A Força do Amor
18 O Altar do Amor
Notas iniciais
Atendendo a convocação do rei, Faramir chegou para a reunião do conselho que aconteceria no dia seguinte, com um contingente de trezentos arqueiros a cavalo preparados para a guerra, juntamente com o príncipe Imrahil, que acampou nos campos de Pelennor com oitocentos cavaleiros-cisnes.
Esses valorosos guerreiros provaram ter grande coragem na batalha de Pelennor e sempre eram liderados pessoalmente por Imrahil. Gimli já estava em Minas Tirith, aguardando que todos os convocados se apresentassem. O exército anão partiria juntamente com Rohan.
Na tarde desse mesmo dia, Kyara tratou dos curativos da Melissa e lhedeu a feliz notícia de que ela estava liberada do chá,podendo, a partir do dia seguinte,amamentar seu bebê que ganhou o nome de Newen, escolhido por Kyara.
Michelle acompanhava as visitas de perto, sempre atenta às explicações da Kyara e essa aproximação acabou tornando-as amigas.
— Michelle, posso lhe fazer uma pergunta?
— Sim, claro.
— Por que não se casou? É uma mulher tão linda e tão dedicada. Mulheres como você não permanecem solteiras por muito tempo.
Michelle ficou em silêncio. Vendo que tocou num assunto delicado, Kyara desculpou-se pelo inconveniente. Ao dar-lhe às costas para sair, Michelle respondeu.
— Um dia eu amei um homem... Pronunciou-se Michelle reunindo coragem para falar.
— Se você não se sente bem para falar, não diga nada. Eu não deveria ter-lhe perguntado nada. Mais uma vez peço que me perdoe à indiscrição.
— Não!... Guardei em meu peito por muito tempo essa dor e acho que é chegada à hora de enterrá-la de uma vez por todas.
Ela levou Kyara para fora da casa e as duas caminharam pelo pomar enquanto conversavam.
— Eu trabalho no castelo como camareira desde garota, quando nossa mãe faleceu. Precisava nos sustentar. Logo que cheguei aqui me apaixonei pelo filho mais velho do regente na época.
— Você está se referindo ao guerreiro que morreu em Parth Galen, filho do regente Denetor?
— Sim. Ele se chamava Boromir. Era um amor de criança que foi amadurecendo comigo. Um dia ele me notou e acabamos nos envolvendo. Inexperiente e ingênua me deixei levar por seus caprichos. Fazia todas as suas vontades. Ele nunca quis assumir nosso envolvimento e me proibiu de revelar meu amor a quem quer que fosse. No fundo, eu sabia que ele não me amava de verdade, mas não tinha forças para me afastar dele. Eu o amava demais... Até o dia quando seu corpo chegou às portas do palácio e tudo se acabou. O pai dele enlouqueceu e eu pensei que fosse morrer de tanta dor. Sofri calada sem poder contar nada a ninguém. A partir daí nunca mais permiti que qualquer homem se aproximasse de mim. Escondi-me dentro do palácio e permaneço assim até hoje.
— Você não pode transformar isso no fim... Sinto nas suas palavras e vejo nos seus olhos que essa decisão não lhe trouxe felicidade... Você é uma mulher feita para ter uma família, Michelle. Certamente haverá alguém que a ame e que a fará feliz. Só que você precisa se permitir viver. Quem sabe esse alguém esteja próximo a você e nem perceba.
— Não alimento mais esse tipo de pensamento. Estou bem sozinha. A rainha é como uma irmã para mim e tenho novamente minha família comigo. Que mais posso querer da vida?
— Construir sua própria felicidade, no lugar de viver da felicidade dos outros... É preciso coragem para viver. Pense nisso.
— Não sei se poderei me permitir apaixonar novamente, mas prometo que vou pensar.
Quando Kyara se dirigiu para o portão, Michelle lhe chamou.
— Kyara! Isso é um segredo que eu guardei por muito tempo e quero vê-lo enterrado.
— Fique tranquila. Seu segredo estará seguro comigo... E sorrindo lhe acenou... – Até mais.
Kyara retornou para o castelo pensando em se preparar para o jantar. Não fazia a menor questão de esconder que estava ansiosa pela chegada de Legolas. Preparou um banho bem perfumado, vestiu um vestido branco com longas mangas e um decote generoso, saia rodada bordada com flores douradas. Sentia-se linda. Desceu as escadas apressada indo em direção ao salão de refeições esperando encontrar alguém lá.
A porta estava entreaberta e pôde ouvir Elrohir, acompanhado do irmão e de Glorfindel, relatando a Aragorn que se encontraram com Legolas em Ithílien e preocuparam-se, porque o viram abatido e sofrido.
Seguiram ainda para Dol Amroth e ao se prepararem para retornar, Legolasanunciou que partiria. Arrumou as ferraduras de Arod e seguiu sem destino. Quando lhe foi perguntado o que estava acontecendo e para onde iria, ele respondeu que estava mortoe apenas procuraria um enterro digno para seu corpo.
Viajava sozinho em direção a um rumo desconhecido havia quatro dias.
Kyara ouviu tudo parada na porta em estado de choque.
Aragorn ficou aflito com a partida do amigo imaginando que poderia estar cavalgando para os Portos Cinzentos de Círdan, o elfo armador, além das Montanhas de Neve, pensando em seguir num dos barcos élficos para as terras imortais.
Ele se perguntou por que Legolas estava partindo dessa forma e Kyara, nesse momento, entrou no salão.
— Ele está fazendo o que lhe pedi.
Todos se voltaram para ela sem entender... – Como assim, Kyara?... Perguntou Aragorn.
— Pedi que partisse e procurasse alguém que pudesse amá-lo e lhe dar tudo o que eu não poderia... Estava desesperada porque não encontrava saída para nós dois, então o mandei embora e pedi para que me esquecesse.
Ela falou caminhando para a porta da varanda avistando a fonte do jardim... – O beijo, seu abraço, seus carinhos, suas palavras de amor, tudo estava perdido.
— Eu perdi o meu amor e a minha vida.
Todos se olharam sem saber o que dizer e permaneceram em silêncio até Glorfindel se manifestar.
— Seu amor está seguindo para as Montanhas Sombrias... Por mais que queira se matar não deixará você a mercê do bruxo. Então, ele fará um último esforço para salvá-la.
— Como pode afirmar isso, Glorfindel?... Indagou Elrohir.
— Porque é isso o que eu faria se carregasse no peito um amor e, ao mesmo tempo, dor tão grande como ele... Legolas a ama e por amor se sacrificará.
— Sem o amuleto ele será capturado... Preocupou-se Aragorn.
— Tentamos impedi-lo, mas ele estava irredutível... Elladan suspirou... – Carregava consigo muito sofrimento e muita revolta também.
Glorfindel fechou o semblante preocupado e pensativo. Dirigindo-se para Kyara parou ao seu lado observando o jardim. Os dois se olharam e uma lágrima correu no rosto dela. Nada disseram, porque palavras não eram necessárias.
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Pouco depois os governantes, que já estavam em Gondor, chegaram para o jantar e entre eles, o rei Éomer e seu comandante Éothain, Gimli, Faramir, acompanhado de Beregond, seu conselheiro e o príncipe Imrahil.
Gimli e Faramir logo procuraram por Aragorn querendo saber de Legolas e preocuparam-se com as notícias que receberam. Faramir entendeu, então, o motivo para tanto sofrimento do elfo e lamentou, profundamente, o infortúnio. Gimli não escondeu sua tristeza pela forma como acabava o amor dos seus amigos e, vendo a infelicidade da Kyara, sabendo ainda da loucura que seu grande amigo cometeria, decidiu acompanhar os irmãos da rainha e os guardiões para procurá-lo.
Os homens conversaram quase o tempo todo sobre os preparativos e seus planos de combate, enquanto Kyara e Arwen não diziam palavra. Éomer tentou atrair a atenção dela pedindo sua opinião sobre o assunto, mas suas respostas eram monossilábicas. A presença de Éomer a fez recordar o beijo que ele lhe deu no jardim e a visão de Legolas da sacada assistindo tudo. Sua dor só fez aumentar pensando que Legolas a odiava nesse momento. Isso justificaria tanta revolta. Ao término do jantar, o rei de Rohan pediu uma canção a ela e Arwen tentou intervir.
— Talvez seja melhor deixar a cantoria para outra ocasião, porque estou vendo que a princesa está um pouco indisposta hoje.
— Não!... Eu quero cantar uma canção... Ela suspirou... – Uma canção que fala de um amor maior que o mundo, mas o medo o levou embora para sempre. Eu vou cantar pedindo que essa canção se propague com o vento e alcance esse amor, onde quer que ele esteja.
Kyara proferiu suas palavras encarando Éomer com o semblante sombrio. Ele estranhou a atitude dela e não entendeu as entrelinhas da mensagem que ela queria passar. Ela se ajeitou na sua cadeira cativa, apoiou a harpa no ombro, como sempre fazia e começou a dedilhar as primeiras notas.
Meu coração
Voou sem direção
Sem saber onde pousar
E um sonho escuro
Mostrou-me perdida no mundo
Mas revelou quem poderá me salvar
Dos meus dias sem cor
Das minhas noites de dor
E da solidão.
Meu salvador é o amor
Que tem a cor azul...
Azul do céu, azul do mar.
Seu beijo me deu tudo
Um amor
maior que o mundo
E sem ele não poderei viver,
Mas o medo me fez infeliz
Levou esse amor de mim
E agora me faz morrer.
Volta pra mim...
Você! Que é feito de azul
Vem curar meu coração em pedaços
Você! Que é belo demais
Que é minha luz e minha paz
Somente serei feliz em seus braços.
Kyara cantou com toda a força do seu coração pedindo para que a música fosse levada até Legolas, cavalgando para a morte. Quando acabou manteve-se de cabeça baixa, sem força e sem coragem para encarar as pessoas a sua frente.
Sem poder evitar as lágrimas, ela se levantou, pediu licença a todos e se retirou.
Arwen levantou-se para acudi-la, mas foi impedida por Aragorn... – Deixe-a ir. Ela precisa de um tempo sozinha. Elladan e Elrohir partirão com Gimli e os guardiões atrás dele.
Kyara caminhou pelo corredor já conhecido e subiu as escadas apressada.
As lágrimas inundaram seus olhos ao ponto de não conseguir ver mais nada a sua frente até esbarrar em uma mesa com um jarro de flores, que ficava no corredor próximo a porta do seu quarto. Ela se apoiou na mesa de cabeça baixa e explodiu num choro desesperado, colocando a mão no peito com a dor que sentia, como se uma faca estivesse cravada nele.
Terminou o trajeto cambaleante abrindo a porta com violência, deixando-a escancarada. Caiu de joelhos no tapete do quarto, sufocando com o choro.
As palavras de Elrohir e Glorfindel ecoavam na sua cabeça e a visão de Legolas sumindo no horizonte rumo à morte a enlouquecia.
— O que foi que eu fiz?... Como pude ser tão estúpida achando que conseguiria viver sem você?... Dizia ela sussurrando entre um soluço e outro... – Daria o mundo para ouvi-lo dizer mais uma vez que me ama... que precisa de mim.
Ajoelhada no chão, sucumbiu ao seu sofrimento e se encolheu embalada pelo seu lamento. Repudiando todas as tentativas do seu pai em querer casá-la com o primeiro lorde que aparecesse, Kyara nunca se imaginou amando alguém. Pretendentes nunca lhe faltaram. Agora se via num estado de completa agonia e desespero, com o sentimento de culpa lhe pesando a alma.
Pensar que ela mesma o havia expulsado da sua vida e agora não conseguia suportar a realidade que se expunha: viver sem Legolas. Foi para aquelas terras acreditando que qualquer emoção ou sentimento criado pela visão de um ser tão diferente de tudo que ela conhecia fosse mera curiosidade e que nada a faria mudar. Que ironia! Bastou um olhar para toda sua convicção ir por terra. Como poderia ela se achar completamente perdida de amor ao ponto de sufocar de desespero com a ausência dele na sua vida? Como alguém poderia amar tanto assim? Existe amor assim? Não suportando mais a dor em seu peito chamou por ele.
— Legolas!... Onde você está agora?... Onde quer que esteja deve me odiar... Meu amor, perdão, perdão, perdão, perdão... Volta pra mim.
Agarrada a sua agonia não percebeu que alguém a observava parado a porta da varanda. Ao encarar quem estava de pé viu a silhueta de Legolas e seu coração disparou.
Ele entrou no quarto, calmamente, fechou a porta que permanecia escancarada e dirigiu-se a ela.
Kyara tentava secar o rosto pasma com a surpresa.
Legolas parou diante dela estendendo a mão para erguê-la do chão. Ela tremia dos pés a cabeça com medo de piscar e descobrir que tudo não passava de uma ilusão.
— Eu voltei para lhe dizer mais uma vez que te amo... Que preciso de você para continuar vivendo.
— Eu pensei... Eu pensei... Ela tentou falar aos soluços.
Ele tocou os lábios dela com a ponta dos dedos e sussurrou... – Não precisa dizer mais nada.
Legolas a puxou para junto de si e a beijou com todo o amor que lhe tinha e ela se entregou àquele beijo ciente do quanto precisava dele. Não era um beijo lento, doce e romântico. Era um beijo urgente, faminto e desesperado.
Legolas se deixou levar pelo desejo contido há tanto tempo, alimentado pela forma apaixonada como ela correspondia. Ele a acariciava sem consciência da força que empregava com seus beijos e abraços.
Kyara se agarrava a Legolas esquecida de sua dor. O pesadelo de viver sem ele não existia mais. Tudo que ela sabia era o vigor daquele homem a envolvendo numa união de bocas e corpos atrelados. Naquele momento as palavras não importavam mais e nem o mundo lá fora. Tudo o que precisavam era apenas um do outro.
Aos poucos, os dois acalmaram o incêndio do desejo e voltaram à realidade de estarem de pé diante um do outro, depois de tantas frustrações, desesperança e dor. Kyara apoiou a testa no ombro de Legolas sem saber o que dizer. Ele foi o primeiro a falar.
— Ouvi-la me mandar embora da sua vida me feriu mais que um punhal cravado no coração... e a sua imagem aos beijos com Éomer no jardim foi o que me bastou para desejar morrer. Só não poderia deixá-la enfrentar aquele bruxo sozinha. Por isso voltei. Precisava do amuleto e revê-la pela última vez. Decidi seguir o que imaginei ser o meu destino... Com sorte, a morte acabaria com minha dor.
— Perdoe-me! Só agora percebo o erro que cometi... Ela o abraçou forte ansiosa por querer esclarecer toda a situação... – O beijo que presenciou foi um infortúnio. Eu fui surpreendida por ele. Não pense que eu tenha algum envolvimento com outra pessoa, por favor. Isso nunca.
— Agora sei que não.
Kyara o encarou aflita pelo seu perdão... – Custei a acreditar que carrego no peito um sentimento tão grande assim e agora que eu o revelo te peço, por favor, nunca duvide do meu amor por você. Não me deixe nunca mais. Não dê ouvidos às minhas tolices... O amor que lhe tenho é maior do que eu mesma e não suportarei viver sem você.
Ele sorriu... – Não sabe a felicidade que senti quando ouvi sua canção do jardim.
— Então sabe o quanto o amo. Os dias que passei sem você tentei me convencer de que tinha tomado a decisão certa e não poderia voltar atrás... Isso foi o que bastou para a tristeza me dominar. Estava adoecendo e os jardins do palácio comigo... Todo o dia ficava na fonte onde nos beijamos relembrando esse momento, relembrando os dias que passamos viajando. Minha tristeza adoeceu as plantas e até elas estão morrendo. Foi preciso Aragorn me alertar para o que estava acontecendo. Agora sei que minha tristeza me levaria à ruína e a magia de Tiria se perderia e Gahya tem que saber disso... Ela apoiou a testa no peito de Legolas mais uma vez... – Não sei como será o amanhã... Não sei o que acontecerá comigo, com nós dois. Só sei que farei o possível e o impossível para que não nos separemos... Ela voltou os olhos marejados para ele... – Eu te amo, Legolas. De uma forma que jamais imaginei ser possível.
— Estarei sempre ao seu lado, Kyara. Não enfrentará nada sozinha... Nossas vidas seguem um mesmo destino e estou aqui disposto a tudo pelo nosso amor.
Kyara acariciou o rosto dele com o olhar cheio de paixão... – Então, faça-me sua. Tudo que quero é estar com você do jeito que for aonde quer que seja... Na primeira vez que nos beijamos você pediu para ser minha luz, meu abrigo, para partilharmos uma vida juntos. Então, saiba que você é minha luz, meu abrigo e quero viver esse amor com você. Não importa se ele vai durar uma noite apenas, um ano ou a eternidade.
O que Legolas mais desejava havia sido dito. No entanto, Kyara não tinha consciência das implicações da sua impulsividade. Como elfo, ele via no pedido dela algo muito mais profundo e significativo.
— Para os elfos uma cerimônia de casamento não acontece somente com a benção das suas famílias, mas, principalmente com a união dos seus corpos e a partir desse momento suas almas tornam-se uma só, para a eternidade. Isso significa Kyara, que para mim o que me pede não é meramente saciar um desejo carnal, compartilhando com você o tempo que ainda temos. O que me pede é sagrado.
— Não temos tempo para essas coisas de casamentos. Nosso futuro é incerto. A única coisa que temos é o agora.
Legolas lhe sorriu e acariciou seu rosto... – Não sabe o quanto a quero em meus braços mais uma vez e dessa vez poder amá-la como eu desejo amar... Mas meu amor está além desse desejo, Kyara. Seria feliz apenas por saber que também me ama.
Kyara silenciou confusa com as palavras de Legolas. Só então perguntou a si mesma se havia algo de errado naquilo que propunha.
— Meu povo está acostumado à luxúria, a satisfação do desejo a todo custo e não imagina o quanto me impressionam e me encantam suas palavras. Outro homem não deixaria a oportunidade passar.
— Não sou apenas um homem, Kyara, sou um elfo. Não me falta o desejo, mas você precisa entender a importância que tem para mim o que me pede.
— O que lhe peço é que me aceite como esposa, como sua mulher. Enfrentarei meu destino com a marca desse amor impressa no meu corpo e na minha alma. Quero me entregar a você para pertencermos um ao outro, como tem que ser... Você me aceita agora, mesmo sendo contra seus costumes? Ainda que nossa vida juntos seja breve e incerta?
— Tudo o que eu quero é você.
— Então, me aceite como sua esposa... Kyara foi dizendo essas palavras enquanto se afastava alguns passos dele e passou a mão trêmula pelas mangas do vestido, uma de cada vez, deixando-o escorregar até o chão. Foi despindo-se, permitindo que ele contemplasse sua nudez.
Uma brisa leve refrescava o ambiente. O quarto estava na penumbra, sendo iluminado apenas pelas tochas da varanda e pelo luar. Ela tremia com o peito arfante, deixando transparecer todo o seu nervosismo e sua excitação, enquanto ele, calmamente, se aproximava dela maravilhado com a beleza desnuda do seu corpo de mulher e seus cabelos negros, que tentavam encobrir sua timidez.
Legolas estendeu a mão e acariciou os cabelos dela, deixando-os cair por trás das costas. Como amava aqueles cabelos. Ele tocou levemente o pescoço e o ombro dela.
Kyara mantinha os olhos fixos nele. Ela permitiu que a mão dele deslizasse devagar por sua pele até alcançar um dos seios, acariciando-o com a ponta dos dedos. O gesto a fez fechar os olhos e jogar a cabeça para trás, imaginando que desmaiaria e involuntariamente gemeu, sentindo um torpor lhe dominar e seu sexo se contrair indicando um início de prazer.
Legolas estava hipnotizado percorrendo o corpo dela com os olhos. Aquilo tudo era tão intenso, tão sedutor e diferente para ele, exatamente como tudo nela.
Sem pronunciar uma palavra, ele começou a se despir com movimentos elegantes e vagarosos, enquanto Kyara o observava. Ela se deliciava com a rigidez do corpo dele e a maneira como os músculos perfeitos e bem desenvolvidos se revelavam aos poucos, o modo como se movimentavam, parecendo terem sido desenhados. O semblante de Legolas estava sereno, mas Kyara sabia a verdade. Ele estava tenso. A respiração curta, as mãos trêmulas, pequenas ações que traíam o que realmente se passava no coração do homem.
Quando as mãos dele começaram a desfazer as amarras que prendiam a calça, Kyara não pôde impedir que seus olhos recaíssem sobre o trabalho das mãos masculinas desatando a vestimenta élfica. Desta vez ela pôde admirar por inteiro o corpo forte e belo de Legolas.
— Toque-me.
Kyara prendeu a respiração com o pedido dele. Tímida, ela vacilou sem saber como se portar.
— Não tenha vergonha de mim... Não existe nada mais sublime do que esse momento, que nada mais é do que a expressão do nosso amor e devemos estar livres de pudores e receios tolos... Esta cama será o nosso altar e é onde nos tornaremos marido e mulher e pertenceremos um ao outro para sempre.
Envergonhada e insegura, ela deu um passo a frente e lentamente estendeu a mão trêmula tocando o peito dele, descendo pelo seu abdômen. Ele se aproximou mais e a abraçou, carinhosamente, apertando-a contra o peito enquanto inalava o perfume dos cabelos dela.
Kyara estava inebriada de emoção com o contato quente e macio dos seus corpos completamente nus... – Fui treinada para enfrentar muitas coisas. Tornei-me feiticeira e guerreira, mas, não uma mulher e nunca me preparei para esse momento... Perdoe-me se sou tímida e sem jeito.
— Então significa que serei o único privilegiado que conhecerá por trás da mulher guerreira a menina sensível e frágil que você é. Saiba que esta é a primeira vez para nós dois.
Ele a olhou nos olhos e a pegou no colo, levando-a para a cama.
— Vamos desvendar nossos mistérios juntos, sem medo e sem pressa. Nossa única preocupação será com o nosso prazer e a nossa felicidade. O amor que sentimos um pelo outro nos conduzirá.
Legolas depositou-a na cama debruçando-se sobre ela para beijar e acariciar todas as partes daquele corpo macio. A boca quente percorria cada curva, cada canto e ela soube o que era ser amada no toque gentil e preciso, cuidadoso e significativo daquele elfo, que a encantava e a fazia se desmanchar. Kyara, pouco a pouco, deixou sua timidez de lado, para se abandonar nos braços de Legolas. O contato delirante das carícias que faziam permitia que mergulhassem em desejos que os consumiam.
Descobriam e saboreavam um mundo de sensações e prazeres inimagináveis, desnudando suas almas e seus segredos. E nessa doce entrega, ele deslizou para dentro dela, firme e lentamente, mas a expressão de dor que viu no semblante dela o fez parar.
— Não!... Ela protestou ofegante.
— Não quero machucá-la.
— Não pare! Eu quero toda a dor e todo o prazer que você puder me dar... Quero me abrir para a vida e senti-la inteira pulsando dentro de mim... Será como os raios do sol invadindo a madrugada trazendo o amanhecer.
Foi tudo o que ele precisou ouvir para tomá-la nos braços e os dois se entregarem por inteiro unindo suas almas para sempre. O que era dor se transformou em prazer, que ela revelava na forma como se agarrava a ele querendo mais e mais. O som do amor dos dois propagava-se no ar entre sussurros e gemidos e os dois se envolveram num bailado de corpos, com o movimento cada vez mais forte e ritmado, cada vez mais frenético até não resistirem mais e os dois explodirem num gozo sem fim.
Nenhum dos dois poderia comparar esse momento com qualquer coisa que já tivessem vivenciado. A primeira vez que se entregavam ao ato, movidos por um sentimento que os envolvia de tal forma. O prazer do corpo acompanhava a emoção marcada na alma.
Seus corpos trêmulos e suados mantiveram-se abraçados, ofegantes, sentindo a febre faminta e enlouquecedora da paixão, lentamente, dar espaço mais uma vez ao amor sereno e terno. Ficaram imóveis, sem coragem de se mexerem.
Consciente do peso que exercia sobre ela, Legolas se deitou ao lado da Kyara trazendo-a para seu peito quando notou que ela chorava em silêncio.
— Eu a machuquei!... Você me enlouqueceu da forma como falou e acabei me tornando um... animal... Perdoe-me, por favor! Deveria ter sido...
Ela tocou os lábios dele silenciando-o e deitou-se sobre o peito dele ouvindo as batidas aceleradas do coração.
— As lágrimas que insistem em rolar pelo meu rosto não são lágrimas de dor. São lágrimas de felicidade... Ela olhou nos olhos dele e o beijou com paixão... – Nunca poderia imaginar que esse momento fosse tão mágico, tão... perfeito! Você me tornou mulher... Sua mulher! E não existe ninguém mais feliz do que eu neste momento... Dizendo isso, ela sentou-se, puxando a colcha para se cobrir, tímida... – Sinto-me uma criança, cuja vida está começando... Completou, sorrindo.
Ele se sentou diante dela e abaixou as mãos agarradas ao tecido... – Somos um só de agora em diante e não haverá segredos ou reservas entre nós... Não se acanhe com seu esposo, herves-nin... Esposa minha!
Kyara permaneceu calada fitando-o e ele se deixou observar. Ela acariciou o rosto dele... – Eu te amo... tudo!... Para sempre!
Legolas beijou a palma da mão dela e depois os lábios com ternura. Mais uma vez seus braços a envolveram para a primeira noite de amor, que selou essa união.
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