A Fonte

5 Capítulo 5-Botando ordem


Dormi um sono sem sonhos, estava muito cansada, parecia que andei quilômetros e mais quilômetros. Aos poucos comecei a lembrar sobre os últimos acontecimentos, querendo acreditar que havia sido imaginação. Precisava levantar e trabalhar.

Segunda feira sempre começa com a reunião da diretoria, quase todos passaram seus finais de semana viajando, então as primeiras horas são cada um contando vantagens do lugar onde foram. Um querendo mostrar mais do que o outro. Quando começarem a falar da pauta da semana, já é quase hora do almoço que deve estender ate as três horas da tarde. Provavelmente terei de reunir a minha equipe e decidir qual será a ordem da semana e depois ouvir as cobranças.

Talvez me atrase hoje, pelo menos uma vez posso fingir que tive um final de semana “divertido” também.

Quem sabe o Robert me convide de novo para sair e possamos ir ao show da Vanessa da Matta, quem sabe eu vá ao shopping e compre um par de botas igual a da Gisele Bündchen... ou brincos de esmeralda ...

– Mãe... acorda mãe...

– Kim? O que você esta fazendo aqui? Mas...eu...continuo aqui? Não deu certo? Não voltei para casa?

– Mãe, que casa mãe?

Olhei em volta, eu ainda estava no quarto de Anne e as duas crianças me olhando eram a prova disso.

Ken desceu logo, a mãe estava doida de novo para ele. Mas Kim estava com olhinhos chorosos tentando entender o que eu tinha dito.

– Oi querida, está tudo bem? A mamãe precisa trabalhar, quer dizer eu acho que seu pai precisa ir trabalhar.

Desci logo depois, Carl estava dando a mamadeira para o filho caçula.

Sentei e ele me olhou como se estivesse esperando a minha reação de hoje: a doida, a legal, a raivosa, a chorona..., a esposa... Espera um pouco, aonde ele dormiu?

Olhei para o sofá e havia um travesseiro, lençol e cobertor, acho que já fazia um tempo que ele dormia lá.

– Hum... deixa eu adivinhar, hoje teremos no café da manhã: Tcham...tcham...tcham...tcham...

– Pão com leite! – gritaram as crianças.

Carl ficou com o rosto vermelho e eu fiquei com pena dele. Ele fazia o que podia, então ficou mais esperançoso e disse:

– Se...se...vo...voce fizer uma uma lista... eu...eu...compro as co..coisas e trago a noite.

– Sim, mas antes eu tenho que fazer uma coisa.

Subi de volta e liguei para a Anne.

– Anne, não deu certo. Acho que precisa que nós duas façamos o pedido. Você tem que vir aqui em Jacarandá. Precisamos trocar e....

– Quem disse que eu quero trocar?

– O que você esta dizendo? É a sua família, você tem filhos pequenos!

– Ju, eu nunca fui tão feliz na minha vida. Tenho a minha mãe de volta. Tenho um armário cheio de roupas bonitas, tenho jóias e perfumes e vários cartões de crédito com meu nome neles.

– Essas coisas são minhas! Eu conquistei, eu trabalhei duro para tê-las!

– Mas você desejou um marido e filhos!

– Sim, mas não o SEU marido e os SEUS filhos!!

– Bom, não posso fazer nada, eu tenho exatamente o que pedi.

– Anne, devolve a minha vida. Volta para Jacarandá AGORA!!!

– Não.Vou aproveitar mais um pouco, você viu como é a minha vida aí, não viu? Vou ficar com a sua mais um pouco.

– ANNE!

– Uma semana, eu te peço uma semana, sabe o Robert? Ele me ligou ontem perguntando se eu queria viajar com ele. E eu aceitei, uma semana em Paris. Nós vamos a “serviço”, se é que você me entende.

– Não, você não pode fazer isso. Você é casada!

– Não, não sou. Eu sou solteira. Você, sim. Você é casada. Tchauzinho!

– ANNE, não faça isso!!!

– ....................

Céus, pensei, ela é uma insana, totalmente insana. Ela não pensa nos filhos? Fiquei com muita pena deles e depois se voltarmos, o que será que eles vão achar desta mudança repentina da mãe deles? E o Carl, eu ainda não sei o que aconteceu com ele, como fazer para descobrir sem que ele perceba que eu não sei nada sobre os últimos anos?

Fiz uma lista de compras para agüentar uma semana sem enlouquecer.

– Aqui está, minha lista.

– Deixa eu ver: café, arroz, feijão, macarrão, queijo, ovos, manteiga, laranja, banana, mamão, carne, frango,..., cenoura, alface, tomate,..., shampoo, cotonetes,..., creme para mãos,..., ves...vestido de meni...na...na, meias de menina,...??? Mas...mas esta lista é...é muito grande e... vestido?

– Sim, não sei se você percebeu, mas você tem uma filha e não três meninos.

– Cla...claro que sei que a Kim é uma menina, mas...por...por enquanto ela po...pode usar as roupas do Ken e...

– Por que?

– Ela a...ainda é pequena, quando for a es..esco...cola eu compro roupas de me...meni...nina, fo...foi vo...voce quem di...di...sse isso – dizendo isso quase sussurrando e abaixou a cabeça.

– Mudei de idéia, então ela é menina e vai se vestir como menina.

– Eu... eu... não posso com...comprar tu..do isso.

– A comida você pode? Pelo menos o básico? Café, arroz, feijão...

– Sim...sim...eu trago a no...no...noite.

– Ok, vou fazer uma sopa com os restos do jantar de ontem.

– Eu, vou ten...tentar vir mais ce...cedo.

– Você... poderia... deixar o dinheiro comigo e eu faço as compras. Que tal?

– Ah... não posso... vo...voce pode...gastar com...com...

– Não, eu não faço, eu juro. Prometo que por uma semana vou comprar somente o que a família precisa. Façamos o seguinte, você me dá um valor e eu trago a nota fiscal de tudo que eu gastar.

Ele hesitou um pouco, olhou para as crianças que estavam prestando bastante atenção na cena.

– Bom...vou...vou deixar vinte reais.

– Só isso? – e estendi a mão.

– To...tome, mais doze reais e quaren...quarenta centavos. É tu...tudo que tenho na cartei...ra.

– Perfeito, e também devo dois tomates, temperos e dois limões para a Maggie. Você pode pagar a ela depois? – e dei o meu melhor sorriso cínico.

Carl foi trabalhar e fui ás compras com as crianças. Paguei com gosto cada item e exigi nota fiscal. Resolvi organizar a casa começando pelo quarto do casal. Afinal eu dormia ali. Eu não suportava a bagunça. Embora o Carl dormisse na sala, o armário com a maior parte das suas roupas ficava no quarto. O lado dele até que estava mais ou menos organizado, mas o dela estavam misturados, espalhados pelo quarto, pelo chão, em caixas. Ela tinha vários moletons em diferentes cores e estampas, incluindo personagens da Disney. Achei vários vestidos, alguns bem vulgares, curtos demais ou decotados demais.

Encontrei quatro secadores de cabelos ainda em caixas fechadas. Comecei a desconfiar do porquê o marido não deixava o dinheiro com ela.

Que ela fumava escondida e também bebia era obvio, mas acho que ela tinha outra mania.

Ao lado da casa havia uma garagem bem grande, cabia facilmente a caminhonete, mas ela estava sempre estacionada na calçada. Resolvi olhar a garagem com a Kim me seguindo e desta vez o Ken veio junto puxando o irmãozinho.

– Misericórdia! É uma acumuladora compradora compulsiva!

– Mãe, o que é acu...cu...? – perguntou Kim.

– É o que a mamãe é – respondeu Ken.

A garagem estava lotada de caixas e mais caixas de produtos ainda embalados. Havia algumas coisas velhas também, mas a maioria estava em caixas fechadas. Muitas roupas, sapatos, aparelhos domésticos, bijuterias, maquiagem, quadros, estatuas, CDs, muitas bugigangas e até um aparelho de aparar pêlos do nariz. Curiosamente não havia brinquedos. Teria de verificar cuidadosamente. Ela devia comprar pelo telefone e receber pelo correio. Não tinha certeza, como ficaria mais uma semana, por enquanto deixaria como estava, assim pensava.

Ken estava indo para dentro, com certeza para ficar na frente da TV de novo, então eu falei:

– Ken, o dia está bonito e você deveria brincar mais ao invés de ficar só vendo televisão, você não tem amiguinhos?

Ele me olhou com raiva e depois quase chorando foi correndo de volta para casa.

Kim veio e segurou a minha mão. Kon ficou deitado e começou a rolar no meio das caixas.

– Senhor, o que mais está acontecendo aqui?- pensei.

Os dias passavam e a rotina acabou se instalando. Carl dava o café da manhã para as crianças e saía para trabalhar. Eu cuidava da casa e tentava conversar com a Maggie para ver se descobria alguma coisa sobre a vida de Carl e Anne.

Ela sempre sorria e dizia:

– Quem bom que você veio!

Falávamos sobre o tempo, de como as crianças crescem depressa, de como nada muda na cidade. Então, um dia, Maggie perguntou se eu iria na missa no próximo domingo. Respondi que sim, seria o meu ultimo dia em Jacarandá, embora eu pressentisse que Anne não iria voltar.

No sábado, Carl ganhou o dia de folga, então deixei ele com os meninos.

– Hoje vai ser o dia das meninas, eu e a Kim vamos sair um pouco.

– Aonde vocês vão?

– Surpresa.

Carl havia relaxado um pouco e não cobrava mais as notas fiscais. Ele tinha comida quente ao chegar em casa, suas roupas estavam limpas e passadas e as crianças estavam alegres e o recebiam na porta todas as noites quando voltava do trabalho.

Consegui juntar um pouco, achei que Kim merecia um tratamento especial, resolvi levá-la a um salão de beleza.

Cortei o cabelo dela e prendi uma presilha bem delicada. Havia visto um vestido bem bonito na loja e comprei para ela.

Ela estava radiante, andava dançando na calçada enquanto voltávamos para casa, só não consegui fazer com que ela deixasse o travesseirinho de lado. Aliás, ele tinha nome: Gigi.

Chegamos em casa e Ken olhava-a como se eu tivesse trocado a irmã por outra criança. Mas o olhar mais comovente foi do pai dela, ele olhava a filhinha com lágrimas nos olhos e sorriu para mim, um sorriso de gratidão. E pensei:

– Eu nunca tinha reparado que ele tinha os olhos tão bonitos.

As três crianças tinham os mesmos olhos azuis-esverdeados do pai. Anne tinha olhos e cabelos castanhos. Ela sempre dizia que compraria lentes de contatos em várias cores para usar uma cor diferente a cada dia.

No domingo, Carl preparou as crianças para irem a igreja e eu disse que iria também. Ele pareceu preocupado.

– Vo..voce tem certeza de que quer...quer ir?

– Sim, combinei com a Maggie.

Procurei um vestido decente e fomos.

Foi difícil, todos olhavam para nós e eu sabia que era por minha causa, ou melhor da Anne. Maggie veio ao meu encontro:

– Querida, que bom que você veio!

Dentro da igreja, sentamos no fundo e as pessoas olhavam para trás e sussurravam umas para as outras. Comecei a me sentir mal e queria sair dali.

O padre fez um sermão sobre arrependimento e perdão ao próximo, acho que foi de improviso.

Mesmo com essa situação, Carl não me abandonou. Cumprimentava todos e sorria. Perguntava sobre vários assuntos e as pessoas respondiam meio constrangidas por me verem mas eram educadas com ele.

Eu queria fugir, mas ele não deixou. Segurava a minha mão e não largou. Aquela era a esposa dele, fazia parte da vida dele e querendo ou não... as pessoas tinham que aceitar.

Maggie veio ao nosso encontro:

– Hoje é o dia do almoço comunitário, vocês não querem ficar?

Eu não queria, a situação não parecia amigável para mim e eu não queria estragar o domingo dessas pessoas. Além disso, precisava voltar para casa e torcer para que a Anne aparecesse para irmos á fonte. Carl me olhava pedindo uma opinião. Então percebi que faltava uma das crianças.

– Onde está o Ken?

Perguntamos a todas as pessoas e um garoto disse que o tinha visto atrás da igreja. Corri e ele não estava, mas vi um vulto de criança com jaqueta marrom correndo em direção a nossa casa. Fui atrás e chamei:

– KEN... KEN...

Ele parou e olhou para trás.

– Espera, o que aconteceu?

Enxugou as lágrimas, estava todo sujo e com alguns machucados. Parte das suas roupas estavam rasgadas como se tivesse sido puxado. Era óbvio que havia apanhado dos meninos. Não disse nada, mas eu sabia, sabia o porquê dele não ter amigos para brincar e preferia ficar em casa vendo TV. Provavelmente os outros meninos deviam maltratá-lo por causa de sua mãe e do pai. Ele deve ter defendido a “honra da família”.

– E aí... você também bateu bastante? Revidou que nem o Karatê Kid?

Ken me olhou como se dissesse:

– Quem é você? Um ET de outro planeta?

Ele sorriu e só disse:

– Hum...hum...

Eu sei que não devia incentivar uma criança a brigar na rua, mas eu estava ficando farta disso tudo. Acho que se eu visse a Anne agora, também pularia em cima dela e dava uns tapas.

Fomos para casa e no caminho, Carl nos alcançou. Ele dia dizer algo para o filho, uma bronca com certeza, mas eu balancei a cabeça em sinal de não. Respirou fundo e disse:

– Ok, que tal se gente fosse para a outra cidade para almoçar?

– Como? – eu disse.

– Por...porque não? Lá tem um parque de diversões, as crianças vão gostar. O que vocês acham?

– OBA... eu quero! — disse Ken, já havia esquecido tudo.

– Eu também – disse Kim, feliz da vida.

Kon não disse nada, ficou pulando e rindo junto com os irmãos.

Almoçamos e depois eu e Carl ficamos sentados na grama debaixo das arvores enquanto Ken e Kim brincavam. Eles corriam de um brinquedo para o outro rindo e Kon dormia no colo do pai.

Quase comentei que poderíamos mudar para cá. Eu poderia arrumar um emprego e ele também. As crianças poderiam ir para a creche e Ken já deveria estar na escola. Mas não era a minha família.

Chegamos quase de noite e as crianças caíram exaustas na cama. Nem sinal da Anne, enquanto Carl estava no banho, liguei para ela.

– Anne, onde você está?

– ...oi...nao estou...te ouvindo. Tá muito longe...

– Já passou uma semana, você disse que voltaria...

– Eu estou longe... estamos...onde é que a gente tá Bob?...Budapeste...é qualquer coisa peste.

– QUANTO TEMPO VOCE VAI FICAR VIAJANDO?

– O Bob disse que uns três meses pela Europa...

– O QUE? E que negócio de Bob é esse?

– Ah sim, ele me pediu em casamento na frente da Torre Eiffel, não é lindo?

– Lindo uma ova... e o Carl? Como ele fica?

– Você se preocupa demais, quando destrocarmos é você quem vai estar noiva do Bob. Ele é bonito, rico e vocês terão filhos bonitos.

– PÁRA de dizer besteiras, isso está errado. Anne pensa bem, isto não é...é ético, isto é imoral...é pecado!

– Minha querida... tem certas coisas que você é obrigada a fazer que não é mais pecado. Você vai aprender.

– Como assim...o que você fez Anne? Me conta por favor...

Ela havia desligado e agora sim, eu tinha certeza de que ela não voltaria, nunca mais.

Carl entrou no quarto:

– Oh,... me...me des...culpe. Não...não...sa..sabia que que estava..aí. Vou só pe...pegar as minhas rou...roupas.

Ele estava só de toalha e com os cabelos molhados. Magro, mas tinha os músculos nos lugares certos. Não era como o Robert que freqüentava academia e fazia questão de mostrar o braço e perguntar: — Ju, olha se eu estou forte.

– Ah...sim. fique a vontade. Vou descer e guardar a louça.- e saí rápido.

– Tá maluca? Que louça?– pensei. Nós almoçamos fora e lanchamos a tarde no parque. O que está acontecendo comigo? Pára com isso! Ele é o marido da Anne. Mas a Anne roubou o seu namorado e está noiva. Quer dizer, não que o Robert seja meu namorado. Não... não vou fazer isso. Não posso!

– July, está tudo bem com você?

– Sim...sim...claro.

Subi correndo e me tranquei no banheiro. Liguei o chuveiro e dei a descarga ao mesmo tempo e gritei. Gritei de raiva e de tristeza. Precisava desabafar, decidir o que fazer agora, pensar no que fazer a partir de agora. Talvez a Maggie pudesse me ajudar.

– Um bazar?

– Sim, Maggie. Tem um monte de coisas na garagem que só ocupam espaço, quero vender tudo e o que não vendermos, eu quero doar.

– E o Carl? O que ele acha disso?

– Ainda não falei com ele, por isso preciso de sua ajuda. Será que as pessoas daqui virão comprar, você sabe... se tratando de mim...

– Vou conversar com o padre e as minhas amigas da associação. Se eu conseguir convencê-los de que você mudou e quer fazer algo de bom para a sua família, elas vão apoiá-la. Temos uma reunião hoje á noite, vou falar com elas.

– Legal! Maggie você é a minha única amiga. Você confia em mim?

– Você sabe que o Tobias ainda esta relutante, ele é como um segundo pai para o Carl. Mas... eu não sei explicar... mas desde o sábado passado, eu vi você de forma diferente, como se fosse uma outra pessoa. E também vejo como o Carl e as crianças estão felizes. Então, eu confio em você.

– Obrigada, Maggie!

Segurei a sua mão e ela me abraçou, eu precisava disso.

Maggie foi convencer as senhoras da comunidade na reunião:

– Ela está mudando, precisamos dar uma chance.

– Esta moça é uma ...ai, nem me atrevo a falar. Coitado do marido.

– Sim, vocês se lembram, foi por causa dela. Ela acabou com a vida do rapaz.

– Senhoras, senhoras. Vocês não percebem? Algo mudou. Ela mudou, é só prestar atenção.

– Maggie, Maggie, você sempre vê com os olhos cor-de-rosa.

– Além disso, pau que nasce torto, morre torto.

– Vocês lembram da mãe dela?

Começaram um burburinho.

– Senhoras, nós viemos aqui para falar em ajudar o próximo, em perdoar a filha pródiga. Então, não seria o momento?

– Está bem, Maggie. Mas você vai supervisionar?

– Certamente.

Agora, convencer o Carl.

– Vo...você vai fa..fa...zer o o que?

– Um bazar, você sabe, igual aqueles que aparecem na TV.

– Mas... tem cer...certe...za que não vai... vai se arre..pen...der e com...com...prar tudo de...de novo?

– Bom, com o dinheiro quero comprar outras coisas. Mas pensei em algo para a casa.

– Eu sei que...nao está como...vo...voce queria. Eu...eu ganho...muito pouco...

– Está tudo bem...vai dar certo. Deixa eu ajudar?

Me deu vontade de abraça-lo, mas eu não podia. Vê-lo tão impotente foi muito triste.

Decidi separar todo aquele caos, havia coisas velhas que nem a caridade aceitaria. Separei em coisas vendáveis, caridade e lixo.

Escolhemos um sábado, o tempo estaria bom e Carl poderia ajudar. Até as crianças queriam participar. Achei que se decorássemos com balões coloridos e servíssemos bolo e sucos, atrairíamos mais compradores.

Ken ficou empolgado, já havia visto vários programas deste tipo, quis fazer cartazes indicando o bazar.

Maggie veio cedo com dois bolos e trazia Tobias consigo para ajudar. Ele ainda não confiava em mim, mas faria qualquer coisa pelo afilhado.

Já eram quase dez horas e ninguém aparecia. Ken teve uma idéia.

– Vamos até a estrada, quem sabe alguém vem.

– Calminha aí rapaz, você não vai para a estrada.

– Ah pai...

– Ei, ele tem razão- disse eu. — Vamos fazer um cartaz grande e colocar na estrada.

Assim fizemos:

“GRANDE BAZAR DE JACARANDÀ, TUDO A PREÇO DE BANANA, PODEMOS NEGOCIAR O PREÇO, LIQUIDAMOS TUDO”.

Esperamos mais uma hora.

– Mãe, mãe, tem um carro vindo!

Eram turistas de passagem e vieram por curiosidade, gostaram dos preços e principalmente dos bolos, pois estavam com fome. Levaram cinqüenta reais em produtos,

Logo depois vieram outros carros e vendo a movimentação, os moradores começaram a aparecer por curiosidade e depois começaram a comprar.

Decidimos que a partir das quatro horas iríamos vender tudo por cinco reais e as quatro e meia por dois reais, o restante iria para a caridade.

Ás quatro e cinqüenta já havíamos vendido tudo e Ken me cochichou:

– Mãe...

– Oi...

– O Seu Tobias comprou aquele aparelho de tirar pêlos do nariz, ele esperou até abaixar o preço para dois reais e comprou. Acho que ele deixou escondido para ninguém levar e depois colocou para vender.

– Sério? Bom...- não agüentei e comecei a rir

– Há,há,há...Agora vamos contar o dinheiro, traz a caixa.

– UAU! Nunca vi tanto dinheiro!- disse Ken.

– Vamos lá... um... dois...dois mil e quatrocentos e setenta reais, mais noventa e cinco centavos.

– Pai, o que a gente vai comprar?

– Ken, o dinheiro é da sua mãe. Ela decide.

– Nós temos prioridades... O que mais precisamos é de ...

– UMA TV NOVA!

– Eu sinto muito, eu sei que aquela é pequena, mas eu acho que precisamos de uma geladeira e uma maquina de lavar roupas. Depois com o que sobrar compraremos roupas e sapatos novos para vocês. Precisamos de roupa de cama e depois eu vejo. Tudo bem assim?

– Eu preferia uma TV.

– Na próxima, filho, na próxima.- E Carl fez um afago no cabelo do filho.

Na segunda feira, Carl compraria a geladeira e a maquina de lavar e traria na caminhonete. Mas ele viu que não conseguiria sair do trabalho, então resolvi ir comprar e pedir para entregar.

Deixei as crianças com a Maggie. Mas resolvi passar na madeireira primeiro, precisava perguntar a Carl sobre as instalações na lavandeira e das reformas para colocar a maquina e eu precisava da opinião dele. Não queria esperar ele voltar a noite, queria resolver antes.

Quando cheguei na madeireira, ela parecia diferente. O nome havia mudado, não era “Hanson’son”, nome do pai de Carl. Era “Joshua’son”. Entrei e havia uns doze trabalhadores que pararam o serviço e ficaram me olhando e sorrindo.

Achei estranho, parecia que eu (a Anne) vinha com certa freqüência.

Alguém gritou:

– A Julianne está aqui!

Ao invés do Carl, quem apareceu foi Edward Joshua Junior. O pai dele era um concorrente dos Hanson’s, mas nunca iam para frente. Eles desmatavam sem controle e não faziam o reflorestamento. Tomaram muitas multas pesadíssimas e foram obrigados a fechar e ir embora da cidade quando eu tinha uns quinze anos.

Ed Jr estava enorme, gordo, seboso, com uma barba mal feita. Ele passou a mão nos cabelos sujos e veio para cima de mim.

– Ah... Julianne, você está... você está linda... muito mais bonita hoje. Vem, vem logo – e segurou meu braço e me puxava em direção a sua sala.

– Não! Eu vim ver o Carl – e soltei o braço.

– Pra que? Eu sei que você vem aqui só para me ver – e com a voz rouca disse:

– Tô com muitas saudades...hum...seu cheiro está muito...

– PLAFT!!! – dei uma tapa na cara dele – Pára com isso! Eu quero ver o meu marido!

– O que?

– Se me tocar de novo... Seu babaca estéril!

Os homens estavam em volta assistindo a cena e Carl estava no meio deles assustado.

Ele veio e me puxou para fora. Eu não entendi, se ele estava ali, por que não falou nada?

– July, vo...você vai pedir desculpas...

– COMO? Mas você viu? Ele estava me assediando! Todo mundo viu!

– Eu...eu sei – ele abaixou a cabeça.

– COMO SABE? Você nem me defendeu... VOCE É UM FROUXO!

– July, você vai vol...voltar para se desculpar com o... o Ed, vo...vo...voce sabe que tem...

– NÃO, NÃO VOU!!

– VAI SIM!! Tem... tem... que...fazer...o que...ele quiser...preci...cisamos... por fa...favor...

Vi que havia lágrimas em seus olhos, mas aquilo era um absurdo. Como ele poderia entregar sua esposa de bandeja para aquele patrão asqueroso.

Fui para casa furiosa, precisava saber o que estava acontecendo. Estava com raiva agora, cega de raiva, corri até a estrada e estava preparada para pegar o primeiro ônibus e fugir dali.

Fugir para onde? Não tinha mais casa, nem emprego e nem a minha mãe.

Pensei nas crianças... A Kim estaria sentadinha na escada da varanda esperando a mãe voltar. O Ken estaria vendo TV, talvez levantasse e viesse olhar pela janela e voltaria para a TV e voltaria de novo para a janela. Kon já andava e comia sozinho, logo...logo deixaria as fraldas.

Somente Maggie poderia me ajudar. O que eu diria?

– Maggie, perdi a memória, dá para contar tudo sobre mim desde quando eu nasci?

– Maggie, faz de conta que eu não sou eu, me conta sobre mim?

– Maggie, o que eu fiz com o Carl?

Cheguei em casa e Kim levantou e veio correndo me abraçar:

– Mamãe!

Maggie veio preocupada, disse que Carl havia ligado e perguntou.

– Vocês brigaram de novo? Ele quer saber de você, parecia preocupado.

– Eu preciso muito conversar com você, a sós... – as lágrimas desceram.

– Oh! Venha hoje a noite as sete. O Tobias vai para o clube jogar baralho e só volta meia-noite.

Carl chegou ao final do dia. Não falei com ele e nem olhava na cara dele. Servi o jantar e quando deu sete horas, deixei tudo como estava e saí. Antes pedi ao Ken para avisar o pai assim que saísse.

– Ela foi na casa da D. Maggie.

– Ah,... ok. Vocês estão bem?

– A mamãe chorou... vocês brigaram de novo.

– Pai... a mamãe ta boazinha, não briga com ela.

– Eu sei Kim, mas tem coisas que vocês não entenderiam... e eu faria qualquer coisa para vocês ficarem bem... qualquer coisa.

Maggie havia feito um chá e me esperava. Ela ainda mantinha a decoração dos meus tempos de adolescência. Cortinas de miçangas coloridas, incensos, várias estátuas de divindades de diferentes religiões, bola de cristal, enfim uma mistura indicando que ela acreditava em forças ocultas.

– Entre querida, você precisa de ajuda...

– Maggie, quem sou eu?

– Você... a Julianne. Por que?

– Me fala, sou a Julianne, sou casada com o Carl, tenho três filhos... e o que mais?

– O que mais? Eu não estou entendendo...

– Você ainda tem o baralho de Tarot? Aquele que você lia o passado, o presente e o futuro das pessoas?

– Sim, mas...

– Leia para mim e depois leia a minha mão e a minha íris e a ...

– Está bem... está bem...sente-se querida.

– Ok, corte as cartas. Muito bem, o que quer saber sobre o seu passado?

– Minha mãe, como está a saúde dela?

Ela esbugalhou os olhos, mas deitou as cartas. Fez uma expressão estranha ao ler, mas não me disse nada.

– A pergunta sobre o presente?

– Qual é a minha profissão, o que eu faço para viver?

Novamente ela viu as cartas e não falou nada. Pensou bastante e disse:

– Sabe, eu já estou velha e perdi a mão. Já não consigo ler as cartas. Está tudo errado.

– Maggie, o que você leu nas cartas. Fala para mim.

– Ta errado, ta errado...

– Leia para mim...

– Suspiro... Aqui diz que sua mãe tem excelente saúde e que vai viver mais de oitenta anos.

– E o presente?

– Você é dinâmica, viaja a trabalho e tem estabilidade financeira. Mas estão errados, você sabe.

– Não Maggie, é exatamente o que eu sou.

– Como?

– Quando nos vimos na mercearia, você disse: “que bom que você veio”. Como se eu tivesse vindo de outro lugar.

– Sim... uma sensação... como se você... não fosse você.

– E é verdade... esta não é a minha vida. É a vida da Anne. A Julianne, que sou eu mora em São Paulo desde que saiu daqui a quinze anos atrás.

– Mas isso é...

– Eu sei. Maggie só você poderia acreditar no que vou contar...

Contei sobre a fonte e os nossos desejos. E de como acabamos tendo as nossas vidas trocadas. Ela ouviu tudo e disse:

– Então foi isso. Eu sabia que algo havia acontecido. Antes só ouvíamos brigas, gritarias e choros de criança. E agora ouço risadas, vejo alegria, vejo tanta felicidade e você ... é uma mudança tão grande. Como ninguém percebeu?

– Bom, não temos muito contato com as pessoas e o Carl... bem... ele é... Maggie é por isso que quero falar com você. O que aconteceu com ele? Por que não foi para a universidade? A Anne, por que a cidade toda a odeia tanto. E aquele asqueroso do Ed quer por a mão em mim e o Carl não faz nada!

– Ele fez isso? O que o Carl disse para você?

– Que eu deveria pedir desculpas ao Ed. Eu disse que não ia e ainda disse ao Ed que ele era um babaca estéril.

– Babaca estéril?

– Maggie, está na cara que ele e a Anne tem alguma coisa. Mas as crianças são a cara do Carl, são lindas! – senti o rosto ficar vermelho ao falar isso, espero que ela não tenha percebido.

– Bem, vou contar o que eu sei, mas se você e a Anne estão nos lugares trocados, o que lembro que aconteceu com você, aconteceu com ela.