A Flor do Velho

1 Capítulo Único


Notas iniciais
História não betada

Um dia de sol num verão quente do Rio de Janeiro. As cortinas brancas do hospital pareciam fantasmas de antigos pacientes daquele quarto. Dançando pelo vento, murmurando angustias impossíveis de se entender para os ouvidos humanos.

João dormia tranqüilo em sua cama, com sedativos é claro. Respirava com a ajuda de um aparelho e sua aparência era de um velho de cabelos brancos tão frágil que, caso fosse pego no colo, parecia que iria se quebrar. Estava todo cheio de fios e aqueles lençóis e roupas albinas o fazia parecer um cadáver. Talvez o barulho do bip da máquina ou a boca aberta com o peito a subir e descer fosse a única coisa que denunciasse que ainda havia vida naquele corpo magro.

Sua filha, diferente do pai, não dormia, estava angustiada talvez com os fantasmas das cortinas ou com as palavras do medico.

"Ele não tem muito tempo"

Sentia vontade de chorar, mas já havia feito isso tantas vezes que se nem tinha mais lagrimas. Se perguntava como ainda não havia desidratado ou algo assim. Não comia bem, não dormia bem, tinha tirado atestado do trabalho e estava fazendo acompanhamento psicológico pela insistência do marido, que estava preocupado.

Rosana havia perdido a mãe quando pequena, então seu pai era tudo o que tinha. Claro, tirando a filha e o marido. Olhou-o do sofá que estava deitada e se questionou se era mesmo o seu pai. Ele era tão vivo! Mesmo com a grande idade avançada de 81 anos, era tão jovem. Ajudava ela na loja que tinha, uma loja de flores. Não cuidava das flores, claro. Era um desastre, mas cuidava dos clientes, de novas estantes para serem colocadas. Era como um técnico particular daquele lugar.

Riu silenciosa ao se lembrar de um dia que ele lhe fez uma surpresa, fazendo uma rosa de madeira. Colocaram a estatua na entrada da loja. Não era muito grande, mais ou menos do tamanho de Maria quando tinha 7 anos. Maria, sua filha. Claro, fazia bastante tempo, mais exatamente 10 anos. Maria agora era uma moça quase formada. Queria fazer biologia para virar botânica. Sonhava em conhecer o jardim nacional de São Paulo, mas queria fazer a faculdade no Rio mesmo.

Jogou a mão na testa e fechou os olhos, desejando dormir. Maria era mais forte que ela, não ficava se lamentando pelos cantos e sempre abria um sorriso para o avô. João ficava muito feliz quando a neta aparecia. Parecia ganhar mais vida. Lembrava mais o homem que era em vez daquela carcaça pálida e encurvada. Maria de fato trazia mais felicidade. A garota insistia em trazer alguma flor para dar mais beleza e perfume ao quarto com cheiro de Álcool, mas as enfermeiras não deixavam. Querendo ou não aquele era um quarto divido, e a outra pessoa, um homem baixinho e bigodudo que havia quebrado a perna, machucado a perna, -sei lá! Rosana só sabia que era alguma coisa com aquela puta perna que, de algum modo havia levado ele justamente para aquele quarto. O cara careca, de cabeleira negra, a restante é claro, era alérgico a qualquer coisa vinda da natureza.

Rosana o achava um ignorante e inconveniente, e achava que era puro mimo do careca não aceitar flores. Parecia que fazia de propósito, tinha tanta vontade de bater naquela perna! E o pior, ele nem ficava no quarto, só usava ele para dormir praticamente. Ficava andando com a cadeira de rodas pelo hospital. Voltava para almoçar, jantar, dormir e tomar remédio. Os médicos diziam para ele ficar quieto no seu canto, descansando, mas o cara sempre arranjava um jeito de sair.

E roncava ainda por cima. Talvez a insônia de Rosana fosse por causa daquele cara. Qual era o nome mesmo? Ah, quem se importava? Pelo menos deixava seu pai em paz no dia. O careca falava demais, não se surpreendeu ao ver o pai cochilar enquanto o baixinho reclamava da vida. Achava até graça, se a situação toda não fosse cômica.

Suspirou virando-se de lado pela enésima vez, tentando ignorar o ronco do vizinho irritante. Ha! Não se surpreendia porque ninguém dormia com ele no hospital, era tão irritante! Às vezes recebia visitas, mas ele nunca estava lá. Eles esperavam até, mas desistiam depois de uma hora. Ele tinha um filho também. Uma graça de rapaz, tinha idade de Maria ou aparentava pelo menos. Devia ter sido criado pela mãe, já que não parecia nada com o pai ao que Rosana suspeitava que fosse divorciado. O rapaz era bem insistente, ficava esperando umas duas horas, duas e meia, mas logo ia, pois era cheio de compromissos.

Ah, seria bom ele conhecer Maria, se dariam bem, mas tinha medo dos dois se apaixonarem, se casarem e ela acabar parente daquele ser irritante. E... Qual era o nome mesmo?...Ah, porcaria, como uma pessoa conseguia roncar tanto? Deus, tinha um rato entalado na boca dele?

–--

Abriu os olhos fracamente, com certo esforço. Pelas pálpebras pesadas viu apenas branco e se perguntou se havia morrido. Mas doía ainda para respirar e os múrmuros ao seu redor indicavam que estava no mundo dos vivos. As vozes foram aumentando à medida que a luz branca se revelava o teto do quarto num dia claro de uma manha de domingo.

A televisão falava sobre o ótimo tempo para andar no parque e havia um leve murmurar do hospital de médicos correndo, crianças chorando e enfermeiros falando gentis com todos ao redor.

Mexeu a cabeça num movimento leve ao que olhava o redor. Rosana havia saído, devia ter ido tomar o café da manhã. Ótimo, a filha precisava sair daquele quarto, daqui a pouco a confundiriam com um doente se é que já não o fizeram. Seu parceiro de quarto parecia dormir ou não estava ali. Não conseguia olhar para a cama dele, mas logo o ronco de rato entalado foi ouvido, fazendo o velho ri baixinho. Achava engraçado seu vizinho, era um homem bom apesar de reclamar de tudo.

Rosana logo apareceu na porta com um pão de queijo e um cafezinho, a enfermeira a seguia, acordando o vizinho e dando um sorriso a João, que retribuiu como pode. O careca bigodudo resmungou até, e sentou-se tomando seu café da manhã, falando de boca cheia que a comida que sua mulher fazia barrava qualquer coisa e restaurante que havia conhecido. Rosana olhava feio para ele, por causa dos maus modos, mas o vizinho mal a notava ou ignorava-a. A mulher não falava nada por educação. Fala sua boba, vai ficar de bico fechado? Riu silenciosamente, amável, imaginando a briguinha que aquilo teria. Seria bem engraçado na opinião do velho.

Gostava de ouvir o vizinho falar. Dessa vez ele não havia dado um passeio, as enfermeiras não deixaram. Era alguma coisa relacionada ao filho dele. De qualquer forma aquilo o havia deixado um tanto nervoso, o careca. Mas havia um brilho nos olhos dele, principalmente quando falava do filho. Era um orgulho tão bonito. Talvez tivessem brigado. Rosana era ignorante o suficiente para não notar, o pai podia ver isso. Ela preferia ver a novela reprisada na teve a escutar as baboseiras do bigodudo.

Mas Seu João não. Ficava ali, escutando. Mesmo quando fechava os olhos e sonhava com nada, conseguia se lembrar de cada palavra do vizinho. O careca parecia notar isso, tanto que lhe perguntava o que achava e, numa voz fraca, Seu João respondia, sempre sorrindo dócil.

Apesar do corpo curvado e da aparência débil devido a doença, Seu João dava uma sensação de tranqüilidade tão grande quando sorria ou falava que até assustava. Quem fechasse os olhos e apenas escutasse, pensaria que ele estaria bem, apesar de um tanto rouco e de voz falha.

Os amigos da família diziam que João já estava pronto pra morrer, mas não morria porque a filha não deixava. Seu João achava aquilo engraçado por algum motivo. Era bonito o amor de Rosana, mas ela já estava adulta o suficiente para conseguir caminhar com suas pernas e saber que um dia todo mundo ira embora. Seja pai, mãe, filho e filha. Ah, mas era tão mimada...! Sua princesa.

Mas quem acharia estranho se ouvisse eu João dizer que, só não morre porque queria ver a flor que a neta plantou e colocou o nome dele aflorar. Era fútil, mas a garota estava tão animada com a planta. Era tão bonitinho vê-la cuidar daquela planta com um botão amarelo. Qual era o nome?Ahn... hm... ah, Seu João não sabia. Ele não sabia nenhum nome de flor, só gostava de ficar olhando para elas, numa admiração silenciosa. Como se elas lhe contasse coisas que nem ele mesmo entendia.

João teve uma vida feliz, sofrida, mas feliz. Nunca negou e nunca reclamou disso. Mas só queria ver sua florzinha sorrindo de novo. Só isso, ai poderia ir dormir eternamente.

–--

"Vovô...? OI vô, que bom que o senhor acordou...! A florzinha João começou a florescer...! Não é ótimo? Mamãe disse que o Seu Bigodudo não deixa trazer flores, mas quando ele tiver saído vou trazer a plantinha... Vô seu batimento acelerou, isso é ruim? Não? Ah, que ótimo! O que? Ah, o filho do Seu Bigodudo. Mamãe disse para eu não aparecer aqui quando ele estiver visitando o pai... Disse que vou me apaixonar por ele, olha que besteira! Haha! Mamãe é tão mimada...! Hm? Aham, pego água pro senhor. Pera, deixa eu ajudar o senhor a se sentar. O que? Ah vô, chamar você de senhor é demonstração de respeito. Sei que você não gosta, mas... Ok, ok, você. Prontinho! Como tem sido meu dia? Ah, tenho sido tranqüilo. Tenho alguns trabalhos da escola para fazer, como é terceiro ano só tenho estudado para o vestibular. Acho que vou conseguir entrar para biologia, mas não sei, sempre bater aquela insegurança. ... É, o senhor ta certo, tenho que ser mais confiante. O jonny? Ah... o Jonny é o Jonny... a gente não ta mais tendo aquele clima, sabe vô. Acho que ele esta gostando de uma nojentinha qualquer lá que não vai com a minha cara. Mas não tem problema, ele não era o que eu pensava. To meio decepcionada. Oh, que isso vô...! Não se preocupa, não estou tão ruim assim. Ah, gostava... gostava. Agora não gosto mais. Agora é só... lembrança. Anh? O que a mamãe ta reclamando? Ah, parece que o filho do Seu Bigodudo vem visitar ele e ela não quer que eu veja ele. Besteirinha da mamãe, você sabe. É sim, eu sei você! Hehe...! Ah, chamar o Seu Bigodudo pelo nome? Ah vô, sei que é mais educado, mas eu não sei o nome dele...Mamãe também não sabe, mas mesmo que soubesse não iria dizer. Ah! Nossa, esse é o nome dele? Meu Deus, nada haver não é? Ah, também acho... Hehe! Aham...! Isso. Oh! Vovô, olha... ele ta saindo de fininho. Acho que ele não quer encontrar o filho. .. Aham, mamãe também me disse que parece que eles são brigados. Ê teimosia! Pronto vovô, vou pegar a planta... Ue? Pensou que eu não ia trazer? Hehe, sou precavida! Vô seu batimento acelerou de novo... Animação? Ah, então acho que não tem problema... Vou pegar a planta, já volto!"

–--

Uma flor pequenininha e amarela. Mas aberta dava para ver os tons alaranjados. Não conseguia sentir o cheiro nem nada, mas pela cara de Rosana devia ser bem perfumada.

Ah, o filho do vizinho chegou. Ficou surpresa com Maria. Oh, que bela troca de sorrisos. Era um rapaz bem apessoado, seria difícil uma garota não se interessar. Hehe, pelo visto os piores desejos de Rosana estavam criando formas.

Menina boba! Hehe! Devia ter ensinado a filha a deixar de ser mimada.

Oh, o rapaz do Amauri estava espirando. É, deve ter puxado o pai na alergia. Mas, que bonitinho, mesmo assim estava vendo a flor. Gostava de gente assim. Oh, que outra bela troca de olhar. É, talvez acontecesse algo entre sua neta e o filho do Amauri.

Ho ho! Quem diria, a enfermeira trouxe o Amauri de volta. Ho ho ho! Ah, quem mandou esse velho safado escapar? Hehe, isso acabaria acontecendo. O filho do Amauri e o Amauri se encararam. O vizinho parecia tão esperançoso, mas era tão teimoso, não iria 'dimitir'. O menino estava feliz, mas acanhado, não sabia o que falar. Então Amauri espirrou. Rosana pareceu surpresa. Talvez ela pensasse que ele não era alérgico de verdade e mentia por puro luxo.

Menina boba, devia saber que isso são coisas que ela faria, não um reclamão como o Amauri. Devia ter ensinado Rosana a ser mais humilde. Ho ho, menina boba...

–--

–"Mas porque diabos... ATCHIM! MAS PORQUE DIABOS TROUXE ESSA PORCARIA DE FLOR? EU DISSE MIL...MIL....ATCHIM! MILHÕES DE VEZES QUE ERA ALERG...ATCHIM!"

–"Calma pai, a neta do Seu João só ta mostrando a flor pra ele...!"

–"Isso mesmo Seu Bigodudo! Deixa minha filha fazer meu pai feliz!"

–"Ah, tava demorando pra você falar! Finalmente! Só ficava com essa cara feia me olhando torto! Se te incomodava que falasse mulher! Detesto esse tipo de gente!"

–"Você detesta tudo, seu careca! Detesta a cama, detesta o teto! Detesta até a comida que te alimenta!"

–"Claro que detesto! É tudo uma porcaria! Como não detestaria?"

–"Oras, seja mais grato!"

–"Mamãe, acho que você..."

–"Quieta menina! Ora bolas! O senhor..."

–"Meu Deus, vocês poderiam parar com essa gritaria? Os outros pacientes estão reclamando...! Não me façam expulsar vocês daqui! O hospital exige silencio."

–"Desculpa enfermeira, mas esse homem... Esse homem ainda me mata!"

–"Ah, se eu fizesse isso faria um favor ao mundo!"

–"Ora seu..."

–"Por favor!"

–--

Hehe... Ah, uma flor tão bonitinha...

Rosana era mesmo uma mimada, sua mulher iria bater nele quando se encontrasse no outro mundo. Criar uma menina tão mimadinha assim. Com jeito de princesa. Haha... Ah... Seria estranho ver sua amada. Ela estaria tão jovem e ele tão velho... Mas, ah, sabia que ela não se importaria e, no fundo, ele também não se importava.

Piscou os olhos pesados. Vendo toda aquela confusão. Finalmente Rosana abriu a boca, estava demorando. Sabia que ela e o Amauri iriam brigar, e era engraçado também. Sua neta e o filho do vizinho riam baixinho da situação, fazendo comentários hora ou outra ou trocando olhares. Ah, formavam um casal bonitinho para a infelicidade de Rosana. Um amor...!

Coitada da enfermeirinha... Mesmo com tantas ameaças não conseguia dominar aqueles dois gigantes. Rosana seria expulsa já já se continuasse a agir tão mal criada. Mas quem iria dormir com ele...? Hm, quase havia se esquecido que era hora de morrer. Hehe, sentiria falta deles, mas quando fossem a horas deles, estaria lá, esperando de braços abertos.

Olhou a flor de novo, tão bonitinha... Sua neta fez um bom trabalho, nunca havia visto uma flor tão singular como aquela. Era normal, comum como outras, mas bastava prestar atenção para ver o amor que emanava dela, que suas delicadas pétalas eram mais vivas que as outras plantinhas. Maria estava certa, aquela flor parecia um sol naquele quarto branco. Talvez fosse a bagunça do Seu Amauri e de sua filha, ou tudo junto, não sabia.

Seu João ficou olhando a plantinha, sempre com um sorriso doce nos lábios e com risos silenciosos. Ficou olhando as cores de fogo até sentir as pálpebras mais pesadas, aquela moleza. O ar começando a faltar. O branco começava a surgir. Começou a ouvir muitos barulhos agora. Rosana chorando. Oh, não chore criança boba! Já é grande mais para isso, pelo menos não na frente da sua filha...! A enfermeirinha chegando, gritou alguma coisa, não sabia o que era já não entendia mais nada, menos Rosana berrando para não deixá-la. Menina boba... Sua mulher brigaria com ele por ter criado uma princesinha.

Tudo ficando branco, a florzinha desaparecendo. Voz de choro. Ah, tão bonitinha! Rosana tendo um troço. Com tanto carinho... Tudo parecendo tão distante, como se começasse a adormecer. Um cochilo gostoso... A dor sumindo, a florzinha sumindo, Rosana chorosa virando um bebê. Sua mulher soltando gritos na hora do parto. Sua infância, seu pai, sua mãe até finalmente seu nascimento. Então ouviu uma voz que conhecia. Que conhecia, mas não se lembrava de quem era. Tão sutil... Tão, paterna.

O que ela dizia mesmo? Rosana chorando... Choques elétricos no peito. Oh, estava tentando trazer ele de volta. Não, não, obrigada, estava bem assim, aquilo fazia seu peito doer de novo... O que a voz dizia? Segue o teu caminho. Mais choques. Rega as tuas plantas. Rosana chorando que nem um bebê. Ama as tuas rosas. Ah, se perguntava se no seu tinha plantinhas como as de Maria...

E o resto é som...

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