A Força do Amor
39 Sob o Domínio do Amor
Notas iniciais
Chegando ao castelo Elrohir se recolheu, mas Legolas ficou ainda um tempo no gabinete pensando na discussão com Kyara quando Glorfindel entrou.
— Ainda por aqui.
— E você, Glorfindel, visitou seus amigos?
— Sim. Não posso deixar passar a oportunidade de rever velhos amigos.
— Principalmente quando são amigas?
— O que é isso, meu amigo?... Tomando as dores do capitão?
— Não. Apenas tentando entender o que se passa.
Glorfindel calou-se um instante observando o príncipe a sua frente, ponderando sobre o questionamento feito.
— Não acha que está se metendo em algo que não deveria ser sua preocupação?
Legolas não respondeu, mas manteve-se firme diante do elfo guerreiro deixando claro que não desistiria do assunto, e Glorfindel suspirou profundamente.
— O que se passa é que seu amigo capitão foi covarde deixando uma dama como Mirhaniel prisioneira de um amor perdido... Respondeu demonstrando impaciência.
— Ele a ama.
— E o que falta para assumir esse amor?... O que sei é que ela sofre por ele. E vou lhe dizer mais: somente não a tomei como minha esposa porque sei que ela jamais será de outro. Teria que conviver com o fantasma do capitão em meu casamento ao ponto de tê-la em meus braços pensando se ela estaria ali comigo ou com ele. Tolo, covarde!... Apesar de não ter conversado com ele a respeito sei que seu compromisso com a segurança do reino o impede de se entregar ao seu amor... Fiz isso a minha vida toda, mas nunca surgiu no meu caminho alguém que me fizesse pensar diferente. Não é o caso dele... Ele é seu amigo, Legolas, então o aconselhe a tomar uma atitude e logo.
— Eu conversarei com ele.
— Faça isso... Bom, se me permite vou descansar um pouco quando ainda podemos... E o aconselho a fazer o mesmo. Sua esposa deve estar a sua espera. Boa noite!
Legolas permaneceu no gabinete até tarde da noite ponderando sobre sua situação com Kyara. A imagem dela parada na porta dizendo que partiria o torturava e as palavras de Elrohir não saiam da sua cabeça... – Devo arriscar e lhe dar a oportunidade de se mostrar mais uma vez a guerreira que é?... Glorfindel tinha razão. Nessas questões o melhor era seguir o coração. De que adianta impedi-la, temendo perdê-la na guerra. Magoá-la e perder o seu amor seria tão terrível quanto... Ponderou.
Ao se virar deparou-se com ela de pé no meio do salão.
— Estava indo falar com você agora. Sente-se melhor?
Ela apenas suspirou e desviou o olhar.
Ele caminhou na sua direção e ao se aproximar Kyara afastou-se para a janela, deixando claro que a conversa seria muito mais difícil do que imaginava. Ele trancou a porta do gabinete e sentou-se na cadeira do pai esperando que ela dissesse algo.
— Vim me desculpar pela vergonha que lhe fiz passar perante seus comandantes.
— Está desculpada.
— Antes de partir peço que deixe o colar que lhe dei.
— O colar de Gahya... Claro! Não sabemos o que pode acontecer. Será melhor que fique com você.
— Sem ele não poderei voltar para Tanusia.
Legolas empalideceu... – Você quer voltar para Tanusia?
— Penso que deva ser o melhor. Agora vejo com clareza que nossa convivência será sempre repleta de desentendimentos. Não posso deixar de ser quem sou. E se são incapazes de me aceitarem, então, o melhor a fazer é ir embora. Eu não quero viver aprisionada.
— Você enlouqueceu de vez? Não vou permitir que vá embora... Kyara brigamos, e foi horrível, mas podemos chegar a um entendimento.
— Não, não podemos. Você não confia em mim e nunca confiou. No fundo você sempre desejou que eu fosse frágil e incapaz. Fácil de controlar... Mas essa não sou eu e não vou aceitar ser tratada dessa maneira, sem ser considerada enquanto decidem por mim onde devo ficar e o que fazer. Você me conheceu livre, audaciosa, uma guerreira. Por amor a você tentei conciliar nossos costumes. Realmente tentei ser uma dama élfica e fazer parte desse povo... Ele a interrompeu.
— Nunca lhe pedi isso.
— De fato não me pediu. Disse que deveria ser eu mesma, e quando fui me rejeitaram.
— Você está tentando cometer uma loucura.
— Admito que seja muito arriscado, mas não uma loucura, e a questão não é essa. A questão é o respeito que deveríamos ter um com o outro e você não tem por mim. Não sou sua criada, seu animal de estimação. Sou sua mulher. Uma pessoa capaz de pensar e decidir por si só. Não aceito ter que pedir sua autorização para o que quer que seja, e, quando contrariado, me castigue, como uma criança malcriada se eu não o obedeço.
Ele se calou por um momento ponderando sobre suas palavras.
— Você está certa. Não posso tratá-la desta forma. Já brigamos antes por questões de confiança, pelo meu medo de perdê-la, pelos seus segredos... Eu a magoei pela segunda vez, mas no lugar de tentar resolver este impasse você simplesmente decide partir, como se tudo não passasse de uma aventura.
— Isso não é verdade.
— Então me diga: como você pode dar as costas ao nosso amor assim? Diz que vai partir, simplesmente, com tanto desprendimento. Da primeira vez você me mandou embora, agora você diz que vai embora. Está arrependida por ter se casado com um elfo?... Agindo certo ou errado eu nunca fui uma surpresa para você.
Legolas se demonstrou exasperado, sentindo a mágoa tomar conta do seu coração.
— Não lhe tiro a razão, mas você também não está demonstrando a menor vontade de lutar por nós dois... Ele fez uma pausa... – Você interrompe uma reunião para dizer que tem um plano infalível que destruirá a horda Orc. Vai se embrenhar pela mata sozinha pretendendo um feito inimaginável. Tudo isso numa região altamente perigosa que nem as minhas tropas se sentem seguras de patrulhar, e não estou me referindo aos Orcs somente. Como posso aceitar uma loucura dessas? Como vou saber se terá poder suficiente para tanto? Será que você não entende que é muito arriscado? Eu não posso perder você... Kyara nada disse. Estava magoada demais para falar qualquer coisa.
— Se partir é o que quer, então está aqui o seu colar... Disse ele arrancando-o do pescoço e jogando-o em cima da mesa. Ele se levantou e caminhou para a porta do gabinete abrindo-a com raiva.
— Quem sou eu para impedi-la de fazer o que deseja? Sou culpado por isso mesmo. Agora dou minha palavra de que não a impedirei de nada. Mesmo que seja para ir embora.
Kyara virou-se para ele com as lágrimas querendo vir aos olhos, mas manteve a postura. Caminhou firme para a mesa e pegou o colar. Depois foi para a porta e ao passar por ele hesitou um instante.
No momento que saísse daquela sala não poderia mais voltar atrás.
Legolas olhava para ela tomado pela raiva e pela mágoa.
— Da primeira vez que vivemos um impasse minhas noites foram de completa escuridão. Agora me condena a passar o resto da minha vida nas profundezas do mundo. Espero que, ao menos, você seja feliz.
— Eu apenas seguirei meu caminho... Ela olhou para ele... – Viverei triste e só, mas para onde vou sou respeitada e considerada... E saiu da sala seguindo para o quarto.
Legolas bateu a porta logo que ela passou. Caminhou até a janela e olhou o jardim com pensamentos conflituosos e angustiados.
— Acredito na força desse amor, então porque é tão difícil nos entendermos?... Superamos tantas coisas para ficarmos juntos e agora tudo se resume a um adeus?
Ele repassou sua vida com ela, as declarações de amor que fizeram, a cumplicidade dos dois, o companheirismo, o quão importante e intensa era a intimidade deles, não somente a intimidade de corpos, mas de almas devotas que se conheciam e se completavam.
— Como as coisas chegaram a esse ponto? Voltei para casa pensando unicamente em tê-la nos braços, sentir o toque delicado das suas mãos, ouvir o som da sua voz, receber seus cuidados e agora estou vendo minha vida se acabar... Se somos um só de corpo e alma, porque a razão nos falta?... Teimosia, orgulho?
De súbito ele foi tomado pela fúria.
— Ela não pode partir e eu não permitirei. Farei aquela mulher insolente se lembrar do que está pondo a perder.
Kyara entrou no quarto desolada e olhou em volta, pensativa. Circulou pelo ambiente relembrando momentos passados ali e foi para a varanda tentando saber da sua vida de antes e tudo lhe pareceu fazer parte de um passado tão distante.
— Parti de Tanusia com uma missão que me fez deixar tudo para trás sem o menor arrependimento. Agora vejo que não posso simplesmente voltar... Nunca mais a companhia dele, o calor do seu corpo, seus carinhos, nossa música, nosso amor, as noites que passamos conversando sobre coisas e pessoas, aventuras que vivemos... Não precisarei mais resolver qual será o jantar e se falta manteiga ou farinha, se as reservas de vinho são suficientes... Saber como estão reagindo os pacientes na casa de cura ou me preocupar se as plantações vão atender a demanda do reino. Não terei mais as minhas tardes com as meninas falando de recortes de tecidos e quais cores usarei para um novo bordado.
Ela sorriu entristecida.
— Não cantarei para o rei e nem servirei chá com biscoitos no lanche da tarde ouvindo histórias sobre os eldar e nem minhas leituras no gabinete com Idrial.
Pensar na sua vida a deixou ainda mais angustiada e uma lágrima rolou pela face.
— Aqui é a minha casa, minha felicidade está aqui.
Kyara suspirou sem saber o que fazer. Havia decidido por uma vida nova e agora estava diante de um impasse.
— Como posso saber que estão lá fora na floresta morrendo para nos defender e não fazer nada para ajudar? Querem que eu tenha uma conduta obediente, mas como deixar de ser Kyara, guardiã e sacerdotisa?... Não! Não posso esquecer minha herança e minhas raízes. Eles não têm o direito de me impor à vontade deles... No entanto, como voltar? Não sei onde conseguirei forças para seguir em frente e partir... O amor que Legolas dedica a mim me é mais caro. É o que de fato me faz feliz... E por isso mesmo não posso vê-lo perdido numa guerra insana.
De repente a porta abriu, violentamente, e Legolas entrou no quarto bufando.
— Se pensa que se livrará de mim assim tão facilmente está muito enganada. Sei que sou um estúpido e não lhe dei o devido respeito, mas eu a amo. Amo justamente porque é teimosa, abusada, rebelde, independente demais.
Dizia caminhando na direção dela, que tomada pela surpresa ficou paralisada sem reação. Ele a agarrou pelos braços e a trouxe para junto de si.
— E como se não bastasse ainda é a criatura mais linda desse mundo. Quero que olhe nos meus olhos e me diga, com todas as letras, que vai realmente me deixar. Vai embora e transformar o nosso amor numa simples história?
Engolindo em seco, ela não conseguiu responder.
A intensidade daquele olhar azul cheio de revolta e indignação a intimidava.
Legolas ficou surpreso com a expressão de vulnerabilidade do rosto dela e percebeu que somente não caia no chão porque ele a segurava firme, aguardando por uma resistência que não ocorria.
Seus lábios cheios e vermelhos entreabertos foram mais do que um convite para que ele se afogasse naquela boca. E ao fazê-lo, sentiu-se caindo num precipício agarrado a ela enquanto a beijava com fúria. Kyara ganhou vida novamente nos braços de Legolas e o enlaçou pelo pescoço.
Como um amor tão quente como o fogo e poderoso como o mar revolto poderia acabar assim?
— Diga que não vai sentir a minha falta depois que partir... Que todo o amor que lhe tenho não tem mais importância para você. Diga e eu lhe provo que é mentira.
Disse ele sussurrando em seu ouvido, entre beijos e carícias. E parou de súbito, encarando-a.
— Mas... Se sua teimosia for maior do que o nosso amor e ainda assim você partir, então será a minha ruína porque não saberei viver sem você. Eu preciso das suas mãos que me acalmam, do seu olhar que me entende tão bem, do seu carinho, do seu sorriso, do som da sua voz, do calor do seu corpo, que me espera todas as noites... Não menti para seu pai quando disse que você é a minha vida e o meu mundo, Kyara.
Ela não suportou mais aquela tortura e seus olhos inundaram-se.
— Não posso partir... Porque não consigo lhe dar as costas. Eu... Eu nem sei por onde seguir. Esperei dia e noite pela sua volta e fui tomada pelo pavor de te perder.
E ela deixou que as lágrimas corressem livres.
— Me perdoa... Legolas, eu... Não posso viver sem você. Minha vida está aqui e eu preciso do seu amor mais que tudo, da sua compreensão... Partilhamos tantas coisas, nos completamos de tal forma, que, mesmo cercada de gente, sem você é o mesmo que estar só no mundo.
— Somos dois tolos insanos querendo brincar com um sentimento que nos domina por completo... Pertencemos um ao outro e nada vai mudar isso.
— Eu quero o seu amor agora antes que o dia chegue e o leve para longe de mim mais uma vez.
Por conta da angústia e da saudade que sentiram nos dias que passaram longe um do outro e o temor de se separarem, o amor dos dois em nenhum momento foi tão urgente quanto aquele.
Arrancando a túnica de Legolas, Kyara esfregou o rosto no peito dele aspirando seu cheiro. Ela voltou-se para ele com os olhos verdes esmeralda semicerrados de paixão, e Legolas se sentiu tragado pelos carinhos dela.
As roupas foram arrancadas sem que os lábios se descolassem, as botas dele repisadas e chutadas e tudo mais ficou jogado e esquecido no chão. Kyara abandonou-se às carícias do seu marido latejando de desejo quase dolorosamente.
Legolas debruçou-se sobre ela prendendo as mãos dela acima da cabeça, que mantinha os olhos fechados e a boca entreaberta. A beijou ao mesmo investindo fundo em seu íntimo num único movimento, e parou sentindo as entranhas quentes e macias o devorando, pulsando de prazer.
O êxtase os dominava e Kyara expressava em sons essa entrega e ele, mais e mais, intensificou seus movimentos, forte e profundo, ouvindo gemidos já gravados em sua memória, sem perceber que também eram os seus próprios gemidos.
Amaram-se com desespero, como se quisessem espantar para sempre o medo de se perderem, para depois arrebatarem-se, não possuindo, mas entregando-se inteiramente fazendo-os um.
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