A Força do Amor
32 O Povo Élfico
Notas iniciais
A vida em Gondor voltava ao normal, e grande foi à amizade que ficou naquele reino. Tanto Legolas quanto Kyara ficaram tristes com a partida sete dias após a cerimônia de casamento, com a promessa de não tardarem em retornar. Aragorn retomou suas responsabilidades para com o reino e até mesmo Gimli tinha seu povo aguardando nas Cavernas Cintilantes, onde também era o governante.
Legolas e Kyara foram para Valfenda na companhia da rainha e seus irmãos com toda a comitiva e ela se encantou com a beleza da última casa amiga dos eldar. Um mundo encantado e sereno, cheio de paz, beleza e magia. Construída em um desfiladeiro num vau margeado pelo rio Bruinen, a casa principal contava com um grande salão onde se realizavam festas e reuniões, que era cercada por construções menores com alpendres, pilares e esculturas. Uma arquitetura digna dos antigos povos élficos.
O primeiro impacto com a visão de pessoas com ares superiores logo foi substituído pelo sentimento de admiração e proximidade com aquela gente de modos contidos e sem pressa para nada. Sentiam-se realmente felizes e para os dois enamorados foram momentos inesquecíveis, onde o amor terno e a paixão inflamada reinavam entre homem e mulher.
Em Lothlórien, apesar da floresta já estar desabitada pelos Galadhrim, Legolas levou Kyara para conhecer Caras Galadhon, a cidade abandonada de Lothlórien. Contemplou extasiada a beleza das gigantescas árvores de Mallorn e as colinas de Cerin Amroth, com seus jardins das flores douradas de Elanor e das pequenas flores brancas de Nipheredil, que Arwen usou para enfeitar seus cabelos no dia do casamento.
Ela conheceu, ainda, o rio Nimrodel cantado em versos pelos eldar revelando um pouco da história da dama élfica perdida de Lothlórien, que havia se tornado amante do senhor élfico daquela floresta há muito tempo atrás.
Legolas cantou algumas das canções dos eldar que contava esse romance, bem como outros tantos que ajudava a ilustrar um pouco da sofrida história dos elfos na Terra Média, do constante mal que quase os dizimou e das alianças entre os povos.
Ali se banharam e Kyara sentiu a magia contida naquele lugar. Legolas viu uma áurea de luz cobrir sua amada naquelas águas, tornando-a ainda mais jovem. Fato esse surpreendente.
No tempo que estiveram viajando não tocaram mais no assunto sobre viverem em Ithílien, mas esse desejo foi crescendo em seus corações pouco a pouco.
Atravessaram quase toda a Terra Média, e ainda acamparam na caverna que se conheceram. Desta vez as tochas acesas revelavam a silhueta de dois corpos perfeitamente moldados se amando. Foi uma noite intensa de muita sensualidade e prazer, num cenário que alimentava suas fantasias e lhes trazia doces lembranças. Algumas revelações foram feitas sobre os dias que ainda não haviam se descoberto apaixonados, e pela manhã partiram para Eryn Lasgalen.
Passaram pelas terras de Dol Guldur, agora batizadas de Lórien Oriental, localizada no extremo sul da floresta. Seguindo rumo norte e depois pela entrada da velha estrada, Kyara se deparou com a maior floresta da Terra Média. Para muitos que viviam próximo aos seus confins, ela representava o próprio espírito das terras ermas.
A floresta encerrava muitos riachos, trilhas incertas e sinuosas, grutas e ravinas estranhas, clareiras insólitas, e as sombrias montanhas de Amyn Duir, que se localizavam no centro da floresta. À medida que avançavam, Legolas pressentia uma força estranha e seu senso de perigo o deixou em alerta.
Há quem achasse a aparência das gigantescas árvores cobertas de limo um tanto sombrias e obscuras, mas para Kyara eram encantadoras. Com a proximidade do outono a umidade deixava o ambiente frio e um pouco mais escuro, mas o som dos riachos e a cantoria dos pássaros enchiam o coração dela de felicidade, ainda que não tivesse as flores silvestres e os raios do sol pouco penetrasse entre as árvores. No seu íntimo, a energia daquela floresta, tão cheia de histórias e acontecimentos a dominava por completo e a fazia se sentir viva.
Nesse dia percorreram boa parte do caminho até a trilha dos elfos. Uma estrada encantada marcada por pedras, que somente poderia passar aquele que trouxesse consigo o poder dos Eldar e durante o percurso atravessaram o Rio Encantado. Quem caísse nas suas águas escuras adormeceria imediatamente e seria levado.
O reino de Tanusia também era repleto de lugares inusitados, muitos feitos de puro encantamento, mas ela não conseguia e nem pretendia disfarçar seu entusiasmo com a floresta. Chegando a uma clareira ela desmontou e caminhou ao redor descalça, tocando e abraçando as árvores. Deitou por um momento no chão de terra vermelha e úmida de barriga para cima com os braços abertos vendo o bailar das nuvens que apareciam pelas brechas das árvores.
Legolas, que a observava todo o tempo sorrindo sem dizer palavra, também deitou ao seu lado. Repentinamente, ele sentiu a aproximação de uma patrulha e se preocupou. Algo havia mudado naquele lugar e a paz esperada não reinava ali.
— Kyara! Levante-se. Aproxima-se um grupo com dez ou mais pessoas. Deve ser uma patrulha do reino.
Ela se surpreendeu com o tom de preocupação na sua voz.
— E se não for?
Ele a olhou sem responder. Sem perder mais tempo, Kyara retirou sua espada da sela e a prendeu em sua cintura.
— Deixe vir. Estamos preparados.
Em pouco tempo o grupo se revelou uma escolta enviada pelo rei. Estavam acampados na floresta há dois dias aguardando a chegada do príncipe e sua esposa. Narthan, capitão das tropas do reino estava no comando e Legolas o saldou entusiasmadamente.
Elfo da floresta de cabelos negros, olhos azuis e como todo elfo, taciturno. Ele imediatamente fez uma reverência para Kyara, que dispensou o gesto com um sorriso simpático. Ao se levantar notou a espada na cintura dela e embora não fizesse nenhum comentário, Kyara já tinha aprendido sobre as reações dos elfos. Ele olhou para a espada e em seguida para ela, e seu olhar deixou transparecer de forma quase imperceptível certa estranheza.
Seguiram floresta adentro e num determinado ponto saíram da estrada, embrenhando-se por uma trilha sinuosa e mesmo que fosse de vegetação fechada, estranhamente, o ambiente escureceu e não ficou claro para Kyara por onde passavam, afinal.
Inesperadamente, abriu-se um bosque de faias cortado por um rio. As árvores deixavam suas folhas cair, formando uma chuva constante, fina e vermelha sobre suas cabeças. Seguiram por esse caminho de relva baixa, atravessando uma ponte de madeira clara, atravessando um poderoso rio, até a encosta de uma montanha. Árvores de um lado e de outro formavam um corredor natural e ao fundo surgiu um gigantesco portal dourado cravado na montanha.
— Adiante a entrada do reino. Você não pode vê-los, mas estamos cercados de sentinelas. Nesta floresta não existe lugar mais seguro, que, além da guarda é protegido pela magia do meu povo. Ninguém consegue chegar aqui se não estiver acompanhado de um elfo.
— Percebi algo diferente enquanto passávamos pela trilha. Foi como se o caminho desaparecesse, não sei.
— A magia confunde os viajantes e quem tenta passar se perde. Somente os elfos conseguem atravessar.
— Se eu passasse sozinha conseguiria?
— Não sei. O caminho se revela aos elfos, mas como você tem magia própria e absorve muito do poder que a cerca é bem possível que ele se abra para você, também.
— Incrível! E esse caminho segue obrigatoriamente para cá? Ou pode levar a outro lugar do reino?
— O caminho pode levá-la a estrada para Cidade do Lago, ou para as montanhas de Emyn Duir no centro da floresta. É um lugar muito perigoso, infestado de aranhas gigantes e outras feras. Somente vamos aquela região se for extremamente necessário... Os orcs, por exemplo, já fizeram morada lá nos tempos escuros.
— Das coisas que me contou tenho curiosidade de conhecer a Cidade do Lago e Valle. Ficam longe daqui?
— Umas duas horas a galope até a Cidade do Lago. Valle fica mais à frente no mesmo tempo de percurso, se formos a cavalo pela trilha. Levarei você para conhecer.
Atravessaram o corredor feito pelas árvores, chegando às portas do reino élfico. Quando se abriram, Kyara tomou um susto. Nunca havia visto nada parecido com aquilo. Era o mesmo que olhar para o reino encantado das fadas do seu mundo.
Toda a montanha foi utilizada para abrigar o povo élfico, que a transformaram numa cidade subterrânea. As moradias eram suspensas por flats, que em élfico significavam talans, feitos de madeira de carvalho entalhados com volutas rematando os ângulos de capitéis que retratavam o próprio povo élfico. Os flats tinham alpendres e seus telhados arqueados também eram feitos de madeira montados em níveis diferentes indicando diversos cômodos das casas. As portas e janelas também eram arqueadas e todas brancas.
A cidade e os flats eram iluminados com lamparinas espalhadas por todos os lados se embrenhando pela montanha não permitindo a Kyara calcular sua extensão. A todo instante viam-se fontes e jardins floridos com uma variedade de tipos e cores e pequenas pontes interligava-os. Cada jardim tinha sua fonte de luz e calor natural, fornecidos por aberturas no teto da caverna sustentadas por longas colunas. O ar era fresco e agradável, quase frio devido à época do ano e os raios do sol, que escapavam entre as nuvens, invadiam o interior da montanha iluminando os jardins, formando um baile de cores misturado às luzes dos postes e dos talans.
Logo que o povo se fixou naquela floresta quando o rei Oropher decidiu deixar o reino de Doriath, muitas famílias residiam fora da montanha. Porém, seu filho e sucessor do trono adaptou o reino para que todos fixassem moradia dentro das infindáveis cavernas temendo os tempos de trevas provocados por Sauron.
Kyara transitava pelas ruas de pedra hipnotizada com a beleza da cidade, e as pessoas paravam seus afazeres para observá-la passar.
— Legolas, estou pasma! Como vocês conseguiram transformar a montanha numa cidade? Olhando em volta até esqueço que estou em seu interior.
Legolas sorriu. Atravessaram uma praça com uma gigantesca fonte cheia de peixes e flores aquáticas, alimentada por uma queda d’água vinda do teto. Mais adiante entraram em outra área com portões de ferro e seguiram por um pátio.
— Este lugar é o alojamento das tropas e a cocheira. Athos ficará aqui. Vamos seguir a pé. Assim você verá de perto como as coisas são. Imagino que todos estejam muito curiosos com você. Ela se despediu do seu cavalo e foram caminhar pela cidade de mãos dadas.
Kyara cumprimentou todos com quem cruzou e parou diversas vezes para conversar e perguntar coisas. Alguns a cumprimentaram com certa intimidade porque já a conheciam de Gondor e ela também não fez cerimônia. Os elfos não eram muito dados ao toque, como o aperto de mão ou abraços, mas Kyara era pura simpatia, alegria e beleza, e logo tratou a todos sem formalidades ou recatos tolos.
Admirou-se por ver que todo o povo demonstrava conhecer a sua história e mesmo sendo uma estrangeira tão incomum a receberam de braços abertos. Ela parou um instante para olhar ao redor encantada com tudo: a beleza daquela gente, as construções, a iluminação, as fontes e seus jardins floridos. Tudo era paz e encantamento. Um perfume suave pairava no ar e, inesperadamente, uma canção ecoou. Vozes femininas os saldavam com uma melodia doce e envolvente que fez Kyara se arrepiar.
— Que música é essa?
— Nosso povo nos saúda e canta uma canção de boas vindas. Esqueceu-se de que meu povo tem uma canção para tudo?
Ela ficou em silêncio ouvindo a canção... – Simplesmente encantadora. Será que um dia poderei me juntar a elas e cantar uma canção também?
— Certamente que sim.
— Seria uma honra para mim... Legolas, eu não vejo crianças em lugar nenhum.
— No momento acho que poderemos contar nos dedos o número de crianças do reino.
— Como assim? Quantos elfos vivem aqui?
— Duas mil seiscentas e doze famílias. Somente o contingente de guerreiros é de dois mil elfos, sem considerar as perdas com a nossa última batalha.
— E com tanta gente você conta nos dedos a quantidade de crianças?
— Poucos se casaram nos últimos anos, e você sabe que por conta da imortalidade eles não têm pressa para aumentar o número de integrantes das suas famílias.
— Eu diria que pressa é uma palavra pouco usada no vocabulário de vocês... Bem, e as poucas crianças, onde estão? Tenho muita curiosidade em relação a elas. Se os adultos são belos imagina uma criança élfica?
— São belas como qualquer outra criança. No momento devem estar nas salas de estudo. São bibliotecas que concentram todo o nosso conhecimento. Elas aprendem a ler e escrever, como qualquer um. E seus ensinamentos vão muito além. Aprendem sobre história, línguas, geografia, matemática, entre outras coisas. Os elfos, a partir de uma determinada idade, escolhem suas atribuições e são treinados para a finalidade a que estão destinados, como artesão, marceneiro, ferreiro, artífice, minerador, construtor, até mesmo guerreiro e tudo o que necessitamos para vivermos em comunidade. Tem os que são hábeis com a agricultura, porque parte do que consumimos cultivamos aqui mesmo. As elfas contribuem na fabricação de roupas e artesanato, como as outras comunidades élficas. E também cuidam dos seus lares como em qualquer outro lugar.
— E qual será minha contribuição já que não poderei fazer parte da guarda real?
— Por hora seja minha esposa. Com o tempo você mesma encontrará uma forma de se encaixar. Administre as coisas do castelo para começar. Meu pai nunca teve paciência mesmo para resolver nada referente a questões domésticas.
— Por falar nisso, ele deve estar nos esperando.
— De fato. Vamos ao encontro dele.
Legolas a conduziu a uma passagem que os levaram para o outro lado do reino que ficava afastado da moradia do povo. Ali as sentinelas eram vistas com mais frequência e o percurso foi todo feito por passarelas e palanques arqueados que se embrenhavam entre colunas trabalhadas com mais volutas e capitéis. O terreno naquele lado do reino era acidentado e grandes fossos eram vistos de cima com infindáveis escadarias que levavam a guarda para as profundezas da montanha. Em determinados trechos um rio bravio se fazia presente quando não desaparecia entre as pedras. Grandes salões podiam ser visto de cima e a distância, mas o que deixou Kyara boquiaberta foi à vista de um tronco de árvore retorcido que descia do teto e se enraizava por uma elevação de pedra que ficava no centro daquele salão. Talhado entre as raízes estava o trono do rei e o próprio sentado de pernas cruzadas deixando a mostra suas botas lustrosas. Ele trajava ricas vestes prateada com uma túnica escarlate. Portava em uma das mãos um cetro com uma gema branca na ponta e na cabeça uma coroa de bagas e folhas vermelhas. Legolas havia comentado que o rei usava uma coroa diferente para cada época do ano.
Kyara reduziu o passo admirada com aquela imagem. Majestosamente, estava Thranduil reluzente naquela profusão de cores provocadas pelas lamparinas e ela não se lembrou de ter visto outro ser mais deslumbrante que aquele homem, com sua coroa de folhas vermelhas. Ao se aproximarem o rei foi ao encontro deles.
— Mae govannen, ionath-nin! Estou muito feliz que tenham chegado. Está atrasado dois dias, Legolas.
— Matho foech, ada... Fizemos duas paradas que não estavam nos planos.
— Fizeram boa viagem?... Kyara! Você está com a aparência mais jovem. Eu ousaria dizer uma menina ainda mais bela. O casamento lhe fez muito bem.
— Estivemos em Lothlórien e a levei para conhecer o rio Nimrodel e uma coisa estranha lhe aconteceu naquelas águas que a fez rejuvenescer um pouco mais.
— Aquelas águas concentram grande poder dos eldar, mesmo depois da partida de lady Galadriel. Isso demonstra o quanto você absorve nossa magia, minha querida. Estou impressionado.
— Majestade! Estou encantada com seu reino. Pergunto-me a todo instante como conseguiram construir essa maravilha de cidade dentro da montanha com a qualidade de vida que tem aqui? É inacreditável!
— Gostou do nosso reino? De agora em diante é o seu lar. Há muito para você ver e saber, mas terá tempo suficiente para isso. Imagino que esteja cansada da viagem. Legolas leve-a aos seus aposentos e descansem até a hora do jantar. Mais tarde conversaremos. Temos assuntos a tratar.
Sem perda de tempo o casal partiu para a moradia do rei. Retornando pela passarela que levava ao salão do trono, Legolas a fez descer algumas escadas e as sentinelas abriram um portal de madeira abrindo para um caminho de pedra com altas colunas dos dois lados e quedas d’água dos lados. Alguns minutos caminhando por aquela passagem e logo chegaram a uma construção de pedra de altos e baixos. À frente as sentinelas do reino faziam sua guarda e logo os cumprimentaram com uma reverência. Subiram uma escadaria chegando a um varandão, que levavam a duas portas de madeira arqueada, abrindo para um grande rol redondo e uma enorme escadaria dos dois lados. Uma mesa de carvalho redonda acolhia um gracioso jarro com tulipas vermelha. Algumas estátuas brancas completavam a decoração.
Do lado direito duas portas abriam para um salão com uma gigantesca mesa de carvalho e muitas cadeiras, além de uma lareira. Do outro lado duas portas abriam para outro corredor e em baixo da escadaria duas portas mantinham-se fechadas. Pouca tapeçaria nos cômodos e alguns quadros retratando o reino, a floresta e duas cidades, sendo uma delas feita com madeiras suspensas por palafitas. A outra cidade feita inteiramente de pedra, com uma montanha destacando-se ao fundo.
Tudo no reino seja de ferro ou madeira era ricamente entalhado com formas onduladas ou assimétricas, volutas ou desenhos da natureza, estrelas, sol e lua. No palácio os detalhes não eram diferentes das construções da cidade e dos salões do reino onde predominavam os entalhes com volutas e capitéis. Para Kyara, faltava mais colorido ao lugar. Logo que chegaram Legolas informou que as portas abaixo da escada era o gabinete do rei. Certamente um ambiente bem diferente do salão do trono.
— Venha. Vamos subir e tomar um belo banho, descansar e depois mostrarei o castelo, o jardim e a apresentarei as pessoas que trabalham aqui.
— Vocês tem um jardim aqui no palácio? É desse jardim que colheram essas tulipas?
— Sim. Ele fica junto a uma queda d’água, formando um rio subterrâneo nos fundos do castelo. Inclusive é o que abastece parte da cidade e alimenta as fontes. Venha. Da varanda do nosso quarto você verá o jardim e a queda d’água.
Subiram rápido e entraram no quarto que era de Legolas. Kyara foi direto para a varanda e do alto viu um jardim gramado e florido, com caminhos feitos de pedra, vasos de plantas e flores por todo o lado, um caramanchão coberto por flores de Buganvília brancas e rosas, com uma mesa de madeira repleta de pequenos vasos de flor de maio de todas as cores, feitos de junco verde e quatro aconchegantes cadeiras de madeira e almofadões, com encostos de galhos de árvore.
Uma gigantesca pedra, que se formava do teto da caverna, encerrava o fundo do castelo, e, sobre ela, deslizava uma queda d’água vinda de uma nascente no pico da montanha. A cachoeira formou um rio, veloz e profundo cercado por bromélias, e seguia por uma fenda no chão entre as pedras formando um rio subterrâneo.
Ao lado da queda d’água criou-se uma camada de limo que fez crescer orquídeas, como um paredão de flores. Espalhado ao longo do paredão do outro lado da queda d’água muitas samambaias. Em um canteiro próximo às janelas do castelo foram plantadas tulipas brancas, rosas e vermelhas. Além das lamparinas, o jardim também era iluminado pelos raios do sol que passavam por uma abertura no teto, como nos outros jardins. Combinando sua luminosidade com os respingos da queda d’água formou-se um arco-íris simplesmente maravilhoso.
Em cada canto daquela cidade via-se uma coisa bonita e aconchegante e aquele jardim não fugia a regra. Até mesmo uma velha cadeira do mesmo feitio das outras e uma mesinha redonda, que a acompanhava, encostadas a uma pequena árvore de acácias amarelas, tornava o lugar mágico.
— Legolas, eu quero ir nesse jardim agora. Como faço para chegar lá?
— Venha comigo.
Saíram do quarto seguindo até o final do corredor, descendo por outra escada mais estreita. Continuaram o caminho por outro corredor até Legolas abrir duas portas e finalmente o jardim. Kyara desceu os degraus extasiada com a maravilha que tinha ali. Tirou os sapatos e caminhou lentamente pelo lugar sentindo a grama úmida nos pés. Tocou cada planta, cada flor até chegar à cadeira solitária.
Uma energia estranha a atraia e Kyara se ajoelhou na frente dela passando a mão para tirar o limo que se formou. A madeira maciça e bem trabalhada estava um pouco mofada pela umidade, contudo ainda não havia perdido a sua beleza.
Ela se sentou ali e contemplou a queda d’água e o arco-íris.
Legolas estava parado nas escadas observando em silêncio.
— Minha mãe costumava passar horas nesse jardim e permanecia sentada exatamente nessa cadeira.
Ele caminhou até ela e parou na sua frente.
— Ela teria gostado muito de você... Quando criança muitas vezes vinha para cá e ficava conversando com ela, apesar de já não estar entre nós. Meu pai chegou a pensar que eu estava enlouquecendo por causa da ausência dela, mas, na minha imaginação ela ficava aqui mesmo e eu a via.
— Talvez não fosse imaginação de criança.
— Não. Hoje sei que não passou disso. Os elfos que partem não voltam mais, a não ser que sejam mandados de volta, como Glorfindel. Ele foi o único que recebeu essa graça, porque tinha uma missão a cumprir. Não foi o caso da minha mãe. E não existem elfos fantasmas por aí. Acho que o que me salvou foi a convivência com Narthan e Idrial. Fomos criados como irmãos aqui no castelo e o amor de seus pais, principalmente de Glóredhel por mim me ajudou a superar. Ela acabou sendo um pouco minha mãe.
Kyara se levantou e o abraçou forte vendo-o se emocionar ao falar da mãe.
— Vejo em seus olhos que sente saudades dela. Pelo menos você a conheceu e pôde desfrutar ainda criança do seu carinho de mãe.
— Não nego que sinto sua falta. Tanto tempo já passou e eu ainda não me acostumei, nem o meu pai. Para ele deve ser ainda pior. Passaram muitos anos casados antes que eu nascesse... E ele suspirou... – Perdoe-me o saudosismo.
— Não tem por que me pedir perdão. É um assunto muito delicado e doloroso... Entendo perfeitamente sua dor. Cresci sem mãe e pouco desfrutei do amor que Gahya dedicou a mim.
Os dois permaneceram calados com seus pensamentos até Kyara quebrar o silêncio.
— Tenho uma pergunta a fazer... E Legolas voltou sua atenção para ela... – Preciso replantar as mudas das minhas ervas. Você acha que seu pai faria alguma objeção se eu fizesse um canteiro para elas?
— Meu pai quase nunca vem ao jardim desde que minha mãe se foi... Ele fez uma pausa... – Eu fui concebido aqui. Imagina as lembranças que lhe vem à mente... Fique tranquila porque ele não fará nenhuma objeção.
Naquele momento outra pessoa também observava de uma janela próxima a movimentação da Kyara.
O rei ficou com os olhos marejados quando a viu sentada naquela cadeira. Aquele gesto inocente o fez se recordar de um passado muito distante e lembranças povoaram sua mente. Sentimentos guardados a sete chaves em seu coração afloraram deixando-o sofrido e nostálgico, e se retirou da janela sem ser notado.
Legolas acariciou o rosto e os cabelos da esposa, e depois lhe deu um longo beijo.
— Vamos voltar para o quarto.
Ele estranhou a arrumação, que certamente havia sido preparada para a chegada do casal. O quarto era enorme, dividido em três cômodos. O primeiro e principal cômodo tinha cortinas esvoaçantes na cor palha, combinando com a cor da mobilha de madeira clara, portas arqueadas de bronze davam passagem para a varanda, que tinha uma mesa e duas cadeiras, também de bronze acomodando um simpático arranjo de bromélia.
Dentro do quarto uma enorme cama de casal tinha um dossel que sustentava cortinas do mesmo tecido e cor das cortinas das portas da varanda. A cama estava forrada com colcha feita de barbantes trançados e almofadas coloridas. Em cada lado da cama foi posta uma mesa de cabeceira com uma pequena lamparina banhada a ouro. A cabeceira da cama era entalhada com o formato de pinheiros, ilustrando uma floresta.
Uma penteadeira foi posta ao lado da cama e, como toda a madeira daquele lugar era entalhada com formatos ondulados e circulares. Sobre a penteadeira uma escova e um espelho de mão, cravejados de esmeraldas, rubis e safiras, repousavam soberanos. De um lado uma lamparina banhada a ouro e de outro lado um arranjo com orquídeas. Entretanto foi o trabalho feito na armação do espelho que mais chamou a atenção da Kyara. Esculpiram na madeira uma dama élfica segurando o espelho ao redor dos braços. O trabalho bem feito era admirável, mas o rosto da elfa a atraiu.
— Kyara?... Chamou Legolas vendo-a distante.
— Sim?... Respondeu ela distraída.
— Alguma coisa errada?
— O rosto da elfa entalhado nessa madeira me lembra duma moça que conheci em Tanusia.
Ela manteve-se em silêncio analisando as formas da estátua.
— Ah! Esqueça. Estou sendo afetada com toda essa novidade.
Kyara suspirou sorridente, e parou mais um instante para deslizar os dedos na face da estátua.
— Tenho que admitir, a semelhança me impressiona.
Legolas estava recostado em uma das colunas da cama com as pernas e os braços cruzados.
— Você fica o tempo todo me observando e rindo. Devo parecer uma tola encantada com tudo que vejo. O que posso fazer se tudo me surpreende? Nem com todo o seu relato cheguei perto do que é esse lugar.
— Admito não reconhecer meu próprio quarto. Mudaram algumas coisas por aqui.
Ela caminhou para o outro lado do quarto, cuja decoração completava-se com uma lareira e acima um quadro retratando o jardim do palácio. Dois sofás cercavam a lareira com uma mesa de centro. Uma tapeçaria da cor das cortinas forrava o chão de pedra e um generoso jarro de flores coloridas foi colocado sobre a mesa de centro em frente à lareira. Ao lado da porta da varanda próxima à lareira, uma mesa e cadeira foram postas, com um tinteiro, caneta de pena e papel.
Kyara não viu seus baús no quarto e logo se dirigiu para a porta ao lado da cama. Apareceu uma sala estreita e outra porta no final. Neste cômodo um grande armário de madeira, tomava conta de toda a parede, e acomodava todas as roupas e objetos do casal. Os baús foram acomodados embaixo da janela, e suas armas e apetrechos permaneceram guardados ali dentro, ao lado das urnas de pedras preciosas e do baú com ouro.
Kyara havia entregado as chaves para o pai de Legolas na ocasião em que retornou de Ithílien, que as guardou sem se quer perguntar o que poderia estar transportando. Abrindo a última porta, deparou-se com a sala de banhos, porém a banheira era de pedra entalhada na própria rocha da montanha. A bacia era de bronze e uma alavanca bombeava a água para a banheira. Um braseiro de ferro foi chumbado na pedra junto à banheira, com um caldeirão suspenso.
Querendo um banho quente, era só acender o braseiro e depois que a água estivesse no ponto uma alavanca virava a água para dentro da banheira.
Kyara cada vez mais ficava admirada com a engenhosidade daquela gente, que aproveitou tudo o que a natureza poderia lhes oferecer e construiu um lugar mais que especial para viverem.
— Feliz?... Perguntou ele abraçando-a... – Acha que poderá viver aqui?
— Tinha dúvidas quanto a isso?
— Alguma coisa me diz que seremos felizes.
Ela sorriu... – Nossa felicidade depende de estarmos juntos. O lugar é apenas um detalhe... E ela suspirou deitando a cabeça no peito dele... – Sinto uma paz tão grande. Tudo é tão mágico, tão especial para mim... Acho que estou apaixonada.
— Mesmo? E quem é o felizardo?... Perguntou ele com um falso ar de curiosidade.
— O reino, a floresta, tudo que vi até agora.
— Ah, sim! Claro! Eryn Lasgalen é realmente apaixonante... Respondeu ele tentando disfarçar o desapontamento.
— Que cara é essa?... Perguntou ela segurando o rosto dele com as duas mãos... – Esperava que respondesse que era você?... Ela riu... – Se fizer por merecer... Quem sabe não conquista meu coração, nobre príncipe?
— Bom saber que tudo depende apenas de mim, então.
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