A Força D'um Amor (+18)
31 Capitulo XXX – O Mundo Inteligível
Notas iniciais
*
As estrelas estão cada vez mais perto na cabeça de Tomás e ele adormece com estes pensamentos. O céu está escuro sobre a terra, as nuvens permanecem sólidas e do outro lado das nuvens estará certamente um mundo totalmente novo, um mundo onde existe paz, igualdade, liberdade.
A cinco mil quilómetros das negras nuvens que dão relevo à terra, considerados por muitos o teto do mundo, existe uma outra cultura.
Existe uma sala, toda ela pintada de branco e revestida a nuvens brancas e azuis, num enorme espaço, que leva a uma entrada para um túnel escuro, por onde vão entrando acorrentados. De um outro portal que se forma sai uma criatura com penas pretas, dois chifres escarlates, um nariz pontiagudo e bigode mal arranjado. Até à cintura era composto por escamas. Tem uma cauda e está nu, com cabelos esgadelhados e nojentos. A língua era semelhante à de uma cobra. Por onde passa deixa um rasto de destruição. Entra num túnel muito escuro com a ajuda de uma forquilha.
– Símias! Símias… – Chama com a sua voz forte e prepotente – Onde estás, preciso de falar contigo, Símias!
O túnel vai dar a um local luminoso. Os acorrentados que o atravessam gritam de pavor, susto e dor, que aquela criatura transmitia. À sua passagem, ia deixando um rasto de fogo e de destruição, provocado pela sua cauda, mas também de calor. Este calor originava uma espécie de porta que levava a uma claridade. Aquele ser entra num espaço com um altar, bancos, e um cais com nevoeiro. Uma Entidade, com umas asinhas nas orelhas e nos pés, poisa aos pés daquele Ser horroroso.
– Demócritos? – Admira-se, mas fala-lhe docemente e sempre com um sorriso simpático no rosto – O que é que vens aqui fazer? – Relembra – Sabes que não podes entrar no túnel, regras são regras.
– Mitisfoy! – Reconhece-o Demócritos e fala-lhe com má cara – Não quero saber de regras nenhumas, podes chamar o Símias.
– Ainda que mal pergunte, porquê eu devo obedecer?
– Pensas que o assunto não é realmente importante? Pensas que eu tenho a coragem de vir a este sítio terrível se não fosse relevante? Não tenho prazer nenhum em andar assim pela rua. – Brada aquele Ser monstruoso.
– Ai, ai, ai! Que Heraclito não vai gostar nada de saber que… – coça a cabeça
– Quero que Heraclito … – interrompido por Mitisfoy — Olha o que é que tu vais dizer, estamos no limite…
– Se dane. – Conclui Demócritos com olhos em brasa. – Fogo, Mitisfoy, eu só quero falar com o Símias prometo, Ele não tem que saber.
– Pensas que Heraclito nunca saberá? Bom, mas nem é esse que me preocupa, o que mais me incomoda é o criador. – Explica Mitisfoy. – Mas pronto, para arrumar a conversa vou, chamá-lo. Assim, sempre poderás voltar ao teu mundo, e fazeres o que fazes lá. – Mitisfoy passa pelo Limbus, uma espécie de porta de ouro e voa, pelo ar, em busca de Símias. Um grupo de cavalos alados com um chifre branco na testa e com asas que lhes permitissem voar, passa e:
– Olá! Viram o Símias?
– Não, Mitisfoy, mas deve estar com Cebes.
– Ah, e onde é que está Cebes?
– Pois, isso não a vemos… Bom, boa busca! – Os cavalos alados seguem o seu caminho, e Mitisfoy continua à procura de Símias.
Ouve-se no ar a música de outras criaturas, pássaros levantam voo e as árvores erguidas às alturas clamavam hinos de glória e glorificavam o seu criador. Mitisfoy encontra uma clareia com plantas hirtas às alturas. Os ramos verdes, vergavam na sua vaidade e esplendor. Vê um indivíduo de olhos postos na água de um lago fabricado momentaneamente, e poisa ao pé dessa Entidade.
– Símias.
– Olá Mitisfoy! Como é que sabias?
– Esqueceste-te do meu poder?
– Ah, pois.
– Eu sei que isto que te trago vai contra todos os nossos princípios, mas é que Ele está no Limite e quer falar contigo.
– Hum, hum. O Demo? – Pergunta, assustado.
– Sim, esse.
– Ah! Tudo bem. Eu vou lá, então. – Informa-o Símias.
Levanta, as asas de Símias, esticam e ele levita, deixando o chão.
– Mas, e, e, o, Ele?
– Deixa que Ele já deve saber.
– Pois, e se perguntar?
– Diz-lhe a verdade, não vais mentir por minha causa.
Símias sai para uma sala. Demócritos já o esperava. As asas de Símias encolhem e este empurra uma pesada porta. Entra numa sala revestida a nuvens que contem um cais. A água cristalina e calma banha a madeira do cais e as embarcações dão ao porto.
– Demócritos? O que é que me queres?
– Quero, quero, já sabes o que quero.
– Não, isso não posso fazer…
– O Pedro vai morrer e eu vou ganhar.
– Não, ainda não… Para tua informação, eu cuido do Pedro, e todos aqueles que me são confiados nunca te são entregues…
– Meu querido, nada nesta eternidade é fiável…
– Eu sou e todos que acedem ao paraíso também… Já tu…
– Sim, mas tu nunca viveste, porque confias assim tanto no Pedro?
– Ele é meu amigo, é um dos nossos…
– Mas caiu!
– Está só a completar a sua missão e sim, por amor a Lisa, caiu.
– Eu cá gosto mais do meu Sérgio, não sei, tem mais a ver comigo. Ele vai conseguir matar Pedro de uma vez. O Pedro já te consegue ver? Sentir…
– Não, Demócritos, enganaste e não, o Pedro não me consegue ver nem sentir. Mas um dia vai conseguir, eu sei que sim.
– Um dia, quando?
– Não sei.
– Pois eu ainda vou matar Pedro.
– Não! – Grita Símias – não era isso que estava combinado, Pedro tem que escolher entre o bem e o mal, e voltou para amar. – Brada Símias.
– Adeus. Daqui a dias nós falamos.– Demócritos sai com um sorriso na cara, nunca ele soube o sabor da vitória e parece ter derrotado Símias.
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