher tão teimosa e insolente, que não sabe o seu lugar... Suspirou profundamente sustentando a postura firme... – Sinto-me envergonhada por tudo e penso que não posso mais ser motivo de desonra e escândalo para este reino e mais ainda para o nosso rei.

Legolas a encarou não acreditando que tinha voltado atrás na sua decisão. Dirigindo-se ao sogro, Kyara ergueu a face para ele e não conseguiu manter-se firme deixando os olhos marejarem com a mágoa.

— Majestade! Preocupou-se em me alertar dos costumes do seu povo e realmente dediquei-me de corpo e alma para me tornar uma igual. Mas não pude ignorar minhas raízes, o meu sangue e nem a minha história de vida... Kyara piscava tentando evitar as lágrimas... – Disse-me que cuidava de mim por se ver na condição de meu pai. Muito me alegrei com tal revelação, porque o tenho como meu pai e lhe dediquei meu amor de filha. De todos nesta sala é o único que me dói o coração por vê-lo decepcionado comigo.

Dirigiu-se para a porta, deparando-se com Idrial assustada, sustentando uma grande bandeja com taças e vinho para servir aos comandantes. Antes de sair virou-se para Legolas.

— Podem considerar uma loucura o que me proponho a faze, mas loucura maior para mim seria deixa-los seguir adiante sem fazer nada sabendo que perecerão... Vou poupá-lo de mais uma vergonha e partir antes que retorne meu príncipe. Assim não terá que passar por mais uma humilhação ao ter que expulsar sua própria esposa do reino... E se retirou.

Legolas completamente transtornado e socou a mesa, expressando toda a sua raiva.

— Ela acabará se matando... Essa mulher teimosa, insolente, insana.

O rei se aproximou e colocou a mão em seu ombro em sinal de apoio, e completou.

— Corajosa, inteligente, leal e apaixonada, não é meu filho? Se tivesse a natureza frágil e submissa de nossas donzelas você não teria se encantado e se apaixonado por ela.

— Viu o que me fez passar diante de todos aqui nesta sala. Isso é imperdoável. Merecia uma surra para aprender o que é respeito... O pior de tudo é que ela irá embora e acabará se matando. Narthan! Não a deixe sair daqui. Não poupe esforços nem que a tranque a ferro... Disse Legolas transformado... – Ponha grilhões nos seus pés se achar necessário. Ela é astuta e poderosa, mesmo fraca. Vai encontrar uma maneira de fugir.

O Capitão acenou com a cabeça entendendo às ordens dadas, mas seu semblante demonstrava não acreditar no que presenciara e muito menos a tarefa dada. Numa rápida troca de olhares com sua irmã, que entrou no gabinete em silêncio torcendo para não chamar a atenção de ninguém, ficou claro que tinha nas mãos uma ordem impossível de ser cumprida.

— Ela não fará isso, Legolas... Disse o rei.

— Sim, fará Ada¹. Ela é a pessoa mais determinada que já conheci, e saiu daqui profundamente magoada... Senhores! Nem sei como me desculpar depois do que assistiram. Que confiança poderiam ter em um comandante que não consegue controlar a própria esposa?... Legolas suspirou retomando a ira ao recordar as palavras da Kyara... — Que se sujeita a um escândalo desses com a própria mulher, que não mede suas palavras e expõe nossa intimidade sem o menor decoro?

Enquanto Legolas se desculpava, Idrial atravessou o salão indo depositar a bandeja em uma cômoda junto à janela, que dava vista para o jardim, quando se deparou com Elrohir de pé ao lado do móvel encarando-a.

Sua surpresa foi tamanha que deixou cair uma das taças chamando a atenção de todos. Imediatamente os dois abaixaram-se para recolher os cacos e trocaram olhares rapidamente.

Um não saberia do outro, mas seus pensamentos neste momento foram calados pelo som descompassado dos seus corações.

— Chegou em boa hora, minha querida. Deixe tudo sobre o móvel e nós mesmos nos serviremos. Mais tarde peça para alguém vir recolher os copos.

Disse o rei num pedido implícito para que se retirasse e ela assim o fez, não sem antes lançar um olhar furtivo para o guerreiro de Valfenda, que prontamente o retribuiu.

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Kyara subiu possessa para o quarto. Entrou e fechou a porta encostando-se a ela.

Sentia tanta raiva que pensava em fugir daquele lugar imediatamente.

— Nunca poderia imaginar que chegariam a esse ponto. Legolas nunca me aceitou como realmente sou. Fiz tudo o que pude para fazer parte desse lugar, dessa gente. Agora estão exigindo de mim que anule tudo o que sempre fui... Ter esses pensamentos aumentava ainda mais a mágoa que Kyara trazia no coração.

Ela caminhou até a varanda e olhou o jardim, a queda d’água e o riacho. Sentia-se solitária, isolada do mundo. Da varanda fitou a cama e relembrou as tantas vezes que se amaram.

Como poderia continuar casada com alguém que não me respeita, que não confia em mim? Agem como se eu não tivesse capacidade de decidir sobre minhas próprias ações. Como se eu fosse uma coisa que colocam onde querem e como querem.

Seus pensamentos a revoltavam ainda mais. Uma batida na porta a despertou.

— Quem é?

— Sou eu, Kyara.

— Deixe-me Idrial. Quero ficar sozinha... Ela suspirou e disse para si mesma... – Quero morrer sozinha.

— Não vou parar de bater até que atenda.

Kyara abriu a porta e deu às costas para a amiga. Naquele momento odiava todos os elfos da face da terra, mas Idrial, gentil e amorosa como sempre, entrou preocupada com a amiga não se importando com sua raiva.

— Achei que um chá nos faria bem.

— Agradeço a gentileza, mas não quero nada a não ser ficar sozinha.

— Para quê? Para alimentar ideias absurdas?... Não senhora. Não a deixarei só.

Kyara a olhou externando sua raiva, mas como poderia sustentar seus sentimentos diante da imagem de uma moça tão bela, com um sorriso tão inocente nos lábios e, não suportando mais, chorou.

Idrial depositou a bandeja com chá e biscoitos sobre a mesa da lareira e abraçou a amiga. Recebendo os carinhos da elfa externou toda a sua angustia e frustração.

— Fiz o que pude para fazer parte desse reino, e agora vejo claro como água, que não me respeitam, Idrial. Meu marido não me respeita... Ela suspirou angustiada... – Diga-me: como poderei viver ao lado de uma pessoa que acha que pode conduzir a minha vida a sua inteira vontade? Como poderei viver com alguém que me vê incapaz de pensar e agir sozinha?

— Não se trata disso. Ele apenas teme por você.

Kyara permaneceu em silêncio abraçada a elfa por um instante e se afastou caminhando até a cama. Ao sentar-se deslizou a mão sobre a colcha.

— Legolas quer mandar em mim... E se eu permitir que continue agindo assim chegará o momento que o odiarei... Ele é incapaz de entender isso. Nesse caso, não me resta outra coisa a fazer se não partir. Vou levar meu plano adiante e antes que tenha que passar por outra humilhação como a pouco irei embora... Se ele pensa que me deixarei aprisionar, então significa que não me conhece, mesmo. Idrial, ele deu ordens ao seu irmão para me prender numa cela, numa cela. Como... Como poderia dar tal ordem?

— Já pensou na possibilidade dele estar certo? Se você for para a floresta debilitada como tem andado acabará se matando... Você está magoada e não está pensando direito. Justamente porque ele a conhece muito bem é que deu essa ordem absurda ao Narthan. Ele sabe que você não acatará ao seu pedido, ou a sua ordem. No auge do seu desespero essa foi à única coisa que lhe ocorreu na hora.

— A floresta restaurará minhas forças, Idrial, e Legolas sabe disso. O problema é que ele não pode permitir que sua esposa se envolva em batalhas. Imagina o que pensariam dele? Que tipo de comandante seria se não consegue mandar na própria esposa? Esse é o problema. Mas eu vou mostrar para eles quem sou e o que posso fazer. Não vou permitir que me tranquem a ferro. Se for assim que me consideram, então não resta outra coisa a fazer a não ser ir embora.

Kyara ficou no quarto amuada sentindo-se infeliz, e chorou copiosamente. Chegou à noite e ela não desceu para o jantar.

Legolas por sua vez também não a procurou.

Notas finais
Tradução da palavra élfica: 1 - Ada - Pai. É, pessoal! A coisa ficou feia agora. Esses dois teimosos de sangue quente tem mesmo que transformar uma simples discussão em uma batalha. Titã contra Titã, ou alguma coisa que o valha... rsrsrs... O tempo fechou, os dois estão brigados e não foi pouca coisa. Será que a Kyara cumprirá a sua palavra? Fugirá para a floresta e tentará recuperar sua energia vital e colocará seus planos em prática? Se isso acontecer, que ver como? E o Legolas? Trancará a ferro a própria esposa para impedi-la de fugir? Fraca como ela está, se a trancarem, ela não terá poderes para tanto, não acham? rsrsrsrsrs... Que dilema! Comentem! Comente! Nossa história está caminhando para seu fim derradeiro. Mais alguns capítulos e... =( A quem interessar possa, estou escrevendo a continuação dessa FIC tendo como personagem principal Glorfindel, meu amor secretíssimo na Terra Média... A segunda história será mais hot, mais dramática e não sei se terá um final feliz. Vocês terão que votar. Uma beijoca em cada um!