A Flor da Carnificina
31 Capítulo 30 - Tentativas.
Notas iniciais
Bernardo e Cristina haviam ido ao mercado junto com uma das filhas gêmeas, Maria. A garota e a mãe passeavam com o carrinho na seção de produtos de limpeza, enquanto Bernardo apreciava os vinhos na seção de destilados. Tudo parecia normal, até uma moça morena passar por ele segurando a mão de um menino, e ativar as lembranças que ele tanto tentava esconder de si mesmo.
Ruth lavava suas roupas na parte de fora da vila onde vivia. Outras mulheres faziam o mesmo. Bernardo havia ido lá alguns dias atrás, mas não fora bem recebido pela morena. Mas, desta vez, ele levava consigo um bouquete de rosas.
– Um bouquete de flores para a flor mais linda desse mundo — Falou Bernardo, entregando o presente à mulher. Ruth levou um susto ao perceber a presença de Bernardo tão perto dela.
– O que você está fazendo aqui? — Perguntou Ruth, colocando a mão molhada na cintura larga.
– Vim te ver. — Ruth passou por Bernardo, e entrou em casa. O homem repetiu o ato da amante e entrou. Lá estava o fruto do ''amor'' dos dois. Ruth segurava o bebê de cabelos negros compridos, que chupava uma chupeta com bastante fome.
– Esse é o Isaac, nosso filho. — Falou Ruth, séria, dando beijinhos na cabeça de 2 anos de Isaac.
– Isaac? Posso segurá-lo? — Pediu Bernardo. Ruth entregou o menino para o homem que observou as feições do neném. Ele era a cara da mulher. — Isaac é o nome do meu pai. Você pôs esse nome nele por causa do meu pai?
– Sim. Eu sei que é um nome bíblico, mas eu não sei nada de Deus e ele não sabe nada sobre mim. — Disse Ruth, sentando na cama.
– Ele é lindo. Parece muito com você, Ruthinha. — Falou Bernardo, dando uma risadinha, deixando a mostra seus dentes que tinha um pequeno espaço entre os dois da frente.
– Parece, né? Eu estou deixando ele com a vizinha da frente, enquanto vou trabalhar. Já que você some.
– Eu estou trabalhando, Ruth. — A morena ficou de pé, e pegou o garotinho dos braços de Bernardo, e colocou-o na cama. Isaac balbuciava algumas palavras.
– E agora pelo menos você vai ter algum tempo pra mim? — Perguntou a morena, colocando seus braços em volta do pescoço de Bernardo.
– Hoje e amanhã eu estou de folga — Respondeu Bernardo, dando alguns selinhos nos lábios da morena.
– Acho que você deve sentir falta de alguma coisa, não sente? — Perguntou Ruth, mordendo os lábios.
– Como sinto... — A morena soltou os braços e pegou Isaac no colo, levando até a casa da vizinha da frente. Bernardo presupôs o que aquilo significava, e sentou na cama, esperando a mulher voltar.
– Onde estávamos? — Perguntou Ruth, retirando a blusa que usava, e deixando seus seios fartos livres.
– Na parte que eu abocanhava esses peitos gostosos. — Falou Bernardo, levando sua boca até os seios da mulher e o abocanhando com sede.
– Bernardo, você quer mais alguma coisa daqui? — Perguntou Cristina, fazendo o homem despertar de seu devaneio.
– Não. — Respondeu Bernardo, ríspido.
– Pai, a Jaqueline pediu pra levarmos o leite light dela. Vamos levar? — Perguntou Maria. Bernardo empurrou seu carrinho em direção à seção de laticínios, deixando subentendido que eles iriam levar o leite pedido pela irmã de Maria.
– Seu pai é muito bipolar, sabia? — Comentou Cristina, com um tom de mágoa na voz. Ela odiava o comportamento imprevisível de seu marido. A mulher daria milhões para saber o que se passava na cabeça de Bernardo.
Jaqueline chorou a manhã inteira. Seu marido César havia saído para resolver os problemas judiciais ligados às questões de guarda de sua filha Carolina. A loira estava se sentindo mal por não ter recebido nem mesmo a aprovação do pai da menina, que se mostrava ser totalmente indiferente em relação à vida.
A loira ligou para seu amigo que atendeu imediatamente.
– Alô?
–Seji, preciso conversar — Falou Jaqueline, soluçando de tanto chorar.
– Agora você lembra de mim, né loira aguada? — Falou Seji, em tom de brincadeira.
– Eu encontrei a menina, e o César já sabe dela.
– E você tá chorando por quê?
– Porque a família dela tá lutando com unhas e dentes para me deixar longe dela.
– Seu marido procurou algum advogado?
– Sim, e achou. Na verdade, eles estão conversando agora, mas eu queria tê-la logo. A avó dela me apresentou à ela, mas disse que eu era uma professora. Ela é tão linda...
– Você é Jaqueline Luson, meu amor. Essa velha baranga não tem que te negar nada não. — Falou Seji, fazendo Jaqueline dar um risinho breve.
– Quem me deras se meu nome valesse alguma coisa com eles. Eu queria tanto a minha princesa...
– Calma, mulher! Eu tenho certeza que você vai conseguir voltar com a menina. Mas falando em voltar, vai mesmo desfilar pra Frida?
– Não, até conseguir minha filha.
– É você quem sabe. Mas não se arrependa. -Jaqueline ouviu um barulho vindo do lado de fora do quarto, e logo encerrou a ligação para saber o que era.
– Mais tarde eu te ligo. Beijos. — Desligou.
Jaqueline levantou de cima da cama, e saiu do quarto. Ao chegar no corredor, viu que a porta do banheiro estava meio aberta, e abriu a mesma. Lá estava Joana, caída no chão, segurando uma escova de dentes, enquanto o vaso estava preenchido com vômito. Não precisava ser um gênio para saber que Joana havia vomitado, ou melhor, provocado seu próprio vômito.
A loira pegou sua irmão pelas axilas, já que ela era mais magra, e foi carregando-a até a sala. Joana não relutou, estava fraca demais para dar seus faniquitos.
– Vou pegar um copo de água com açúcar pra você. — Falou Jaqueline.
– Não! Água com açúcar engorda — Falou Joana, com sua voz mais fraca do que habitual. Jaqueline ignorou o pedido da irmã e foi buscar a solução para dar para a caçula. Assim que terminou de preparar, levou o copo e entregou para Joana.
– Bebe. — Mandou Jaqueline. Joana olhou para a mais velha como se estivesse pedindo ajuda para ter que tomar aquilo, mas Jaqueline manteve-se séria, e Joana tomou o conteúdo do copo.
– Satisfeita. — Falou Joana, entregando o copo vazio para sua irmã.
– Super. Agora me fala por que você anda provocando vômitos?
– Não te interessa. — Falou Joana, tentando levantar. Mas estava tão fraca e tonta, que permaneceu onde estava.
– Claro que me interessa. Você faz ballet, não faz? — Jaqueline sentou ao lado de Joana, no sofá. — Algum professor anda cobrando magreza de você?
– Não. Ninguém manda em mim. Eu não... não te devo satisfações.
– Ei, qual é o problema em você me contar porque está vomitando? Eu nunca vomitei por causa da moda, mas já tomei laxantes, diuréticos, e malhei durante horas. Mas eu não tinha pra quem desabafar meu desespero por estar magérrima. Você tem, e não sabe usar essa sorte.
–Tá bom. Eu sou feia, é isso. Ninguém nunca me escolhe pra ser a principal dos recitais, ninguém se importa. E ainda tem você, que é linda e rica. Eu tento ser magra pra poder ser mais bonita. — Jaqueline deu uma crise de risos, e depois de longos segundos rindo, voltou a falar.
– Beleza vem de dentro. Enquanto você for essa pessoa rancorosa e invejosa, vai ser sempre feia. Mas, quando souber valorizar as pequenas coisas da vida, será linda como uma borboleta. — A loira ficou de pé, e colocou a mão no queixo da caçula — Você é linda, só precisa mostrar seu potencial. Enquanto passa horas no banheiro provocando vômito, estude mais passos de ballet, e fique mais interessante. E aí, te acharam bonita, e você também — Jaqueline soltou o queixo da irmã e foi para o quarto. Joana, por sua vez, manteve-se quieta absorvendo as palavras ditas por sua irmã. Era impossível não sentir inveja de Jaqueline.
Isaac levou um susto ao ver Ermina. Era ela a moça que ele ajudou, e era bastante coincidência ela estar ali.
– Que coincidência você aqui...- Falou Isaac.
– Demais! Eu me chamo Ermina, e você é Isaac, não é? Não nos apresentamos. — Falou Ermina, indo até Isaac, estendendo seus braços para um abraço.
– Prazer, Ermina. — Falou Isaac, retribuindo o abraço. — Você é amiga do Cristiano?
– Sim, sou sim. E você?
– Eu tô aqui durante um tempo. Não somos ''tãooo'' amigos, mas ele tá me dando uma moral maneira. — A ruiva sorriu. Tinha planos para aquele dia, e o fim desses planos seria ela na cama com Isaac.
– Já que estamos aqui, podemos nos conhecer melhor, não acha? — Perguntou Ermina, passando a mão nos fios avermelhados.
– Por que não? Eu não sou o dono da casa, então aja como achar que pode agir — Falou Isaac, dando um risinho. Ermina sentou no sofá e antes de sentar, Isaac pediu licença e foi até o quarto onde estava Aline, ver como ela estava. Ele verificou que sua irmã dormia tranquilamente, e voltou para sala, para poder ter a conversa pedida por Ermina.
– Então... por que você está aqui por um tempo? — Perguntou Ermina.
– Eu acho que já comentei com você que... — Cristiano apareceu vestido com seu uniforme de policial, e se despediu dos dois hospedes que estavam em sua sala. O homem saiu, e Isaac voltou a falar. — Eu tenho HIV, certo? Eu estava internado e Cristiano me acolheu. Quer dizer, não só a mim, mas como a minha irmã também. — Ermina revirou os olhos.
– Ah sim. — Mesmo sabendo que Isaac tinha HIV, ela não se intimidava em pensar em transar com ele. Salve ao inventor da camisinha.
– E sua amizade com o Cristiano, como começou? — Perguntou Isaac.
– Ele é amigo de um amigo. — Falou Ermina, pegando um cigarro sem sua bolsa, e acendendo-o em seguida. Isaac avaliou o corpo da mulher, e constatou que havia uma protuberância na região do abdômen. Ele tentou ignorar, mas não tinha como, era visível que ela estava grávida.
– Acho que faz mal fumar estando grávida. — Falou Isaac. Ermina sentiu-se sem graça ao ser repreendida pelo rapaz. Então, apagou o cigarro, deixando-o no chão, ao lado de seu pé.
– Parece que está óbvio que eu estou grávida, né?
– Sim. O pai e você estão juntos? — Ermina engoliu seco. Se ao menos ela tivesse alguma certeza, mas por via das dúvidas, o pai era o Johny e ela não iria contar isso para Isaac. Não até ela ser mais íntima dele.
– Vamos mudar de assunto? Eu não quero falar sobre essa criança.
– Sério? É por causa dela que você estava reclamando no metrô, naquele dia, não é? — Ermina balançou a cabeça. — Eu gosto de crianças, e se eu pudesse, teria vários filhos.
– Nossa, você tá conseguindo me fazer sentir culpada.
– Ué, culpada? Eu acho crianças coisas preciosas, e você tem uma na barriga, só precisa valoriza-la. — Ermina levantou de onde estava, e foi até Isaac. A ruiva sentou ao lado dele, colocando estratégicamente os seios nos ombros do rapaz. Já Isaac, que percebeu a intenção de Ermina, se afastou.
– O que houve? Não fica longe de mim não. — Falou a ruiva, ficando próxima de Isaac novamente.
– Não adianta, você não vai ter o que quer comigo. — Ermina olhou confusa para Isaac, e ergueu uma sombrancelha.
– Por que?
– Porque eu sou gay. — O rosto da ruiva murchou, e ela ficou de pé, atordoada.
– Gay? — Perguntou Ermina, colocando a mão na cintura.
– Sim, gay. — Falou Isaac, dando um risinho.
– Você não tem nenhuma curiosidade em mulheres?
– Não. Já provei, não achei muita graça. — Ermina senta-se muito sem graça.
– Eu acho que já vou, depois a gente se esbarra por aí. Bom te ver. — A ruiva saiu e bateu o portão. Ela pode não ter conseguido naquele dia, mas ainda teria seu momento com Isaac.
Ermina foi caminhando até seu ponto de encontro com Juk. Assim que chegou lá, viu seu namorado e Fábio conversando, tranquilamente. A ruiva se aproximou dos dois, e cumprimentou Fábio.
– Boa tarde, quanto tempo! — Falou Ermina para Fábio.
– Igualmente, quanto tempo. — Johny manteve-se indiferente em relação à Ermina. Ele ia tentar ser menos preocupado e cuidadoso com ela, já que a ruiva sempre o ignorava.
– Como eu ia dizendo, você vai passar lá em casa amanhã pra me entregar o dinheiro faturado, tá? E a meta é 200 contos. Se virem pra me dar. — Falou Fábio, com autoridade na voz.
– Tá certo. — Falou Jonhy. Fábio saiu de perto dos dois e foi para seu apartamento. Queria usar um pouco de cocaína e dormir, já que tinha pedido para Isaac passar em sua casa mais tarde.
O rapaz foi caminhando e assim que chegou até seu apartamento, se deparou com um carro caro que ele sabia bem de quem era. ''Não pode ser'', pensou Fábio.
O rapaz alvo pensou se entrava em sua casa, ou se ia para algum bar beber. Resolveu então ir para casa, seja quem for, ele era adulto o suficiente para enfrentar.
Assim que entrou, viu Denise sentada em seu sofá surrado. A mulher fumava um cigarro, e levou um susto ao ver Fábio entrar.
– O que devo a honra, Denise?
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