A Filha dos Raios

16 O pequeno rei fantasma


Desci numa colina ainda dentro dos limites do acampamento e desmontei de Pégaso deixando meu corpo cair na relva molhada.

O céu crepitava em raios de prata e uma chuva fina molhava a terra junto com as lágrimas que me sufocavam.Olhando pra baixo eu via o lago em que enfrentei o Leviatã brilhando com a luz da lua cheia que iluminava tudo ao redor.

Acariciei o dorso de Pégaso olhando seus olhos azuis que me encaravam questionando o que eu estava fazendo.

—Não se meta nisso cara,é muito mais complicado do que você pode imaginar -eu disse enquanto quebrava um galho de pinheiro e sentia o cheiro forte de sua seiva.

—Ou é mais fácil do que você imagina

Senti meu coração se encher de medo e pesar enquanto me virava pra encontrar um pequeno garoto que parecia uma criatura das trevas.

Com pele morena,olhos escuros e cabelos longos e pretos como petróleo um menino pequeno e com uma expressão mortal estava ali.

Um trovão ecoou pelo céu rasgando o ar e me eletrizando.Cada centímetro do meu corpo estava tenso com aquela presença.

—Filha de Zeus,você tem dado bastante trabalho pra nós não acha?

Engoli em seco girando meu anel no dedo e olhando em volta.Uma.risada pesada e maníaca ecoou pela montanha enquanto ele vinha ao meu encontro.

— Quem é você? -Perguntei recuando

Ele sorriu e eu senti a terra ficando mais fria.

—Pra quem esteve praticamente as portas da morte é estranho que não me conheça

Aqueles olhos,aquele cheiro,a sensação que ele me dava me fizeram finalmente entender com quem eu estava lidando.

Um filho de Hades.

Não o dos meus pesadelos,mas alguém igualmente mortal.

Eu estava cansada daquilo,precisava de uma solução.

Caí de joelhos em súplica enquanto via Pégaso voar pelo céu.Tinha que funcionar.

—Por favor,eu te suplico, faça o que quiser comigo mas deixe ele em paz.Eu não aguento mais,me mate,faça o que quiser mas deixe Percy em paz.

Olhei em seus olhos com toda a coragem que eu tinha tentando mostrar toda a minha determinação.

O sorriso se desfez em uma expressão confusa com a cabeça pendendo de lado e seus cabelos caindo por cima do rosto como uma fina cortina.

—Mais uma vez Percy cria algo pra me incomodar.

Aquilo não foram passos,era rápido demais pra ser.Num segundo eu estava de joelhos e no outro ele me segurava pela cintura me fitando com aqueles olhos que me puxavam pro abismo.

—Eu não tenho nada a fazer com Percy,mas você tem se tornado um grande problema pra nós fugindo desse jeito.Agora,por que não volta comigo e me conta o por que de toda essa rebeldia?

Empurrei-o confusa abraçando meus braços e sentido lágrimas de dor encobrindo minha visão.

—E...eu não posso voltar pra lá,não posso ficar perto dele -eu disse tentando me estabilizar.

—Meu nome é Nico,Nico di Ângelo,também me chamam de Rei Fantasma.Só não queira descobrir a razão.Precisamos voltar pro acampamento,você querendo ver Percy ou não aqui é perigoso demais pra você no momento.

Encarei seus olhos respirando fundo e sentindo meu corpo todo ser eletrizado.Eu tinha que dar um jeito de sair dali.

—Não vai acontecer Nico,nem que você fosse o próprio Hades eu não concordaria em ir a algum lugar com voce e ainda mais por ser filho dele eu nao concordo com mais força .Minha presença coloca a vida dele em risco,ele gostar de mim coloca tudo a perder.Eu não posso permitir.

Bem,se ele era sombra,eu podia ser a luz.

Bati as mãos na minha frente estourando um flash de luz que acendeu todo o topo da montanha e disparei correndo entre as árvores com toda a forca que eu tinha.

Sua presença ecoava pela noite e se aproximava de mim mais veloz do que eu poderia imaginar.Só tinha um jeito de fugir por mais louco que fosse.

Corri com tudo o que podia até um pequeno penhasco e me joguei no ar vendo o rei me olhar com olhos sinistros.

—Trovão!

Gritei e um trovão cobriu meu corpo me parando no ar.

De trovão em trovão eu me lancei pelos céus como se me balançasse em cordas até parar na pequena ilha que foi quase totalmente destruída pela mordida do Leviatã que queria me matar.

Com toda aquela luz eu sabia que era impossível que alguém não soubesse que eu estava ali.

— Você é a pessoa mais louca que eu já conheci

Meu grito foi abafado pelas trevas enquanto Nico se jogava contra mim num abraço nefasto.

Quando pisquei os olhos ainda ouvi meus gritos até que senti meus pés apoiados no chão.

Olhei em volta e eu estava dentro do meu alojamento bem no meio da sala.

—Fique aqui e esfrie a cabeça.Eu entendi sua urgência então deixarei claro que você não quer visitas ok?

E novamente ele desapareceu nas sombras sem nem me deixar raciocinar.

Todas as portas e janelas estavam trancadas,as irmãs estavam silenciosas me encarando da outra extremidade da sala e Jenifer me encarava sentada na janela.

Suspirei derrotada e subi pro banheiro.

Até que isso passasse não havia muito o que eu pudesse fazer com aquele cara no meu encalço.

Enchi a banheira e logo tranquei a porta do banheiro.Mergulhei na água como não fazia há muito tempo enquanto as bolhas de sabão subiam e eu me deixava adormecer.

Esse lugar nunca pareceu tanto uma prisão como agora.

Depois de algumas horas minha mente estava vazia,minhas emoções estava empurradas pro fundo do peito e eu sentia tanta fome quanto possível.

Pelo menos ele não tinha vindo até aqui.

Agradeci mentalmente a Nico por cumprir o que eu pedi e me levantei pegando minha toalha.

Quando saí fui acompanhada de olhares magoados que me seguiram até a cozinha.

Eu comi a comida mal sentindo o gosto e logo me joguei nua na cama cobrindo até a minha cabeça com a manta.

Durante toda a noite a água batia agitada no cais do alojamento enquanto as gotas de chuva batiam no teto.

Num sono sem sonhos eu adormeci sem saber o que o dia seguinte me traria.

Quando a manhã chegou a minha janela eu ouvia a porta sendo forçada com socos e empurrões com toda a força de alguém.

— Annie abre essa porta!Precisamos conversar! Amor por favor!

Tapei meus ouvidos com almofadas mas durante horas os gritos ecoavam pelas paredes.

—Por favor,eu imploro que tirem ele daqui!Por favor!

Olhei em súplica pras irmãs que silenciosamente assentiram enquanto se transformavam em fumaça e saíam pela fresta das janelas.

Jennifer veio até mim em silêncio e me abraçou cobrindo meus ouvidos até toda a agitação parar.

Eu ouvi a voz de Grover tentando conciliar a situação,os gritos irritados de Annabeth,os protestos de Daeria e Quiron ecoando por um tempo que eu não medi.

Respirei fundo sentindo a energia do céu e levantei minhas mãos jogando um trovão que estourou na água silenciando a todos.

Rasgando os últimos pedaços do meu coração eu tirei a pequena aliança que Percy me deu tirando-a da corrente onde estava presa e joguei por cima do corpo um moletom preto que estava grande como um vestido.

Abri a janela recebendo o olhar confuso de todos enquanto mostrava a aliança na ponta dos dedos.

—Chega.Eu preciso viver,eu preciso que esse inferno pare.

Quando falei calmamente chegando a beira da janela, Percy se soltou das irmãs e veio ao meu encontro.

Me custou todo o auto controle para não beijá-lo quando senti seu cheiro.

Estendi minha mão pra ele e depositei a aliança ali sentindo o breve toque das nossas mãos.

—Chega Percy,eu não posso continuar.Acabou.Dê essa aliança a outro alguém que queira te amar,mas esquece que eu existo pelo bem de nós dois.Não me faça te matar pra que entenda que não é bem vindo na minha vida.Nenhum de vocês é.

Percy caiu de joelhos sem conseguir falar enquanto eu fechava a janela e a trancava.

— Não esperem um raio partindo a cabeça de vocês pra saírem daqui — eu disse enquanto ia em direção às escadas.

Toda uma comoção arrastava Percy daqui.Ele não gritava mas eu ouvia suas mãos batendo na janela até que Quiron o pegou e todos saíram dali.

Não suportei

Caí aos gritos no chão do banheiro implorando que a morte me levasse e a dor tivesse fim.Eu me sentia engolida por aquele turbilhão de emoções,pelo cansaço,pela fraqueza e pela dor que me rasgavam de dentro pra fora.

As irmãs me tiraram do chão me levando até a cama enquanto cantavam algo antigo e tranquilizador.

Tudo ia ficando borrado enquanto elas acariciavam meus cabelos e eu caía num sono profundo rezando pra não mais despertar.