A Filha dos Raios

19 Campos de guerra e torres infernais


Notas iniciais
Essa é a parte um do desafio da corrida de obstáculos do acampamento.

A tensão crepitava entre as duplas,todos ali hostis como se uma guerra fosse romper no meio de nós.

Respirei fundo indo pra linha de chegada com Lucius ao meu lado,a nossa frente uma entrada de madeira nos saudava pro desafio enquanto a tarde começava a despontar.

—Não há limite de tempo,mas reduziremos as equipes a vinte no final do dia de hoje.Os que chegarem depois disso já podem começar a dividir tarefas pra limpar a arena.Não preciso repetir que no dia de hoje,atacar outra equipe pra obter vantagem não é algo permitido e a equipe que o fizer já está desclassificada.

Quiron leu o pergaminho e caminhou até a entrada segurando um sinalizador

—O objetivo é simples,cheguem do outro lado vivos e em condições pra continuar.Os três primeiros times a chegarem serão agraciados com equipamento ou tempo de vantagem para os outros desafios. -Daeria disse enquanto avançava até uma torre de madeira com uns cinco andares de altura.

Engoli em seco girando a lança na mão,Lucius tinha a expressão fechada e estalava seus dedos olhando pra frente.Nos posicionamos pela lateral e eu estava focada em vencer.

Annabeth também.

Ela bradava sua espada e cochichava com Percy logo atrás de mim.Senti meu peito apertar quando olhei pra trás e nossos olhos se encontraram.

Os cumprimentei levantando minha lança discretamente enquanto Lucius vinha ao meu lado e tocava meu ombro.

—Olho no prêmio gatinha elétrica.Voce me deve uma por ter me arrastado pra cá -ele disse sorrindo de lado

—Mas foi você que me convidou primeiro,eu só topei.O que quer de mim?- Perguntei arqueando a sobrancelha e voltando a me focar na entrada.

—Quando vencermos eu te conto

Seu tom era divertido,seu sorriso era confiante e o sinalizador disparou enquanto começávamos a correr.

Os primeiros trezentos metros foram uma corrida simples e no estouro já dava pra ver as equipes principais se alinhando e pegando distância dos retardatários.

E aí eu entendi por que não havia limite de tempo pra competição.

Ramas vivas começaram a brotar do chão e a agarrar campistas pelos tornozelos os enterrando até o pescoço na terra molhada.

Me esquivei pulando pro lado e comecei a serpentear pelo campo em ziguezague com Lucius me esquivando, cortando os galhos e saltando por cima deles.

Annabeth gritava logo atrás de nós cortando um galho que a tinha pego pela cintura e a prendia no ar.Percy vinha com contracorrente e cortava o galho fazendo com que voltassem pro jogo.

—Podemos usar as ramas ao nosso favor.Elas sobem e vão pra frente antes de enrolarem na pessoa.

Olhei pro lado e Lucius falava enquanto observada o padrão que as ramas faziam.Como uma catapulta a rama crescia,dobrava pra trás e depois pra frente antes de agarrar alguém.

—Você é muito louco -eu murmurei acelerando meus passos.

Esperei o timing e a localização certa pra correr em direção a um ramo que despontava no chão e cravei a lança no chão pra me impulsionar.

Como um raio cortando os céus eu subi a muitos metros de altura e me joguei segundos antes de um galho se enrolar em mim.

Contei cinco,dez,quinze,vinte metros antes de conseguir estacar a lança no chão e parar.

Lucius gritava animado enquanto voava pelos céus,mas ele não era alguém dos ares como eu.

Concentrei-me e lancei uma corrente elétrica o mais estável possível pra que ele não fosse eletrocutado e o puxei pelas pernas até que ele parou a três metros de mim cravando a espada no chão.

—Melhor dia de todos!

Ele gritou batendo no meu ombro e.voltando a correr.

Sorri e retomei os passos desviando de galhos e me jogando pelos ares com alguns.

Um,dois, três,cinco,sete quilômetros desviando de galhos gigantes do chão estavam começando a consumir nossa energia e a reduzir satisfatoriamente as equipes.

Algumas eram expulsas por um monitor por terem atacado o time rival, outras estavam presas ao chão,outras desistiram até que cerca de cinquenta times restavam em busca da vitória.

Annabeth vinha lado a lado rodando sua espada e correndo com Percy ao lado.

Por um segundo aqueles olhos de mar encontraram os meus.

Um segundo longo demais.

Lucius me empurrou antes que eu fosse pega mas Percy não teve a mesma sorte.

O galho o tinha capturado por um dos pés e o impulsionava pra baixo enquanto Lucius me puxava pelo pulso e nós retomávamos o ritmo.

“Olho na vitória, depois você se resolve com eles”

Ele murmurou soltando meu braço.

Concordei e voltamos a correr desviando de campistas que não eram mais presos a terra.

As ramas aqui eram maiores,mais fortes e jogavam os campistas pra trás.

Quinhentos metros antes de ver o campo mudar de terreno eu podia ouvir os chicotes no ar.

Aproveitei uma árvore pra poder respirar enquanto olhava pra frente tentando acreditar no que eu via.

Centauros bradavam chicotes de couro trançado com as pontas de ferro reluzindo no sol da tarde.

Lucius estava ao meu lado bebendo de um cantil de água que passou pra mim antes que eu pedisse.

—Beba,vai precisar.E agora o que faremos?

Engoli a água fresca e senti a energia pulsar na lança que parecia me dizer que estava pronta.

—Não vamos matá-los,a estratégia vai ser cortar os chicotes e passar por eles o mais rápido possível.

Com um suspiro incomodado ele concordou enquanto pulava pro chão e corria em direção ao campo de guerra.

Saltei e corri rodando a lança sob a cabeça.

Agora as coisas estavam interessantes.

Como se eu e Lucius estivéssemos conectados tudo aconteceu.

Sempre próximos ou com nossas costas se tocando Lucius vinha com sua espada nos defendendo e atacando os centauros que vinham enraivecidos em nossa direção.

Minhas costas colavam com a dele enquanto defendíamos um ao outro e abríamos caminho.

—Vai continuar assim por quanto tempo mais? Não dá pra lutar por dez quilômetros contra centenas deles.Temos que acabar com isso.

Lucius gritava sério entre times que estavam sendo massacrados pelos chicotes,gente chorando,gritando e correndo sem parar.

Era o caos.

E Lucius nunca pareceu mais confortável com uma situação do que no meio da guerra.

Os filhos de Ares lideravam a corrida,eu vinha logo atrás com Lucius e Annabeth ao lado com Percy.

Eu tinha que ganhar vantagem.

—Lucius,topa fazer uma coisa muito louca?

Ele olhou pra mim levantando uma sobrancelha preocupada.

—Só me segue

Sem medir o quanto aquilo poderia dar errado eu fui.

Arremessei-me sob as costas de um Centauro e saltei girando no ar pra me esquivar das cordas do chicote de outro que vinham zunindo pelo ar até chegar a centímetros do meu pescoço.

Fui passando de dorso em dorso vendo os centauros atacarem a seus semelhantes enquanto tentavam me atacar.

Lucius vinha atrás com a bochecha arranhada e um sorriso que cortava seu rosto de ponta a ponta.

Parecia a noite de Natal pra ele.

Quanto mais eu avançava mais eu sentia algo quente se aproximando.Comecei a suar em bicas por baixo da armadura enquanto eu me esquivava de mais um ataque.

Nada do que eu poderia imaginar me prepararia pro que vinha em seguida.

Me puxei por um relâmpago a vinte metros do chão e engoli em seco enquanto eu via o inferno na terra.

Por cerca de dez a quinze quilômetros grandes torres de ferro preto fumegavam cuspindo bolas de fogo e enxofre pra todas as direções.

Como um canhão que ropodiava insandecido pelo campo,crateras se formavam como se bolas de canhão estivessem sendo disparadas.

Me recuperei descendo e parando Lucius pelo braço.

—Bolas de fogo,milhares delas cuspidas por torres de ferro que giram e vão nos ferrar se formos pegos -eu disse bebendo mais um pouco de água.

Lucius engoliu em seco e tirou de um bolso um pequeno frasco roxo e jogou na minha mão.

—Beba isso em um gole e deixe um pouco pra mim.Essa é uma barreira física de fogo.As bolas podem te jogar longe mas não vão te queimar.

Engoli sentindo um gosto terrível e joguei o frasco pra ele que o virou enquanto corríamos.

No primeiro quilômetro as bolas de fogo eram menores,esparsas e mais lentas mas mesmo assim eu ouvia campistas gritando com queimaduras dos tiros do canhão do inferno como eu carinhosamente apelidei.

Mas é claro que Dionísio faria tudo pra piorar a situação.

Touros de ferro.

Gigantes,mortais,reluzindo incandescentes vinham contra nós com tudo o que tinham.

—Bela competição essa,ou vence ou morre

Annabeth passava por nós com Percy a seu lado defendendo-a com seu escudo.

Eu precisava agir.

—Lucius fique atrás de mim e cubra minhas costas.O único jeito de termos a vantagem é derrubando os canhões do inferno.

Com um sorriso de lado ele desacelerou e ficou pouco atrás de mim defendendo minhas costas contra as bolas de fogo que espiralavam em direção às minhas costas.

Eu lançava raios contra elas e tentava ir pra perto das torres,mas quanto mais eu me aproximava,mais quente ficava,mais touros de bronze enlouquecidos vinham contra nós e mais bolas vinham.

Tudo aconteceu diante dos meus olhos.

Um touro lançou Annabeth no ar antes que Percy ou ela pudessem ver e duas bolas cruzadas iriam esmagá-la no ar.

Sem pensar muito eu agi.

Lancei um raio destruindo a primeira bola e com outro eu a puxei numa corrente fraca em direção ao chão.

Quando ela pousou arfando eu passei por ela fazendo um sinal com a mão e continuei correndo.

Não era a tática mais inteligente mas eu pensaria nisso depois.

O que eu faria ali exigiria muito de mim.

—Lucius,me dá um impulso pro ar!

Gritei desacelerando e ele entendeu ficando sob um dos joelhos e com o escudo sob a cabeça.

Num salto eu estava sob seu escudo e ele tinha me lançado no ar.

Concentrei toda a energia que eu tinha ao meu redor sentindo que alguns touros próximos caíram no chão enquanto eu absorvia e como um tiro de canhão prateado uma bola de energia prateada mandou a grande torre pelos ares.

E milhares de estilhaços de fogo e ferro incandescentes também.

Caí no chão me cobrindo com o escudo e Lucius vinha logo atrás mas não daria tempo.

Um estilhaço do tamanho de uma parede vinha fumegando na minha direção e eu não sabia se conseguiria pará-lo.

Fechei meus olhos e enrijeci o corpo tentando me preparar pro impacto.

Gotas de água fria molharam meu escudo ao invés de ferro em chamas.

Olhei pra frente e um escuro gigante de água tinha parado o pedaço gigante de metal.

Poucos metros distante de mim Percy desfazia a parede de água que tinha feito e me olhava.

Por um momento o mundo parou,eu queria correr até ele é beijá-lo,pedir perdão por toda a dor que causei.

—Agora não é hora disso

Lucius rosnou ao meu lado me arrastando enquanto outra bola de fogo abria um buraco no chão.

Controlei meus pensamentos,engoli minhas emoções e voltei a correr me esforçando pra não procurar por ele nas proximidades.

Primeiro eu sobreviveria,depois eu pensaria no resto.

Depois do lago e de outro campo,no cume da montanha havia uma bandeira laranja tremulando na tarde que se punha.

Bem onde Nico me encontrou naquele dia.

Engoli em seco enquanto meu foco mudava de lugar.

A última torre era a pior delas.

Bolas de fogo de todos os tamanhos e numa velocidade alucinada começavam a iluminar o campo que estava tingido do laranja do por do sol.

Aquilo tinha que acabar.

—Lucius,tem algo em mente pra passarmos por aquilo?-Perguntei enquanto cortava uma bola de fogo.

—É muito grande pra só um de nós conseguir destruir,mas se dois tentarem pode dar certo.Ainda mais de um deles tiver essa belezinha aqui

Lucius segurava sua espada que começava a mudar de forma diante dos meus olhos.

A lâmina se abria em duas e no centro entre as pontas havia uma pequena bola de energia vermelha.

Com um swing igual ao de um jogador de baseball Lucius arremessou uma bola explosiva pra frente.

—Vou te jogar no ar o mais alto possível,você lança a maior corrente elétrica que puder,eu lanço o maior número de bombas de Ares na torre e vamos ver no que dá.A barreira de fogo ainda vai durar até dois dias inteiros nos nossos corpos, então o que tenho a propor é:Vá pra cima,exploda a droga toda e quando a torre abrir você estoura mais um trovão dentro dela e mandamos tudo pelos ares.Vai ser lindo!

—Lucius você é louco!Mas não temos outra estratégia melhor não é?

Engoli em seco e comecei a conjurar as correntes elétricas pela minha lança,Lucius me dava cobertura mas os touros caíam no chão muito antes de poderem fazer algum mal.Eu estava me alimentando da energia deles.

Como um bálsamo cada corrente elétrica renovava minhas forças e cada trovão parecia ouvir o meu comando.

O céu escurecia enquanto raios e trovões rasgavam o ar retumbando e caindo ao nosso redor.

Olhando pros lados dava pra ver que agora no máximo trinta times estavam no jogo.

Estava na hora.

Chegávamos perto de uma pequena colina e a torre fumegava no ar a nossa frente.

Iria ser uma queda de trinta metros que poderia dar muito errado,mas a adrenalina falava mais alto que minha prudência.

Lucius correu na minha frente e fez a mesma posição anterior.

Ele só não tinha me avisado que teria um plus.

Quando subi no escudo e fui jogada pra cima eu comecei a subir como se estivesse num foguete.

Lucius atirava bombas de sua espada por debaixo de seu escudo me fazendo subir na noite escura.

Cinco,de,vinte, trinta…

Trinta e cinco metros depois eu começava a cair em queda livre em direção a torre de ferro.

Chamei toda a energia possível numa carga tão forte que eu não pensei que conseguiria aguentar tanta tensão.

Numa coluna caída do céu um emaranhado de trovões e raios irradiou pelo meu corpo e caiu sob a torre que se partiu ao meio.

No centro dela uma bola gigante de fogo cintilava perigosamente.

Segurei a lança com toda a força que tinha e descarreguei toda a energia ao redor enquanto a lança se cravava no núcleo.

E tudo ficou vermelho

Uma coluna de fogo subiu lambendo todo o meu corpo e me cegando.Tudo ali era infernalmente quente e eu me sentia como se fosse cozinhar viva.

Até que eu fui lançada pra longe.

—Annie não!

O grito de Percy ecoou pela noite enquanto eu subia aos céus sendo aparada por um raio que me despertava.

Embaixo de mim parecia que o inferno tinha consumido a terra.

Haviam feridos,haviam fugitivos,haviam estilhaços e fogo pra todo lugar destruindo tudo ao redor.

Mas não haviam mais torres cuspindo bolas de fogo em mim.

Me recompus agradecendo aos céus pela poção de Lucius e desci procurando por ele.

Alguns minutos correndo por todos os lados até ver estacas de água pairando no ar em direção a Lucius que bradava sua espada.

—Seu maldito eu vou acabar com você!Você a matou!A mandou pra morte!

Percy gritava ensandecido, Annabeth tentava arrastá-lo sem sucesso e Lucius tinha um brilho vermelho mortal no olhar.

As estacas voaram,as bombas vieram.de encontro e meus raios pararam tudo bem no meio.

—Lucius já chega!

Berrei atraindo sua atenção e fui até ele vendo o corte que sangrava em seu braço.

A armadura dele tinha sido perfurada.Ele poderia estar a prova de fogo,mas não era a prova de cortes.

Seu sorriso se alargou e ele me abraçou apertado.

—Você é louca!A vadia mais louca que eu já vi na vida!

Annabeth me olhava pasma, gritava aos quatro ventos agitando os bracos.

Percy ao seu lado estava calado mas tremia violentamente e olhava pra Lucius com tanto ódio que ele o afogaria se pudesse.

—Vamos terminar logo com isso.

Voltei a correr segurando a mão de Lucius enquanto o curava com a energia da chuva que começava a cair.

Engoli em seco segurando as lágrimas quando entendi que não era uma chuva natural.

Percy fazia a chuva cair quando estava triste. E pelas pesadas gotas que caíam,ele não estava nada feliz com a situação.

Eu sei,eu tinha me arremessado pra morte certa se não tivesse garantido que eu não pegaria fogo.

Mas eu também fui extremamente louca.

Como eu pude confiar tão fácil em alguém que não conheço pra me atirar dentro de uma torre infernal e explodir tudo?

Eu estava perdendo a cabeça pelo visto.

Notas finais
Se alguém estiverendo poderia comentar por favor? Essa é uma fic muito especial pra mim que comecei a escrever em 2011 e a estou retomando depois de bastante tempo parada.