A Fonte
8 Capitulo 8:Carl
Carl sempre foi uma criança muito querida. Filho temporão de Lui e Vivian Hanson, nasceu e cresceu em Jacarandá.
Lui era o dono da madeireira que era da família a gerações. Ele tinha orgulho da terra, das montanhas, tinha consciência de que se fosse muito ganancioso e derrubasse arvores sem controle, ficariam sem nada. Antes da tão badalada onda ecológica, seu avô já instruía: Se você derrubar uma arvore, você planta mais cinco. Elas são o nosso sustento, levam anos para ficarem adultas, é como um filho. Faz parte da família.
Vivian era de Santa Catarina, loira natural e olhos bem azuis, era filha de imigrantes poloneses. Já tinha trinta e dois anos quando conheceu Lui enquanto ele participava de uma feira de agronegócios. Ela gostou daquele sujeito alto, bronzeado e que adorava a terra.
Casaram-se e ele a trouxe para Jacarandá. Ela morava num sítio, então morar numa cidade pacata e montanhosa não era problema. O marido trabalhava o dia todo e ela se sentia muito sozinha. Esperava que quando tivessem filhos, tudo ia melhorar. O tempo passava e nada de filhos.
Um amigo do marido, Tobias também trouxe a esposa de outro Estado. Maggie era exuberante, morena sorridente, falava com todos, usava roupas coloridas e muitas bijuterias. Para Vivian, parecia muito exagerado, um contraste com aquela cidadezinha.
Foram apresentadas e Maggie sorriu e disse:
– Vai ser um lindo menino!
Vivian tomou um susto, já estava com quarenta e dois anos e já havia desistido de ser mãe.
– Iiii lá vem ela com essas bobagens – disse Tobias – Não liga, ela tem mania dessas coisas. Acha que é vidente.
– Não, não é isso! Me perdoe, é que as vezes eu... sinto... pressinto coisas desde pequena e acabo falando. Por favor, não me leve a mal.
– Oh, tudo bem... não se preocupe – disse Vivian. Mas por estranho que pareça, ela não ficou triste.
Antes, sempre que alguém comentava sobre algum bebê novo na cidade, ela sorria, mas por dentro pensava: Por que não eu?
O fato é que, ela descobriu que realmente estava grávida e Carl nasceu. Um bebê bonito com bochechas rosadas e olhos azuis esverdeados.
A fama de vidente da Maggie correu pela cidade e as pessoas já vinham bater a sua porta para pedir conselhos.
Carl era um bebê alegre e sorridente, cativava todos na cidade, mas seus pais tinham planos diferentes para ele.
Lui já falava do seu filho herdeiro, cuidando das terras, das montanhas e continuando o legado da família.
Vivian via que o filho era inteligente demais para ficar a vida inteira numa cidadezinha. Ela sabia que se falasse isso para o marido, ele ficaria chateado e poderiam brigar. Então, começou a estimular seu filho.
Comprava livros, enciclopédias, escolhia bons programas na TV e jogos de memória, de raciocínio, de concentração. Sempre que podia levava o filho para conhecer outras cidades, visitavam museus e exposições. Visitavam a família dela em Blumenau e ela ia contando sobre as diferentes pessoas e culturas que vieram de outros países. E ele quando crescesse também poderia ir conhecer outros países, principalmente para estudar.
O pai não achava isto necessário, aliás, ficava orgulhoso pois seu filho se interessava pela madeira. Ficava com Tobias observando-o no oficio da marcenaria.
Carl, desde pequeno percebia que seus pais tinham idéias diferentes sobre seu futuro e para ele seria possível conciliar as duas coisas. Gostava da idéia de viajar por outros países e conhecer outras culturas, aprender novas formas de enxergar o mundo, mas também gostava desta cidade pacata que podia crescer mais ainda.
Seus pais ajudavam muito aqueles que precisavam. A cidade não tinha gente muito pobre ou muito rica. Talvez ele e sua família fossem os mais abastados, todos eram gente simples.
Mas nas cidades vizinhas, onde havia muita gente, a diferença entre ricos e pobres era maior, e seus pais sempre iam ajudar levando alimentos. Havia um orfanato na cidade vizinha e tão logo aprendeu a mexer com as peças de madeira, começou a fazer brinquedos para levar ao orfanato.
Um dia, o pai observou-o muito compenetrado fazendo peças muito pequenas e delicadas, pareciam móveis em miniatura.
– O que é isso? – perguntou.
– É uma casa de bonecas.
– Que capricho, se ficar bom, vamos poder vendê-la.
– Não, não é para vender ou doar. É para mim, eu ...
– O QUE? CASINHA DE BONECA PARA VOCE?
– Pai... é para...
– VOCE QUER QUE PENSEM QUE MEU FILHO É BOIOLA? JÁ CHEGA OS PROBLEMAS QUE TENHO! ME DÁ ISSO AQUI!
– PAI... ESPERA... DEIXA EU EXPLICAR!
Lui teve um acesso de fúria, destruiu a casinha de bonecas e pisoteou as pequenas peças já prontas e saiu batendo a porta.
A mãe veio correndo e viu as lagrimas no rosto do filho:
– Meu Deus, o que aconteceu?
Carl estava em choque, nunca viu o pai nervoso desse jeito. A mãe o abraçou e disse:
– Tenha paciência, seu pai está passando por uma fase difícil. Tem um concorrente, um tal de Ed que não respeita as leis e seu pai acha que ele pode prejudicar todas as madeireiras da região. Mais tarde eu falo com ele.
Realmente, Lui ficou mais calmo e veio se desculpar com o filho:
– Carl, me perdoe. Não está sendo fácil e um dia você vai ser um adulto e vai entender o seu velho pai.
– Ok, pai. Está tudo bem.
– Ah... e por favor. Seja homem.
– Sim, senhor. Eu sou macho, tenho certeza.
– Ok, ok.
Carl não tocou mais no assunto e nem começou a fazer uma nova casinha de bonecas. Ele nem imaginou que o pai acharia que ele fosse boiola, frufru. Ele não era, aliás ele tinha um motivo para ter começado a fazer a casinha de bonecas. Também não falou o porquê para ninguém.
O motivo? Ele queria dar de presente para a menina que se mudou para a cidade e que estava na sua classe.
Julianne era o nome dela. As meninas da escola não chamavam a sua atenção e elas também não ligavam para ele. Talvez a Anne fosse a mais bonitinha. Mas nem se comparava com a July, sim este seria o seu nome secreto.
Ela era linda, a menina mais bonita que já tinha visto e olha que ele já havia visitado muitos lugares com meninas bonitas. E ela era inteligente. Ficava encantado quando ela levantava a mão mais rápido que os outros e respondia certo, assim como sempre levantava a mão para perguntar. O restante da classe achava ela metida e preferiam que a aula acabasse logo.
Quando percebeu a hostilidade dos colegas, Julianne se fechou e não levantava mais a mão, preferia ficar quieta e estudar sozinha.
Na prova de historia, ele viu ela chorar e sentiu seu coração despedaçar. Ele tinha sido a causa do choro dela, ele amava esta menina e ele havia feito isso com ela.
Uma semana antes da prova, ele teve que faltar três dias para ajudar o pai na ultima hora. Sabia que teria prova quando voltasse, então estudou as próximas paginas do livro durante a viagem.Mal sabia que havia estudado paginas a mais. A professora realmente não havia dado a matéria. É estranho, mas ele não tinha culpa e a professora não admitiu o erro e não voltou atrás. A nota de Julianne seria a nota máxima dentro do que havia sido ensinado na aula.
Decidiu falar com ela e jurou que não ia deixar ela triste nunca mais.
Anos se passaram e ele sentiu que se afastavam pois ela, assim como outras meninas tinha outros sonhos. Quem era ele para atrapalhar?
No dia da despedida, ele ficou lá atrás, do outro lado da rua, observando-a cercada de amigos. Ela acenou para que viesse e ele pensou em fazer uma brincadeira, se esconderia atrás do poste e fingiria não tê-la visto. Mas quando saiu de trás do poste, eles já estavam indo em direção ao ônibus.
Ele ficou. Então o adeus era assim. Logo, logo ele iria também.
Do acidente, ele não se lembra. Somente que quando acordou, muita coisa tinha mudado. Ele queria mexer suas pernas, braços, mas eles não obedeciam. Suas memória voltava aos poucos. Começou a reconhecer sua mãe, seu pai e lembrava do rosto de uma moça bonita mas não lembrava o nome dela.
Foi uma longa reabilitação. Os médicos faziam perguntas e havia vários testes de todos os tipos. Ele achava que tinha ido bem, mas havia sido reprovado. Havia algo de errado com ele, parecia familiar, mas ele não sabia o que era, ele queria expressar, mas não conseguia articular as palavras. Era tão frustrante, ele gritava, chorava, sabia que tinha que ter paciência, mas estava sendo muito difícil.
Perder a mãe foi a pior dor que sentiu e viu seu pai, um homem forte completamente arrasado. Decidiu que ia se esforçar mais e mais para voltar ao normal o mais rápido possível.
Os médicos ficaram impressionados, ele voltou a andar, usava uma bengala, mas eles acreditavam que com o tempo ele voltaria ao normal. Sua fala era compreensível e ainda gaguejava quando ficava nervoso. Quanto a sua mente, teria de fazer testes constantemente para avaliar a sua evolução.
Já estava ajudando o pai na marcenaria em serviços leves. Depois do almoço, ele saia para caminhar, pois ajudaria na recuperação. Num desses dia, viu uma pessoa que faz tempo que não via. Seria July...
– Anne!
Conversaram bastante e ela convidou-o para entrar em sua casa e ele aceitou.
Anne foi boa para ele. Ele não tinha contato com nenhuma garota desde o acidente e se sentia muito só. Era muito jovem, numa idade em que os rapazes tem várias namoradas e saem para baladas, a vida dele se resumia em fisioterapia-escritorio-casa.
Mais tarde ele pensou:
– Ela deve ter ficado com pena de mim. E eu acabei chamando-a de July e ela pareceu não ter percebido.
Quando Anne foi ao escritório falar com seu pai, ele estava lá. Ficou contente com a notícia, ia ser pai! Essa possibilidade estaria distante dele, pensava que nunca teria a sua própria família.
Lui e Anne discutiram, mas ele não foi chamado para dar opinião. Era sobre sua vida, sobre seu filho, ele também queria participar. As pessoas o tratavam como se ele não tivesse opinião própria, como se fosse uma criança pequena sem direito a decidir o que queria.
Casaram-se e as pessoas olhavam com olhar de pena, mas ele estava feliz. Talvez houvesse algo errado, mas ele não percebia o que era. Ainda a compreensão real demorava a chegar nele. Ele não percebia as sutilezas, as piadas de duplo sentido, as indiretas. Não, ele não era retardado, ele percebia os sentimentos, sabia quando alguém zombava dele, sentia pena ou se estavam sendo honestos. As vezes, conseguia perceber uma intenção, mas havia um bloqueio e ele não sabia como reagir. A noção, a compreensão de que algo não estava certo demoravam a chegar em sua mente e quando chegavam, já era tarde demais. Com o tempo foi ficando desesperador.
Anne estava sempre insatisfeita, brigava com ele, não queria aquela vida. Queria roupas novas, queria passear. Carl não entendia, entregava todo o salário para ela e ficava somente com o suficiente para o combustível. A casa estava sempre em desordem e muitas vezes ele chegava em casa e não havia jantar.
Kim nasceu e Anne entrou em depressão que iria piorar cada vez mais.
Ed Jr assumiu a empresa no lugar do pai e chamou a ele e o Tobias.
– Senhores, vocês sabem que a empresa não esta numa situação boa. Temos dívidas deixadas pelo dono anterior, e o meu pai não conseguiu sanar. (E olhou para Carl) Precisamos reduzir os custos e vocês dois são os mais dispensáveis aqui.
– NÃO, por...por favor. Eu...eu...te..te..nho fami...lia. Meus fi...fi...filhos, por favor...
– Calma Carl,...há...há...há... calma Carl, até rimou. Meu pai fez uma promessa ao seu pai e eu que também sou um homem honrado vou manter a promessa.
– O...obrigado.
– Mas veja, você ganha muito pelo que faz, não?
– Co...mo?
– Seu salário é de um secretário, um auxiliar de escritório. Venha aqui, você entende estas planilhas?
Carl viu as planilhas, eram as mesmas que ele mesmo havia criado para ajudar seu pai na contabilidade da empresa, mas só viu números e colunas. Não conseguia entender...
– Na...não... – respondeu.
– E essas fichas, sabe como separá-las? Ordem alfabética, você sabe como é?
– Não...
– Meu caro amigo e o maquinário, você sabe mexer não é?
– NÃO! – disse Tobias. É perigoso. Se você apertar um botão errado ou for um pouco lento. Pode sofrer um acidente muito grave.
– Neste caso, você vai fazer tarefas como ajudar na limpeza, serviços que não exijam muito.
– Tu...tudo bem...e...eu...eu faço.
– E terei de reduzir seu salário pela metade. Você entendeu?
– Sim... eu preci...preciso do em...prego – respondeu cabisbaixo.
– Bom menino, entendeu rápido. Eu sei que você precisa. E você Tobias, você já recebe a aposentadoria?
– Sim, mas eu gosto daqui. Minha vida toda foi aqui, eu gosto dos rapazes.
– Mas você não atinge a sua quota.
– Eu vou me esforçar.
– Como vai conseguir?
– E...se...se...eu ajudar? – disse Carl.
– Oh Carl – Tobias ficou comovido.
– Há, há, há, dobro do serviço pela metade do salário. Há,há,há você é uma figura Carl. Você não existe! Ok, ok, eu sou um homem generoso. Agora sumam daqui.
Anne pôs Carl para fora do quarto de casal, eles brigavam, ela fumava e alegava que ele roncava e não deixava ela dormir. Ele foi para o sofá desde então e não achou ruim.
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