A Foice de Cronos
1 Lilian
Notas iniciais
A ruiva seguia lentamente pelo meio-fio, cansada. Já faziam 24 horas da última vez que bebera água. Não sabia quanto tempo mais podia aguentar.
“Estamos quase lá”, a voz do corvo ecoou em sua mente, lembrando-a de que tudo aquilo era real.
A ave voava alguns metros a sua frente, lhe indicando o caminho. Lilian ainda tinha dúvidas se deveria confiar nela. Mas, de uma forma ou de outra, o orfanato não lhe parecia nesse momento mais seguro que a estrada pela qual seguiam, não com aquele homem estranho de um olho só espreitando por lá. Ela tentou se lembrar de como o animal o chamara. Ciclope. Isso.
Já se passavam dois dias da fuga da menina e ela ainda não havia se acostumado com a voz do corvo em sua mente. Às vezes, ela achava que nunca iria se acostumar.
Ela se encontrava muito confusa, tentando assimilar tudo o que a ave lhe dissera. Não queria acreditar, mas, no fundo, de alguma forma, sabia que era a mais pura verdade. Seus instintos lhe diziam isso. E a ruiva costumava confiar neles.
– Semideusa... – ela falou, a voz roca, apreciando o som da palavra. Arrependeu-se daquilo no mesmo instante em que o fez. Não podia desperdiçar saliva com palavras com as quais já deveria ter se familiarizado. Não no estado que se encontrava.
O corvo, repentinamente, saiu da estrada e adentrou a mata ao redor desta. A menina o seguiu apressada, temendo perde-lo de vista. Ela não tinha certeza de que seria possível que isso acontecesse, no entanto. Provavelmente o animal poderia voltar para a vista dela, rastreando-a através de seus pensamentos. Não seria difícil. A mente de Lilian nunca estivera tão agitada.
Nas sombras fornecidas pelas copas das árvores, ela se sentiu mais fraca, como se o sol estivesse lhe dando forças para seguir em frente. Já havia sentido isso antes várias vezes durante sua infância. Não fazia ideia de qual fosse o motivo. Nunca contara para ninguém, temendo o que poderia descobrir se o fizesse.
Após alguns minutos, então, um som se destacou acima dos outros. Eram hélices. Hélices de um helicóptero. E ele se aproximava.
“Perigo” pode ler a palavra se formando na mente do corvo.
A ave pousou nos galhos de uma árvore e observou o céu azul, visível por entre as folhas das árvores, que farfalhavam perante o vento. Sem saber o que fazer, Lilian cessou sua caminhada.
“Não fique aí parada!”, o animal lhe disse, telepaticamente “Corra!”.
“Correr para onde?” a ruiva pensou.
No momento seguinte, antes que o corvo pudesse lhe dar qualquer resposta, um míssil atingiu a árvore aonde a ave pousara, que explodiu em chamas. Com um grito de pânico, a menina correu velozmente para a direção oposta de onde viera o projétil.
Ela subiu uma colina, ofegante, tentando manter o ritmo de corrida, mas não conseguindo. Lilian estava exausta. O mundo parecia girar lentamente ao seu redor. Estava prestes a desmaiar.
Com suas últimas forças, ela conseguiu sair da linha de árvores, caindo na grama do topo da colina, em uma pequena clareira. Ela soltou um gemido fraco de dor. O helicóptero se aproximava lentamente dela, a ruiva podia ouvir. Mas, naquele momento, ela não temeu a morte. Ela a aceitou. Abriu os braços e a acolheu como uma velha amiga.
E talvez tenha sido o destemor de Lilian que tenha salvado sua vida. Ou talvez os raios de sol que se encontraram suavemente com sua pele e seu cabelo, renovando suas forças. Ela sorriu. O calor do sol era reconfortante.
Ela ouviu o helicóptero sobrevoar ela e seguindo em frente. Perguntou-se por que ele não disparara. Foi ao se erguer usando suas energias agora regeneradas que a menina encontrou sua resposta.
Esta veio na forma de um adolescente loiro de olhos azuis que, sentado na copa de uma árvore, preparava uma flecha em seu arco. O helicóptero voava na direção dele.
Lilian não precisou se perguntar duas vezes o que disparar uma flecha contra um helicóptero armado com mísseis iria adiantar. A imagem do veículo tremeluziu. Aonde antes voava um helicóptero marrom do exército americano agora havia um grande lagarto alado, do tamanho de um ônibus, com um par de asas e escamas cor de bronze revestindo seu corpo. Um dragão.
A ruiva piscou incrédula. Para ela, seres como aquele só existiam em livros e filmes. E, de repente, de um dia para o outro, eles haviam começado a surgir em sua vida. Primeiro um ciclope, depois um corvo telepata e agora isso. Ela não sabia nem o que esperar dos próximos dias. Um navio pirata voador tripulado por mortos-vivos, talvez.
A forma como o dragão havia se revelado havia sido a mesma que a do ciclope. Era como se uma névoa estivesse cobrindo ele e agora tivesse sido retirada. Uma ilusão. Lilian se perguntou quantas outras pessoas que haviam passado por sua vida seriam seres como esses. Mais uma vez, ela temia a resposta.
O dragão avançou velozmente pelo ar contra o rapaz, fazendo o coração da menina saltar no peito. Porém, antes que a besta o alcançasse, algo interrompeu seu vôo, o atirando alguns metros para trás. Era como uma espécie de barreira invisível, impedindo o avanço do monstro. Lilian se sentiu aliviada. Até perceber que o loiro provavelmente fora a única coisa que impedira o dragão de carboniza-la.
O arqueiro franziu o cenho. Um raio de sol encontrou a ponta de bronze de sua flecha, que começou a brilhar com uma forte luz dourada. O arco e o próprio rapaz foram envoltos pela mesma luz. “Ele parece um anjo”, pensou a ruiva.
Então, a flecha foi disparada. Ela cortou o ar, voando em direção ao dragão, letal e silenciosa como uma serpente. Ela atingiu o seu alvo. Certa vez, Lilian lera em uma história que as escamas dos dragões eram uma armadura tão boa quanto o próprio aço. A seta atravessando o couro do monstro como se esse fosse papel mudou completamente a ideia que ela tinha sobre dragões.
A fera tombou na grama, a flecha se projetando de seu crânio. Os olhos dela se encontraram com os da ruiva. Ela teve a impressão de ver tristeza neles. “Perdoe-me”, a criatura parecia dizer, “Eu só quis ajudar”.
“Você tem o meu perdão”, Lilian pensou, no momento em que o dragão se esvaia em pó.
Ela sentiu lágrimas brotando de seus olhos. As enxugou. Estava triste com a morte do monstro, mesmo sem saber por que.
O arqueiro desceu da árvore e se aproximou dela. Havia parado de brilhar.
– Olá – ele diz, ajudando-a a se erguer – Eu sou Nathan Phelps, filho de Apolo — Nathan deu um sorriso que reconfortou Lilian – E você, quem é?
A resposta surgiu em seus lábios como se sempre estivesse ali.
– Eu sou Lilian – ela disse, encarando aqueles olhos azuis agitados – Lilian Salles Mayfleet. Sua irmã.
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