A Força do Amor
8 Novas Revelações
Notas iniciais
Quando Kyara acordou estava em uma lapa do tamanho suficiente para os dois se acomodarem e abrigarem os cavalos. Não avistou Legolas e nem o cavalo dele. A fogueira estava apagada, mas vinha claridade suficiente da entrada e a hora parecia adiantada.
Fez menção de se levantar, contudo, ainda se sentia muito tonta e fraca e se sentou. Vendo-se vestida com seu camisolão branco teve a certeza de que as horas passadas sob os cuidados de Legolas deveriam ter sido muito difíceis.
Não se lembrava de nada, apenas da sua imagem abraçada a ele.
— Teria sido um sonho?... Perguntou-se.
Se foi um sonho, ficou gravada na sua mente uma sensação tão boa de aconchego ao ponto de lembrar, nitidamente, o contato do corpo dele com o seu deixando-a confusa. Kyara foi tomada por essas lembranças quando Legolas entrou com os cantis d’água na mão. O corpo dela arrepiou-se todo, como se o visse pela primeira vez.
Sorrindo, ele se aproximou e ajoelhou-se na frente dela, colocando uma das mãos em seu rosto para se certificar da temperatura. Kyara não dizia nada, apenas o admirava. Os olhos dele tinham um brilho intenso.
Havia algo diferente nele.
— Como se sente?... Diante do silêncio dela e sua expressão desnorteada, Legolas preocupou-se... – Kyara?
Ele sentou-se junto a ela, deslizou os cabelos dela para trás das orelhas e colocou as mãos em seu pescoço.
Kyara sentia o carinho com que ele a tocava e a olhava, examinando sua temperatura. Poderia ser loucura ou um delírio provocado ainda pelo efeito das flores, mas, naquele momento, ela queria receber dele mais do que aquele toque. Ela fechou os olhos suspirando profundamente, tentando recuperar o controle e a razão.
— Vejo que ainda não se recuperou. Deite-se mais um pouco.
— Não! Estou bem. Deitada, me sinto muito tonta.
— Quer um pouco d’água?
— Sim... Imagino que a noite tenha sido muito difícil para nós dois.
Legolas virou-se para pegar um dos cantis sem responder. Quando voltou-se para ela, estava sério. Entregou-lhe o cantil e ficou observando-a com o semblante preocupado.
— Sinto-me um tanto constrangido por falar da noite passada... Evidente que tenha estranhado acordar vestida com outra roupa.
Ela nada respondeu e essa atitude o deixou apreensivo.
— Não sabia mais o que fazer... Legolas falava de cabeça baixa até encará-la novamente... – Houve um momento que pensei tê-la perdido.
Kyara viu medo nos olhos do elfo e imaginou que a experiência pela qual passou fora demais para ele. Ela se sentiu tão feliz por sua preocupação, seus cuidados e seu carinho que, sem pensar, o abraçou.
— Mas não perdeu... E sou imensamente grata por tudo, por me socorrer, cuidar de mim e me proteger.
O gesto dela o pegou de surpresa e ele ficou sem saber como agir. A princípio seu abraço foi tímido, mas senti-la em seus braços novamente era tudo o que mais queria e a apertou um pouco mais contra o corpo. Só não iria se iludir com a espontaneidade dela. Tinha que ser cauteloso para não se revelar.
— Fui obrigado a tomar uma atitude e tive receio de como você reagiria quando acordasse.
Kyara olhou nos olhos dele e falou com firmeza... – Já passei por uma situação como essa antes. Você salvou a minha vida e isso é o que importa. Quando se trata de socorrer uma pessoa não podemos medir esforços.
— Por isso quero que descanse. Ficaremos aqui até você estar totalmente recuperada. Estamos abrigados e essa lapa está bem escondida na fenda da montanha.
Kyara bebeu alguns goles da água... – Me sinto sufocada aqui dentro desse lugar fechado e pequeno. Essas paredes amareladas e esse cheiro de barro me deixam mais tonta.
— Esse cheiro nos mantém ocultos... Sinto não ter encontrado lugar melhor, mas a urgência de socorrê-la falou mais alto... Muitas coisas estão estranhas a meu ver.
— Pode estar certo que Gorlock está por trás disso tudo. Fui atingida por dardos envenenados com uma substância paralisante. Certamente, a intenção era me levar sem resistência. O problema é que a paralisia viria acompanhada da perda da consciência e Gorlock me controlaria usando feitiço, mesmo a distância. Ele poderia até mesmo se apoderar da minha alma.
— Apoderar-se da sua alma?... Como isso seria possível?
— O poder desse bruxo vem das trevas, lembra-se? Tudo que faz é por meio de magia negra. Se ele quiser, pode capturar a alma de uma pessoa tornando-a uma morta-viva.
— Esse bruxo é um monstro.
— Não! Um demônio. As reações causadas pelo sumo das flores que você me deu são perigosas, mas impede que o bruxo me enfeitice. Eu preferi correr o riso de morrer a ter que ficar à mercê dele.
— Não consigo entender o que motiva uma pessoa a cometer tantas atrocidades.
— Gahya me contou uma vez um pouco sobre a história de Gorlock e suas motivações. Ele é uma criatura quase tão antiga quanto Gahya. E os dois já se confrontaram no passado. Há muito tempo o reino de Tanusia passava por tempos de trevas e confrontos com magia negra. Uma bruxa muito poderosa chamada Nemeia Calima liderava uma legião de bruxas e juntas atacavam os vilarejos, matando seus moradores, sequestrando crianças para servirem de sacrifício aos seus cultos pagãos. Essa bruxa atacou o vilarejo de Gorlock quando ele era apenas um bebê, o sequestrando, mas não o ofereceu em sacrifício. Pelo contrário, ela o criou como sua mentora. Ele ainda criança já demonstrava ter grande poder e a bruxa quis se beneficiar disso. Ele cresceu acreditando nas mentiras da bruxa quando ela acusou Gahya de ter matado a verdadeira família dele... Gorlock não conheceu outro modo de vida que não fosse a maldade e o desejo de poder, da oportunidade de se tornar o senhor de tudo e de vingança sobre a mulher que havia destruído sua vida.
— Isso é muito triste.
— Quando chegara o momento do confronto final, Gahya reuniu todas as criaturas mágicas do reino de Tanusia, para combater Nemeia e Gorlock. Era uma luta do bem contra o mal. Gahya conseguiu destruir Nemeia e baniu Gorlock para uma dimensão além das estrelas.
— Por que ela foi benevolente com esse homem horrível?
— Porque ela viu que o que mais devastava a alma de Gorlock era ter sido criado por uma bruxa. Ele somente conheceu Nemeia como sendo o mais próximo de uma mãe. No fundo, tudo o que ele queria era sua verdadeira família. Gahya tentou lhe contar a verdade, mas Gorlock não acreditou que Nemeia fora a verdadeira causadora da sua desgraça... Alguns séculos se passaram enquanto Gorlock estivera no seu exílio. Não sei explicar o que ele fez para se libertar, mas, ao fazê-lo, houve novo confronto com Gahya. Ele havia feito um pacto com os seres das profundezas do mundo e voltou mais poderoso. Conseguiu penetrar na ilha e roubar a pedra. Eu tentei impedi-lo, mas não consegui. Antes de se transportar para cá, ele jurou que eu seria o seu troféu como vingança contra Gahya. Ele sabe que não sossegarei enquanto não o destruir. Agora estamos numa corrida para ver quem conseguirá destruir seu oponente primeiro. Ele está usando essas criaturas Orcs para me capturar... Eu precisei arriscar minha vida para não ser dominada por aquela criatura perversa.
— Entendo!... Então não foi desespero meu. Realmente eu a estava perdendo. Essa novidade nos deixa numa situação muito complicada. Não posso expor você ao perigo tendo que percorrer o restante do caminho. Não sabemos quantos Orcs ainda estão nos caçando ou o que mais.
— Até agora fomos bem-sucedidos. Não podemos parar. Temos que seguir em frente.
— Fomos bem sucedidos, mas esta noite você quase morreu. Temo não conseguir protegê-la.
— Se ficarmos juntos, nada vai me acontecer. Não tema. Eu ainda sei me cuidar muito bem, lembra-se? E você estará comigo. O que pode dar errado?
— Muitas coisas podem dar errado. Você se esqueceu do perigo que correu?
— Legolas! A vida é cheia de riscos. Vim pra cá sabendo do perigo que correria e não posso recuar... mas sozinha não conseguirei. Preciso que me ajude, que me apoie. Juntos, nada nos deterá estou certa disso.
Legolas deu um longo suspiro sentindo-se encurralado com a situação que se encontravam. Não poderiam ficar naquele buraco eternamente. Sem opção, via-se obrigado a seguir viagem.
— Muito bem! Mas ficaremos aqui até que você esteja totalmente recuperada.
— Não! Prefiro seguir agora. Se eu sair desse lugar tenho certeza de que me recuperarei logo... Por favor!
— Kyara, como poderei protegê-la com você nesse estado? Ainda temos meio dia até chegarmos a Parth Galen e isso cavalgando no ritmo que vínhamos. Tonta e fraca como está teremos que diminuir a marcha.
— Se eu for com você no seu cavalo ou no meu não precisaremos diminuir a marcha tanto assim... Por favor, preciso desesperadamente sair daqui. Quando eu estiver em contato com a natureza recuperarei minhas forças e curarei minhas feridas... Por favor!
Legolas não estava gostando da ideia de correr risco com ela ainda atordoada, mas o jeito como implorava para que seguissem viagem o deixava impossibilitado de negar-lhe o pedido.
— Sem dúvida o amor faz as pessoas cometerem tolices... Pensou Legolas vencido.
— Está certo. Vou atender ao seu pedido, mas vamos para Parth Galen agora mesmo. Não quero perder tempo. Vamos tentar chegar ao anoitecer.
Ele organizou tudo e a levou em seu cavalo a sua frente vestida ainda com o camisolão. Confiscou suas armas para garantir que ela não tomasse nenhuma medida perigosa.
Kyara ficou um tanto aborrecida por ser tratada como criança, mas obedeceu. Realmente, ainda não estava em condições de fazer nada e sair daquele buraco a faria um bem enorme.
Assim, partiram.
Fale com o autor