A Fornalha

1 Capítulo Único


– Ei papai – perguntou a pequena Cynthia – Porque está tão frio?

– Hum? A fornalha está acesa querida, não está frio. – disse seu pai enquanto virava as páginas do caderno de esportes.

– Ah…

Era inverno e seu pai costumava deixar toras pequenas ardendo em chamas dentro da pequena fornalha de metal. A fornalha lembrava o dorso de uma armadura medieval para uma pessoa gorda, com sua barriga enorme de cerveja e Bacon, preta e suja. Seu pai passava pouco tempo cuidando de sua manutenção e quando a lenha dentro de seu interior não ardia, uma brisa fria vinda do lado de fora, corria por dentro de sua tubulação fazendo-a ulular. Cyn odiava aquela fornalha.

– Papai é normal fazer este frio aqui dentro?

– Mas é claro filha. Estamos no inverno e a casa é velha. Papai jogou bastante lenha dessa vez, para nos manter bem aquecidos. Vá pegar uma blusa se estiver com tanto frio, mas garanto que você logo vai querer tirá-la. – Virou uma página do jornal e olhou por cima do papel para Cyn. Sua menininha estava crescendo, já estaria começando a sair do jardim de infância começaria a estudar no ensino fundamental.

Cyn caminhou devagar pela sala e passou pelo corredor e parou, lá estava ela, no fundo do corredor, sorrindo com aqueles dentes de metal sujos, convidando-a para chegar mais próximo e sentir seu calor, se aquecer num abraço. Cyn engoliu em seco, a saliva que parava em sua garganta e virou o corpo para subir a escadaria.

Cynthia…

Ela parou.

Cynthia. Estou. Com. Fome.

Ela fechou os olhos e subiu o mais rápido possível para o quarto.

Ela ignorava os chamados e pedidos que vinham do andar debaixo. A Fornalha implorava para que descesse primeiro, com chamadas vagarosas cheias de manha como se falasse com um pequeno animalzinho de estimação, depois vieram os gritos, depois os xingamentos. A Fornalha estava com fome e ela com frio. Sabia que por mais que quisesse a fornalha não iria parar de fazê-la sentir frio.

Precisava alimentá-la se quisesse se sentir confortável. Foi assim com os seus lanches que seu pai embrulhava antes de levá-la para a escola. Com os insetos do sótão, com o Sr. Mankis, o rato de estimação da escolinha primária e fora assim também com o Sr. Fluffles, o gato angorá de seu pai. Seu apetite parecia ficar cada vez mais voraz e seu frio mais cruel.

Era noite quando Cynthia desceu as escadarias, as vozes já haviam extinguindo-se, seu corpo tremia, seus lábios estavam azuis. Apenas frio. Isso é como ela via o dia a dia dela, passando frio enquanto outros se aconchegavam no calor. Isso deixava-a nervosa.

No último degrau, Cyn olhou para a Fornalha, ela estava quieta, a chama que antes queimava em seu interior agora não passava de uma simples brasa, apenas chiava como se toda a força vital estivesse esvaindo de suas entranhas, virando cinzas. A menina fechou os olhos e andou até a Fornalha, caiu de joelhos e olhou para dentro da janelinha.

– Estou morrendo de frio. Pare com isso Sra. Fornalha.

No escuro das cinzas, uma voz lenta e gutural sussurrava.

Fome. Me. Alimente. Frio. Passa.

– O que você quer comer?

Você. Saber.

Ela fechou os punhos, olhou para a escadaria e sorriu.

Isso. Me. Alimente.

George estava dormindo quando Cynthia abriu a porta de seu quarto, a luz do corredor e o barulho da dobradiça velha rangendo o acordaram. Ele levantou a cabeça do travesseiro e ela estava parada ao pé da porta, imóvel. Estava frio, as chamas deveriam ter apagado e as tubulações antigas da casa deveriam ter congelado a esse ponto, pensou George. Cynthia caminhou devagar em direção à cama de seu pai.

– Cyn? O que foi filha?

– Não consigo dormir, está muito frio papai.

– Vem, deita aqui na cama quente do papai, enquanto ele vê o que aconteceu.

George toca na mão de sua filha ao ajudar ela a subir na cama. Gelada, como a mão de um morto. Ele coloca os chinelos e beija a testa de sua filha, enquanto a cobre com a colcha. Igualmente gelada, como beijar um pedaço de gelo.

– Papai já volta.

Cyn apenas meneia a cabeça e grunhe uma afirmação, “Tudo bem”. George ergue seu corpo e sente o frio atravessando o pijama azulado. Saindo do quarto, deu uma olhada no termômetro preso a parede ao lado da escadaria, indicava – 4ºC.

– Deus, como foi gelar tanto assim? – George sentia o frio correndo pelo corredor, o assovio lamuriento das tubulações congeladas trazia uma sensação de desconforto mesmo andando pelo corredor aceso. Desceu e parou em frente à fornalha, abriu a portinhola de metal e olhou o conteúdo. Alguém parecia ter jogado água e apagado o fogo que havia lá dentro. As cinzas estavam semi congeladas, indicando que fora recente. Ele coçou a cabeça, confuso e virou para levantar e pegar mais lenha.

Ele não viu quando a faca de cozinha desceu em sua garganta.

Ela estava a alimentando, jogava pedaço por pedaço em sua boca de metal. Ela ouvia o barulho da carne de George estalar dentro de sua barriga metálica.

Acendendo lentamente o fogo que traria conforto, ouvia o grunhir dela, mastigando a carne cremada e o roer dos ossos carbonizados. Pouco a pouco satisfazendo-se, sua fome saciando e sua voz ficando inaudível. Estava indo dormir agora, ter seu sono de rainha. Enquanto ela abria, cortava e arrancava pedaços de George. Fizera o que ELA mandara.

Mas mesmo assim, sentia frio…

Notas finais
Espero que gostem, escrevi este pequeno conto numa tarde de inverno, com os dedos congelados e esperando inocente que o aquecedor a gás fizesse alguma mudança.

Nem preciso dizer que não adiantou.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!