A Força D'um Amor (+18)

17 Capítulo XVI  Os Negócios Clandestinos das Socied


O carro preto avança mais no interior do bairro, passa por várias casas degradadas e outras com as paredes grafitadas até que alguém surge e o faz parar, abrindo a porta e apontando uma arma à cabeça.

- Quem és, e o que queres?

- Não respondo.

O evento chamou muitos curiosos que assistiam à chegada ao bairro daquele homem engravatado que parecia um polícia.

- Eu estoiro-te a puta da cabeça.

A maioria dos presentes censurava as atitudes do homem, o som abundante das vozes que se ouvia não faziam com que o homem pensasse muito numa forma de se salvar a si próprio. De facto, ele era corajoso, talvez por não saber com quem lidava, via o inimigo como uma cambada de pretos que não tinham mais nada para fazer na vida a não ser aterrorizar as pessoas que passavam e que queriam entrar naquele bairro.

- Pára – ordena a Filomena – dispersem, não há nada para ver.

- Obrigado. – Agradece o homem que foi salvo.

Apesar de Filomena o ter salvado, a sua curiosidade aumenta.

- Quem és, engravatadinho?

- És tu a que mandas? – Gagueja o homem, que recupera do susto.

- Depende, vieste só?

- Sim vim…

- Agrada-me.

- Eu preciso saber quem manda aqui.

- És bófia? – Pergunta Filomena.

- Não. Porquê?

- Porque não tens aspecto de seres como nós…

- Acho que tenho um negócio que vos poderá interessar. – Acrescenta o homem com pouca coragem.

- Que negócio é esse? – Quer saber Filomena.

- O negócio da China…

- Primeiro, como é que te chamas?

- Chamo-me Sérgio e tu?

- Sou a Filomena. – Responde-lhe com um rasgado sorriso – E sim, sou eu quem manda aqui. Anda comigo.

- E o meu carro?

- Deixa-o aí, ninguém vai fazer nada ao teu popó. – Os dois andam a par para o interior do bairro, passando por ruelas estreitas – Sabes Sérgio aqui todos habitamos em harmonia à base da confiança – até que chegam a uma casa caiada a branco – entra – Sérgio entra na casa e vê uma mesa com quatro cadeiras. Filomena senta-se numa – senta-te.

- É aqui que tu vives?

- Não. É onde trabalho.

- Ah, ok.

- Mas vai directo ao assunto, por favor, não quero perder muito mais tempo contigo.

- Bom o que me trouxe por cá foi o facto de isto ser um bairro, o pior bairro de Lisboa, e um bairro assim costuma ter negócios ilegais, percebes?

- Nós não temos negócios ilegais.

- Não…? – Sérgio está surpreendido.

- Prefiro antes chamar-lhes fora da lei. Mas continuando…

- Bom, eu sou amigo do Touro. Ele disse-me que vocês negociavam em droga é verdade?

- Só entre nós – diz baixinho e aproximando-se de Sérgio – sim é verdade.

- Ah bom! Eu precisava de droga. Olha, pago bem.

- Não sei porquê, mas estou a gostar de ti. – Pausa – e para que queres a droga não tens aspecto de seres um drogado, tens aspecto de seres político. E bom, a um político não convém certos assuntos. Não sei se fui clara o suficiente?

- Foste, foste mais do que clara.

- Quanto queres de droga?

- Ai uns doze quilos.

- Ah, ah, ah e tu pensas que eu tenho isso tudo?

Sérgio não gosta que o tratem por tu, no entanto ele e Filomena chegam a um acordo, e ele compra a droga Sérgio regressa ao carro e chega a casa.

*

Dora só consegue pensar em Sérgio. Há tanto tempo que ele não dormia em casa, que viviam numa crise conjugal. Sérgio, antes do nascimento de Pedro, era um marido exemplar e um óptimo pai para os seus dois filhos mais velhos. Tratava-a bem, ele dormia sempre em casa, chegava cedo, “quem me dera poder voltar a confiar em Sérgio, afinal ele é meu marido” pensa Dora “Se bem que ele continua bem feito…” quando de repente “não posso acreditar, Dora, o Sérgio bate-te, ele é um monstro, ele deve ter feito alguma coisa a Pedro, agora por falar em Pedro ele já deve desconfiar de que este não é parecido nem tem nenhum traço do Sérgio” engole em seco lembra-se “ ai meu Deus e se ele descobre? Estou perdida.” Levanta-se e em seguida veste o roupão e desce as escadas para a sala. Ao mesmo tempo, Sérgio entra em casa.

- Olá Dora, meu amor. – Sentindo que a reconciliação está para breve – Então a enxaqueca? – Pergunta preocupado.

- Olá Sérgio, a enxaqueca passou. – Declara Dora dando-lhe um terno beijo – muito obrigado por perguntares e por te preocupares tanto comigo – dando um abraço a Sérgio – Quero dizer connosco, comigo e com o Pedrinho, tens sido um pai exemplar.

*

Em casa de Lisa, ela própria também estranha muito a sua situação. E está muito preocupada pois cada vez sente mais fome, e enjoos, tonturas, sono e desmaios até desarranjo intestinal. Lisa está sozinha em casa, a Pipa foi para o teatro, com Sónia… Lisa aproveita para sair de casa e sozinha ir à farmácia.

Lisa apaga a televisão e sobe as escadas a correr, como sempre. Em seguida entra no seu quarto e pega na sua mala. Estende o cabelo e desce. Já no primeiro andar, Lisa verifica se leva tudo, abre a mala e olha; tem o telemóvel, a carteira com o habitual cartão de crédito, bem como algumas moedas, um caderno onde escreve algumas coisas importantes, como por exemplo, alguns compromissos e algumas listas de livros a comprar ou a procurar, uma caneta e um par de óculos pretos.

- Acho que está tudo – declara ao fim de algum tempo, enquanto calça os seus ténis preferidos – Ah! Já me esquecia, pois claro, faltam as chaves de casa… – caminha até ao móvel que está junto ao sofá da sala, tira de lá o seu porta-chaves e em seguida abre a porta e sai.

O dia está solarengo, muitas pessoas andam nas ruas, muitos carros buzinam nas pontes e viadutos.

O senhor Augusto vem à janela.

- Boa Tarde, Senhor Augusto. – Acena Lisa, enquanto fecha o portão.

O Senhor Augusto é vizinho de Sónia Valentim, tem mais de oitenta anos, está reformado e casado com a Senhora Clotilde, que é uma coscuvilheira, e mete o nariz em tudo e dá a opinião acerca de tudo, mesmo que não lha peçam.

- Boa Tarde, menina Lisa Scott, então não dizia nada? – Cumprimenta o Senhor Augusto.

Lisa abre a mala e retira de lá os seus óculos de sol, e põe-os nos olhos e desce a rua pelo passeio. De repente pensa, espera e se eu fosse à praia? Pode ser que encontre lá o Pedro… ahm não Lisa, aquele betinho outra vez não, por favor, ele é um menino do papa.

*

Sérgio espera até que seja tarde o suficiente… dirige-se ao escritório, pega no telefone e marca o número de Tomás.

- ‘Tou.

- Olá Tomi… Temos muito que falar… – informa Sérgio.

- Agora, Tio? – Inquire Tomás, que ainda estranha o tom amistoso de Sérgio.

- Sim de preferência, preciso da tua ajuda… – Declara Sérgio que tenta a vantagem, mais uma vez, pois este sempre pensara que Tomás era um fraco e, acima de tudo, um arrogante e um prepotente…

- Ok – Responde Tomás – só se prometer que desta vez me conta onde o Pedro está! – Propõe o mesmo. Na qualidade de melhor amigo de Pedro, o seu desaparecimento preocupava-o imenso ainda mais ao ver a inércia com que Sérgio trata do assunto. Era preocupante.

Agora Tomás pode ver finalmente o despeito e a vergonha que Pedro causa, a destruição do mundo que ele causa a seu redor. Pedro não é boa companhia, tal como Sérgio refere.

- Hum, talvez não seja preciso contar… – e desliga.

- Tio, não me tente enrolar.

Um silêncio infernal seguiu-se, Tomás desliga o telemóvel muito preocupado com Pedro.

- Está lá. Tio. – Chama o Tomás, mas aquele silêncio que se segue é um terrível e assustador som contínuo – Desligou. – Tomás prime a tecla e fica bastante confuso ponderando as duas hipóteses de fazer a vontade a Sérgio e ir a casa dele ou de não a fazer, uma vez que Sérgio pensa que poderá manipular as pessoas. Tomás decide por fim em ir a casa de Pedro, mas se Sérgio o enrolar novamente, ele está disposto a cortar relações com o pai de Pedro.

Tomás sai de casa e desce a rua até casa de Pedro. Em frente ao portão, Tomás pondera em não entrar, porém toca à campainha. O portão abre de par em par, ele entra, o portão electrónico fecha atrás de si e abre-se de imediato a porta principal de casa.

Entra, pisando o lindo motivo de um lobo feito na tijoleira brilhante à entrada da porta. Sérgio vem recebe-lo à sala.

- Olá Tomi, bem – vindo a casa – anuncia, com um ar amistoso.

- Boa tarde! Vamos falar, tio?

- Vamos! Vamos aqui para a biblioteca.

*

Lisa entra a porta da farmácia e tira uma senha numa máquina electrónica que está ali logo à entrada. Fica com o número sessenta e cinco. Lisa senta-se num banco e lê uma revista enquanto espera pela sua vez. D. Isilda, D. Noémia e D. Clotilde são três senhoras já na casa dos setenta anos, reformadas, que vivem economicamente confortáveis mas gostam muito de uma boa fofoca. D. Isilda era viúva, o seu marido morreu novo, bom rapaz que, na flor da idade, cumpriu orgulhosamente a sua vida de militar; tinha apenas vinte e cinco anos quando prestou o juramento de bandeira para confrontar um dos militares mais audazes que a história da humanidade tive o desprazer de conhecer, Hitler, ou melhor Adolfo von Hitler. António Zimerman foi chamado a prestar juramento de bandeira pelos aliados e, no seu acto mais heróico, ele morreu num campo de batalha em Achwitz, a 1 de Maio de 1945.

Deixando Isilda só, nunca mais se casou, não amou outro homem na sua vida senão a ele. António era o único homem que a fazia brilhar, que a fazia sentir segura, apesar de serem dez anos de diferença. Casaram-se quando Isilda completou os quinze anos, com consentimento dos pais da menor, foi uma festa esplendorosa. Logo no dia seguinte ele teria que se apresentar ao exército para uma partida militar. Porém um filho nasceu, António teria deixado Isilda grávida. António, seu filho, tinha agora sessenta e sete anos, parecido com o seu pai. A mãe, Isilda, só quer saber de revistas cor-de-rosa, sabe muito sobre a vida dos famosos, enfim uma mulher beata.

D. Noémia é viúva há um ano, Artur não aguentou o cancro nos intestinos que o ceifou da vida. A sua filha Isabel morrera num acidente de carro, ao lado daquele que a amou. É uma mulher bastante liberal, devido aos inconstantes encontros entre o casamento dos netos, Maria é casada com Pedro Antunes ou melhor divorciada três vezes, agora parece que se entenderam tem dois filhos com Pedro.

Notas finais
Beijinhos, até à próxima :)
Anne