A Forma do Amor
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Para minha amiga secreta da Liga dos Betas.
Te amo, espero que goste!
Te amo, espero que goste!
Eu estava rodeada de água, presa em mim. Como se o mar me tivesse atado em suas garras, girando-me de um lado a outro, tal como um crocodilo em seu ataque letal. Baltimore são apenas pontos desfocados de múltiplas cores, e enquanto afundava, a cidade em que fui criada tornava-se apenas… nada.
O frio gelava a ponto de doer meus ossos, já não me restavam forças para emergir em busca de ar. Baleada, o sangue fugia de mim, misturando-se à água. A pressão não passa de centenas de mãos sufocando-me, estrangulando-me, a falta de ar transformando-se rapidamente em pontos brilhantes de luz e nada além de uma sequência desesperadora de alfinetadas por toda a minha carne. Eu tentei deter o fluxo de sangue, mas ele teimava em escapar por entre meus dedos. Desfiz-me do roupão, que assim como os sapatos, flutuaram para longe. Era o fim. Estava pronta para permitir que a água fria entrasse em meus pulmões e acabasse de uma vez com toda aquela dor.Mas ele tinha outros planos, rodeando-me, tocando-me, abraçando-me enquanto brilhava inúmeros pontos de luz sobre mim.Então eu me deixei ir.~Deveria estar morta.No mínimo, dentro de mais um de meus sonhos estranhos, no entanto, sei que há vida pulsando em mim. De uma maneira desconexa, mas há.Enquanto observava meus cabelos dançando ao meu redor, agitando-se feito algas marinhas, o som de um cetáceo me deixou completamente desperta. Meus olhos não focalizavam nada muito distante, tudo o que podia distinguir eram formas e sombras. Era absolutamente assustador, e de alguma maneira, completamente pacífico. Enfim, eu estava em paz. Ainda sem qualquer certeza do que me aguardava, havia paz em meu espírito e amor em meu coração.A jornada seria longa. Àquela noite, despertei em meio a corais macios, tive medo de tocá-los, de destruí-los. Meus dedos podiam… não, eles não lhes fariam mal algum. Levei a mão ao estômago, ainda esperando sentir dor, mas não havia nada, nem um arranhão sequer de onde fui alvejada. A sensação era de que tudo aconteceu mil anos atrás, quando foram apenas alguns dias. Havia pouca luz, frágil, desvanecendo entre os reflexos nas pedras próximas.Occam era passado, e Zelda e Giles não saiam dos meus pensamentos, da mesma forma como a razão para tudo o que aconteceu ainda me deixar tonta, confusa. Foi como se toda a minha vida, desde o início, empurrasse-me nesta direção, para este momento, aqui, submersa entre corais e cardumes, eu era tudo, menos o monstro que sempre me julgaram ser enquanto eu crescia.Eu não estava sozinha, apenas desacompanhada naquele instante, eu tinha tanta fome.De repente, o que parecia ser um cardume de peixes brilhantes se revela como milhares de pontos de luz das escamas macias. Era como se eu pudesse contar com meu próprio farol para me guiar. Charley se aproxima como gostava de brincar, fingindo caminhar como se não houvesse água ao nosso redor, como se ele fosse parte de água, um homem-anfíbio. Ele moveu a cabeça, apontando para algo em suas mãos, algo que se debate tentando se desvencilhar, inutilmente.Posso distinguir os sons que Charley faz – sim, ele tem um nome: Charley, o Deus Brânquia –, cada nota musical em sua voz é completamente clara aos meus ouvidos. Ele se refere a si próprio como “nós”, e acho isso, de alguma forma, adorável. Tudo nele é, na verdade.Com sua palma larga, a que está livre do peixe, ele toca meu rosto. Ele ama tocar minha face. Parando diante de mim, tão nu quanto eu, não há mais frio. Embora, acostumar-me com as guelras reveladas a partir da cicatriz seja algo difícil, não poderia jamais me queixar do sabor que a água tem, o gosto sempre vindo suave em minha boca: morangos doces. Morangos doces e champanhe, quando ele me beija.Charley é selvagem também, ele arranca uma parte do peixe que levava e me oferece a carne, então comemos. Ele vinha fazendo isso desde que nos afastamos da costa de Baltimore… alimentando-me, cuidando de mim, mas em nada parecia retribuição por tudo o que aconteceu conosco. Havia algo de intenso em seu olhar, algo bom e mágico. Absolutamente fascinante. Queria olhá-lo eternamente.— A mulher que nós amamos precisa se lembrar. Nós vamos levar Elisa para casa, agora.Nunca compreendo o que ele quer dizer com essas palavras, pois eu não voltarei para Baltimore, ainda assim, ele me leva cada vez mais para longe. Eu não tenho qualquer meio de saber em que ponto estamos, mas Charley diz: sul, para casa.Tento dizer a ele que fui encontrada no rio, fui abandonada, mas ele ri. Um som forte que agita pequenas borbulhas ao nosso redor. Sempre ficarei impressionada ao perceber que ele possa ter milhares de expressões.— Elisa é linda.Charley sabia que não me sentia assim, ele percebia que não podia me ver daquele modo, passei tempo demais sentindo-me deslocada, não encaixando-me em lugar algum, todos eram tão diferentes… e isso nada tinha a ver com não poder falar. Pois, naquele momento, as coisas já não eram assim, mas velhos hábitos eram difíceis de deixar. Encarei minha pele sob a água, desnuda de roupas, de brilho, de escamas. Apenas couro fino, exposto, sem graça. — Charley é lindo. Charley é seu próprio sol.Mais uma vez, ele me tomou as mãos e seguimos, submersos, em meio ao oceano escuro. Não precisávamos, do que Charley chamava, “sóis artificiais”. Ele parecia conhecer perfeitamente o longo caminho sem o uso de lanternas. E quando era dia, emergíamos, brincando, salpicando água no outro, fazíamos amor e nos misturávamos à água, como se fôssemos parte dela… até que a temperatura mudou, os tipos de peixe mudaram, o clima estava diferente.
— Alguns chamam Amazônia, nós chamamos de lar, Elisa. Não há mais o mesmo povo do rio, povo do rio se foi.— Quem se foi, Charley? Sua família?— Povo do rio, amigo, mas nós temos Elisa, agora.Conforme adentrava pelos braços dos rios de água ainda salgada, turva e que me abrigava como carinho materno, aos poucos, embora eu lutasse contra as estranhas sensações, era capaz de me ver… ou melhor, se me imaginar ali, não naquele instante, mas em outra vida. Uma vida que não era a minha.— A mulher que nós amamos vai me ajudar a recuperar nosso lugar.— Por… por que me trouxe aqui, Charley?— Elisa precisa lembrar de quem é para encontrar seu povo.— Aqui? Meu povo? Não entendo.— Nosso povo não vive mais aqui, nós chamamos de lar e não há mais lugar para povo aqui.— Mas… eu ainda não entendo.— Sinta, Elisa. Tudo ao redor tem uma história para lhe contar. Elisa precisa lembrar.E como um clarão, eu soube. Admirando as belas escamas coloridas do meu príncipe, meu Deus Brânquia, meu amor.Ele não era a criatura. Eu era. Baltimore poderia ser minha cidade natal, eu nasci nos arredores daquele lugar tão pouco acolhedor, mas eu tinha uma família que não me deixou para trás. Algo aconteceu com eles. Aquelas cicatrizes eram nada além das minhas guelras, presas, fechadas, eles fizeram o possível para me manterem a salvo. Novamente, veio em meus pensamentos tudo o que passei até ali, uma época dolorosa de infância, nenhuma perspectiva, nunca ser boa o bastante, sempre menosprezada, julgada e posta de lado. Tudo o que aconteceu me fez encontrar Charley, o Deus Brânquia, meu amado.— Nós encontrar os outros, Elisa. Juntos.— Juntos.
Notas finais
Você pediu algo que tivesse acontecido depois do final do filme, mas eu não queria justamente "estragar" o final aberto, por isso não tivemos filhinhos e nem casinha feliz rs.
De coração, espero que tenha gostado ♥
De coração, espero que tenha gostado ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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