A Força D'um Amor (+18)

9 Capítulo VIII - " O hino da amizade ou algo mais?"


Notas iniciais
Boas leituras!

Pedro apercebe-se e bate-lhe na cabeça. Entra na cozinha, e dirige-se ao frigorífico.

– Menino Pedro! Diga o que quer que eu lhe preparo – declara a empregada que fazia o almoço.


A cozinha tinha os azulejos brancos, com uma moldura na qual aparecem motivos propícios ao espaço. Tinha uma bancada em granito cor-de-rosa suave do cumprimento da parede, que levava à porta que dava acesso ao jardim. Esta divisão estava decorada com os móveis castanhos com os electrodomésticos dentro. O primeiro era um frigorífico, a seguir estava a banca com o microondas colocado em cima e o lava-loiça que levava ao fogão de seis bicos. Por cima, existia um armário no qual se arrumavam os pratos e copos. Pedro abre uma das portas do frigorífico cinzento e retira um jarro de sumo.

– Deixe-se estar, Rosa, eu mesmo sirvo-me. – Afirma o jovem sorridente.


Rosa era a cozinheira da casa Silva Lobo, tinha perto de cinquenta anos, trajava um avental branco e um uniforme azul-escuro só com os botões da parte detrás junto ao pescoço e a gola em folhos de uma malha preta. Pedro costumava fazer tudo sozinho sem ser preciso empregados.

– Ah menino…

– Diga Rosa. – Declara Pedro sorridente.

– A senhora sua mãe há bocado andava à sua procura – informa Rosa.

– Okay. Não deve ser nada de importante.

– Olhe que a Doutora Dora esteve a falar com o menino Tomás na sala.

– Obrigado Rosa. – Agradece Pedro com uma simpatia anormal.



Rosa vai buscar as cebolas dentro da arrecadação que se localizava no jardim nas traseiras da moraria dos Silva Lobo, deixando Pedro sozinho na cozinha. Este abre o armário por cima da banca de cozinha e tira um copo, sentando-se à mesa. Rosa regressa do quintal trazendo uma cebola na mão, dirige-se à banca e pega numa faca começando logo a cortar a cebola. Pedro olha-a enquanto deita o sumo no copo, e pensa coitado do Tommy isto é de mais para ele, ele ainda é novo de mais para estas coisas…

– Rosa, a Aurora está boa? – Pergunta Pedro.

– Sim, está sim senhor. – Declara Rosa.

– Ela ainda não ouve, pois não?

– Não, menino. Ela não ouve nada. Mete confusão que, ainda o outro dia, eu e o meu homem para a chamar para comer tivemos que gritar para aí umas trinta vezes. – Explica Rosa.

– Em que ano ela anda? – Inquire Pedro.

– Passou agora para o nono ano.

– Vai ver que tudo se resolve. Ela vai ouvir.

– Deus o oiça.


Aurora é filha de Rosa e Arménio, tem quinze anos. Anda na escola de Lisa Scott. É surda, a única coisa que ouve é a melodia das notas musicais.

Pedro prime a torneira, a água corre trémula, e lava o copo, limpa-o e devolve o seu lugar no armário. Sai da cozinha, atravessa a sala, pega na viola e põe-na às costas. Em seguida alcança o móvel à saída de casa, encostado há parede branca, e escolhe de dentro de um prato, no qual estão milhares de outros objectos, aquele que quer e mete ao bolso. Sai de casa, dirige-se para a garagem e tira a bicicleta para fora, monta nela e pedala o mais que poder rua a baixo. Pedala para longe, bem longe dali e Tomás, que saiu de casa atrás de Pedro, seguia-o na sua bicicleta à distância. Mas Pedro tinha presa em chegar ao seu destino e pedalava o mais que podia para longe, bem longe dali. Só queria estar com o mar, ele e o mar tinham uma estranha relação, quase considera o mar como seu pai. O jovem chega por fim há praia, põe a bicicleta trancada com uma corrente presa à renda da parede do muro e caminha em direcção à praia. O sabor do ar salgado, a brisa que provém do mar, todos estes factores eram, para ele, mágicos. Pedro vai ter com o mar e, quando chega, senta-se na areia. As ondas vêem-no cumprimentar, banhando-o. Pedro não se entendia, não entendia o porquê daquela aproximação ao mar. Uma espécie de água salgada escorre-lhe pela face e o jovem limpa o fio de água que corre pelas suas faces, os olhos azuis aparecem mais brilhantes. Tomás, por sua vez, alcança-o, põe-lhe a mão em cima do ombro.

– Tomás, como é que vieste cá ter? – Pergunta-lhe Pedro.

– Seguindo-te. – Declara o seu melhor amigo com um sorriso, sentando-se de seguida ao pé dele.

– Quero ficar sozinho, é tão difícil para ti compreenderes isso?

– Desculpa, Pedro – Pedro levanta-se – mas estás bem? – Pergunta Tomás, preocupado.

– Estou, acho que estou – Tomás ia-se a levantar para seguir Pedro, este porém põe-lhe um braço em frente – desculpa mas não quero estar só, preciso deste tempo para mim, entendes? – Balbuciou isto a custo.

– ok! Já vi que estás com a neura… – responde Tomás. – Mas que bicho te mordeu.
– Não foi nada… não se passa nada, eu é que estou cansado – Grita Pedro. – Apetece-me estar sozinho. Não posso?

Tomás não o entendia, não valeria a pena, ele conhece bem aquele Pedro, até bem de mais. Viu nos olhos de Pedro, que estavam baços e prontos a despejar a água que a todo o custo tentava conter. Tomás saberia de antemão a máxima de Pedro “um homem não chora!” e de facto, o Silva Lobo tinha dificuldades em mostrar os seus sentimentos.

Pedro afastou-se, subiu umas dunas com a guitarra na mão e foi para longe, para um lugar onde pudesse estar só, sozinho com aquele que considera que nunca o traem, porque as traições pertenciam aos seres humanos.

Pedro queria pensar, precisava de reflectir, necessitava de alguém que o fizesse totalmente feliz, afinal todos nós precisamos de uma companhia e Pedro carecia de encontrar um bom amigo em que pudesse confiar.

Despe-se e atira-se para aquele que, por agora, lhe parece ser o amigo mais fiel que alguma vez teve. Pedro nada sente a não ser a água salgada no seu corpo, e apraz-lhe sentir isso. No mar, chora, e as suas lágrimas misturam-se com a água que se agita de repente. A dor no peito de começa por desaparecer e algo no seu interior se modifica e Pedro acaba por se sentir feliz no momento em que, das profundezas daquele oceano, se solta uma voz.

Petrus salvans te, suus tempus? Extulit caput omne opus tu ... Sperabam vos multus.” – Profere o mar.

Salva-te Pedro, chegou a tua hora! Ergue a cabeça, e terás tudo o que precisas... Esperava-te há imenso.

Pedro regressa à praia, vestindo-se. Senta-se na areia e olha o mar confuso. Pensa no que se passou e como o mar acalmou a sua dor. Cada vez mais agitado, o mar forma ondas gigantes que se desfazem nas rochas.

Aparece uma figura metade homem e metade animal fora de agua, que é invisivel a Pedro, mas a sua presença causa-lhe dores de cabeça. A sua voz, mais fina do que qualquer um ser humano e impossivel de ouvir, ordena ao mar:

“Clausa! Suus non tamen tempore.”

Cala-te! Ainda não chegou a hora.

E pensa. Era tão bom que tu já tivesses o teu coração aberto, que não sofresses tanto com coisas fúteis nem com a minha presença que me pudesses ver. Mas serei paciente, saberei esperar. Até breve, meu bom Pedro. A enorme figura arrasta-se para um portal que se abre. Volta-se para trás e olha de novo para Pedro e diz, estarei sempre contigo. Sempre que precisares, ainda nos vamos conhecer e vai chegar a hora e o dia em que só confias em mim, que me pedes e me procuras com a tua dor, cravada no teu peito. O portal abre-se e a criatura desaparece.

Ao fim de algum tempo a dor de cabeça passa e os olhos de Pedro param de brilhar. O mar acalma-se e tudo volta ao seu lugar. Pedro pega na sua guitarra e começa a tocar uma linda melodia. A brisa leva as notas de para longe e o mar dança o seu ritmo. Pedro começa a cantar a sua música.


*


Lisa desce a rua dos Amores, não tem mais nada a fazer e atravessa a rua para o passeio da praia e entra nela descalça, as suas havaianas anda sob a areia, e ouve um som, alguém que canta. Movida pela curiosidade, Lisa segue a sintonia das notas musicais e avista ao longe, muito perto do mar, um vulto que parece que está a sofrer. Ainda tem medo mas algo, uma força interior, empurra-a para aquele estranho, uma voz que a chama. Lisa, como que hipnotizada, caminha descalça pela areia de uma praia deserta, uma imagem aclara o seu horizonte, um corpo de rapaz. Chega ao pé do rapaz, que está de costas, e poisa a mão no seu ombro.

– Eu já te disse para tu me deixares sozinho, Tomás! – Ordena Pedro.

– Não é o Tomás. – Declara Lisa.

Pedro volta-se e vê uma rapariga muito bonita. Nunca tinha visto uma menina tão bonita, com uma boca tão, tão, tão carnuda que lhe apetecia trincar. O jovem ficou encantado com a sua beleza e com o seu ar de mulher fatal, embora ainda fosse uma menina.

– Está tudo bem? – Pergunta Lisa.

– Sim está… só estou a pensar em acabar com tudo que me rodeia… – desabafa Pedro.

– Não faças nada que te arrependas… Luta, luta com todas as forças e verás que consegues…luta e consegues ser tudo aquilo que quiseres… seja qual for o motivo tudo se vai compor… irás ver que logo, logo todos os teus problemas têm uma solução.

– Quem és e como vieste aqui parar?

– Sou a Lisa e estamos numa praia … vim aqui porque queria pensar e não queria ficar em casa presa de comando na mão, todo o dia. E tu, quem és?

– Pedro Silva Lobo, prazer – faz uma ligeira vénia – o teu nome é tão lindo, como tu. – Lisa sorri para ele – o teu sorriso é muito bonito também. Costumas ser sempre assim?

– Assim como?

– Assim tão… tão… sei lá, faladora…

– Eu faladora? Eu? Ainda não falei nada… tu é que não paraste de falar…

– Não – diz Pedro irónico – aliás, tu ainda não falaste nada de nada, coitadinha – troça-a.

– O que estavas a cantar? – Indaga Lisa.

– Uma música minha… – Fala Pedro, gabando-se.

– Pois, tretas…

– A sério! – Tenta convence-la.

– Prova. – Desafia-o Lisa.

Pedro sorriu e pegou na guitarra, começando a tocar e a cantar.

Hoje eu vi

Algo de novo em ti,

E nos teus olhos vi

Que há algo de novo em mim


Não há tristezas,


Nem solidão,



Sim eu quero,


Sim eu espero,



E há noite peço aos céus


Que apareças cá



E te possa chamar meu amor.


Que felicidade é poder-te ter


Nos meus braços meu Amor.



Lisa acompanha o solo de Pedro com a sua voz e a música fica perfeita. Lisa levanta-se, e Pedro pega-lhe na mão a tensão existente entre ambos dá um choque.

– Fica aqui comigo… – pede Pedro ao levantar-se


– Não te quero chatear. – Justifica Lisa


– Não chateias

Notas finais
Boa Tarde!
Eu trago novidades neste novo capítulo. O relacionamento entre estes dois. Será só amizade? Ou Pedro encontra algo mais, aquilo que deseja?
O que sairá daqui?
Beijinhos,
Walk.