As ruas daqui de Boston estão escuras. Tempo frio, literalmente irei me resfriar pois não peguei um casaco antes de sair. Não esperava que as ruas estivessem desse jeito, já são 10 da manhã. A igreja está logo na minha frente. Ela é bem grande e possui uma torrezinha ao lado com um sino enorme dentro. Aquilo deve fazer muito barulho, devido ao tamanho. A igreja está aberta. Como eu esperava. Mais não chegou quase ninguém para a missa. Me sento na frente, perto do altar. A igreja é de porte médio, tem uma grande mesa no centro com um forro branco por cima. Mais tem uma coisa que esta igreja é cheia. Mais não de cadeiras nem bancos. E sim de janelas. Porém, durante a missa todas elas são fechadas. Não há nenhuma luz solar dentro da igreja. Apenas duas lâmpadas, deixando o local um pouco escuro. Não sei o motivo disso. Mais isso não é normal. Avisto Jeff umas duas cadeiras depois da minha. Espero a missa terminar para falar com ele.

– Jeff! – digo.

– Guilherme!- diz ele – Quanto tempo! Você sumiu do mapa. Há um bom tempo que não te encontro pela rua.

Ele me abraçou.

– Pois é. Não estou conseguindo ter tempo. Agora que comecei trabalhar... Mais amanhã mesmo já vou deixar meu emprego. É muito cansativo.

Ele ri e assente com a cabeça.

– E onde está a Carlinha? – pergunto.

– Carla? Aquela insuportável? – diz ele – Não sei o motivo, mais odeio irmãs mais novas.

Jeff tem 18 anos. Um ano mais velho que eu. Fiquei sabendo que sua irmã mais velha, a Carlinha, fez 13 anos essa semana. Eles moram do outro lado da minha rua. Eu e o Jeff fomos bons amigos no colégio. Na 5ª série ele repetiu o ano, e foi estudar comigo. E o ano passado ele repetiu outra vez. E infelizmente ele não estuda mais comigo.

– Vamos passar lá em casa que a gente conversa melhor. – diz ele.

* * * *

A casa do Jeff e da Carlinha é pequena, organizada e com um cheiro bem agradável. Sempre gostei de ir pra lá. A mãe dele fazia alguns biscoitos para nós. E a mãe dele era cozinheira de mão cheia. Conto tudo ao Jeff. Do barulho no meio da madrugada, do sumiço de minha mãe, da flor lilás em cima da cama.

– Acho que vou batizar essa flor como: A Flor da Meia-Noite.- digo.

– Nossa. Sua mãe sumiu e você está desse jeito? Agindo tranquilamente? Se fosse comigo eu já estava louco e procurava até embaixo das coisas.

– Não é isso – digo – Eu tenho apenas 17 anos. Não sou capaz de resolver nada. O que eu vou fazer?

– Investigar sobre essa flor. – diz ele – Quer dizer, a flor da meia-noite.

– É exatamente isso que eu vim fazer aqui. Imaginava que você estava na igreja. Sua mãe te obriga ir todas as semanas. E u trouxe a flor para você investigar. Você é melhor do que eu nessas coisas – digo — E eu não consigo fazer nada sozinho.

Estendo a mão com a flor e ele observa com atenção.

– Nunca vi uma flor desse tipo – diz ele.

– Pois é. Se o interior dela fosse amarelo, entenderia. Ela é totalmente esverdeada por dentro além do ponto preto.

Jeff examina a flor como se estivesse procurando algo. Alguma pista. Ele coloca a flor em cima da cama e corre para o computador. Ele fica minutos digitando e com os olhos sem piscar olhando para a tela. Depois de quase uma hora, eu quebro o silêncio.

– Achou alguma coisa?

– Diz aqui – diz ele – Que quando alguém acha um objeto desconhecido, parecido com algum existente, é um símbolo que representa algo. Ou seja, essa flor significa alguma coisa que só quem a criou saberá decifrar o enigma.

– Ou seja, se soubermos o significado dessa flor, saberemos onde minha mãe está. Isso quer dizer que a flor que vai nos levar até ela.

– Exatamente.

– Há alguma possibilidade de descobrirmos o significado dessa flor? – pergunto.

– Acho que sim. Nada é impossível.

– Precisamos descobrir.

Um arrepio percorre por todo o meu corpo. A única pista, a única coisa que eu posso fazer para ter minha mãe de volta é descobrindo o enigma desta flor.

– Depois nos falamos – digo.

– Tá certo então.

Quando estou perto da porta, para que eu inicie as buscas, Carlinha vem de seu quarto, correndo e chamando meu nome. Ela me abraça com força.

– Já está na hora do almoço – diz ela – Fique.

Olho para frente. Jeff está em pé na frente do seu quarto e faz um gesto com a cabeça como se estivesse dizendo: “ Sim, fique.” Sem palavras, beijo a testa de Carlinha e aceito o pedido.