A Fonte
3 Capítulo 3-O despertar
– Mãe... acorda...
Estava sonhando com gatinhos filhotes, eram três e se chamavam: Ken, Kim e Kon.
– Mãe... o mãe...
A claridade entrava da janela e eu estava escutando passarinhos cantando. Devia ser um sonho, pois o que escuto do vigésimo quinto andar do apartamento são ruídos de buzinas, motos e...
– Mãe... já são oito e meia...
Abri os olhos, fechei, esfreguei e... eu estava olhando para um menino de cabelos claros, olhos claros meio esverdeados, devia ter uns seis...sete anos. Estava sentado na cama ao meu lado. Tentei acordar, mas parecia que já estava acordada, mas quem era esse menino? Será que era do apartamento vizinho? Ás vezes eu ouvia vozes de crianças. Será que minha mãe queria me pregar uma peça?
Olhei em volta, não era o meu quarto. Havia um amontoado de caixas abarrotadas, roupas jogadas num canto, a minha esquerda havia um penteadeira com vários porta-retratos e ... cadê a minha TV? No chão havia revistas e catálogos espalhados, além de restos de comida. Que pesadelo era aquele?
E o garoto continuava me olhando:
– Quem é você? – perguntei.
– Mãe... sou eu, o Ken.
– Ken... QUEM?
– IIII... PAI... a mãe ta mais louca hoje.
– Não... não... não é possível, é um sonho. Vou me beliscar...AAIII... doeu... Ok... que roupa eu... moletom cinza... estou vestindo moletom cinza... cadê as minhas roupas.
– PAI... a mãe pirou mesmo.
O garoto saiu do quarto e fui atrás dele. Havia uma escada logo em frente e ao descer havia uma pequena cozinha e na mesa havia mais duas crianças e o... CARL!
– O QUE É ISSO? – perguntei quase gritando.
– Pão... pão e...le...leite.
Dei meia volta e subi correndo as escadas. Tranquei a porta. Era um pesadelo, só podia ser... Será que eu fui abduzida? Foi hipnose? Já sei, entrei num vórtice temporal e estou num universo paralelo e a minha gêmea do mal está no meu lugar...
– A fonte! É claro. Mas é loucura, eu devo estar na casa da Anne... então será que ela está no meu lugar? Só tem um jeito de saber. Vou ligar para ela, cadê o telefone. Eu vi um aqui em algum lugar. É só discar... o meu próprio numero de celular...
– TRIIMMM...TRIIMMM...
– Alô? Quem fala?
– Hum... Anne...
– ANNE... SOU EU, A JU...precisamos conversar...aconteceu uma coisa terrível e ...
– JU... EU ESTOU ABISMADA... ACORDEI NUM QUARTO INCRÍVEL...TEM DUAS PAREDES SÓ DE VIDRO, ESTOU NUM LUGAR BEM ALTO E TEM UMA BANHEIRA... UMA BANHEIRA, IMAGINA SÓ...
– Eu sei...esse aí é o meu quarto e...
– E TEM MAIS!!! Fui até a sala e o café da manhã já estava servido, nunca vi uma mesa tão cheia, havia frutas, bolos, pães, queijos, iogurte, geléias... e aí tive o maior susto, dei um grito e pensei que tinha morrido e estava no céu. Eu vi um fantasma...
– Heim? Explica direito.
– Era a minha mãe, Ju. Ela está viva e está me preparando uma omelete!!!
– Não Anne, esta aí é a minha mãe, a sua já...
Neste momento senti um calafrio, uma sensação ruim, muito ruim...
– Anne, me escuta, eu acordei numa casa com o Carl e três crianças, eu não sei como aconteceu, mas a gente precisa trocar, voltar ao que era antes.
– Trocar? O que você acha que aconteceu?
– Acho que foi a fonte, de algum modo a gente trocou uma com a outra. As crianças acham que eu realmente sou a mãe delas e eu nunca as vi.
– Ah, eu não sei... JÁ VOU...pera aí, a mamãe ta chamando e depois te ligo... tchau.
– Anne, volta aqui!! É muito sério!!
Liguei de novo, mas ela desligou o celular, então liguei para o telefone fixo:
– Alô?
– Oi... É a Julianne, eu queria falar com a Anne. Quem fala?
– Julianne? É a Odete, a mãe dela. A Anne está no banho agora, você quer deixar um recado, ela te liga depois.
Senti um medo terrível, um desespero... A Anne perdeu a mãe quando tinha sete anos e foi criada pela avó. Ela nunca conheceu o pai.
Desci as escadas e fui direta para o Carl, ainda com esperanças:
– Cadê a minha mãe? Onde ela mora agora? Me ajuda, por favor...
Pela expressão dele, não havia esperanças:
– July...eu...eu...sinto mui...to, mas você sa...sabe on..de...ela...es..ta? Não... não é?
– Ela está bem, não está? Diz que sim, eu quero vê-la...
– Já...já... faz mui...mui...muito tempo, Ju..July...
Ele baixara a cabeça sem coragem de dizer. Saí correndo pela porta da frente, só tinha um lugar e eu sabia exatamente como ir. Fui somente uma vez e nunca mais voltara. Corri desesperadamente a rua e subi a colina. E lá estava, do mesmo jeito, o pequeno cemitério da cidade.
Procurei o túmulo do meu pai e lá estava, e próximo dele, o da minha mãe.
– NÃO, não pode ser... eu falei com você ontem, eu abracei você, comprei os doces que você mais gostava. Não... não... AAHHHH...
Não era isso que eu pedira, meu Deus não pode estar acontecendo, quero a minha vida de volta, quero a minha mãe de volta.
Sentei no chão e chorei, chorei até não agüentar mais. Quando levantei a cabeça, reconheci a velha caminhonete. Carl estava lá com as crianças olhando assustadas. Precisava consertar tudo.
– Carl, tem um moeda?
– Como? Uma mo...eda, prá...pra que?
– Me dá, qualquer uma... não, melhor a de maior valor, é melhor garantir.
Ele colocou a mão no bolso da calça a procura de trocados, retirou algumas notas e moedas e começou a olhar os valores. Agarrei tudo da sua mão e saí correndo em direção a fonte.
Cheguei e fiz o pedido:
– Quero que volte tudo ao que era antes, quero a minha vida de volta.
Fechei os olhos e joguei a moeda.
Abri e lá estava Jacarandá. Bem, pensei, acho que vou ter de dormir e acordar no dia seguinte para a minha vida de novo.
Meu estomago protestou de fome e precisava ir ao banheiro também. Precisaria de um lugar para adormecer, então resolvi voltar para a casa de Anne.
Comecei a andar pelas ruas e as pessoas me olhavam de forma estranha. Algumas cochichavam, uns olhavam feio como se estivessem me censurando. Até dei bom dia para a dona da casa de doces e ela virou a cara. Mas não foi ontem mesmo que comprei os doces e ela me reconheceu e perguntou sobre minha mãe?
Achei a casa, era a mesma casa onde Carl morava com os pais. Precisava de tinta nova á muito tempo, havia uma varanda na frente e o jardim, quer dizer, a plantação de mato tomava conta. Aqui e ali tinha um pedaço limpo, parecia que ele conseguia limpar um pedaço por vez, e quando terminava o ultimo, no primeiro o mato já havia crescido.
Entrei, e as crianças estavam vendo televisão e apenas viram que era eu e voltaram para a telinha. Carl estava lavando a louça. Olhei para ele e disse:
– Estou com fome... me perdoe... está sendo muito difícil para mim.
Desta vez, as crianças viraram e ficaram olhando.
Carl me serviu: um copo de leite e duas fatias de pão puro. Era a refeição deles de manhã, pão e leite. Eu mataria por um café, eu pensei.
Enquanto comia, ele foi para o que parecia um quintal dos fundos, ouvi barulho de água. Depois de um tempo, ele voltou:
– E..eu...pro...pro...prometi ao pa...dre que aju...a...ju...daria na..na..igre..ja. Vo..vou preci...cisar...sair...um pou..co co...Eu termi...no no de..depois
Vo...voce...pode...fi...car com.... as...cri...cri...ancas? Tem pão... pão e le...ite...leite para o almo..almo..ço...
– Tudo bem.
– Eu...eu vol..to assim que...que pu...der
– Ok... — o que me resta fazer? — Eu pensei.
– Ken... conto com...com você.
– Tchau pai.
Assim que ele saiu, resolvi explorar a casa. A cozinha ficava num canto e era bem pequena e era separada da sala por um armário, de um lado o guarda-louça e os fundos seriam a parede divisória com a sala. Abri a geladeira, era velha e estava vazando. Dentro havia somente: pão e leite. O fogão estava limpo, acho que não era usado á muito tempo. Num dos armários achei um pacote quase vazio de cereais, a validade estava vencida fazia meses. Chacoalhei o pacote e alguma coisa se mexeu lá dentro, fechei de volta, achei melhor jogar no lixo. Quase não havia mantimentos. Numa fruteira ao lado da pia, vi três bananas verdes, pareciam ter sido colhidas recentemente do pé, aliás, conheci a bananeira no quintal do fundos quando fui olhar lá trás. Tinha um tanque de roupas, cheio de roupas de adulto e crianças misturadas com água e sabão. Uma área com varais de roupas e pneus velhos. Não havia lugar para as crianças brincarem.
– Céus, eu não vou agüentar almoçar e jantar pão com leite – comentei alto.
Alguém me observava do quintal vizinho. Um senhor, devia ter uns setenta anos. Moreno, baixo, cabelos e barba branca e crespa. Era Tobias, padrinho de batismo de Carl. Ele dava aulas na oficina de marcenaria.
Quando percebeu que eu o olhava, fez cara feia e entrou na casa.
Lembrei da esposa, Maggie. Ela veio de fora, da Bahia. Bonita, sorridente, usava roupas coloridas e tinha fama de ser vidente. Uns achavam que ela era bruxa, outras traziam seus filhos para que ela os benzesse e tirasse mau-olhado. Sempre pediam a ela para ler a sorte, ou receitasse algum chá para todos os tipos de dores, até para dor de cotovelo, para trazer marido de volta, etc.
Para nós mocinhas, queríamos que ela lesse o nosso futuro. Eu e Anne perguntávamos se iríamos ficar ricas quando saíssemos de Jacarandá e se casaríamos com homens bonitos e ricos. E ela sempre respondia:
– Crianças...vocês podem realizar tudo o que desejam... mas tomem cuidado com os pedidos que eles podem se realizar.
Será que ela estava em casa? A idéia de que ela também estaria ressentida comigo ou no caso com a Anne me preocupava.
Como amanhã eu não estaria aqui, assim esperava, resolvi que ia fazer algo decente para comer. Aonde será que eles guardavam o dinheiro para as compras?
Procurei nas gavetas da cozinha, dentro de potes, latas e caixas. Nada. Subi no quarto e abri os armários, as bolsas e carteiras da Anne e nada. Mas achei algo que me incomodou. Nos porta-retratos, havia uma foto de um casamento, na foto estava o Carl todo sorridente e a noiva era EU! O meu rosto estava na foto, mas não parecia feliz, era um sorriso forçado. Em outra foto, eu segurava um bebê no colo, não sabia qual deles. É claro que não lembrava de nada disto.
Vi a foto do dia da despedida da turma. Estavam todos os colegas, mas quem estava com a mala de viagem para subir no ônibus e ir para São Paulo era a Anne!!!
Era um mundo louco, nós trocamos de lugar e nós duas éramos as únicas que tínhamos a consciência de que até ontem levávamos uma vida bem diferente. Para todo o resto do mundo, eu, Julianne é quem nunca saiu de Jacarandá. Casei-me com o Carl, tive três filhos e... mas... algo está errado. Se sou eu... o que eu... a Anne fez? O que aconteceu para a vida deles estar desta maneira?
Tenho certeza de que o Carl que eu conheci teria condições de dar uma vida muito melhor para a esposa e as crianças. O pai era o dono da madeireira. Eles perderam tudo? Mas o Carl tinha uma bolsa de estudos para a Harward. Por que ele não foi?
Estava no meio do quanto, chacoalhando as calças da Anne procurando uns trocados quando Ken apareceu:
– Mãe, não adianta. O papai não vai deixar dinheiro em casa para você achar.
– Mas eu preciso comprar alguma coisa para preparar o almoço.
– Você esqueceu? Você faz uma lista e ele compra e traz depois do trabalho.
– Puxa... eu me lembro que o Seu Manuel da mercearia anotava as nossas compras num caderninho e a gente pagava depois. Eu vou lá, depois o seu pai passa lá e paga.
– Não vai adiantar, ele não vai vender para você.
– Por que? Ele era gente boa, ajudava muito a gente quando eu era pequena. Vamos lá, não posso deixar vocês sozinhos em casa.
– Porque não? Você sempre deixa...
– Deixo é? Mas hoje não... chama seus irmãos.
Saí com as crianças meio contrariadas e entrei na mercearia. A esposa dele, dona Clara veio atender:
– O que você quer?
– Pensei em fazer uma macarronada, vou levar macarrão, massa de tomate, queijo ralado e meio quilo de carne moída. Também quero uma lata de leite condensado e uma dúzia de ovos.
– Você tem dinheiro? Quero ver...
– E... não, mas você não pode anotar no caderno? O Carl vem pagar depois. Vocês ainda fazem isso, não é?
– Sim, mas não para você!
Fiquei surpresa, ia brigar, perguntar o porquê. Mas, eles sabiam o porquê, eu é que não.
As crianças ficaram quietas e o menorzinho ficava ollhando e apontando para as balas coloridas. Deveria sair de mãos abanando, humilhada e com a cabeça baixa? Não, não ia mesmo:
– Ok, deixa eu ver quanto eu tenho e o que vai dar para comprar.
Dentro do bolso do moletom eu ainda tinha as moedas que Carl havia me dado ou melhor, que eu havia tomado.
– Eu tenho... seis reais e oitenta centavos, então vou poder levar... hum ... dois ovos...uma lata de tomate pequena... queijo ralado e quero o restante em carne moída.
Sr Manuel contou o dinheiro, fez as contas e disse que eu poderia levar cento e dois gramas de carne moída. Peguei as compras e saí de cabeça erguida com as crianças.
Nem percebi que uma senhora assistia a cena toda, somente na hora de sair da mercearia é que vi a Maggie. Ela tinha vindo fazer as compras de ultima hora e estava segurando dois sacos de compras grandes um em cada braço.
Abri a porta para ela e me ofereci para ajudar a carregar, pois íamos na mesma direção. Já imaginava a negativa dela, então ela me disse:
– Quem bom que você veio! Obrigada, ainda bem que você está aqui.
Segurei um dos pacotes, com a mão esquerda segurei a mão de Kon e pedi a Kim que segurasse o meu bolso direito. Ken parecia muito independente, mas disse assim mesmo:
– Ken, você fica do lado da D. Maggie para atravessarmos a rua.
– Tá bom.
Fomos andando em silencio, mas Maggie olhava para mim e sorria. Chegamos ao portão da casa dela e ela me disse de novo:
– Que bom que você veio. Precisa de alguma coisa?
Quase chorei, era a primeira pessoa que me perguntava isso e ainda sorria para mim. Olhei o seu jardim bem cuidado com hortaliças e vários tipos de temperos e chás.
– Será que você poderia me vender dois tomates? O Carl vem pagar depois.
– Há, há, há... claro, claro. Venha... vou guardar as compras e você escolhe o que quiser do jardim.
Escolhi os tomates, alguns temperos e também dois limões, talvez faça um suco para as crianças. Maggie voltou:
– Você disse que ia fazer macarronada, mas comprou o macarrão?
– Não, eu vou fazer.
– Vai fazer o seu próprio macarrão?
– É... tem farinha e eu só precisava dos ovos. O restante eu vou improvisar.
– Hum, então leve uma cebola e alguns dentes de alho também.
– Obrigada, muito obrigada...sabe a senhora é a única pessoa que foi boa comigo desde...
– Desde?
– Nada não...
Fui para casa com as crianças, mas eu pude ouvir Tobias comentar com a esposa:
– O que foi isso? Ela agradecendo a você?
– Sim, ela me ajudou com as compras e eu dei alguns tomates para ela.
– Ajudou é?
– Não sei, mas foi a primeira vez que eu a vi e tive uma sensação de...
– Hum... de que?
– De alegria... uma coisa boa... muito boa.
– Há, há, há... vindo dessa aí?
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