Em seguida aproxima-se da banca para colocar o pão na torradeira e fazer o sumo de laranja. Põe as torradas com manteiga num prato pequeno e o jarro de sumo em cima da mesa e dirige-se ao átrio:

- Lisa, desce, vá, são horas. – Grita Pipa.

A Lisa está sentada na cama a pensar no que se passou naquela noite, na discussão que os pais tiveram e sente que a sua vida vai mudar a partir dali daquele dia. Não sabe como mas acha que irá sofrer alterações. Basta para já o seu pai não ter dormido em casa e se separar da sua mãe. Nunca mais terá os pais juntos, isso não acontecerá nunca mais e de certa forma aquele ambiente deixava-a nostálgica. Era uma nova situação para a qual ainda não estava preparada. Lisa levanta-se e vai tomar banho e reflecte em tudo e tudo lhe causa imensa confusão. Dirige-se para o quarto onde se veste e se calça. Em seguida desce as escadas e entra na cozinha.

- Cá estou eu – diz Lisa à entrada, com um belo sorriso na cara.

- Ah, filhota, que bom… – declara Sónia, dando-lhe um beijo na cara.

Lisa senta-se no seu habitual lugar. Não estava para conversas hoje, nunca estaria mas este dia seria especial em tudo.

- Lisa, que tens? – Pergunta Pipa muito preocupada com a rapariga e estranhando o facto de ela não dar os bons dias como habitualmente o fazia.

- Não é nada, Pipa, só tenho sono.

- Sabes que tu tens que manter o ritmo e as horas de acordar e de deitar como se estivesses em aulas. – Comenta Pipa.

- Sim eu sei. – Diz Lisa enquanto deita um pouco de sumo de laranja no seu copo e põe manteiga na sua torrada.

- O que vais fazer hoje? – Pergunta a Sónia.

- Vou à praia. – Depois reflecte melhor e acaba por responder. – O que é que tu tens a ver com isso?

Pipa e Sónia olham uma para a outra. E as três ficam em silêncio. Comem, a Lisa bebe metade logo de seguida, e fica com um ar pensativo.

- Que lindo dia está hoje, não é Pipa? – Pergunta Sónia com a intenção de pôr termo ao silêncio mórbido entre as três.

- Sim, é verdade Sónia. – Concorda a Pipa.

- Sabes, estava a pensar em ir às compras. – Propõe Sónia.

Lisa está absorta em pensamentos quando algo a faz despertar ela não podia com tanta hipocrisia por parte da mãe em planear uma ida ao shopping em vez de querer saber de Scott. Será que mais ninguém se preocupava com ele naquela casa.

Lisa resolve romper o silêncio, sobre o assunto que rodava Scott:

- Mumi, onde está o papi? – Questiona Lisa.

- Lisa, o pai foi-se embora – explica Sónia.

- E então porquê? – Inquire a filha

- Teve que ser, filhota… – declara a mãe.

- Tu nem me digas que ele já se encheu de ti… – Troça ela.

- Lisa Maria Valentino Scott! – Ralha Sónia. Lisa já estava a subir as escadas.

Uma paisagem verdejante, uma rotunda e um arco do Triunfo. Ao longe começa-se a ver a Torre Eiffel um casal de namorados passeia de mão dada por entre as montras da cidade de Paris. Ele é de estatura baixa com um capacete na mão e de mochila às costas. Com o cabelo preto e cortado curto, trajava umas calças de ganga e uma camisa coberta com um blusão ao passo que ela era alta, loira e tinha os olhos azuis. Trazia um capacete na mão e uma mala às costas, vestia um vestido e um casaco de ganga, falava mal português.

Manuel Guerreiro era um rapaz simpático que só queria fazer parte de uma banda. Tinha talento. O pai era empresário do ramo de alta-costura, trabalhando com os grandes empresários de moda. Manel, como todos lhe chamavam, orgulhava-se do pai que tinha e queria ser como ele em tudo. Um bom pai mas, acima de tudo, um excelente marido. A irmã de Manel é a Sarah, tem oito anos. É a irmã que Manel quer proteger sendo a sua predilecta. Manuel tem dezasseis anos.

- Manel, mon amour, rentrer avec moi… — pedia-lhe Natalie.

“””- Manel meu amor volta comigo para casa…”””

- Não dá, Natalie – mexe-lhe no cabelo – ma mère est chez lui.

“””- Não dá Natalie, a minha mãe está em casa”””

-Oui – concorda a Natalie- Je t’aime.

“””- Sim – concorda a Natalie – Amo-te.”””

Natalie é uma francesa, filha de um empresário que dá trabalho a Miguel Guerreiro, o pai de Manuel. Este gosta muito de Manuel, e aprova o namoro, dando a sua bênção para se casar com sua única a filha.

Na câmara de Lisboa Sérgio chega e a secretária fala com ele:

- Sérgio Silva Lobo… – Sérgio abre bem os olhos e olha para a funcionária – Quer dizer, Senhor Doutor, tem aqui a sua agenda para hoje.

— Oiça bem – poisa as mãos em cima da secretaria – Eu ainda sou o Vereador desta câmara e você é uma reles funcionária por isso, meta-se no seu lugar, imediatamente. Se não quer ser despedida, Mafalda.

Em seguida, Sérgio entra no seu gabinete. Era uma sala espaçosa, com estores de banda num rosa muito claro, que se confunde com o branco das paredes, sobre a janela voltada para a Avenida do Campo Grande, a mais movimentada de Lisboa. Ao lado de um pequeno vaso branco, com uma planta dentro, uma cadeira preta almofadada conjugava-se com uma mesa de madeira com o tampo envernizado. O chão era coberto por uma tijoleira e sobre a secretária estava uma pilha de dossiers sobre projectos que necessitavam de um despacho para dar andamento.

Sérgio senta-se na sua cadeira, encosta-se elegantemente para trás e põe os pés em cima da mesa a ler o primeiro ficheiro. Liga o computador e põe-o a trabalhar. Posteriormente, lembra-se de Pedro. E retira os pés de cima da mesa, senta-se como deve de ser, arrasta a sua cadeira de Rodas até ao telefone e marca uma sequência de quatro números. Do outro lado da porta toca um aparelho. A secretaria atende:

- Mafalda pode chegar aqui, por favor. – Pede Sérgio.

- Com certeza, Doutor. – Poisa o telefone.

Em seguida levanta-se e bate à porta de Sérgio, espera cinco minutos e recebe ordem afirmativa. Abre a porta e entra.

- O que deseja? – Pergunta Mafalda.

- O meu filho não está aí? – Questiona Sérgio

- Qual deles, doutor? – Duvida a funcionária

- O Pedro, sua imbecil. – Sérgio cospe as palavras rebaixando Mafalda.

Mafalda respira fundo. E conta até dez.

- Não senhor, não está. – Responde por fim.

- Então chame-o com urgência, eu quero falar com ele, peça para ele vir aqui imediatamente. E não quero desculpas, senão despeço-te. – Declara Sérgio.

Mafalda Soares é solteira e é a secretaria da câmara de Lisboa, sempre conheceu Sérgio Silva Lobo e sabe previamente que o casamento de Sérgio e Dora é só de fachada para aparecer nas capas das revistas como um casamento feliz rodeado pela mulher e pelos seus três filhos.

*

Dora dava instruções aos empregados para preparar o almoço. Não sabia se Sérgio viria almoçar ou não, e não sabia se Pedro iria acordar a tempo. No quarto, Pedro ainda dormia na cama, e Tomás no chão. Pedro abre um olho e depois outro e vê o tecto de uma casa, não se lembra de se ter deitado, olha em volta, e reconhece o seu quarto, não se lembra de nada o que fez na noite anterior nem de ter ido dormir apenas uma brutal dor de cabeça o denunciava, o que lhe era estranho, Pedro boceja, sente-se cansado até que olha de relance para o chão, e vê Tomás o seu fiel amigo e companheiro a dormir ainda, olha para cima da mesa-de-cabeceira encostada à parede e vê uma garrafa com água, estende o braço e alcança-a, desaperta a tampa e deita água por cima de Tomás com o intuito de o acordar:

- Quantos são? – Tomás ergue o punho pronto a bater em alguém. Pedro ri da figura de Tomás – Então meu? Isso, são maneiras de se acordar alguém?

- Xiu – reclama Pedro, e afasta a roupa de cima dele – dói-me a cabeça – diz Pedro já em pé dirigindo-se rapidamente para a casa de banho, pois parecia uma mulher grávida.

- O que tens? – Pergunta Tomás preocupado com o amigo.

Pedro não responde, entra na casa de banho abre o tampo da sanita e ajoelha-se no chão vomitando em seguida para dentro da sanita. Tomás ouve os urros de Pedro e o líquido a cair dentro da sanita levanta-se muito devagar e também ele se dirige à casa de banho, mas não entra, encostando-se à ombreira da porta a ver a destruição de Pedro, quando por fim resolve perguntar-lhe:

- Então estás melhor?

- Tomás eu sou o grande Pedro Silva Lobo nada me destrói… logo isto também não me vai destruir – Responde Pedro todo vermelho.

- Precisas de ajuda? – Pergunta-lhe Tomás ainda abismado com a arrogância de Pedro.

- Ajuda? Para quê? – Pergunta Pedro pondo-se em pé, e indo lavar os dentes.

De repente ouve-se o telemóvel de Pedro a tocar

– Atende tu – diz Pedro entregando o telemóvel a Tomás.

- É a Mafalda – informa-o – É melhor seres tu a atender, Pedro – diz, entregando-lhe o telemóvel.

Pedro ainda está enjoado mas já não vomita e atende a Mafalda com sublime indiferença.

- Olá Mafalda pode dizer ao meu pai que não faço nada do que ele me mandar… – é interrompido por Mafalda.

— Bom dia Pedro, eu vou-lhe dizer isso, mas é que sabe, o senhor doutor Silva Lobo mandou-me que o chamasse para falarem aqui na câmara.

- Não vou, não me apetece, ir qualquer assunto tratamos logo…

- E então o que é que digo ao senhor seu pai?

- Isso que eu lhe disse agora mesmo, bom tenho muito gosto em a ouvir mas tenho que desligar, passar bem.

- Pedro escusas de responder assim à Mafalda – repreende Tomás.

- Porquê? – Pergunta Pedro – Eu sei que ela não tem culpa mas o meu pai tem – acrescenta Pedro.

Tomás há muito que queria chamar Pedro à razão só que não sabia como

- Pedro, não achas que estás a beber demais?

- Como, Tommy?

- Eu aconselho-te a parar de beber pois já não é a primeira vez que tu te embriagas.

- Ai, oh Tommy, tu és tão chato! – diz Pedro fechando a torneira, – Com licença – Passa por Tomás entrando no seu quarto e na sua cama.

- Está um dia bonito – diz Tomás, abrindo as cortinas do quarto de Pedro e deixando o sol entrar – não vais estar na cama e ver o dia a passar, pois não? Vá, levanta-te, vamos à praia, vamos jogar Voleibol, vamos ver as miúdas em biquini. – Tomás tenta convencer Pedro, só que em vão, pois o sono deste é enorme.

- Tenho dores de cabeça.

- Isso é lá desculpa para te deitares, vá, levanta-te, tomas um banho, comes que isso passa – diz Tomás, que tenta convencer Pedro a não ficar todo o dia na cama.

Pedro estava cada vez mais cansado, a sua cama parecia que gritava aos seus ouvidos para que ele se deitasse. Pedro não resiste.

— Tomás, o que é que eu fiz ontem? – Pergunta Pedro ainda sentado encostado ao catre e coberto com a roupa de cama até à cintura.

— Tu? Ontem bom, eu telefonei-te e convidei-te para sairmos, quando cheguei tu já estavas bem atestado… – é interrompido.

Tomás volta as costas para Pedro.

- Sim e depois? – Pergunta Pedro ansioso.

- Depois fomos ao Barhaus. Era a noite do DJ Lewis.

- Espera, o Lewis não é família daquela… daquela actriz muito boazona.

- Sim como é o nome dela?

- É qualquer coisa Alvarenga.

- Joana?

- Sim, é a Joana Alvarenga, exacto. Mas continua.

- Onde é que ia? – Pergunta Tomás.

- No DJ Lewis… – recorda-o Pedro

- Então logo que lá chegamos, tu deixaste-me, sentaste-te ao balcão e começaste a beber ainda mais, conheceste uma mulher que meteu conversa contigo e tu só te sabias rir e disseste-lhe que não estavas bêbedo e que ainda sabias fazer o sessenta e nove – Pedro cora um pouquinho, baixando a cara e deixando-se escorrer até se deitar na cama. – Ela começou-te a beijar. – Informa-o Tomás, caminhando em direcção há janela e sendo atraído pela claridade.

Pedro estava muito entusiasmado mas encontrava-se deitado e aproveitando o facto de Tomás estar mais próximo da janela e por isso não o ver.

- E depois?

- Depois, como eu estava muito cansado, fui chamar-te. Tu ainda resististe, mas acabei por te convencer e quando tu por fim te levantaste, caíste – Pedro sente-se cansado, tanto que não sabe como ele próprio ouve o Tomás ao longe e a voz do amigo não é clara. Pedro adormece deixando Tomás a falar sozinho – Eu ajudei-te a levantar e tu abraçaste-te a mim, e viemos para fora quando chegamos cá fora tu tornaste a cair e como és mais alto do que eu, deixei-te vir de gatas para casa. Passamos pela rua e tu vieste sempre a par de mim, só que de gatas, até que chegamos a casa viemos logo para o quarto. Subiste as escadas a quatro, Pedro, e eu ajudei-te a despir e a deitar-te na cama, tapei-te com roupa … – Tomás vira-se para a cama, e vê que Pedro adormecera em quanto o ouvia a falar. Aproxima-se da cama de Pedro e resolve tentar acordá-lo.
— Pedro, Pedro – chama-o sem sucesso. Pedro vira-se de costas para Tomás – desisto. – Diz, furioso com a atitude de Pedro. E dirige-se para a sala.
Pedro suspirava num sono profundo, tornou-se a voltar de encontro há luz da janela mas não acordou. De repente, Pedro estava num local cheio de areia e, com a sua guitarra ao lado, começa a tocar.


— Isto é que é vida.


Havia sol, e estava muito calor, o mais estranho é que não havia ninguém naquele espaço mas estava a ser bem tratado. Até que chega uma rapariga alta e bonita e começa a dançar ao som da sua música. A cada movimento que fazia com o corpo seduzia-o, por fim ele levantasse da areia que estava sentado e vai dançar com a rapariga mas, por mais estranho que parecesse, cada vez que lhe toca esta acaba por se escapar, e cada vez que a tenta beijar acaba por lhe fugir, até que por fim a rapariga lhe diz ao ouvido:


— Anda atrás de mim, tenta apanhar-me…


E corre, escondendo-se atrás desta rocha ou atrás daquela. Pedro acaba por a conseguir agarrar e beija-a intensamente. As suas bocas unem-se e as suas línguas tocam-se.
Pedro acorda com um sorriso de orelha a orelha mas olha em volta e vê que está no seu quarto não vê a rapariga. Pensa que o sonho se deve ao mau estar e aos factos evidenciados no dia anterior.



Lisa abre a porta do seu quarto e entra, uma terrível sonolência apoderando-se dela. Lisa é incapaz de resistir e sente-se tonta, vê a imagens turvas e o quarto a andar à sua volta em imagens duplas, o que a obriga a palpar os objectos antes de se sentar ou até de andar. Lisa senta-se na sua cama e sente o corpo a desfalecer, as articulações ficam sem força e ela acaba por adormecer.


Vê-se a ela própria à beira de um muro, ao longe ouve o som das gaivotas, o som do mar e o som de uma guitarra, Lisa resolve ir até ao mar, mas o mais estranho é que tem medo a grandes quantidades de águas, mas algo no seu íntimo a conduz até lá e Lisa deixa-se levar pelos sentimentos e caminha por cima da areia escaldante de uma praia deserta, até que encontra o que anda à procura, um rapaz que até é bonito, alto e de olhos azuis que pareciam de cristal, duas pedras preciosas que davam de beber aos dela. A princípio é estranho mas Lisa acaba por dançar ao som da sua música até que o rapaz se levanta e vem dançar para o pé dela. Esta foge, começando a correr e, em seguida, o rapaz apanha-a. Os dois cantam e por fim beijam-se, a sua língua tocou na dele e acariciavam-se dentro da boca alheia.


Lisa acorda e não vê o rapaz olha em volta e reconhece o seu quarto e pensa que o sonho tem a ver com a terrível discussão entre os pais na noite anterior.