A Flor de Cerejeira do Mar

7 Capítulo 7 - Algum Dia, Em Algum Lugar.


Notas iniciais
Hohoho Vejam só quem apareceu para trazer o presente de natal e ano novo! Sim sim, a dor da perda é grande, mas finalmente encerrarei essa finc incrivel que vou deixar muito bem guardada em meu coração ♥ Espero que gostem! Boa leitura! P.s a música do capítulo se chama Someday, Somewhere - Sung Si Kyung ( The legend of the blue sea) P.s 2 adicionei a capa do capítulo anterior que eu tinha esquecido he :v

Capítulo 7 — Algum Dia, Em Algum Lugar.

Cidade de Tsu, província de Mie – Japão.

Uma explosão de cores iluminava o céu noturno.

E, abaixo da expansão dos céus, a terra também regozijava.

Não seria diferente, afinal, estamos falando do Hanami Matsuri, o festival das flores de cerejeira.

Mesmo a cidade de Tsu sendo pequena em comparação as outras cidades costeiras, os poucos parques dali ficaram abarrotados de pessoas, todos a procura do melhor lugar para apreciar a beleza das flores de cerejeira que haviam desabrochado na manhã daquele mesmo dia. Barracas foram montadas nas ruas, os estabelecimentos devidamente decorados, um verdadeiro mar de pétalas cor-de-rosa inundava, não somente Tsu, como também, todo o Japão.

Mas, em especifico, numa casa costeira abandonada e esquecida pela maioria dos habitantes daquele lugar, havia um homem, alto, de pele clara e cabelos e olhos escuros, sentado sobre a barreira de pedras que circundava a edificação.

Abaixo dos seus pés, estava o mar e, sobre sua cabeça, uma frondosa árvore de cerejeira, enraizada profundamente nas rochas daquele paredão impenetrável.

O homem encarava o céu, os fogos de artificio coloridos, a alegria que transbordava de todas as partes, aquela festividade que não parecia que teria um fim tão cedo... Tudo aquilo era terrivelmente nostálgico, como uma comemoração que há muito tempo aconteceu, mas, definitivamente, não parecia com nada que ele já viveu naquela vida, e sim, talvez, em uma muito, muito, distante.

Era sempre assim, nos últimos 23 anos, quando as árvores de cerejeira desabrochavam, seu coração se entristecia, pois parecia lhe faltar algo, mas depois de descobrir aquele casarão do período Edo, completamente esquecido e abandonado a beira do mar, o aperto de seu peito pareceu diminuir, mesmo que minimamente. Sentar-se sobre a sombra dos galhos cheios de flores recém-abertas e ficar ali até o dia escurecer, o enchia de paz, ou pelo menos, o mais perto que poderia encontrar para seu pobre coração.

Em algum lugar, algum dia eu te encontrei e te amei

Você é como uma pessoa que se afasta quando eu te vejo

Em algum lugar dentro de mim continua doendo

Fechou os olhos negros e inspirou profundamente, deixando-se inebriar pelo aroma das flores misturado com o aroma salgado do mar. Ele se permite a aquele pequeno momento, mesmo que seja apenas mais uma vez, afinal, as dúvidas pairavam sobre si, como a espuma paira sobre as ondas.

O que lhe faltava?

Teve uma vida feliz até então, pais amorosos, um irmão mais velho em quem se inspirar, um amigo exagerado e excêntrico, mas que nunca o deixava por nada desde que se conheceram, bem... Ele viveu bem.

Então por quê?

Antes que o jovem homem pudesse perceber, foi tirado abruptamente de seus devaneios ao ver surgir das águas um corpo esguio e pequeno. Ao primeiro momento, por conta do susto, pensou se tratar de algum tipo de animal marinho ou algo parecido, mas observando mais atentamente recaiu sobre si o entendimento de que aquilo se tratava de um corpo humano.

Mais especificamente, o corpo de uma mulher.

Levantou-se então para tentar enxergar mais claramente, algo estranho estava fazendo seu coração palpitar, mas ela ainda estava longe, quase como uma sombra, sendo iluminada pelos fogos coloridos que explodiam no céu. Arriscaria até mesmo dizer que ela estava admirando o espetáculo. Entretanto, a incredulidade o arrebatou quando a mulher, notando que estava sendo observada, voltou a mergulhar, mas o que saiu das águas não se parecia em nada com pernas, muito menos com qualquer coisa que ela já viu na vida.

“Aquilo... não poderia ser uma calda... poderia?” – ele pensava consigo.

Outra vez vejo você. É como se fosse a primeira vez

O amor me deixa inquieto

Você é quem quero alcançar no fim, em minha vida

Pela última vez

Os dias, então, foram se passando e a cidade voltava aos poucos a sua rotina comum, mesmo que o fim do período do Hanami Matsuri ainda não tivesse chegado, o cor-de-rosa enfim começou a deixar as ruas de Tsu. Entretanto, isso não se aplicava a aquele jovem homem que continuava a pensar no que viu dias atrás, a imagem da misteriosa mulher continuava a atormenta-lo, até mesmo em seus sonhos. Estes eram os mais estranhos, pois mesmo que não tivesse visto a aparência dela, aquela que surgia diante de si tinha características muito especificas.

Especificas até de mais.

A mulher possuía longos cabelos num tom de rosa bem claro e fantasioso, a pele branca sempre parecia fria ao toque e os olhos... Eram tão longínquos quanto um vasto campo verde. Tão brilhantes quanto a mais bela esmeralda.

Ele sabia que deveria ser apenas um delírio devaneador da própria cabeça, não podia continuar se atendo aos contos de fadas que conhecera em sua infância... Mas, parecia tão real. Real demais para ser um simples sonho. Real demais para tentar disfarçar os sentimentos que o inundavam.

Entretanto, o medo que realmente o assustava, era este: descobrir que o seu “sentimento real” não era real, e a esperança de suprir todo o vazio que o mesmo tem carregado no peito desde o principio de sua vida, acabe. Arrastando-o de volta para seu mundo cinza e perturbador.

Mas, mesmo assim, todas as noites, ia até a grande cerejeira no casarão abandonado, sentava-se sobre suas raízes e se punha a esperar a visita daquela que estava roubando-lhe o sono, fez isso por dias, sempre mantando a esperança de encontrá-la muito bem guardada dentro de seu coração.

Dia vai, dia vem, finalmente o último dia da floração das cerejeiras chegou, naquela noite, muitas das pétalas já haviam despencado, formando uma linda e macia cama cor-de-rosa sobre as raízes da grande árvore.

E ali estava ele, a caminho do seu destino. Havia acabado de sair do seu emprego onde lecionava literatura para as crianças do primário e, coincidentemente ou não, hoje falara sobre o conto da Pequena Sereia. Lembra-se de como todos os seus alunos ficaram tristes ao descobrir o final da história original, e em como este se divergia do que fora contado no filme famoso da sereia de cabelos vermelhos. Ele mesmo sentia-se desconfortável com a história.

Vejam, este jovem homem nasceu naquela cidade costeira, viveu toda a sua vida naquele lugar, e por isso cresceu ouvindo as histórias antigas que a cidade tinha a oferecer. Inclusive, numa praia, não muito distante dali, havia uma estátua muito famosa, de uma bela sereia sentada sobre uma rocha com um homem desfalecido em seus braços. Nas mãos entrelaçadas encontrava-se uma ostra branca, que parecia sempre estar recém-polida, e dentro dela, uma bela e brilhante pérola rosada, adornando a escultura de pedra. As lendas contam que eles foram dois jovens que se apaixonaram, e para poder estar junto de seu amado, a sereia foi em busca da ajuda de uma feiticeira para se tornar humana a troco de sua voz. Nada muito diferente do conto mundialmente conhecido. Mas o desfecho, este sim, é completamente diferente, na história contada pelos cidadãos aquele que se sacrifica é o príncipe, salvando a vida da jovem sereia e permitindo-a viver os seus longos anos ao lado de sua família.

Ele sempre acreditou que está história, dentre todas, parecia a mais verdadeira. Havia algo no sacrifico do príncipe que o sensibilizava, um sentimento de tristeza misturada com realização vinha até ele todas as vezes que pensava sobre isso, quase como uma contemplação, ainda incompleta, daquilo que ele deseja compreender.

Enfim, faltava pouco para alcançar a árvore quando começou a ouvir um belo e melodioso som. Nesse instante parou, a fim de compreender do que se tratava, aos poucos pode começar a distinguir algumas palavras, o levando a conclusão de que o som, na verdade, era um canto que estava sendo entoado por alguém. A melodia era suave e estranhamente nostálgica, como todas as situações que vinha vivendo em sua vida desde que nasceu, ela o atraiu imediatamente em sua direção, nem ao menos percebeu quando seus pés passaram do andar calmo e ritmado para o apressado e ansioso.

Não existe a palavra coincidência

Sabemos que está determinado desta forma

Você vive em algum lugar dentro de mim

Mesmo se eu voltasse a viver desde o início

Provavelmente, eu estaria neste lugar outra vez

Era aquela voz.

Ele podia afirmar com certeza.

A voz que o embalava nas poucas vezes que conseguiu dormir nos últimos dias, a voz que o chamava nas noites escuras, a voz que vinha daquela mulher de longos cabelos rosa claros e que o encarava profundamente com aqueles olhos verdes e brilhantes.

Como se desejasse ler sua alma, por completo.

Quando enfim pode alcançar o campo de visão da árvore, controlou-se para não arfar exasperadamente.

Seu coração parecia querer sair do peito tamanha a intensidade do seu pulsar.

Diante de si, estava ela, com os longos cabelos dançando ao vento. Seu corpo estava encostado no tronco da cerejeira enquanto que a calda, tão verde quanto os próprios olhos da mulher, encontrava-se esticada, descansando sobre a cama de pétalas.

Para o homem, aquela cena mais lhe parecia uma miragem, digna de uma pintura.

Ou talvez estivesse sonhando outra vez.

Ele não sabia dizer.

Deixe-me ver você mais uma vez de perto

Para que eu possa lembrar-me de você.

Antes que ousasse dar o primeiro passo, o corpo da mulher moveu-se, virando-se para sua direção. Quando seus olhos encontraram-se, um sorriso desenhou-se pelos lábios rosados daquela criatura que parecia ter saído de um conto de fadas.

— Eu estava te esperando... – Ela quebrou o silencio, tirando o jovem homem de seu transe.

— Por que então... demorou tanto para aparecer? – Ele se viu a retrucando, sem realmente entender como foi capaz de responde-la – Eu a esperei aqui, desde a primeira vez.

— Bem... Hoje era o dia.

— O dia?

— Sim... O dia em que eu te perdi... – Por um momento o sorriso falhou, e mesmo não estando tão perto, ele tinha certeza que os olhos estavam brilhantes, prontos para inundar-se a qualquer momento – O dia que deveria te encontrar... Sasuke.

— Como sabe meu nome?

— Ainda não se lembra... – Não era uma pergunta – Claro, faz muitos anos... E muitas vidas. Eu mesma só fui capaz de lembrar quando toquei a pérola.

— A pérola...? — Mesmo que intencionalmente, a imagem da estátua dos dois amantes surgiu na mente do jovem homem, não haviam motivos para leva-lo a concluir que os eventos estavam conectados, mas mesmo assim sua mente insistia em levar seus pensamentos na direção daquela escultura, na direção da história de amor daqueles dois — Você está falando sobre aquela que está numa praia não muito longe daqui...? A pérola... dos dois amantes?

— Então você sabe sobre o que estou falando... Sobre nossa história... – O sorriso voltou a parecer mais pacifico, mas no mesmo instante as lágrimas começaram a rolar também, deixando uma longa e brilhante trilha por sua face pálida – Diga-me, Sasuke, qual é o meu nome?

— Seu... Nome?

— Você o escolheu para mim... Você deveria saber quem eu sou.

Imediatamente o conto daquela cidade invadiu a sua mente. Lembra-se que, quando mais novo, sua mãe lhe disse que havia escolhido seu nome justamente por causa da história, por ver no sacrifício do príncipe Sasuke Uchiha a verdadeira demonstração do amor. Em permitir que sua amada pudesse viver, mesmo depois das consequências da magia negra, mesmo depois dela tê-lo enganado fingindo-se de humana e escondido sua natureza mitológica e magica. Ele a amou não somente por sua beleza, ou por ter sido ela sua salvadora, ele amou aquela jovem sereia por quem ela era.

Ainda sem responder a pergunta daquela que estava diante de si, pôs-se a se aproximar, caminhando lentamente até ela.

Não desviavam o olhar.

O negro encarava o verde com o máximo de intensidade que era capaz de demonstrar.

Depois de tantos anos, enfim estava ali a resposta que tanto buscou encontrar?

Tenho medo de que você possa me esquecer

Até neste momento em que eu estou segurando a sua mão.

Ajoelhou-se de frente para ela, contemplando a beleza dos seus traços agora mais de perto, levou lentamente sua mão na direção do rosto da sereia, sem se distrair com a nudez de seu corpo. Ela descansou a cabeça na mão de Sasuke, fechando os olhos e permitindo que mais e mais lágrimas despencassem.

Naquele momento ele pode ver.

Quando as lágrimas deixavam sua face, elas solidificavam, tornando-se pequenas pérolas, que repousavam sobre o colo escamoso. Com cuidado, ele usou a outra mão para tocar em uma daquelas pequenas joias, porém, o que ele menos esperava era receber uma enxurrada de imagens invadindo sua mente de forma desorganizada e dolorida.

Precisou abandonar o rosto dela para levar as duas mãos até as laterais da própria cabeça, buscando com isso, de alguma forma, amenizar a dor exuberante que o afligia.

Notando o que estava acontecendo, a sereia levou as próprias mãos na direção das dele e aproximou-se, encostando suas testas.

Enquanto ela esperava a dor passar, ele tentava compreender o que ela tanto tentava lhe mostrar.

Finalmente, uma cena especifica se desenhou diante de si, quase como um filme. A sereia estava sentada sobre a cerejeira, porém não havia calda alguma, e seu corpo estava coberto pela parte de cima de uma yukata masculina, ela parecia envergonhada, completamente sem jeito, enquanto evitava encara-lo.

Sasuke não entendia o que conversavam, mas uma palavra se fez presente no meio de toda aquela confusão.

“Sakura”.

Então seus olhos abriram-se.

— Sakura... — Sussurrou. Naquele momento, finalmente, Sasuke encontrou a resposta que tanto procurou durante toda a sua vida — Seu nome é Sakura.

A sereia, por conseguinte, abriu imediatamente os olhos, surpresa e esperançosa – Sim... Este é o meu nome... — O brilho nos olhos negros mudou, como se a luz da compreensão os tivesse banhado. Aquele pequeno sinal era o suficiente para o que Sakura desejava saber — Eu senti muito a sua falta, meu jovem príncipe.

— Mas... Isso... Como isso é possível?

— Eu também não esperava que fosse, nunca esperei, na verdade. Mas... Quando você dividiu comigo sua alma imortal, tornando a minha própria alma igualmente imortal, chamamos a atenção do céu — Ela concluiu — Ou pelo menos, é nisso que acredito, que nós chamamos a atenção do Céu celeste e Ele nos concedeu uma segunda chance para vivermos aquilo que não pudemos viver. Como ... Um presente... Pelo nosso amor.

Algum dia, em algum lugar, eu te amei.

Nada acontece por coincidência.

Sabemos que está determinado desta forma

Você vive em algum lugar dentro de mim.

Mesmo se eu voltasse a viver desde o início

Provavelmente, eu estaria neste lugar outra vez

Sem esperar o consentimento dela, ou mesmo permitir que ela voltasse a falar, Sasuke uniu seus lábios, numa urgência e saudade de séculos. As memórias surgiam muito mais naturalmente agora dentro de si mesmo, preenchendo o vazio que tanto o assolou, cada pequeno fragmento encaixava-se no seu devido lugar, desenhando toda a tênue e curta linha de sua vida anterior.

Claro, Sasuke deveria ser sincero, nunca foi crédulo a respeito de vidas passadas e reencarnações, mas vendo tudo o que lhe aconteceu, e todas aquelas lembranças vívidas e brilhantes dançando dentro de sua própria mente, pode permitir-se acreditar que, talvez, tenha sido uma exceção dos céus.

Uma pequena exceção para tornar real o que lhe foi tomado.

Para preencher o vazio que parecia infinito.

Ela estava ali.

Para fecha-lo.

Sakura retribuiu o gesto sem ao menos pensar. Circundou os braços ao redor do pescoço de Sasuke e o puxou para ainda mais perto de si.

Deixe eu ver você mais uma vez de perto

Para que eu possa lembrar de você

Ali, naquele dia e naquele lugar.

Debaixo daquela frondosa e bela cerejeira.

Enquanto são contemplados pelas estrelas do céu e pelas ondas do mar.

Seus corações bateram na mesma batida depois de tanto tempo.

Você é quem quero alcançar no fim, em minha vida

Pela última vez.

~*~

Notas finais
E FIm ♥ Agora de verdade. Espero que tenham gostado, não deixem de comentar o que acharam e... Bem, é isso! Obrigada por tudo pessoal Vocês são incriveis e tornaram toda essa experiência ainda mais inesquecível ♥ Em 2020 estarei de volta com a próxima história das adaptações dos contos. Beijinhos, boas festas e um feliz ano novo para todos vocês !! ~Bellatrix ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!